Real estupidez

– Ei! Gritou o jovem soldado do alto de seu cavalo imponente – Quem ousa cruzar as exclusivas ruas da Rainha?! Não sabe que esta estrada não pode ser utilizada por mais ninguém além dela? Desça de sua carruagem e enfrente sua punição!

Ordens são ordens, imaginava o jovem soldado e, sendo assim, ninguém poderia encostar naquela estrada banhada a ouro, que tinha como única e exclusiva finalidade servir a magnânima figura real e seus caprichos melindrosos.

Uma mulher mimada e “sensível” demais quando o assunto era seu próprio umbigo, porém, bem menos, obviamente, quando se tratava dos problemas alheios. Aí, você já sabe: – Levem-no, matem-no e desapareçam com isto! Gritava a louca cheia de nojinhos e carinhas de desprezo.

Julgar o dedicado soldado, um jovem que apenas recebia ordens, já que as executava fielmente e nada mais… era fácil, o difícil era entender suas motivações. Aquilo era a sua vida, o que tinha que fazer para sobreviver e afastar sua humilde família de problemas. Quanto ao resto? Não podia ser muito racional, não estava ali para estas coisas.

O soldado era mesmo um jovem rapaz – quase uma criança–, todavia, de bobo não tinha nada e nem de fraco, já que só os muito bons podiam ser os Guardiões da estrada dourada. Porém, sabia muito bem de que outros em seu lugar, por deixarem de executar suas tarefas, ou muito menos do que aquele desaforo que presenciava, invadir a estrada exclusiva da Rainha, se lascaram completamente! Graças aos caprichos da “adorada, sensível e a que se dizia cheia de empatia pela humanidade”, a poderosa dona absoluta de tudo o que existia por ali e, até mesmo, das pessoas daquele reino.

Ordens eram ordens e, creia nisso, este é um conselho de quem só deseja o bem, caso você passe por ali, nunca entre na Estrada Dourada da Rainha.

– Ah! Me sinto tão sensível e desprovida de atenções dos meus tolos bajuladores! Como sou infeliz  – Lamentava-se em voz alta, para que alguém viesse rapidamente socorrê-la. Maldita mulher esnobe e enfadonha, mas, que se supunha, “querida e amada”por todos.

Aquele soldado, assim como todos do reino, dizia amá-la para que ela sempre cresse nesta promessa, porém, uma mentira absoluta, pois era melhor que ela pensasse deste jeito e mantivesse seu emprego, mesmo que em uma vida muito difícil, mas possuidor de algumas poucas vantagens sobre os muitos miseráveis desejosos obcecados por seu trabalho e “benefícios”.

Ele não tinha muitas escolhas, lutava bravamente pelo pouco que tinha, por isso, era obrigado a prender a pessoa responsável por aquele ultraje real. Tinha que retirar da via e enjaular a pobre alma que desobedecera a regra primordial daquelas paragens: Nunca, jamais e em hipótese alguma, invadir o caminho exclusivo da Rainha Cibila!!! Também conhecida entre o povo menos culto como: a Rainha Gomi, abreviação maldosa de Rainha Gorda Mimosa. Se bem que os nobres também utilizavam tal alcunha entre eles, discretamente, na surdina e sob risinhos sarcásticos.

As pessoas da carruagem estavam em maus lençóis, em situação delicada, era o que se supunha ao vê-los atravessando abusivamente os caminhos reais, mas não é bem isto que o destino reservara para eles.

Rapidamente o soldado se aproximou e enraivecido diante de tamanha audácia, gritou:

– Quem ousa cruzar o caminho exclusivo de minha Rainha?!

E teve, para sua surpresa, uma resposta ainda mais agressiva do soldado responsável pela carruagem que saíra de trás do veículo inoportuno:

– Eu quem pergunto, quem ousa cruzar o caminho da sua majestade, o Rei?! Gritou o soldado que seguia e protegia de perto a carruagem invasora, mas que o coitadinho do soldado da Rainha não percebera.

O Rei, no caso, era o marido da Rainha Cibila.

Homem prepotente, poderoso e o parceiro da monstrinha, a Rainha Gorda Mimosa, a Gomi.

O primeiro soldado, da guarda dourada, dos que protegiam a estrada imponente, ao perceber que se tratava do Rei, tremeu! A segunda maior lei daquele reino era: Nunca bloquear o caminho do Rei, tendo como castigo a pena de morte. Porém, se não fizesse seu trabalho, o de proteger a estrada dourada, a lei número um, teria sérios problemas com sua Rainha impiedosa.

O soldado dourado, sem saber o que fazer, apenas manteve-se ali, sua arma em riste e disposto a tudo, mesmo sabendo estar diante de seu possível fim.

Estava em uma cilada do destino e ciente de seu erro, pensava que tinha que exercer sua função corretamente, pois caso contrário, o próprio Rei seria testemunha de sua falha ao se descuidar da estrada da Rainha.

– Retire-se da frente do Rei. Gritou o soldado do Rei.

Mesmo os dois soldados sendo amigos de batalhão e do próprio reino onde moravam, havia um protocolo a ser seguido:

– Desculpe-me, majestade! Porém, não é permitido passar por este caminho. Peço para que deem meia-volta.

Tudo estava bem horrível por ali – o soldado da Rainha já estava quase cedendo aos pedidos do soldado do Rei –, eis que surge, vinda do caminho contrário, a Rainha com sua carruagem e em correria enlouquecida, mas que ao ter que frear, teve um ataque de nervos, já que a estrada era apenas sua de mais ninguém. Com tamanha audácia da invasão de seu caminho exclusivo – e mesmo sabendo se tratar de seu marido –, estava irredutível quanto a ceder aos pedidos do Rei, começou a gritar histericamente e muito furiosa para que saíssem de sua frente, ato que não aconteceu, graças às ordens do Rei para que não desviassem, ao mesmo tempo que determinava de seu acento confortável:

– Os soldados que resolvam a questão entre si, mesmo que para isso a morte seja a única opção. Saia você de meu caminho! Se não estiver de acordo então, que seu guarda lute com o meu até que vença o melhor!

Nenhum dos dois soldados estavam de acordo com aquilo, pois eram motivos muito fúteis, mas tinham juramentos, honra e família. O combate era inevitável, pois eram treinados para aquele momento, a defesa dos Reis.

– Que assim seja! Gritou a Rainha Gomi de dentro de sua luxuosa carruagem.

Inconformado, temeroso e irritado com aquele absurdo, o jovem guardião do caminho dourado, desceu de seu lindo alazão – ato copiado por seu oponente -, para iniciar sangrenta batalha sem sentido, provavelmente com um desfecho desagradável para ambos os lados.

Nenhuma das realezas, ali presentes, pudera observar o sentimento de desprezo que ambos os soldados sentiam em ter que defender as figuras desprezíveis de seus líderes mimados.

Aproximaram-se, para que pudessem cumprimentar um ao outro pela ultima vez, afastaram-se por alguns poucos metros, pegaram as espadas mais apropriadas para aquela luta, que ficavam em suas montarias, e se puseram em guarda para que iniciassem a luta.

Reis ruins e suas decisões egoístas, quantos não erraram miseravelmente em nome do orgulho e estupidez? Quantas guerras iniciaram em nome de nada e por motivo algum?

Lá estavam os rapazes preparados para o que desse e viesse, dispostos a se matarem por nada, já que a desistência significaria um fim ainda pior.

Inocente quem imagina que uma luta destas tem um fim rápido e definitivo. Duas almas preparadas para um combate violento, ótimos guardas dando a vida por questões estúpidas, fúteis e que no cair da tarde, já nos lençóis reais, com certeza um caso esquecido.

O embate começou desconfiado, sem um ataque definitivo e nem decisivo, talvez com esperanças de que seriam poupados de tamanha bobagem, coisa que foi deixada de lado assim que um deles, por puro instinto, fez um ataque realmente forte, provocando um corte mais profundo, desta forma, todo cavalheirismo fora esquecido.

A luta durou algumas horas e despertou a curiosidade de todo o reino, graças aos sons de espadas que se batiam, gritos e grunhidos de luta feroz . Milhares de pessoas assistiram boquiabertos dois valiosos, honrados, amigos de infância e praticamente vizinhos, se destruírem em terrível combate.

Revoltados ao vê-los cair cansados, ensanguentados e gravemente feridos, todo o povo entrou em furiosa inconformidade. Sem que tivessem uma guarda real para defendê-los e nem mesmo soldados dispostos a protegê-los, pela primeira vez na história, um povo irritado com tantas injustiças e crueldades, atacou violentamente as carruagens e em meio a tanta violência, machucaram gravemente as majestades arrogantes que, agredidas covardemente, morreram indefesos e vergonhosamente.

Fim de uma liderança ruim e de, literalmente, real estupidez.

Grilo falante do nordeste.

Sou paulista que carrega consigo todas os tiques, manias e travas que um paulistano tem direito: Gosto muito de pizza, falo sem “s” no plural e destruo “as concordância”, o “n” é anasalado, coisa que irrita e faz gente de fora ficar de saco cheio com estas frases cheias de gerúndio, uso o “meu” no final das frases, escuto samba parado, como “uns pastel” na feira e falo mais que a boca, é verdade!

Creio que sou um verdadeiro paulistano, mesmo! E gosto muito da minha terra, pode crer! O que talvez me torne um cara chato da porra para você! Fazer o que, né?

Se amo São Paulo?! Nem tanto quanto deveria, mas tem uns lugares especiais que moram no meu coração e creio que deveriam ter maior atenção da administração desta terra tão querida, sendo que 2 lugares são especiais:

1 – Amo a Mooca! Porque Mooca é Mooca e o resto é bairro (rsrsrs), apesar de não ter nascido lá, é um canto especial e de pessoas queridas.

2 – O Parque do Ibirapuera. É gostoso passear por lá. A praia do paulistanos e um bom lugar pra ver verde e gente descontraída.

Tudo lindo e maravilhoso nesta história, mas diante desta revelação toda e a declaração de amor por São Paulo, tenho que confessar algo e que você vai estranhar, mas antes deixa eu perguntar para você: Você fala sozinho em sua mente?

Então, eu falo… e muuuito!

Sabe aquele seu “eu” que conversa com você, que ocupa quase 100% da sua mente ociosa? A famosa consciência, dona de ótimas opiniões,  palavras sinceras, objetivas e que te faz evitar um monte de bobagens? Pois então, eu também tenho uma aqui na minha cabeça. Este ser que adora dar uma opinião, morador exigente e íntimo da minha cabeça, existe por aqui o dia inteiro. Porém, ao invés de um bom sotaque paulista, como logicamente deveria ser, se apresenta para mim como um constante eco nordestino.

Esta consciência é um velho sábio nordestino “damulésta! Ops!… da pixorra,mesmo!

O cabra, arretado, cheio de marra e intrometido que dói, tem sempre uma última palavra nos meus longos raciocínios, por isso, eu apelidei esta eterna intromissão de “ponto final”, ou melhor ainda: Zé do ponto! Pra ficar mais “porreta”! Visse?!

Ele, que me aporrinha com opiniões sem fim, sempre finaliza meus pensamentos com um tiquinho dele, por isso, se distraído, acabo soltando uns “oxes” aqui e ali.

Sou nascido e criado nos extremos confins da Z/L, isto me faz ser ainda mais complicado, desconfiado e de cara feia! Pode crer, ou melhor, entendo se você não conseguir compreender o porquê, tem muita coisa envolvida aí e precisa viver uns bons anos por lá para saber exatamente. Só posso afirmar que não é fácil! “Respeita us mininu, visse?”! :p

Este senhor invisível e intrometido, faz observações e tem uma lógica danada que, apesar de muito ligeira e desconfiada, fecha minhas opiniões e certezas absolutas com grande humor e raciocínio rápido, o que o torna indispensável em meu dia-a-dia.

Pense comigo e você há de compreender, num país em plena crise econômica, onde dinheiro, emprego e honestidade andam tão em falta, como dispensar um pensamento bem humorado com aquele leve toque de ar sacana?

Não me leve a mal de me encontrar por aí “aperreado que só a porra”, “cuspindo fogo pelas venta” e doido pra riscar a peixeira no chão, é que esta coisa que passa por aqui, tem seus dias de cabra macho e louco pra mandar tudo se lascar.

E é isso! A peleja é danada, lutando pra passar por riba das dificuldades pra nenhum fio de égua me fazer murchar as “ureia”, oxe?

 

 

 

Lute!

Lute!

Lute contra a sua natureza, contra aquela vontade irresistível de não ver ninguém, de não acreditar em ninguém, de se isolar completamente e esquecer!!!

Lute para que aquele menino, que um dia esteve tão presente em sua vida, que te empolgava e te incentivava a conhecer o inimaginável, retorne e que, de alguma forma, te faça sorrir novamente.

Lute para que o sorriso seja constante e para sempre!!! Mesmo que o “Para Sempre” dure apenas algumas poucas horas.

Lute para que o próximo não sofra com suas decisões! Que estas decisões estejam bem embasadas e tragam mais amor ao mundo.

Lute para que a arrogância e a certeza absoluta dos que estão confortavelmente instalados em suas casas, diante de uma TV enorme e um sofá caríssimo, não te faça acreditar que este é o único lugar onde o sucesso faz morada.

Lute para que a humildade e o verdadeiro querer bem, não esteja apenas diante dos que moram nas periferias e bairros desfavorecidos.

Lute, mas lute mesmo, para que todos os dias você seja, a cada luta, o melhor que você pode oferecer de si mesmo para o mundo!

Lute para mudar o mundo, mesmo que este canto melhorado seja apenas dentro de sua própria cabeça e em mais lugar algum. Pois se a melhoria estiver instalada dentro, o que estiver fora será, de fato, o resultado disto.

Lute todos os dias para não esquecer que você pertence ao certo, correto e honesto.

Lute, a boa luta, porque tudo há de ficar bem.

Ao Professor Raimundo.

 

Em uma agradável manhã, voltava tranquilo em animada caminhada para a minha casa, admirando as lindas ruas arborizadas do meu bairro, sob um sol fraco e brisa leve, completamente afundado  em lembranças de um tempo passado, mais precisamente o período da escola dos anos 80 – já que acabara de deixar meu filho na dele – e reportava minha memória há um tempo longínquo e quase esquecido… a 8ª serie, hoje conhecida como o 9º ano.

Mergulhado em milhares de pensamentos e ligeiramente feliz – provavelmente graças às endorfinas, dopamina e serotonina (os hormônios da felicidade – coisas de quem está em plena atividade física e, por isso, as sentia bombar em meu corpo naquela manhã de passos largos.

Pensava que nunca fora amigo de algum professor, infelizmente nunca incentivaram-me o suficiente e jamais fora querido por nenhum deles. O que me fazia imaginar que, com certeza, faltava carisma de minha parte para despertar empatia e reciprocidade.

Foi nesta compenetrada e longa conversa interior que entrei em conflitos, debates calorosos, discussões sem fim para que, e até pode parecer uma bobagem, me fizesse questionar de que, mais uma vez, me pegava pensando que se naquela época tivesse sido apoiado por algum adulto, de preferência um professor a quem eu acreditasse e respeitasse, poderia ter mudado a minha vida, minhas escolhas profissionais e, quem sabe, ter me tornado um profissional da escrita e sido muito melhor em qualquer outra atividade intelectual?

Que fique claro de que não sou introspectivo de agora, este mundo fechado e cheio de pensamentos vêm de longe! Tanto que tenho a impressão de ter sido um garoto invisível para os coleguinhas de minha classe daquele momento, já que minha luz de menino risonho e piadista brilhava em outras turmas e grupos.

Mesmo diante desta figura simples e apagada aos que por ali me percebia, dentro de mim explodia um mundo cheio de vida e alegria, coisa rara de se ver, já que reservava aos familiares e amigos mais chegados, como os do judô e natação – os esportes que praticava com maior frequência na época.

Tenho total consciência de que grande parte da culpa por não manifestar grandes interesses nas pessoas, promovendo inclusive, quem sabe, forte desejo de distância e a pouca simpatia, viera de mim mesmo, do meu jeito de ser e da minha postura melancólica diante do mundo.

Lembrava dos detalhes daqueles dias, para recordar entristecido de que houvera um momento significativo que apagara de vez a conexão entre um professor especial e minha vontade de ter qualquer sintonia e o despertar para o mundo das letras. Algo que me fez virar definitivamente invisível.

Penso que se o professor, naqueles tempos, tivesse outra postura, talvez, não teria ficado tanto tempo sem escrever, coisa que apenas voltei a fazer com maior frequência depois dos 30 anos.

Eu adorava escrever e acreditava que – com toda a infantilidade natural da idade –, tinha ótimas histórias para apresentar ao meu professor de Português, coincidentemente também chamado Raimundo.

Admirava suas explicações animadas e sua ótima didática – uma característica que muito me encanta até hoje… saber explicar e se fazer compreender –, por isso, me dedicava com todas as minhas forças em impressioná-lo com as minhas redações, pois cria que daquela maneira podia lhe passar alguma gratidão, por entender ser um privilégio de, quase diariamente, receber suas maravilhosas aulas, mesmo nunca sem receber um único elogio pelo esforço.

Um belo dia – e toda história tem esta porcaria – tudo mudou e o brilho se apagou!

Ele poderia estar infeliz por milhares de coisas, preocupado com assuntos que realmente irritam e amargam a vida e, por isso, muito provavelmente sem perceber em minha dor, menosprezou e desprezou os olhos brilhantes de um menino que acabara de entrar no mundo da escrita.

Conforme solicitado pelo Professor Raimundo, me esforcei, pensei muito e soltei a caneta bastante empolgado para escrever de forma detalhada, mais uma vez e como sempre, a redação mais incrível e gramaticalmente bem resolvida, onde descrevia características de ótimos personagens e uma história bem cadenciada que desafiasse os quatro cantos do mundo para que ele, meu professor, tivesse em suas mãos o melhor texto do universo, com regras gramaticais mais perfeitas possíveis e um final muito bem resolvido. Desta maneira, ao terminar as duas folhas de texto, me orgulhei de pertencer a raça humana. Fizera justiça e honrara o exigente e querido Professor Raimundo.

Tudo estava maravilhoso, mas havia um problema, como escrever é complicado e eu buscava a perfeição, para chegar naquele resultado, gastara mais da metade do tempo que o Professor determinara. Ele, tal um sádico, lembrava todo o tempo que iria nos aguardar e apenas receber nossas redações em classe, que após o horário estipulado por ele, levantaria de sua mesa , sairia para uma outra aula em outra classe e não receberia mais a redação de ninguém.

Desesperado, comecei a passar rápido a limpo e foi assim que vi minha obra de arte sendo deformada por uma letra horrível, no papel que recebera do professor.

Acelerei ao máximo para entregar no tempo determinado, mas para a minha surpresa, com a diferença de um segundo antes que eu acabasse de escrever, o meu maior ídolo da escrita, o Professor Raimundo, se levantou de sua cadeira determinado a partir.

Corri até ele, porém, assim como prometera, não recebeu a minha prova. Fui atrás dele com minha redação em mãos até a sala de aula onde seria seu próximo destino, implorei para que a recebesse com a promessa de que ele adoraria a história que criara. Ele, sem nem me olhar, apenas entrou na sala de aula e bateu a porta em minha cara.

Fiquei decepcionado pra caramba pelo desprezo e por ter escrito minha obra de arte para ninguém.

Pessoa alguma leu e nem jamais lera, já que, assim que estava retornando à minha classe, amassei a redação, fiz uma bolinha e joguei no lixo.

Hoje, mais velho e consciente, apenas perdoo meu ex-professor de Português. Sei que ele falhou comigo naquele momento, mas ainda tenho boas lembranças de sua aula incrível. Mesmo que o brilho especial tenha se apagado, graças aquela decisão humilhante que ele tivera sobre mim e o texto que escrevera – “o melhor da minha vida”– (provavelmente um texto comum e amador de uma criança de 14 anos)

O que parecia a melhor história da minha vida até ali, infelizmente, aquela obra de arte, me rendeu um zero

 

 

Fim

Não estava cansado, mas o silêncio do ambiente transmitia uma calma bastante propícia e necessária, já que a viagem fora longa e cheia de histórias para contar.

Cheguei por ali em um estado calamitoso, insustentável e precisava descansar.

Não me lembrava de onde exatamente estava chegando, mas tinha consciência que a luta havia sido intensa e exagerada demais para mim.

O Rosto ainda molhado de suor e algumas lágrimas de um choro sentido ainda escorriam.

Alguém propôs que eu descansasse, apenas aceitei sem ao menos tentar entender quem, como e onde.

Foi aí que a vida passou a valer a pena mais uma vez.

Do cansaço profundo, de sabedoria reduzida e corpo dolorido, sentei próximo a uma árvore gigantesca, tanto na largura, quanto na altura.

Notei que não estava só, mas ajoelhado entre outras muitas pessoas que se distribuíam no enorme bosque de muitas árvores que se mantinham próximas o suficiente, porém sem se entrelaçarem. Como se respeitassem a distância da companheira ao lado.

O lugar exibia uma quantidade considerável de vultos coloridos que flutuavam por ali, sem se preocuparem em se esconder e nem interagir, apenas iam e vinham de passagem.

Com estas visões etéreas que acalmavam, reorganizavam a mente e a energia, percebi que bem diante de mim havia uma figura andrógina, calma e equilibrada que parecia estar em profunda meditação.

Ergueu as mãos calmamente e as juntou diante de sua testa, curvou-se respeitosamente à imensa árvore centenária. Ato imitado copiosamente por todos os outros presentes por ali!

Palavras eram ditas em minha cabeça, sem que ninguém assumisse responsabilidade em pronunciá-las:

– Paz! Acertadamente, a palavra cochichada em meus ouvidos vibrava o que aquele momento emanava.

– Amor! Ouvi um pouco depois. Fazendo com que eu entendesse que as palavras aleatórias, na realidade, escapavam da imensa árvore, envolvendo as pessoas com uma energia renovadora e pouco compreensível para mim.

– Fé! Era a certeza que tudo ali tinha um propósito e não caminhávamos sozinhos.

Ao som leve do vento que assobiava entre os troncos da velha árvore, pude admirar aquele gesto tão simples e cheio de respeito.

Comovido, depois daquela longa viagem, apenas imitei os movimentos de olhos fechados.

Feliz, percebi as pessoas iniciarem uma canção, quase um murmúrio,  próximo a mim, algo muito reconfortante que em instantes foi se espalhando entre os muitos que por ali se encontravam, ganhando corpo, transformando-se em pouco tempo em um suave coral de milhares de almas.

Tudo fazia sentido e me fazia crer que tinha valido a caminhada até ali.

Não era inimigo de ninguém, não havia revolta, dor em nada e nem nada para arrastar comigo.

Livre, consciente, feliz e em paz.

A palavra gratidão tinha um sentido maior. Sim! Porque chegar até ali  fez tudo valer a pena.

A possibilidade de ouvir tamanho poder depois de uma vida inteira de muitos erros e acertos duvidosos, mesmo depois de se achar inadequado e sem merecimentos, era um grande alívio!

Vozes de alegria equilibrada! De emoção sem exageros!

Valeu ter vivido! Aceitei o momento como um troféu, um carinho!

Um mar de vozes, milhares de timbres, que juntas chegavam e passavam por mim transformando tudo o que existia por ali, inclusive eu mesmo, física e mentalmente.

– Seja como for, valeu a pena! Disse para mim mesmo.

Iria continuar minha vida, ainda não tinha planos e nem pressa, mas sabia que tudo iria ficar bem.

Valeu o fim!

Deus placebo.

Somos energia! Um poder – ou força –, que por algum motivo misterioso, nos condensa neste planeta e desconheço o porquê.

Alguns chamam apenas de vida, outros de experiência, há quem, até mesmo, denomina como sendo uma necessidade ou experiência. Porém, o que de fato acontece, é que estamos na Terra e somos uma consciência viva.

Consciência?!

Sua dor pode não ser a mesma que a minha, mas estamos cientes de estarmos aqui. Eu sei de mim e, talvez, de você também. Este saber das coisas e pessoas nos torna conscientes e  isto nos une de alguma maneira, mesmo que você me odeie.

Pode ser que você chame esta “Consciência” de Deus, então, para você, Ele existe.

Por saber desta divindade, você se controla e vive dentro de regras e leis que, de alguma forma, O agrada, algo que, com certeza, as recebeu de alguém que você considera em sua mais alta estima.

Mesmo que ninguém que você conheça saiba da real existência Dele, algo palpável e tangível, você, através de suas lógicas e sensações, O admite como uma existência poderosíssima e igualmente viva.

Você se considera uma pessoa equilibrada, respeitadora e temente a um Deus que jamais vira, mas admite ser uma figura constantemente presente em sua vida e, muito provavelmente, alimentada através de alguma religião.

Ainda nesta religião, você foi ensinado de que este Deus nos fez sua imagem e semelhança, ou seja, somos parte do que ele inventou, somos sua criação e a representação mais perfeita Dele mesmo.

Você jamais O ofendeu, porque você O respeita demais, mas acredita que as pessoas ruins e de caráter fraco devam ir para o inferno. A imagem e semelhança Dele, deve  arder no inferno pela eternidade e isto te parece justo.

Você é temente a Deus e acredita que todos devam andar atentos, respeitosos, jamais cair em tentações e más influências.

Você, ao falar de sua religião, se dirige com respeito e cuidado.

Se for um católico, por exemplo, faz o sinal da cruz e utiliza um terço próximo a si, para que se sinta defendido do mal.

Apesar disso, você condena pessoas ao inferno, rouba seu irmão, julga políticos, desvia dinheiro da empresa que trabalha, faz malandragens escondido e condena as pessoas o tempo inteiro. Porém, de alguma forma, dentro de sua crença, está seguindo o caminho da Luz e tem Deus no coração?!

Creia, isto tem um nome: Loucura!

Suas curas, proteções e preces são tão vazias, como a pílula placebo… pode crer!

Seu Deus é uma bobagem, já que, milagrosamente, toda a sua safadeza não é parte das leis deste Deus que você defende, mas você O responsabiliza e crê que tem o direito de julgar e sacanear o próximo sem ser julgado.

Seu Deus e as regras que você diz vir Dele não existem!

Cansado de suas bobagens e do seu Deus placebo!

Amém?!

 

 

 

Encantamento!

A história abaixo é mais um capítulo do livro que escrevi! Seguem os outros 2 capítulos anteriores deste mesmo livro, para que tenha mais sentido : Pedro Caveira. e Dona Carlota.

Boa leitura! 🙂

Do circo guardo bons momentos e não apenas deste último, onde ri e me diverti demais.

O circo me lembra a infância, a inocência, o olhar distraído e descontraído de quem se permite apenas repousar no acento duro de um banco grande, sem luxo, para admirar os artistas com suas ousadas acrobacias e os palhaços de humor duvidoso.

Não sei se a vida de quem vive da arte circense é difícil ou não, mas uma coisa é certa, pouco me importa! Não tenho a resposta para os sofrimentos humanos e nem soluções para as pendengas deste meu país injusto, caro, de honestidade muito aquém do ideal, para que possa me orgulhar, defender e, muito menos, resolver.

Somos criados e amestrados para sermos estes escravos que sempre fomos, isto não tem jeito, é assim e acabou!

Só sei que ri muito naquele dia, acho que entrei no circo com vontade de gargalhar e, por isso, me entreguei completamente, talvez até tenha exagerado um pouco, já que me diverti de verdade.

Ri do palhaço e de suas maluquices, admirei o mágico – como se nunca tivera visto um em minha vida –, fiquei de boca aberta com os malabaristas, tremi diante da corda bamba ao vê-los se arriscar corajosamente no que chamaram de: desafiador caminho inseguro – ou alguma coisa assim –, inclusive, arrebentaram neste número onde atravessaram de um lado ao outro do circo, cheio de momentos tensos, dramáticos, mas com a segurança e a determinação de quem caminhava pelo chão.

Havia um palhaço, engraçadíssimo, que com suas danças desengonçadas, brincava e se divertia com a plateia. Em certo momento, ele se aproximou do público e chamou um voluntário para participar de um de seus números. Até estiquei animado minha mão para que me escolhesse, porém, acabou pegando uma moça ao meu lado, o que, de fato, logo depois que vi ao que ela teve que se submeter, fiquei aliviado em não ter sido o escolhido.

Palhaços, nunca são muito confiáveis, não mesmo, e ali a lição foi aprendida. Ele a colocou sobre um cavalo e fez um lindo show de equilibrismo, mas com muitos escorregões e estripulias, como é do feitio dos palhaços, o que a fez passar por situações bastantes vexatórias, mas que no contexto geral foram, mesmo, muito divertidas. Imaginei que para meu tamanho e peso, talvez, seriam ainda muito mais ridículas.

Esta minha mania de me entregar de coração a certas situações, ainda acaba por me complicar de vez!

É o que sempre digo para mim mesmo: – Controle é tudo!

O fato é que, me diverti demais, comi pipoca, ri e me emocionei pra caramba. Saí do circo com a sensação de ter investido meu dinheiro em um momento de prazer super válido e não simplesmente tê-lo gasto por gastar. Não mesmo!

Já foi em um circo bom? Então, vá!

Saí de lá, passei no hotelzinho para pegar minhas malas e enfim, me despedir daquela cidadezinha que, se não fosse pelo circo, não teria valido a pena nem ter parado.

Entrei no meu carro, um Opala preto muito bem conservado, mas que já não era um desses carros 0km em que você pode viajar tranquilo e com a certeza que chegará rapidamente ao seu destino. Mesmo com toda a conservação e a atenção constante que eu dispensava nele, não deixava de ser um carro antigo. Não podia, também, chamá-lo de relíquia, mas se fosse um ser humano, tinha idade para ser um senhor respeitável.

Se eu fosse emotivo, ou “afrescalhado” como o povo dali se dirigia aos homens finos e educados, eu poderia até colocar um nome em meu veículo, já que ele já fazia parte de minha família desde há muito tempo.

Aquele Opala foi inicialmente do meu querido avô, que rodara pouco com ele, mas o manteve limpo e em bom funcionamento até o dia de sua morte. Um ataque rápido e fulminante, logo depois que acabara de passar o pano para secá-lo, o que meu pai sempre contava com lágrimas nos olhos, relembrando que o seu velho pai nem sequer tivera tempo de polir.

Talvez, contando assim, pareça um pouco engraçado, mas aos olhos da minha família aquilo tinha um tom respeitoso e carregado de emoção.

Assim, graças a este acidente fatídico, meu pai nunca o vendera e quando me presenteou com o Opalão brilhante como novo, houve até uma leve cerimônia cheia de pompa e respeito. Pareceu uma passagem, um ritual, como se fosse a entrega da faixa presidencial. Confesso que ainda me emociono toda vez que me lembro daquele dia solene.

Enfim, a saída da cidadezinha foi quase sem problemas, se não fosse pela Dona Fofoca ter ido correndo ao encontro do Pedro Caveira, com intenções escusas, que sinceramente não compreendi muito bem, mas que ao passar pelo bar pude notar, de leve, que ela apontara seus dedinhos malditos para mim cheia de euforia e, meu desafeto, o Cabra dos Infernos, afoito se ergueu, se dirigiu em minha direção quase correndo, aparentando uma certa inconformação, creio que, até me acenou para que parasse, mas fingindo interpretar como aceno de despedida, desconsiderei e acelerei um pouco mais para que as coisas ficassem assim mesmo. Passei ainda mais rápido, dando um “tchauzinho inocente” e “amigável”, assim, peguei a ruazinha que dava na estrada principal e fui embora.

Alguns poucos quilômetros adiante, já bem tranquilo em minha viagem e até achando engraçada toda aquela história, lembrava animado a minha aventura cheia de gente maluca, como a Dona Carlota, o bar horroroso, o Pedro Caveira, aquela cidadezinha feia demais e o circo animado, quando tive uma surpresa surpreendente, vi a poucos metros, uma figura pequena, sentada em cima de sua enorme mala de viagem e, com seu dedinho esticado, pedindo carona.

Como estava em grande velocidade, não consegui parar na sua frente, o que levantou uma certa poeira ao frear bruscamente, na intenção de oferecer-lhe a tal da carona.

Sinceramente, não sabia porque exatamente havia feito aquilo, pois meu estilo silencioso, discreto e de quem odeia intimidades, nunca teria agido daquela maneira, mas estava fazendo coisas estranhas naqueles tempos. Talvez, por ter reconhecido a figura que me pedia carona, me senti inexplicavelmente responsável por sua segurança.

Eu a havia visto no circo e até estranhei que, em tão pouco tempo, ela sendo assim tão miúda e aparentemente frágil, já havia se distanciado razoavelmente do circo onde trabalhava.

Seu nome era Linda, ou pelo menos foi este o nome que se apresentara para mim, logo que desci do carro e fui em sua direção.

– Caramba! Você foi rápida ao sair daquela cidade, hein?! Disse-lhe esticando minha mão e apertando sua mãozinha pequena e delicada.

Ela sorriu e me respondeu que era espertinha e rápida, ou qualquer coisa do gênero.

Ela era uma anã. Uma anã de circo!

Pode parecer besteira, ou que eu esteja exagerando, mas assim que a vi de perto, olhos nos olhos, percebi que ela era a mulher mais linda que já vira até o momento. Suas feições eram delicadas, seu cabelo loiro, liso e preso com um charmoso rabo de cavalo, que se estendia até o meio de suas costas. Naquele dia ela estava usando um vestido rodado rosa, com uma fita igualmente rosa na cintura, amarrado atrás, com um laço muito bem feito em suas costas. Olhando assim, ela parecia uma mini dançarina de músicas do estilo Rock dos anos 60.

Ela não era uma anã comum, pois era quase toda proporcional, não que deixasse de  perceber que era uma anã, porque era facilmente perceptível, mas era definitivamente a anã, ou melhor, a mulher mais graciosa que já havia conhecido.

Tentei disfarçar minha atração súbita, mas não perdi a oportunidade de elogiá-la, pois aquela atração, mesmo que fosse momentânea, tinha que ser registrada, ou melhor, ela tinha que saber o que eu acabara de sentir, afinal, qual o problema de um homem solteiro, desimpedido e solitário expor a pureza de seu encantamento? Apesar do tamanho, ela não era mesmo uma mulher?

Aquilo me fazia sofrer demais, já que meus preconceitos idiotas, adquiridos pelos medos e regras de uma sociedade que não me valiam em nada, criavam conflitos internos sem sentido. Me achava um estúpido em tentar dar uma explicação lógica aos meus desejos, para um eco na minha cabeça, algo totalmente vazio, sendo que não tinha a quem dar satisfações, pois amigos e familiares já não existiam.

Ela não deu muitos detalhes sobre sua vida, apenas que não aguentava mais aquela história que estava tendo junto ao circo e que precisava conhecer outros lugares e pessoas.

Parecia tão cansada, pois percebi que deu umas cochiladas no percurso, mas que quis disfarçar tentando acompanhar a música que saia do rádio, cantarolando um pouco fora do ritmo e um pouco baixo demais, quase não dando para compreendê-la.

Linda! O nome justificava sua beleza rara e excêntrica!!! Eu estava encantado com a pequena Linda!

Eu, um homem só e carente diante da imagem mais reduzida e perfeita de uma mulher, a quem eu poderia facilmente me apaixonar e seguir em frente, exatamente como me propusera quando sai de minha cidade natal, de minha casa.

Prometi para mim mesmo que seria diferente e estaria aberto as pessoas e suas possibilidades e era exatamente o que estava fazendo.

Eu já não tinha um passado, pois não havia uma história a ser contada, nada que eu me orgulhasse e, graças ao local onde morava e ao jeito que escolhi ser, ou fora criado, simplesmente não tinha mais ninguém.

Não era esperado por ninguém e não havia quem soubesse da minha saída inesperada rumo a lugar algum.

Livre, leve e solto, ou melhor, triste, só e abandonado… podia ser também, achava até mais conveniente, mais a minha cara naquele momento.

Não demorou para que ela dormisse e eu, que tinha planos de estacionar no primeiro posto de gasolina que encontrasse e dormir, acabei dando continuidade a viagem, pois temi pela segurança da Minha Pequena Linda, como acabei fantasiando na minha mente solitária e desesperada por um pouco de carinho.

Comprometimento.

Andava pela chuva a passos largos, pois tinha a palavra “compromisso” fervendo em sua mente.

Dizia com seu jeito educado e simples que, para todo cidadão decente: – Hora marcada é questão de honra!

Se arrumara de forma impecável mais uma vez, passara seu perfume predileto e deu aquela admirada básica no espelho de sua sala, para assim, através da imagem partida ao meio, graças a um trinco que rasgava seu enorme espelho em dois, para confirmar assim, sua elegante aparência e partir orgulhoso de si mesmo duas horas antes do compromisso marcado. Mesmo sabendo do exagero da partida adiantada para o seu destino, sua consciência e responsabilidade não lhe permitia sequer a possibilidade de um atraso, ainda mais em um dia chuvoso, onde tudo favorecia a demora.

Se esmagou nas conduções lotadas e desrespeitosas aos trajes asseados e detalhadamente passados, do jeito que costumara andar, correu, cansou e se molhou, como não queria que acontecesse, mesmo com seu guarda-chuvas em punho. Homem esperto, sempre prevenido e comprometido com os papéis importantes que carregava com zelo, os protegendo em sacos plásticos na sua bolsa impermeável. Tudo pensado e planejado em defesa de sua profissão.

Como era de se esperar, lá estava o homem mais orgulhoso do mundo, no lugar marcado, bem adiantado mais uma vez!

Homem magro, longilíneo, de aparência simples e de beleza apagada, uma sombra diante daquele ambiente tão sofisticado.

Se sentia, muitas vezes, grato por poder frequentar lugares como aquele, mesmo que a trabalho e sem calorosas receptividades! Até mesmo com as caras frias e indiferentes sobre ele, mas traduzia aquela má vontade humana como um sinal de excesso de responsabilidades e jamais de preconceito.

Diante de tanta arrogância, criou sua própria barreira, já que jamais se apresentava como um mero e pretenso Quase Auxiliar de Contabilidade, mas inventara um nome mais imponente ao seu cargo, pois se autointitulava um CMF.i (Coordenador de Material Fiscal .imprescindível e o “.i” que se via em seu cartão pessoal, era assim mesmo, com um ponto e uma letra minúscula, pois passava uma aparência mais apropriada ao ato de se doar as tarefas, um toque futurista, tecnológico, já que carregava aquela importante papelada fiscal das empresas diariamente.

Ele tinha estas viagens mesmo, algo muito inocente, não por vergonha de sua profissão, mas por amor à ela e, por isso, não admitia que a desmerecessem por nada… nunca!

Porém, naquele dia, ele teve uma decepção traumática. Pela primeira vez percebera que não pertencia, definitivamente, ao mundo que servia fielmente.

Fora desprezado em alto e bom tom pelo Diretor de Geral  daquela empresa Multinacional, que tanto admirava e defendia.

Logo ele, que sempre se mostrara competente, proativo e, acima de tudo, comprometido.

Desacreditou de seus ouvidos ao se deparar com tamanho desrespeito.

O insulto que veio de trás de uma porta de madeira grossa e polida, o rebaixou a categoria de imbecil e atrapalhado, acompanhado de falatórios maldosos, contentes e descarados sorrisinhos satisfeitos.

Comprometimento, esta era sua frase predileta e comprometido sempre fora todos os dias de sua vida ao sair de casa adiantado, preocupar-se com sua agenda, traçar rotas mais rápidas, horários corretos de conduções, desde sempre, até ali… naquele momento!

Se sentiu fraco, chocado e entristecido ao perceber que sua importância, na escala dos comprometidos do mundo dos negócios, era a mais insignificante aos olhos do poder. Alguém facilmente descartável!

Algo estalou em sua cabeça.

Naquele dia ele se libertou e apenas “.i”mportou-se a queimar os tais papéis “imprescindíveis”, partir rumo ao nada e ao que interessava: o comprometimento consigo mesmo.

Muro.

 

Uma menina pequena, bonitinha, inocente, vivendo um mundinho perfeito e protegido.

Alimentava sonhos puros e engraçadinhos em seu cantinho cor de rosa, bem acolhida e protegida. Fofa, educadinha e feliz!

Nada sabia sobre os perigos da vida, logo ali, do lado de fora do enorme muro da mansão onde vivia.

A mansão fora construída por seus pais, desta maneira, poderia ter vários quartos se assim o desejasse, mas aquele em que vivia era especial, só dela desde sempre. Ali, se divertia até tarde com suas coisas, bonecas, internet de velocidade absurda para os padrões normais, acompanhava animada suas séries favoritas, ouvia suas músicas prediletas e mantinha conversas com seus amigos/namoradinhos constantemente.

Ela sabia tudo sobre as coisas do muro para dentro, mas do muro para fora… quase nada! Apenas experiências vividas através dos comentários nas mídias e notícias esporádicas.

Seu futuro? Promissor! Uma vida fantástica, assim como suas ideias, certezas absolutas e otimistas. Sucesso garantido quando o assunto se referia a dinheiro, empresas e fama. Uma linda, brilhante e invejável história de vida pela frente.

Logo ali, muito perto dela – sem que ninguém imaginasse – um outro alguém também tinha sonhos e expectativas, porém, nada semelhante aos que ela tinha para si. Não! Nem pensar, não seria daquela maneira!

De estatura igualmente pequena, um jovem fedorento, um desses miseráveis que se arrastam pelos cantos da cidade grande, que tinha a cor, o cheiro e o andar tão misturados nela, que ninguém notava em sua figura, mas se percebesse, logo desejava a distância.

Ele sabia tudo sobre o muro que isolava a fortuna e a bonança, da miséria e a total falta de esperança que o cercava. Tinha os detalhes daquela enorme barreira, como se fosse um ente querido, conhecia a data em que surgira por ali, como fora feito, por quem, quanto custara e em quanto tempo fora construído.

Um íntimo daquela construção, até mesmo mais do que ela, que nem sequer ligava para a existência, apenas sentia que era sufocada por ele.

O rapaz, coitadinho, sem educação, solitário, desprotegido e sempre humilhado – um sobrevivente infeliz em uma sociedade capitalista – sofria com discriminações e o peso da realidade de quem nunca tivera alguém para lhe defender.

A luta diária o fez profundo conhecedor das malandragens, dos muitos malabarismos e maneiras de se sustentar, mas nada sabia sobre as belezas da vida, logo ali, do lado de dentro daquela impressionante muralha.

Na realidade, ele morava em um buraco no muro da mansão, em uma falha discreta existente entre as vigas de sustentação, na parte traseira da mansão, voltada para um rio que passava por ali. Um canto esquecido, isolado e quase imperceptível da maravilhosa construção.

Ele que sempre passava por aquelas bandas, percebera que ninguém jamais se aproximava. Um local tranquilo, discreto e semi coberto por uma enorme árvore, um ótimo abrigo das noites frias e abandonadas. Resolvera passar uma noite, mais uma e outra, então, foi ficando, até que, daquele minúsculo espaço fez moradia, ou como alguns poucos conhecidos apelidara: um excelente esconderijo.

O muro era tudo para ele, a sua casa, sua vida e seu quarto… só dele. Não sabia o que era a tal da internet, mas era um rapaz bem informado, graças a leitura diária dos jornais, folhetos e revistas que encontrava pela rua.

Solitário, seu melhores romances ou foram pagos ou foram em momentos raros de embriaguez que, pelo excesso de álcool, não se lembrava.

Ele sabia tudo sobre as coisas do muro para fora, mas do muro para dentro… nada sabia!!!

Ela sonhava em sair dali, fugir daquela casa de muros altos, daquela cidade e saber mais sobre as coisas do mundo!

Ele sonhava em sair dali, fugir daquela casa de muros altos, daquela cidade e saber mais sobre as coisas do mundo!

Um dia, chegou uma animada notícia de que um navio passaria pelo porto e ficaria por breves dois dias e, em seguida, partiria daquela cidade em uma espetacular viagem pelos quatro cantos do mundo!

A imaginação rolou solta e com a devida propaganda, elaborada, muito bem direcionada e executada pelos dirigentes de uma companhia de viagens, ordenada pelos proprietários do tão desejado navio, todos ficaram sabendo dos boatos sobre as luxúrias e histórias incríveis que, supostamente, aconteciam nestes longos cruzeiros: Amores ardentes, romances rápidos, paisagens paradisíacas, aventuras sem fim em terras distantes e misteriosas. Foi assim que, com aquele belo marketing, naquela cidade fria, pacata, carros lentos e vidas mornas, a mágica funcionou!

Fizeram com que o impossível acontecesse, brilhar e pulsar, até mesmo nos corações mais obscuros e gelados, uma pontinha de desejo de embarcar naquelas incríveis histórias para ceder aos seus encantos.

Desta maneira, sob o efeito de uma sedutora noite de lua cheia, onde o impulso se torna realidade, duas pessoas distintas se dirigiram ao navio sorrateiramente, com o mesmo objetivo e a certeza de que suas vidas iriam mudar para sempre, cada uma à sua maneira, exatamente no dia da festiva partida do “Aventura”, nome do gigantesco navio de 15 andares, para se infiltrarem a bordo, cheios de expectativas e ilusões, rumo ao desconhecido.

Tal qual o nome da bela embarcação, a aventura, assim como prometido, talvez nem tanto pelas promessas dos folhetos e afins, mas pelos encontros e acontecimentos, o que foi inacreditável e quase inexplicável, mas diante disto tudo, apenas o que  posso afirmar é que eles tiveram milhares de experiências, retornaram muito diferentes e completamente modificados.

Ela, menos sonhadora e mais conhecedora das maldades do lado de fora do muro.
Ele, com uma visão menos sofredora e cheio de sonhos sobre o lado de dentro do muro!

Nada disto! Nada!

– Descobrir a esta altura do campeonato que tudo o que se pensava sobre a verdadeira razão da vida, seus porquês divinos, respostas prontas vindas de um livro ou de um possível líder religioso, mas que não era nada do que imaginavam, lhe seria muito surpreendente?

Ouvir, paralisado, aquela voz bem próxima ao seu ouvido dizendo aquelas palavras, no meio da escuridão, não era uma coisa muito fácil, mas fosse como fosse, nada poderia mudar o que estava por acontecer, porque já estava sendo encaminhado para onde deveria ir. Sabia ter que ser assim, daquela maneira. Também não estava tranquilo, longe disto, porém, apenas imaginou que deveria aceitar, algo apontava que aquilo era o melhor caminho, mesmo estando bem atordoado com os últimos acontecimentos.

– E se a coisa fosse mais material do que se pudera conceber? Pensava consigo mesmo, se sentindo um pouco entristecido pelo desligamento, o abandono brusco de tudo aquilo que interpretava como sendo a vida.

Lembrou de muitos momentos, passagens que marcaram sua existência, naquele experimento que tinha como humano, na Terra, e perguntava para si mesmo se ali, naquele estado, podia-se autodenominar, ainda, um Ser Humano?

Os medos de criança e seus fantasmas, os cafés da manhã com sua família, os animais de estimação, as brincadeiras na rua de terra e lama, no terreno baldio, nas brigas de rua, na solidão da adolescência, descobrindo o sexo, das perturbações, dos amigos, dos melhores amigos, na bebedeira, no show de rock, nas drogas que atravessaram seu caminho, na rebeldia, dos cabelos longos, dos amores, das paixões e desilusões, trabalhos que adorou estar e outros que acordava deprimido, chorando antes de vestir a roupa pela manhã, das coisas legais que escrevera e das muitas porcarias, da mulher querida, dos filhos adoráveis que cresceram e partiram… do fim!

E a voz retornou a falar:

– Não se culpe e nem lute tanto com suas certezas absolutas, você pode apenas estar completamente enganado. Por isso, se solte, aja com mais aceitação e pare de brigar com a imaginação. Nada é assim a ferro e fogo! Calma!

– Calma? Eu estou calmo, mas não estou nada confortável! De verdade! – Retrucou bastante apreensivo.

Criou coragem, respirou fundo e, preocupado, abriu os olhos.

Estava sozinho em uma enorme sala muito branca e de temperatura levemente gelada.

Não havia por onde entrar e nem sair, não fora recepcionado por ninguém, nenhuma luz especial… Nada!

Estranhamente lembrava de sua vida, aquela que tivera até aquele momento, bem ali, ao abrir seus olhos. Tudo aquilo que já fora um dia lhe aparentava algo muito antigo, distante e sem ligação com tudo que o cercava. Como se a única realidade de sua existência sempre estivera por ali, naquela sala branca e muito iluminada, daquele presente.

Reconhecera que aquilo que se apresentava junto a ele, a tranquila, silenciosa e muito clara sala onde se encontrava, era o seu lugar de origem e nada mais importava.

Uma sala que não lhe parecia completamente estranha, nem incompreensível, já que a considerava familiar e toda sua… seu lugar.

De repente, um som suave surgiu de um canto daquele lugar branquinho e confortável. Deste ponto, onde provinha o som, fez-se  um risco mais escuro, um corte perfeito na parede, do lado oposto onde se encontrava, abrindo uma passagem. Algo que acontecera repentinamente!

Sem prévio aviso, o corte se abriu lenta e tranquilamente para que, desta forma, revelasse uma luz muito forte, que abrilhantou ainda mais aquela sala onde estava e que já considerava bastante clara. Instintivamente, talvez com os anseios e instintos de defesa da vida passada, como humano, a qual acabara de viver, colocou as mãos sobre os olhos para se defender de tamanha claridade, fazendo com que percebesse melhor em sua própria estrutura física, onde a princípio notara abismado, mas que, na sequencia, de forma tranquila e bastante amorosa, que mudara consideravelmente.

Agora, passara para uma nova realidade, daquelas bem surpreendentes e válidas. Era um ser branco azulado com três dedos e completamente desprovido de pelos.

Nada restara da figura que conhecia como sendo sua imagem, como se tudo que houvera passado, fora apenas um sonho confuso e desconexo, já que aquela nova vida se tornara sua efetiva identidade.

Todas as dúvidas, medos, ódios, alegrias, preconceitos e tristezas, nada mais sobrara.

Se sentiu confuso por alguns segundos, mas rapidamente se recompôs, voltou a ter consciência de que retornara ao seu propósito original. Alongou o pescoço, o corpo e as mãos e, assim, quis e refazer do estranho sonho que vivera intensamente, conforme desejara antes de iniciar a ambicionada viagem naquele planeta lindo, porém muito estranho, carregado e cheio de malandragens desnecessárias chamado Terra.

Como se tivesse acabado de acordar de um sonho ruim, aliviado, apenas seguiu em frente, muito animado e saudoso, através da fresta, tal qual um bebê ao ser parido de sua mãe para um novo mundo.

A experiência existiu, mas nada se comparava com aquele lugar! Nada!