Um livro ESPECIAL no Wattpad

Os 11 Castelos e os Cavaleiros do Reino Maior

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Estou postando aos poucos a história mais longa, difícil e especial que já escrevi em toda a minha vida, o livro:

Os 11 Castelos e os Cavaleiros do Reino Maior.

Comecei a escrever este livro entre 2001 e 2002. Um romance longo, cheio de personagens, com muita aventura e uma carga razoável de espiritualidade.

Foi com esta história que recomecei a escrever, depois de muitos anos sem contar nem mesmo histórias infantis.

Ainda não tinha começado a escrever em blogs e afins, estava parado há muitos anos quando surgiu esta inspiração.

Iniciei em uma espécie de iPad, onde quase perdi os 2 primeiros capítulos para sempre, porque ele havia quebrado, mas um grande amigo – Tobias –, conseguiu puxar os arquivos de volta para um iBook, o que me fez retornar a escrever.

Na época não utilizava nenhum tipo de corretor e me sentia bastante frustrado e inseguro com o resultado final. Então, ao conversar com minha irmã mais velha – Iara Guilherme –, percebemos que estávamos sonhando muitas coisas parecidas e escrevendo histórias com sentidos muito próximos, por isso, resolvemos nos juntar e finalizar este livro, o que me deu um novo fôlego e o desejo sincero de acabar este romance.

Depois de muitas e muitas correções chegamos em um ponto em que nos pareceu satisfatório, mesmo que sempre com aquela dúvida se estava boa ou não, decidimos finalmente tentar publicá-la.

Passamos por todas as dificuldades que um autor pode passar. É desanimador tentar publicar um livro médio, imagina um deste tamanho?

Ao surgir o Wattpad em minha vida, decidimos parar de adiar e, enfim, publicá-lo.

Aqui está o resultado deste nosso esforço, espero que curtam e acompanhem, mesmo tendo total entendimento de que ler uma história grande como esta, não é uma tarefa nada fácil!

Obrigado a todos que sempre me apoiam e tenham uma ótima leitura!

Até!

 

M.

 

 

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Seguindo em frente – Mais um livro

Outros 20 Contos

Outros20Contos

 

Uma luta sem fim? Escrever até morrer?

Não! Não sei se será sempre assim, mas enquanto houver forças neste que vos escreve, creia… algumas histórias surgirão! E se surgirem, não terei dúvidas… as colocarei à disposição de quem queira sabê-las!

Espero apenas que, lá no ponto final disto tudo… onde as palavras se encerram para sempre, que algumas destas histórias possam ter encantado, nem que minimamente, o seu coração!

Eternamente grato por sua leitura, seu tempo e seu interesse.

Até! 🙂

 

M.

 

Link para o livro: https://www.wattpad.com/557126208-outros-20-contos-conto-1-malandro-%C3%A9-malandro-mesmo

Meu novo livro no Wattpad – 20 Contos

20 Contos de Marcelo Raymundo

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Pois é, meus queridos amigos, viciei neste negócio de publicar livro! 🙂

Diante desta possibilidade, resolvi postar mais um livro,  20 Contos que já escrevi por aqui no Patriamarga. Lógico que não deu nem para o cheiro, já que tenho muito mais contos por aqui, em meu blog, do que estes 20 que escolhi, mas achei uma ótima maneira de deixar registrado e apresentar para leitores que nunca nem sequer ouviram falar de mim.

Tenho achado esta experiência fantástica e muito divertida, algo que indico para vocês experimentarem também – Uma vivência muito válida! 🙂

Enfim, deixo aqui mais este registro e espero continuar com o apoio de todos vocês nesta publicação.

Obrigado pelo carinho e vamos escrevendo!

Até! 🙂

Meu segundo livro no Wattpad

A MÁQUINA DA METAMORFOSE

 

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Esta história é uma grande alegria!

Escrevi em parceria com minha grande amiga, a escritora Iara Mola, há alguns anos atrás e nunca conseguimos publicar, até o dia de hoje, onde me dispus a subi-lo no site do Wattpad.

Este livro, A MÁQUINA DA METAMORFOSE, fala sobre as aventuras e descobertas de três pré-adolescentes que resolvem desvendar o sumiço de um grande cientista, o pai do Tomatão.

Adoraria saber que vocês estiveram por lá, leram e votaram nesta obra, porque, desta maneira, com certeza estarão ajudando e apoiando este escritor nesta batalha maluca que é a divulgação.

Lógico que, além disto, adoraria saber suas opiniões! Com certeza!

Obrigado pelo carinho e boa leitura!

Meu livro no Wattpad

https://www.wattpad.com/story/135273473-conflitos-entre-jack-e-god

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Escrever um livro é uma viagem indescritível. Muitas vezes parece até que a história surge na mente, assim, do nada!

E quando uma inspiração tão sincera e honesta, que aparenta estar vindo pronta como uma conversa com algum amigo em chats ou WhatsApp, surge desta maneira, então, me sinto na obrigação de escrevê-la! Um impulso irresistível!

Se a história é boa ou ruim, isto não me compete julgar, o que posso afirmar é que sinto uma grande felicidade ao terminar e ver que a obra foi realizada.

Conflitos – Entre Jack e God foi assim, uma alegria, um trabalho prazeroso que ocupou minha mente e fez companhia em um momento bastante complicado, porque, por aqui, neste lindo país chamado Brasil, atravessávamos uma época financeira terrível! Trabalhos que não aconteciam, investidores que desapareceram e um país bombardeado por uma crise econômica lastimável!!! Não que já estejamos ótimos, nada disto! Porém, aparentam dias mais suaves.. com certeza!

Este livro me salvou da loucura e do desespero em que passava noites com insônia, na dúvida e incerteza sobre os dias que viriam! Por isso, só posso agradecer por ainda estar aqui em pé e com um belo sorriso no rosto! THANKS GOD! 🙂

Este livro, além de estar por aqui em meu blog, está também no site Wattpad, o primeiro livro de muitos! 🙂

Se você escreveu uma obra e deseja expô-la, indico este site gratuito para isto.

Se você quiser conhecer, me seguir e trocar boas ideias, fique à vontade em me chamar!

Entra lá e confira de perto!

Abraço! 🙂

Conflitos – Entre Jack e God – Capítulo13 (Final)

Capítulo 13 – Final

 

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Um homem vivido.

 

Fiquei mais animado depois daquela conversa com o Gigante, porque mesmo que tudo aquilo tenha me parecido bastante verdadeiro e gerado pânico em mim, as palavras do grandão também faziam muito sentido.

Como ele mesmo enfatizou, o Pedro vivia em um outro estilo de vida, porque as instruções e esclarecimentos eram outros, completamente diferentes de quando eu era criança.

Retornei para casa bem mais aliviado e tranquilo, principalmente por ver que o Pedro estava animado e muito feliz em conhecer o Gigante.

Foi um belo encontro, eles se divertiram bastante e eu fiquei feliz que tinham se dado bem. Havia uma cumplicidade e uma alegria enorme entre eles, com o tempo iriam se conhecer melhor e o pequenino iria adorar tê-lo em sua presença, pois além do Gigante ser muito divertido, elevava o padrão de energia do garoto, como um tio querido e brincalhão.

Depois de tantos anos fechado em mim mesmo, convivendo apenas com alguns poucos amigos do mundo dos negócios, enfim tinha encontrado o Gigante, alguém a quem eu podia chamar de amigo e confiar plenamente.

Meu amigo imaginário! Bom, quase imaginário, já que meu filho divida esta alegria comigo.

Nosso amigo em comum estava sendo de extrema importância naquele momento, já que tinha em mente de que, muito provavelmente, o Jack estava de volta e fazendo o que sabia fazer melhor… cercando o menino, assim como fez comigo no passado.

Ao ver o Gigante e aquela dimensão suave e positiva em que ele vivia, me perguntava o que teria sido minha vida se eu tivesse alguém que me orientasse assim naquela época, talvez jamais teria me envolvido com as histórias pesadas do Jack.

De qualquer maneira, era muito difícil responder esta questão, já que minha família naquela época era ótima e eu não dei a importância merecida. Não soube ouvir os conselhos de minha mãe e nem o valor merecido ao meu pai.

“Honrai seu pai e sua mãe”… agora, faz todo o sentido para mim, pena que tardiamente! Que meus filhos – e os filhos dos filhos deles –, sejam mais sábios do que eu!

Como o combinado com a minha família, fomos todos para a praia e nos divertimos muito.

Quando estive por lá, no litoral, tive a sensação de observar coisas de algum plano paralelo, pois surgiram sons, luzes e figuras que, muito provavelmente, apenas eu e meu menino vimos. Porém, fora a beleza e o encantamento, de resto não nos afetou em nada.

Depois daquela conversa com o Gigante fui vê-lo novamente apenas muitas semanas depois e, exatamente como ele previra, nada de ruim nos acontecera e nem teve espaço para nos atacar, o Pedrinho era um menino positivo demais para dar motivos para que o Jack invadisse.

Dava de dez em mim em caráter, alegria e tudo! Impressionante!

Lógico que não faltaram tentativas e aproximações, mas o menino estava em contato muito próximo com outras energias para cair na lábia do Danadão.

Enfim, eu sabia que já havia passado tempo demais longe do Jack… era a minha sina!

Sentia que ele iria surgir mais uma vez para, finalmente, darmos um rumo em nossa história. Eu iria ser cobrado e ter que dar alguma satisfação, mais uma vez, mesmo não querendo.

Bom, tinha o fato de estar me sentindo mais seguro, em paz e nem estar me importando tanto assim com a possibilidade dele surgir por aquelas bandas, mais uma vez. Não por mim, com certeza!

Precisávamos encerrar nossa história. Sentia que estava me rodeando, podia apostar que não demoraria.

Aquela sensação desagradável, enjoos e irritação sem sentido, era um sinal óbvio e bem próprio de uma aproximação de algo do mundo invisível para mim, ou melhor, para ser específico, da presença do Jack.

Ele estava chegando e eu sabia. Porque fiquei quase um dia inteiro irritado e enjoado, ou seja, o convite de entrada já havia sido enviado e só faltava chegar o convidado.

Não poderia afirmar de quem se tratava com exatidão, pois God também não era uma presença fácil de conviver, com aquela sua energia poderosa. Se do bem ou o do mau, algo estava por surgir, isto era certo.

Naquela tarde, trabalhei incomodado e no aguardo, porque havia entendido perfeitamente os sinais.

Deixei que todos fossem embora, afinal, já não trabalhava sozinho, no instante seguinte, após a saída da última pessoa do escritório, coloquei a conhecida cadeira diante de minha mesa e aguardei.

Sentia uma grande dor no estômago e o vento frio – fora de época –, que batia insistentemente em minha janela, me fazia perceber de quem se tratava, já o havia reconhecido… era o velho demônio.

Aquela noite, mesmo sabendo da chegada do Jack, coloquei uma música calma, fiz um café e continuei meus trabalhos normalmente, porque acelerar com os interesses dos clientes sempre foi preciso, como um lema a ser seguido religiosamente, haja o que houver.

Estava concentrado e levemente cansado, um ótimo dia para ir para a minha cama, mas sabia daquele compromisso e estava disposto a recebê-lo. Tinha que deixar as coisas claras, fosse lá o que isto quisesse significar naquele momento e, mesmo porque, meu café estava ótimo e tinha que cumprir sua função, o de me despertar.

Quando já estava tarde e eu quase desistindo do assunto, o vi chegar pelos cantos dos olhos, mas não me assustei.

Não estava em seu formato mais humilde e receptivo como da última vez, todo polido, educado e disposto a conversar.

Não! Ali, me olhando fixamente como um bicho ofegante, um pouco irritado e arrogante, disposto a brigar. Porém, se esta era a estratégia do dia, ele havia se dado mal, pois eu não estava no mesmo clima, com a mesma vontade de discutir, apenas queria encerrar logo aquele assunto.

– Então, quer dizer que agora o trabalhinho está rentável? Perguntou-me da porta da minha sala, com cara de patrão e todo cheio de pose.

Não sorri, nem fiz cara de boas vizinhanças, apenas retirei os óculos e o fitei, exatamente como ele estava fazendo comigo, como se o esperasse concluir sua irritante provocação.

– Espero que seja grato por melhorar seu padrão de vida! Afinal, não fui eu quem lhe proporcionou isto, mais uma vez?

– Ok! E você foi muito bem pago para isto, não é mesmo?! Já que arrastou sete almas para o seu mundo, lembra?!

– Sim! Eu também lembro que você falhou em sua missão e eu tive que cumprir com a minha. Os coitados pagaram caro pela sua incompetência.

– Os “coitados” foram arrastados em uma armadilha sua e não em algo que eu tenha arrumado e preparado. Eles só foram levados, porque você armou tudo. Invadiu mais uma vez os limites alheios, recorda-se?

Ficamos em silêncio e esta atitude dele, se me lembrava bem, era a pior das respostas! Porque era assim que ele me respondia naquele momento, atenção e silêncio, enquanto passeava lentamente pelo meu escritório, como se investigasse os detalhes da minha vida por ali. Alguém em procura de algo ou alguma pista que me denunciasse.

– Como podemos ser amigos?

Perguntou, como se não esperasse resposta, pois mal acabou de me questionar e já veio com acusações e possíveis respostas:

– Como posso evitar que o pior lhe aconteça ou a alguém próximo a você, se não temos nada em comum? Nem uma leve amizade?

Senti uma raiva terrível quando ele me pressionou daquela maneira, odiava ficar sob este tipo de ameaça.

Ele percebeu que havia mexido no ponto certo, porque parou de zanzar e fuçar em minhas coisas para me observar nos olhos, bem no fundo deles… cara a cara.

Desta maneira, em um estalar de dedos, da estante de livros do outro lado da sala, se aproximou a poucos centímetros do meu rosto.

Me olhava fixo, procurava minha fraqueza, me buscava bem lá dentro de mim, em algum canto de minha alma, então, soltou um daqueles sorrisinhos cínicos, sem abrir a boca, quase um grunhido, com sua certeza absoluta e a segurança de quem está no caminho correto… pronto para me destruir, mais uma vez!

– Pedrinho?! Vem brincar comigo?! Falou com uma voz infantil e, na sequencia, vi seu corpo mudar – com aquela transformação rápida dos seres invisíveis –, em uma criança que eu conheci muito bem nos tempos passados.

Ele sugeria, com imagens amedrontadoras em minha mente, que eu não era mais o seu alvo principal, ou queria aparentar não ser, pois dizia estar dedicado em se aproximar do meu filho.

Ele usava o mesmo uniforme da escola que meu filho, em uma provocação clara.

– Nós temos que nos divertir! Continuava a falar com aquela voz infantil – Somos crianças, não é mesmo?! Dizia e me enviava imagens dele junto com meu filho, aprontando as mais variadas bizarrices, passando por todas as fases da vida, até chegar a adulta e os muitos sofrimentos que uma vida desregrada oferece.

Via o Pedrinho em momentos muito tristes, um adulto sem uma boa formação e nem uma boa índole, praticando coisas bem impiedosas e impensadas.

– Se sua ideia é me arrastar para o seu mundo com estas imagens pouco prováveis sobre meu filho… acredite, está perdendo seu tempo, Jack! Ele não é igual a mim, não está dando ouvido para as suas bobagens. Não vai funcionar! Então, esbocei um sorriso seguro de minhas palavras, algo que, imagino, o velho demônio não parecia estar. Minha tranquilidade, mesmo sofrendo com aquelas visões desagradáveis, deve tê-lo irritado demais.

Primeiro, ele rosnou como um animal raivoso e ao se sentir desafiado, ridicularizado, o rei da trapaça – se mostrando bastante incomodado com minha indiferença –, quis deixar bem claro quem mandava por ali. Então, com um único movimento de sua mão fez com que todos os objetos da sala saíssem do estado de repouso onde se encontravam e rodopiassem malucos e com vida própria pela sala.

Me vi no centro daquele caos, como se uma cena de explosão estivesse sendo filmada em câmera lenta. Vi tudo revirado, arrebentado e suspenso no ar ao som de um terrível e seco grito de ódio do Jack. Impressionante, arrepiante e poderoso, estas são as melhores palavras para descrever a situação!

Minha mesa de vidro espatifada em mil pedaços no ar, junto com quadros, papéis e tudo o que estava naquela sala… flutuando! Uma situação impensável e amedrontadora!

Por um segundo perdi completamente as esperanças, porque, de todas as coisas que já havia vivido, aquele caos foi de longe o mais assustador e apavorante fracasso de minha vida! Um simples e frágil humano diante de um fim inimaginável!!!

Tudo rodava lentamente, quebrando, derretendo, espatifando e cortando a minha pele. Vivenciava uma explosão de um ângulo que nunca poderia ver, em seus mínimos detalhes. Tudo estava quebrando em minha sala, como se fossem feitos de algum material muito fraco, tal qual farinha ao vento… se diluindo!

Foi então que comecei a sentir minha pele esticar e formigar, como se estivesse sendo puxada em várias direções diferentes.

Sabia que minha hora havia chegado e, desta maneira, como em todo fim, pelo menos eu imaginava assim, me veio uma lembrança, o começo de tudo, provindos de um momento muito antigo, talvez a primeira lembrança da minha vida! O meu começo, quando eu cheguei naquele mundo, a primeira sensação… o nascimento.

Maravilhado, acabei rindo de como o meu fim, naquele instante insano em que tudo explodia, também se parecia, em todos os sentidos, com o momento de meu nascimento!

Não era tristeza, medo e nenhum sentimento ruim, como o que presenciara há segundos atrás, mas uma grande alegria! Estava nascendo de novo, das mãos da parteira mais conhecida da minha vila! Fiquei feliz de rever aquela senhorinha tão miúda e tão cheia de Amor.

Logo que nasci, fui passado para o colo de minha mãe. Confortável, seguro, muito e amorosa. De sua boca ouvi suas primeiras palavras de afeto, acompanhadas de uma grande alegria sem comparações, coisa de mãe de primeira viagem!

Ela, ainda muito jovem, me dizia coisinhas simples e, com seu jeitinho meigo, apenas me ninava, acariciava e amava incondicionalmente.

Como podia? Estava há poucos segundos atrás em meio a uma situação terrivelmente violenta e, naquele momento, aquilo, minha mãezinha querida e suas palavras de boas-vindas! Eu, diferente do que se poderia suspeitar, só conseguia sentir alegria e gratidão.

De relance, com as vistas bem embaçadas, talvez por ainda não enxergar direito – devido aos poucos minutos de vida –, pude ver, logo ali ao lado, outro vulto que se fez presente.

Devagar e bem respeitoso, se aproximou calmamente. Sorriso discreto no rosto e de movimentos apaziguadores, como sempre, surgiu para mim como um anjo, vindo lá dos fundos daquela sala humilde. Usava uma de suas melhores roupas… o meu querido papai!

Sim! Eu pensei assim mesmo, meu papai!

Com todo seu Amor de homem sensível e carinhoso, que jamais ofendera, gritara ou se irritara. Seu rosto sofrido de sol e suas roupas simples, apesar de caprichadas, trazia consigo o melhor de todos os presentes para completar aquele cenário de bem-querer… o verdadeiro Amor Incondicional.

Eu era bem-vindo, muito querido e amado. Pude perceber aquilo completamente e, por isso, nada poderia me fazer mal. Sabia, de alguma maneira, de que ninguém atrapalharia aquele encontro maravilhoso! Senti vontade de chorar… e chorei. Não de dor, fome ou medo, mas por ter reencontrado aquelas figuras importantíssimas em minha vida.

Reconheci o significado do Amor e dei graças à Deus por ter passado por aquela experiência. Me sentia protegido e radiante, como se uma Luz poderosa saísse de meu coração e pulsasse viva em todas as direções, invadindo a sala onde estava cada vez mais e mais, até que tudo ficasse iluminado, como um grande vácuo branco.

Desfrutava de um silêncio agradável naquele espaço vazio, como se tudo estivesse ali, começando de novo, esperando que eu o preenchesse com minha história, meus sentimentos, desejos e alegrias.

– Este momento não é mesmo uma delícia?! Me perguntou uma antiga voz muito conhecida. Estava mais doce, tranquila e serena, diferente da primeira vez em que a ouvi! Porém, ainda era Ele: God! Deus!

Ele foi surgindo lá do meio daquele fundo branco e foi se aproximando, sem pressa, assim como fizera meu querido pai.

– Bom, talvez você tenha facilidade de compreender a necessidade de criar algo neste mundo sem formas, sem sombras, sem cores e sem maldade alguma, afinal, você não tem feito muito isto como designer?! Me perguntou despretensiosamente, o belo rapaz que parou diante de mim, com seu sorriso cativante – Creio que a palavra criação faz um sentido ainda maior por aqui, não é mesmo? Completou.

– Eu morri?! Perdi minha batalha ou a venci?! Perguntei admirado como os traços de God, eram tão mais lindos e tranquilos do que a última vez que o vira.

– Não! Apenas lhe recuperei daquele momento complicado para este, mais suave e introspectivo, onde pudéssemos conversar em paz.

– Então, acabou? Estou livre do Jack e as maluquices dele? Me senti feliz, mas ao mesmo tempo lembrei de minha família, dos meus filhos e a falta de proteção que estariam sem a minha presença – Meu filhinho, como ele se manterá firme diante das ameaças do Jack? Então, aquelas imagens horríveis eram reais? O Jack o corromperá?!

– Não creio! Mas, tenha calma! Você ainda não saiu daquela história. Me disse, enquanto eu me via novamente entre todas aquelas coisas flutuando em minha sala, ao meu redor.

­– Sua história ainda não terminou, Marçal! Ainda há o que fazer e o que criar. Apenas, lembre-se de criá-la direito, como um bom designer! Você pode ser um criador melhor do que tem se apresentado. Ouvia claramente sua voz, enquanto Ele sumia entre os destroços esvoaçantes da minha sala distorcida.

Achei engraçado Ele me chamar de Marçal. Até aquele momento, o Jack e Ele insistiam em me chamar de Mac.

Olhei para aquelas coisas voando, para a Luz que diminuía ao meu redor como se me apontasse para uma nova realidade, por um novo e lindo começo, e pensei:

– Nada é definitivo e pronto! As coisas mudam e se adaptam… recomeçam!

Senti uma vontade de erguer os braços e desejar que tudo se restabelecesse, se encaixasse em seu lugar e aquietasse. E, assim, ao meu comando e desejo profundo, tudo se assentou delicadamente, como um filme ao contrario. Cada pecinha e cada cantinho daquele ambiente fora restaurado, de forma tranquila e silenciosa.

No final, ali estava eu, de pé e orgulhoso por me encontrar. Filho querido de pais amorosos que me deram a oportunidade de experimentar a vida, com o forte desejo e convicção de que Deus/God estaria comigo para me apontar as muitas maravilhas que nela existiam.

O Jack ainda estava ali, mas não parecia querer me desafiar, nem atrapalhar, ou nada que me incomodasse. Ele era apenas o mau que existia em mim, assim como em todos os seres normais e sob controle.

Se limitou a me observar até que, em um amigável aceno de cabeça se despediu de mim e copiou o God, desaparecendo lentamente no ar.

Sentia que nenhum dos dois tinham desaparecido completamente da minha vida, estavam por ali, controlados, disponíveis e a minha escolha.

Isto era algo muito importante e merecia um belo destaque, pois a partir daquele momento vivia sob minhas regras e escolhas, o famoso Livre Arbítrio.

Vibrava com aqueles recentes acontecimentos, quando, de repente, vi que apenas uma folha ainda insistia em rodopiar no ar, até que, finalmente, caiu suavemente em minha mesa.

Percebi que algo estava escrito nela. Era a mensagem de God, em letras góticas, assim como naquele carrão que o vi pela primeira vez:

“Seja um bom designer e crie uma história melhor daqui para frente”.

Sorri com a alma leve e o coração cheio de esperanças. Aliviado!

Fechei meu escritório devagar e atentamente como sempre, em seus mínimos detalhes, como todo aquele que tem TOC, mas sem culpa, medo e nem pressa.

Não resolvi as muitas dúvidas que rodeavam meu imaginário, não enriqueci e nem me livrei das dores corporais, graças a uma doença que carregava há muito tempo. Porque eu era, enfim, apenas mais um ser humano como qualquer outro e isso, para mim, era uma grande alegria… o máximo!

Sentia uma enorme felicidade por poder ser alguém normal… finalmente!

Desci as escadas pensativo, saí pelo portão exatamente como todos os outros que trabalhavam por ali, assim, sem nada de especial e nem melhor do que ninguém . Nada de diferente, apenas, deliciosamente em paz.

Olhei o sobrado onde trabalhava sentindo-me pleno e feliz, tudo parecia normal, sem problemas e comum, como sempre sonhara.

Quem me visse com os olhos da matéria, com certeza, veria uma pessoa qualquer encerrando seu dia de trabalho e partindo para casa, como todos os dias e todos os outros. Porém, aqueles, assim como eu, com um mínimo de sensibilidade, com o olhar mais voltado para a espiritualidade, poderia observar um algo a mais. Um homem vivido entre dois vultos: um iluminado e o outro… nem tanto!

 

 

Fim

 

 

 

 

Conflitos – Entre Jack e God – Capítulo12

Capítulo 12

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Caminho suave

 

Não comentei nada sobre o ocorrido com a Valquíria, apenas a recebi com o carinho de sempre. Todavia ela já me conhecia muito bem, percebeu que algo estranho havia ocorrido comigo. Porém, não insistiu em saber, apenas me deu um beijo carinhoso e se concentrou em finalizar a arrumação das malas.

Nisto eu tive sorte na vida e era muito grato, por estar sempre cercado de pessoas queridas e que me amavam. Eu podia ser um cabeça de vento, mas não devia ser uma pessoa tão ruim assim, afinal, a Valquíria, assim como meus filhos, eram maravilhosos comigo.

Ainda estava entristecido e preocupado com o ocorrido e até pensei em desistir do passeio, mas como já tinha feito minhas malas e a nossa viagem estava marcada para o dia seguinte, apenas dei uma desculpa qualquer e fui caminhar com meu filho, já que fiquei preocupado e não o queria deixá-lo sozinho.

O que mais me chateava era o fato de que eu queria acreditar, talvez em vão, de que aquela história com o Jack tinha ficado para trás. Remoía o pensamento infeliz de que nada era como eu pretendia.

Bateu uma revolta e uma preocupação, quase um delírio, porque tinha em mente de que aquele demônio ainda fazia parte da minha vida e, pior, cercava meu filho também. Eu iria ter que aturá-lo por mais uns bons anos, já que meu filho ainda era uma criança… quase um bebê.

Andava pelas ruas sem um rumo certo, apenas caminhando e imaginando o que seria da vida de meu filhinho. Aquela ideia ardia dentro de mim, ganhava poder e me fazia sofrer tremendamente com as probabilidades… uma angústia!

Relembrava as várias situações de perigo em que eu me enfiara ao lado do Jack, o quanto ele tinha me ensinado sobre as malícias e malandragens.

Nada mais fazia sentido para mim, sofria com a possibilidade de que Jack se aproximara de meu filho e, por isso, tinha que achar uma saída para aquele problema.

Fiquei triste por ter passado aquele “dom” para o pequeno Pedro, afinal, qual seria a resposta daquele problema? Teria passado minhas loucuras para ele? Visões e fantasmas? Se fosse mesmo uma realidade era lógico que eu tinha culpa.

– Caramba! Que saco!!! Falei em voz alta.

– Por que você está reclamando, papai? Me perguntou com seus olhinhos infantis, o que me fez sentir ainda pior.

– Pedrinho, lembra que eu falei com você para nunca se envolver com pessoas ruins? Ele balançou a cabeça afirmativamente e, mesmo dentro de seu mundinho puro e inocente, parecia estar tentando buscar o motivo de minha inquietação. – Então, isto vale também para seus amiguinhos. Às vezes, mesmo eles parecendo muito legais, têm ideias ruins e que nos levam a fazer coisas perigosas.

Queria achar um jeito de saber se ele estava tendo contato com o Jack, mas estava difícil de fazer alguma pergunta sem ser direto, ou abrir a visão dele para as investidas do feioso.

Imaginava uma forma tranquila e discreta de saber um pouco mais sobre seus amiguinhos de escola sem citar o nome do demônio, porque não queria que, ao tentar evitar o problema, acabasse fazendo com que meu filho se interessasse por ele. Assim, evitava que minhas investigações tivessem o efeito contrario, ou seja, ao invés de afastá-lo, acabar entregando meu filhinho de bandeja para o esperto Jack.

– Você tem algum amigo assim? Que é ruim?

– Sim! Ele me respondeu de pronto, o que me deixou até arrepiado.

– E quem é este menino? Perguntei com muito medo da resposta.

– Tem um menino na minha escola que sempre faz muita bagunça e deixa a tia do pátio muito nervosa.

– Sério?! E qual é o nome dele?

– Eu não sei o nome dele! Ele é novo na escola e não é da minha classe. Eu só vejo ele no recreio!

– E ele tem provocado você? Te fez algo que você não tenha gostado?

– Comigo não, mas com quase todos da escola! Acho que ele gosta de mim!

O que poderia ter sido uma resposta boa para qualquer pai, para mim foi como um soco no estômago. Era exatamente a mesma situação que havia vivido no passado. Como se a história se repetisse.

– Acho que você deveria evitá-lo, Pedrinho! Ele não me parece boa pessoa!

– Mas, pai! Ele nunca fez nada de errado para mim! Ele divide o lanche dele comigo e até me defende dos meninos grandes! Ele é engraçado, chama os grandões de estrume! O que é estrume papai?

Quando ele me falou a palavra estrume, me senti sendo arrancado de minha realidade e jogado aos primeiros anos de vida.

– Ei, Mac! Vamos acabar com estes estrumes?! Dizia o pequeno e ousado Jack para mim! Na época, apenas um moleque sardento e completamente maluquinho, que encantava corajosamente ao desafiar e enfrentar, de igual para igual, os meninos das turmas mais adiantadas da minha humilde escola de madeira.

Foi uma das primeiras palavras malucas e malcriadas, lançadas com gestos desafiadores, que Jack me ensinara.

– Venham, estrumes! Nós não gostamos de vocês. Gritava de punhos fechados e desafiando para uma briga, os meninos do pátio.

Na realidade, a gente fingia que era muito forte e poderoso, mas se a coisa ficasse realmente feia, o que quase nunca acontecia, corríamos feito loucos até a professora, ou fugíamos para nosso esconderijo secreto, até tudo ficar mais calmo.

Me sentia em desespero e, de tão irritado e sem rumo diante daquele possível encontro do Jack com meu filho, caminhei quase instintivamente para a praça, onde desejava um pouco de apoio com meu amigo invisível.

Antes de chegar nela, porém, apenas pensei alto:

– Isto não é bom! Não é nada bom, mesmo! Isto é desagradável! Referindo-me ao fato do Jack estar armando alguma nova aproximação.

– Sério papai? Porque não é bom? O que quer dizer esta palavra? Estrume? Perguntava o curioso Pedrinho, acreditando que eu me referia a nossa conversa.

– Sim! Respondi um pouco enraivecido ­– Esta palavra é o mesmo que cocô. Não é nada bonito chamar seus amiguinhos de cocô! Este seu amigo é mesmo um estúpido desagradável! Respondi com o tom de voz alterado, tanto que, ao assustá-lo, o deixou com um biquinho de choro, o que me cortou ainda mais o coração!

– Está vendo? Só de falar nestas bobagens já nos fez discutir! Creio, mesmo, que você deva se afastar deste menino bobo! Respondi de forma grosseira e sem pensar.

Depois, arrependido com a minha atitude estúpida, me desculpei e o peguei no colo, dando-o um abraço apertado.

Quis crer que ele nem devia ter entendido o que se passou com a gente, pois foi algo bastante confuso, até mesmo para mim.

Respirei fundo e continuamos nossa caminhada para a praça, onde pensei muito sobre o assunto e acabei chegando a algumas conclusões.

Primeiro, de que precisava me acalmar, porque tudo aquilo era apenas uma suposição e tinha uma grande possibilidade de que todos aqueles sentimentos fossem só uma criação em minha cabeça, já que havia a grande probabilidade do Pedrinho não ter nada a ver com minhas alucinações.

Chegamos na praça e sentamos em silêncio em um dos bancos.

Tinha a esperança de que o Gigante aparecesse rapidamente, mas pressenti que este não era um sentimento compartilhado pelo Pedrinho, já que ele, mesmo parecendo bem mais tranquilo e falante do que a vez anterior em que estivemos por ali, talvez, ainda não estivesse acostumado com a imagem impressionante do grandão.

Aquela praça tinha um clima totalmente diferente de todos os lugares que já conhecera em minha vida, muito provavelmente uma abertura para alguma dimensão mais evoluída e tão bem-intencionada, que transmitia uma sensação boa o suficiente para me deixar muito relaxado… quase com sono!

Estava bastante relaxado e minha cabeça parecia bem pesada, o que fazia com que desse rápidas cabeçadas no ar. Assim, neste estado sonolento, reequilibrei novamente meus sentimentos, emoções e fiquei bem em paz. Talvez, por este motivo, via passar por mim, bem discretamente, alguns seres de luz voando pelo ar, como se fossem vaga-lumes em pleno dia. Só então, vi o grandalhão surgir do outro lado da praça.

Ao nos ver sentados, ele se aproximou sem fazer muito alarde. Deu uma enrolada por onde estava e ficou “discretamente” trabalhando em suas novas flores. Deu um sorrisinho singelo, seguido de um tchauzinho engraçado, o que fez com que meu pequeno amigo risse de suas palhaçadas.

Estávamos em paz naquele momento e nem parecia que – há pouquíssimos minutos atrás -, vivenciamos momentos afoitos, contrariados e atrapalhados.

Queria perguntar ao Gigante se ele acreditava que o pequeno Pedro poderia, de alguma maneira, estar sendo influenciado pelo Jack, ou se ele estaria tentando seduzi-lo como fez comigo, mas não parecia uma oportunidade adequada. Como os dois brincavam à distancia e sorriam um para o outro o tempo inteiro, achei mais conveniente não interromper.

O Gigante não se aproximou em momento algum, muito provavelmente para não acabar com a boa sintonia que estava tendo com o menino.

Em certo momento, o grandão começou a brincar de se esconder do Pedrinho, entrando em um arbusto, saindo em outro e coisas do tipo. Aquilo era tão engraçado e divertido que fez com que até eu caísse na gargalhada.

Quem olhava de longe podia ver um homem e uma criança rindo despreocupadamente, em um belo final de tarde.

Como o Gigante era um ser diferente de todos os que conhecia! Animado, sempre feliz, divertido e de bem com a vida.

Me perguntava se ele não tinha seus medos, preocupações e se eu não estava exagerando com aquela história toda sobre o Jack.

Demorou, mas o gorducho encantador finalmente se aproximou e finalmente sentou ao nosso lado.

O Pedrinho conversou com ele, cantou algumas musiquinhas para ensinar o Gigante e até deu um abraço no seu enorme e novo amigo.

Esperei pacientemente para entrar no assunto que desejava, assim que o Pedro se distraiu e foi correr pela praça, o Gigante virou para mim e me disse:

– Me explica esta nuvem que envolve seus pensamentos, meu amigo?!

Sorri sem graça ao ser descoberto – por estar envolvido em meus piores sentimentos –, para que pudesse, finalmente, lhe explicar minhas dores e o quanto me preocupava a possibilidade do envolvimento do Jack com o meu filhinho.

Ele ouviu cada dor, cada palavra minha em silêncio e sem mudar de expressão, depois, assim que terminei, me disse:

– Não entendo vocês, humanos, ou têm fé demais e se entregam as coisas mais absurdas, ou andam completamente descrentes e se juntam com as energias mais pesadas.

Do ar, ele pareceu criar um belo pacote de pipoca doce, enquanto começava a filosofar a respeito:

– Marçal, meu caro, olha para este mundo em que estamos neste momento. Um pouco seu e um outro tanto meu. Colocou as pipocas na boca, mastigou-as e, continuou:

– Aqui não lhe parece um lugar agradável e gostoso de estar? Respirou fundo, talvez para passar aquela sensação agradável que ele sentia e calmamente, prosseguiu:

– Agora, vamos supor que você o tenha imaginado e que nada seja verdadeiro! Mesmo assim, não te parece maravilhoso todas estas coisas que acontecem por aqui?

– Sim! É um dos meus cantos preferidos, também!

– Bom! Isto é ótimo, me esforço para que seja assim mesmo! E deu um sorriso orgulhoso de seu trabalho.

– Pense comigo, de qualquer maneira, mesmo você tendo a capacidade de enxergar o que, até então, só você percebia, esta praça não continua sendo aberta a todos que desejarem estar aqui?

Aquilo não parecia ter muito significado, mas de qualquer maneira, acenei que sim.

– Ótimo! Então, para que você compreenda o que desejo lhe dizer, vou explicar algo que sei existir, mas não me preocupo e nem tenho pretensões de conhecer, mesmo sabendo o que também ocorre por aqui.

Deu um intervalo em seu comentário para amassar o saquinho de pipoca, fazendo com que desaparecesse no ar – como um engraçado passe de mágica –, divertindo o Pedrinho que, ao longe, lhe devolvesse o sorriso feliz e, em seguida, saísse correndo novamente para outros cantos daquela enorme praça.

– Há outros planos neste mesmo lugar onde estamos – exatamente neste mesmo lugar –, que são bem menos tranquilos do que vemos agora. Lugares difíceis, doentios e pouco agradáveis aos olhos! Você é capaz de acreditar nisto?!

Concordei em silêncio, pois cria naquela verdade. Mesmo porque, eu só poderia acreditar mesmo, já que estivera em um daqueles planos obscuros, assim como me havia dito o Jack, quando vivíamos naquela que foi uma das possibilidades da casa dos meus pais – logo após a morte deles –, no tempo daquelas festas e bagunças todas.

– Pois bem! Agora, observe bem ao seu redor e veja seu querido  e divertido filhinho. O que você acha que ele está presenciando neste exato momento? Em qual dimensão ele está?

Olhei meio sem saber o que dizer. Levantei os ombros como se não houvesse uma resposta a ser dada e, abrindo as mãos no ar, apenas esperei que ele concluísse.

O Gigante sorriu da minha aparente ignorância e depois apontando pela praça, onde existia uma quantidade razoável de seres leves e praticamente feitos de Luz, respondeu:

– Observe, meu amigo! Veja este mundo suave e encantador que vivemos. Por mais que as forças densas também frequentem este mesmo ambiente, mas em outro plano, agora, neste exato momento, tudo o que seu filhinho vê é esta linda oportunidade que desfrutamos.

– Pense, Marçal! Você pode ter passado este dom ao seu filho, mas a vida ainda é dele!!! E a preparação que ele está tendo, mesmo com estas forças o circundando e investindo, nunca terão o mesmo resultado que obtiveram com você, em sua história passada!

Fiquei calado, absorvendo aquela informação sem sequer tentar uma conclusão, por isso, o Gigante fez o desfecho batendo em meu ombro:

– Não queira para si apenas a dor, meu amigo! Já que você é um humano e adora duvidar na hora em que as coisas são óbvias, então, vou te dar uma dica… seu filho não é você, ele tem a missão dele. Não precisa ser um gênio para perceber que terá um futuro brilhante, cheio de Luz e Amor. Acredite em mim, rapaz, nem mesmo mil Jacks mudará isto! Sua experiência e seu Amor por ele já está fazendo a coisa ir por este caminho feliz… um caminho suave!!!

Eu estava com os olhos cheios de lágrimas, pois queria crer exatamente naquelas palavras do Gigante. Ele, por sua vez, me deu um tapinha em meu ombro, levantou do banco onde estávamos sem dizer mais nada, me deu uma piscada como se confirmasse que tudo estava bem e foi brincar com o Pedro.

Duas ótimas, alegres e maravilhosas figuras muito divertidas!

Conflitos – Entre Jack e God – Capítulo11

Capítulo 11

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De pai para filho

 

Tive mais um dia de trabalho puxado e, por estar bastante disposto, acelerei ao máximo os serviços mais complicados, já que desejava dormir cedo e, desta maneira, passear com meu filho na praça na manhã seguinte, porque achei mesmo a ideia do Gigante – em levar o menino até lá –, bem interessante.

Era uma sexta de manhã, minha filha estava cansada demais da semana de provas que acabara de passar, por isso, inventou um ataque de dores na cabeça e de barriga, com gemidos agonizantes, que me “convenceram” a deixá-la não ir para a escola para poder dormir um pouco mais.

Como eu também não levantei cedo, meus planos acabaram mudando radicalmente, por isso, acordei igualmente mais tarde e esperei meu filho de cinco anos levantar e, só então, tomamos um café da manhã juntos na padaria e fomos passear pela praça.

Ele sempre fora muito agitado e falante, me perguntava sobre tudo, subia em todos os lugares, corria, cantava e pulava o tempo inteiro. Um menino feliz que quase não me deixava espaço nem mesmo para pensar em qual resposta mais acertada deveria lhe dar. Porém, na praça, pela primeira vez, tive uma estranha surpresa, ele se sentou ao meu lado bem quietinho e apenas pareceu observar em silêncio, assim como eu sempre fazia.

Silêncio, tranquilidade e muito atenção em tudo o que passava ao redor.

Imaginei que ele estivesse me imitando, assim como era de seu costume, mas daquela vez ele não repetia os movimentos exatos aos meus, apenas se sentou ali do meu lado e ficou quieto, nem mesmo me respondia quando lhe fazia algumas perguntas.

Eu contemplava, bem na minha frente – enquanto o Gigante parecia moldar algumas flores –, várias figuras bem pequenas que voavam de flor em flor, tal qual um beija-flor.

O Gigante sabia que eu não costumava lhe responder quando havia algum estranho passando por perto e nem quando alguém se sentava ao meu lado, pois nós dois tínhamos consciência de que não seria de bom tom aparentar um maluco falando com alguém invisível. Já tinha passado demais por isso na vida… não mais!

Esta era uma norma minha, na realidade, que nem sempre o Gigante respeitava, por isso, naquele dia em especial, ele parecia não estar nem um pouco disposto a colaborar com as minhas regras.

Talvez, ele estivesse empolgado com a presença de meu filho, ou porque queria desabafar, só sei que não parou de falar por nem um minuto sequer desde o momento em que eu havia chegado por ali.

Ele falava e falava, mas como meu filhinho estava por ali, eu apenas concordava discreto com a cabeça, ou esboçava um sorriso em concordância com sua conversa sem fim.

Já estava lá há pelo menos uns quinze minutos e meu filho não demonstrava a menor reação, nem interesse de sair correndo e pular por toda a praça, como era de seu feitio em lugares espaçosos e convidativos como aquele.

Achando a postura do pequenino um tanto quanto estranha, quis saber:

– Mas por que você não se levanta deste banco e vai correr pela praça? Não está se sentindo bem?

E ele, para a minha surpresa, me respondeu quase cochichando:

– É que estou com medo!

– Medo? Por que você está com medo?

– Estou com medo deste homem gigante que não para de falar com você!!! Ele parece estar criando flores o tempo inteiro!!!! Isto é normal, papai?!

Quando ele falou aquilo, até mesmo o Gigante parou de falar e ficou me observando espantado!

Fizemos silêncio por alguns segundos, então lhe perguntei:

– Você consegue vê-lo?

Ele apenas balançou a cabeça afirmativamente e depois voltou a se esconder atrás de mim.

Eu olhei para o Gigante – que ainda estava parado em silêncio diante de mim –, e sorri, no que o Gigante correspondeu imediatamente, dizendo com sua voz de trovão:

– Pelo visto, Marçal, sua maluquice é contagiosa!!! Ou então, talvez você não seja tão maluco quanto imaginava! E rimos espantados.

Expliquei com bastante calma e da forma mais tranquila possível de que o Gigante não era ruim e que ele era apenas diferente, mas não lhe falei de outras dimensões e coisas do tipo, pois imaginei que ainda não era o momento.

Não forcei a amizade deles, somente deixei que ele se acostumasse com a presença do Gigante ao nosso lado, mas estava eufórico com a ideia de que mais alguém podia ver os seres e vultos que apareciam naquele lugar. Também não demoramos demais por ali, pois percebendo que o pequeno Pedro não se acostumava com a imagem do Gigante, apenas me retirei mais cedo.

Nos despedimos educadamente do Gigante, sem muita aproximação, porque o Pedrinho estava se escondendo quase completamente atrás de mim, o que fez o Gigante dar algumas boas risadas e, em seguida, nos retiramos.

Tentei ser natural ao falar sobre o assunto, dizendo que o Gigante era meu amigo e que ele era legal, além, óbvio, de muito grande, como nunca vira antes ninguém ser assim… tão alto. Mas, que era uma boa pessoa e que tinha um bom coração.

O Pedrinho, apenas se mantinha em silêncio e parecia fugir da conversa, por isso, não insisti, mudei de assunto também, mas sabia que uma hora ou outra teríamos que falar um pouco mais sobre aquilo.

Como explicar aqueles fatos estranhos para uma criança, sem que ela se confundisse? O cenário que tinha daquela praça parecia mais um vídeo de musica infantil, ou qualquer coisa no estilo. Muitas cores, seres voando, sons diferentes, pessoas gigantescas, mulheres translúcidas e alguns vultos claros, que só podiam ser vistos pelos cantos dos olhos. Fora o próprio Gigante, que se via ali… claramente!

De qualquer forma, cria que, pelo menos meu menino tinha a oportunidade de ver coisas legais e positivas. Sabia bem o que era ver e conviver com uma energia pesada. Não era nada fácil!

Os tempos eram outros e queria aproveitar tudo aquilo, até mesmo, financeiramente, já que havia entrado bons clientes e a fartura começava a sorrir para mim.

Tinha mudado meu escritório para um lugar maior, mais bem estruturado e próximo ao antigo. Era dentro de uma daquelas vielas antigas onde se escondiam a bandidagem anteriormente. Dei uma boa reformada e descobri, surpreso, meu novo e lindo estúdio… inacreditável!

Como minha família tinha entrado no período de férias, procurei dois bons designers de confiança para uma parceria naquele tempo de descanso. O que me ajudou demais aproveitar meu tempo junto à minha família e, assim, dar atenção e curtir com eles.

Pouco tempo depois daquele encontro com o Gigante, diante da oportunidade de aproveitar meus passeios, decidi que iria fazer algo que há muito não fazia, ir na praia com a minha família.

Eles ficaram muito empolgados com a ideia e em menos de algumas horas já havíamos decidido para onde e quando iríamos.

Antes de partir, porém, resolvi passar na praça discretamente, como sempre, e me despedir do Gigante, porque gostava de sua companhia e suas palavras positivas.

Como imaginei, ele não foi diferente, sorridente e animado incentivou a fazer aquela viagem, além de contar algumas boas histórias sobre o quanto ele adorava o mar e como já havia conhecido ótimas pessoas por lá.

No final daquele encontro nos despedimos bastante empolgados. Até me deu uma grande saudade do tempo em que eu passeava pela praia, ou acho que passeava, pois nunca soube exatamente até onde aquelas viagens foram fisicamente reais.

Em casa, admirava as brincadeiras do Pedrinho, enquanto admirava o quanto era incrível como certas coisas pareciam ser transmitidas aos filhos.

Percebia como o Pedrinho, além de se parecer fisicamente comigo, também tinha algumas manias e costumes semelhantes aos meus e, por isso, viajava em meus pensamentos em como aquilo era possível? Imaginava que só poderia ser a tal da genética, com certeza!

O jeito de brincar com as pessoas e até mesmo irritá-las, além de algumas manias e vergonhas.

Estava divagando sobre isto, arrumando minhas malas, quando de repente senti um medo, um frio no corpo. Lembrei do Jack e do God e, por um minuto, temi que aquela sensação de arrepios e enjoos fosse um provável sinal de aproximação de um dos dois.

Respirei fundo e aguardei, mas por não visualizar nada, apenas quis crer que não havia passado de um mal-estar, provavelmente causado por algo que deveria ter comido ou coisa do gênero.

Diante de meu armário, apenas continuei a separar as roupas que levaria naquela promissora viagem para a uma divertida semana na praia.

Comecei escolhendo as bermudas de água, porque mesmo tanto tempo distante do mar ainda tinha costumes daquelas épocas, onde sempre tinha que ter duas ou três bermudas boas para entrar na água e que secassem facilmente.

Lembrei novamente do Jack quando ainda era um menino, me dizendo que eu tinha que ter uma boa bermuda para entrar na água, uma camiseta leve e um óculos bacana.

Dei risada da lembrança, pois já não colocava um óculos escuros há tanto tempo, que nem saberia dizer se tinha coragem de usá-los, afinal, acreditava já não ter idade para estas coisas.

Estava concentrado em minha tarefa, até mesmo me divertindo em pensamentos e lembranças, quando ouvi meu filho brincando em seu quarto.

Ele parecia empolgado em sua brincadeira. O ouvia rir e murmurar várias coisas, que pela distância onde estava nada fazia muito sentido.

Naquele momento estávamos a sós em casa, minha mulher e minha filha tinham saído para comprar protetores solar, além de outras coisinhas de mulher.

Em casa, sozinho, distraído e empolgado nos meus afazeres, apenas curtia aquele momento de descontração. Pedrinho em seu mundo particular – muito provavelmente criando alguma aventura junto aos seus carrinhos e seu universo infantil –, nem podia imaginar as maluquices que seu pai já vivera e, de verdade, desejava crer que era melhor assim.

Estava quase finalizando minha mala e, descontraído como estava, tomei um choque quando escutei a voz inocente de meu filhinho, dizendo:

– Tá aceitado!

Aquela frase tão simples e curta, que para qualquer pessoa não passaria de mais um assunto qualquer de criança, para mim soou como uma explosão. Algo dentro de mim estalou e me senti tremendamente amedrontado.

Um frio percorreu todo meu corpo, uma mistura de pânico e ódio, pois parecia que havia retornado há muitos anos atrás.

Me vi diante do Jack, ainda pequeno, um menininho bobo e infantil, que em seu mundinho, sem nem mesmo imaginar, aceitava de um outro menino seu primeiro acordo, seu primeiro pacto!

Arrepiado e gelado, soltei minha mala no chão – que se espatifou toda aberta –, e corri para o quarto do Pedrinho.

O chamei desesperado – quase aos berros –, para que parasse com aquele acordo, fosse com quem fosse, pois em minha mente, via claramente o Jack segurando sua mãozinha e o sentenciando a uma vida de pressão, cobranças e um escravo dos jogos que ele inventava.

Ao chegar em seu quarto, o encontrei com dois bonequinhos nas mãos, envolvido em uma brincadeira simples e inocente, sozinho… com mais ninguém.

Ele me olhava assustado, como se não conseguisse compreender o motivo de meu desespero, minha gritaria insistente.

Eu respirava forte e sem controle. De olhos arregalados procurava pelos quatro cantos do quarto algo que denunciasse a visita desagradável do Jack.

Só depois de ter certeza absoluta de que não havia mais ninguém por perto, relaxei um pouco e me acalmei. Então, ao notar que havia sido exagerado demais, o abracei forte, dei-lhe um beijo no rosto e pedi para que não ligasse para as minhas maluquices, mesmo ainda estando bastante preocupado com aquela frase que ele falara, muito familiar para mim.

O que o Pedrinho não viu, foi que voltei em meu quarto, para a minha mala, com os olhos avermelhados e cheios de lágrimas, pois mesmo vendo que ele estava bem, em algum lugar da minha mente… algo não ficou legal.

Conflitos – Entre Jack e God – Capítulo10

Capítulo 10

_Capa-Capitulo10

Evoluindo!

 

Depois da tormenta, a paz!

Algo de bom surgira do caos! Esta era a sensação ao desfrutar aqueles tempos bons.

Já tinha acostumado com aquela felicidade e, sendo assim, não perdia a oportunidade de sempre passear com meus filhos e minha mulher nos finais de semana.

Nunca quis que ninguém conhecesse as figuras invisíveis que conhecera, desde que passei a ter consciência de que se tratavam de seres de outras dimensões, ou sei lá como defini-las, até conhecer o gorducho da praça.

Lembrava incomodado de que os outros dois eram seres bastantes diferentes de nossa convivência.

O Jack, era desequilibrado, ciumento, possessivo e exalava maldade demais. O God, também era sinistro demais, porque ainda estava em desenvolvimento em minha cabeça e, por isso, aparentava um brutamontes impaciente.

Já aquele personagem da praça, o gorducho, era tão doce e engraçado que eu lamentava que ninguém mais o via. Seu sorriso animado e suas palavras de incentivo tinham que ser ouvidas por todos que ali se encontravam.

De qualquer forma, creio que apenas o fato de ter sua presença amiga por lá, já parecia influenciar bastante na boa vibração do ambiente, onde flores e plantas se mostravam mais vivas do que as que não pertenciam àquela praça.

Sentia uma energia boa e me alegrava ver como todos se deixavam influenciar pelo encantamento que o Gigante espalhava para todos os lados.

Me perguntava impressionado como poderia um ambiente ser transformado tão radicalmente?

Lembrava da história que o Gigante havia contado sobre as mudanças radicais e inesperadas que aconteciam em nossas vidas e como tudo isto parecia ser programado por alguém.

Passava pela praça e de imediato me prontificava a cumprimenta-lo, algo impulsivo e que eu não resistia, mesmo com minha mulher me olhando com cara engraçada diante de minha maluquice, mas ao ver o Gigante, como acabei o batizando, mandava logo um sorriso e um “Olá” tímido. Porém, o que ela jamais pode ver, infelizmente, era o meu enorme amigo passar sorrindo e me desejando de volta um ótimo dia.

Por causa dele, acostumei a dar uma passada pela praça toda vez que saia da padaria. Gostava de ouvir algumas de suas histórias e comentários positivos. Aquilo me fazia bem, afinal, eu já não tinha um amigo íntimo por perto durante muitos anos, ou talvez a vida inteira, já que o Jack, apesar de se esforçar muito, nunca fora uma boa amizade.

– Gigante! Sinto que sua presença é tão diferente dos outros que conheci. Você se porta de forma humilde e age com simplicidade. Por que você se manifesta desta maneira diferente, já que também é um ser de outra dimensão?

– Ora, Marçal! Ninguém tem a necessidade de agir e ser da mesma maneira, não é mesmo? É verdade que, também tem o fato de você aceitar bem as outras vibrações. Talvez, eles nem sejam da maneira que você os percebe, mas a sua consciência é quem os mostra daquela maneira.

– Então, o Jack e o God podem nem mesmo existir? Ou melhor, eu os imaginei da forma errada? Como você os percebe? Perguntei para o ocupado Gigante, que ao tocar nas plantas do jardim, as moldava, coloria, polinizava e abrilhantava.

Ele parou alguns segundos, como se pensasse na questão e depois respondeu:

– Acho que nunca os vi! Depois, deu um belo sorriso chacoalhante e retornou à sua tarefa diária.

– Como assim? Você nunca viu o God ou o Jack?

– Não! Nem penso nisto e creio que nem pretendo! Estou feliz com a vida desta maneira, assim, do jeito que ela tem se apresentado. Respondeu sem nem mesmo me olhar.

– Você acredita em Deus, não é mesmo?

– Huumm! Acredito plenamente! Mas, não nesse que você criou… este é muito radical!

– Mas, então eu não tive um contato com Deus de verdade? Falei com uma certa preocupação, pois o mundo invisível podia, mais uma vez, ter me pregado uma peça.

Ele gargalhou e me disse:

– Você não deve levar as coisas tão à sério, rapaz! Tente vivenciá-las com maior naturalidade e captar o que há de melhor. Se eles eram mesmo o bem e o mau encarnados, tanto faz. Apenas, aproveite o dia de hoje. Não foram eles que abriram as portas para o mundo que vivemos agora? Creia, amanhã o dia pode ser ainda melhor, se o hoje for compreendido como deveria.

– Então, não devo crer no que vi e vivi?! Perguntei confuso.

– Eu não disse isso! Falou me dando as costas.

– Gigante! Preciso saber de verdade, você acredita em Deus?

– Se acredito em Deus? Claro! Eu já não disse isso? Sou temente à Deus, mas rio das bobagens que criam para chegar Nele! Aí, eu desconfio e acho graça! Por isso, devo despertar esta sua dúvida se acredito em Deus ou não.

Deu um último retoque na flor próxima dele e, na sequencia, sentou ao meu lado, dizendo:
– Sabe? Agradeço por tocar neste assunto, porque, meu amigo, acredito que Deus seja nós mesmos! Disse em tom tranquilo e calmo, como era de seu feitio.

– Como isto é possível? Raciocina comigo: Imagine que nossa alma não tenha limites na escala da evolução. Digo evolução na questão de descobrir, aprender, reaprender e questionar. Pense em você há alguns anos atrás, agora, de certa forma, você não faria muitas coisas de um jeito melhor e de uma maneira mais fácil? Eu, pelo menos, creio que sim.

Fiquei olhando para ele em total silêncio, tal qual uma criança que espera a continuidade da história.

– Esta é a evolução a que me refiro. Seguindo este raciocínio, imagine agora que sua alma é imortal. Tirando todas as crenças e religiões, vamos apenas imaginar você daqui a milhares e milhares de anos lá na frente. Olha o quanto você já aprendeu?

– Agora, imagina você com mais milhares e milhares de anos. Não podemos esquecer que a alma é imortal, ou seja, para sempre!!! Você nem sequer lembra mais que ouviu esta nossa conversa, pois nem neste plano você estará mais. Então, você continua evoluindo mais ainda, sendo assim, vamos colocar mais milhares e milhares de anos. Eu nem saberia te dizer de que material você poderia feito! E deu sua gargalhada gostosa.

– Muito bem, parece que já estamos bem distantes destes nossos tempos, não é mesmo? Vamos melhorar isto, só para acrescentar um pouquinho mais de experiência na sua vida? Coloquemos mais alguns bilhões de anos! Não consigo nem te imaginar!!! E deu mais uma gargalhada engraçada.

– Talvez, você seja feito de algum material brilhante, algo parecido com alguma energia, ou plasma… estas melecas espirituais, dizia com seu ótimo humor, enquanto balançava seus dedos gorduchos no ar, sugerindo uma fumaça, ou pó brilhante!

– Você, meu amigo, chegou a uma condição inexplicável e impensável para nossas humildes realidades!!!
Sendo você e estando você numa condição espiritual inconcebível, dentro de uma realidade inadmissível e uma espiritualidade altíssima, aí sim, vamos colocar mais outros bilhões de anos. Será que você acredita que agora você aprendeu algo? Disse me cutucando a testa, como se eu fosse o maior cabeça dura que conhecera em vida.

– Te parece tempo suficiente para aprender algo de bom? Ok! Assim mesmo, depois de mais de vigesilhão de anos passados e outros muitos vigesilhões de anos, você se encontra dentro de um nível espiritual inacreditável, junto com outros espíritos da mesma categoria, unidos na criações de… talvez, quem sabe, por exemplo, mundos e luz, ou qualquer coisa que nem me pergunte o que!!! Você, então, se vê, pensa um pouquinho e chega à conclusão, em uníssono aos demais: Estamos vibrando em frequências absurdamente altas… Somos Deus!!! Então, neste local onde tempo e espaço já não querem dizer mais nada, e seu “corpo”, a soma de outras milhares de luzes e energias… feitas sabe-se lá do que!!! Numas dessas viagens pelo espaço/tempo, se depara com uma pessoa sentada nesta praça, em uma bela manhã de sol, exatamente como hoje, há muitos vigesilhões de anos atrás e percebe surpreso que esta figura simples e cheia de dúvidas, que conversa com um bonitão gigante de outra dimensão… é você mesmo!

Só aí então, é que você repara encantado de que esta pessoa é parte de você naquela realidade divina e para pra ver e perceber um pouco daquele ser tão frágil. Você, Deus, escuta que, talvez, ele – você nos dias de hoje –, depois de tanto pensar na existência e seus mistérios, começasse uma prece para Deus – que agora é também você mesmo –, para ajudar nos enfrentamentos de todos os perigos, agonias, travas sem fim e provações que possam aparecer no percurso.

Parou de falar por um instante, respirou um pouquinho, olhou ao redor como se visse algo que eu não podia acompanhar e, prosseguiu:

– Você, Deus, olha para nossa realidade, sorri e diz baixinho no seu próprio ouvido, os desta realidade atual, os que você possui hoje:
– Fica em paz! Isto é passageiro… você vai chegar lá!

Neste momento, uma brisa bateu em meu rosto e a voz do Gigante pareceu ecoar em minha cabeça, como se milhares de almas falassem a mesma frase sussurrada em meus ouvidos.

Ele fechou os olhos, como se recebesse a mesma mensagem que vinha de todas as direções:

­– “Não há uma folha que caia de uma árvore, sem que Deus não saiba”. Pense nisso! Ele sabe, porque Ele pode ser você! Ele pode ser a árvore e a folha que cai.

Fez um breve silêncio e ainda de olhos fechados, me perguntou:
– Te parece estranho?

Como eu não disse nada, apenas abriu os olhos e me deu aquele sorriso bochechudo e amigo de sempre, depois prosseguiu:
– Queira bem a todos, pois ainda temos muito o que trabalhar, até chegarmos a ser Deus, ou melhor, já Somos mas, ainda não sabemos! Numas dessas viagens de Tempo/Espaço.

Levantou com a rapidez de sempre e sem dizer mais nada, virou-se para seus afazeres e desapareceu no ar.

Se ele tinha razão, ou não, ninguém poderia me confirmar naquele momento, mas que aquelas palavras haviam sido bem interessantes, isto eu não podia negar.

Só podia agradecer por mais aquele dia e a oportunidade de tê-lo conhecido, porque minha percepção do mundo era outra, completamente diferente da que acreditava há pouquíssimos tempos atrás.

A mente se abriu e com ela o coração! Podia compreender o Amor ao próximo, já que a nuvem do ódio e da falta de alegrias havia passado.

Não fui direto para o escritório como costumava no passado. Sentei em um daqueles bancos, daquela praça muito florida, com uma quantidade razoável de pássaros e borboletas e ri de mim mesmo.

Houve tempo em que admirar a natureza seria um sinal de fraqueza. Como se demonstrasse alguma feminilidade, ou velhice, como se um ou outro também fossem algum problema.

As vezes a juventude é tão cruel e preconceituosa, pelo menos a idade me permitiu ser mais sensato.

Minha sensibilidade não só havia me melhorado como pessoa, mas também como um ser espiritual, porque além de ter o Gigante como companheiro de praça, as condições do meio onde vivia estavam muito melhores, começava a perceber que além do próprio Gigante, outras figuras igualmente positivas e até mesmo mais suaves passavam a transitar por ali.

Eram ainda muito discretas e tímidas, por isso, as percebia de canto de olhos.

Umas eram pequenas e se confundiam facilmente por insetos e pequenos pássaros, mas seus cantos e conversas se faziam notar e se diferenciavam demais dos bichinhos que conhecia e, desde que conheci mais a fundo o Gigante, passaram a ser parte do repertório daquela bela praça.

Percebi que minha aceitação, minha postura com as pessoas ao meu redor e a paciência comigo mesmo faziam toda diferença diante destes seres invisíveis.

Conforme os dias se passavam, ao perdoar o próximo e a mim mesmo, novas figuras surgiam e mesmo que muitas vezes, nem prestassem atenção em minha figura discreta e silenciosa por ali – diariamente sentado em um daqueles bancos –, as via continuar a surgir.

Com o passar do tempo, eu conseguia notar que umas quantidades interessantes daquelas figurinhas passavam de um lado para o outro, umas trabalhando naquela praça, outras apenas de passagem e, outras ainda, aparentavam estar assim como eu, apenas curtindo aquela praça, o belo visual daquele cantinho especial que se tornara.

Um certo dia perguntei para o Gigante, como podia aquela quantidade de visitantes que surgiam todos os dias por ali?

– Ora, Marçal! Eles sempre existiram!!! Sabe de uma coisa? Talvez, você nem sequer acompanhe os outros muitos que também vejo por aqui!

– Será que estou maluco?! Perguntei bastante preocupado.

Ele parou de trabalhar em suas flores, como costumava fazer quase o tempo inteiro, somente parando vez ou outra para comer alguma guloseima e ficou me observando.

– Marçal! Quantos de vocês humanos podem nos ver?

– Bom, eu não conheço mais ninguém que saiba de vocês!

Ele me olhou fixamente, levantou os ombros e respondeu:

– Então, não creio que você seja lá muito normal, não é mesmo? E deu sua famosa gargalhada.

A resposta não foi muito animadora, mas também não me deixou desesperado, pois ele pareceu tão natural e engraçado, que não chegou a me impressionar.

Levantei do banco onde costumava admirá-los e ameacei a me retirar, então, o Gigante me chamou, dizendo:

– Ei, Marçal?! Traga seu filho amanhã! Gostei do menino!

Sorri de volta, pois como diz o ditado: “Quem agrada meus filhos, adoça minha boca”.

Despedi com um aceno discreto, para que as pessoas não me tomassem por um maluco completo, me retirei sem esperar respostas do Gigante e fui para mais um dia de trabalho.

Conflitos – Entre Jack e God – Capítulo9

Capítulo 9

_Capa-Capitulo9

O Gigante!

 

Dois anos se passaram desde o dia em que o Jack sumira com a bandidagem, algo que parecera tão rápido que nem sequer havia percebido o quanto tudo estava mudado, pois ainda olhava admirado as melhorias do bairro.

Eram os melhores dias da região desde que mudara para lá.

Vivia momentos de tranquilidade e calma, algo inacreditável para aquela região que sempre fora tão perigosa.

Uma estranha fase de felicidade e respeito, como nunca se vira. As pessoas pareciam estar em paz, não porque o país havia melhorado e elas prosperassem facilmente com o suor de seus trabalhos, na realidade, tudo ainda parecia bem complicado nesta questão. Porém, a ausência daquela bandidagem, um fato estranho para a grande maioria, que ficou sem uma boa explicação, também foi um alívio para todo o bairro.

Com este tempo de paz, podia-se ver pessoas passeando a noite e até mesmo cadeiras na frente de suas casas em prosa animada e sem maiores neuroses.

Rolava solto uma lenda urbana pelas ruas. Nela, dizia que estávamos protegidos por um Vingador Assassino em busca dos bandidos do bairro. Bom, no fundo não deixava de ser verdade, porque não era um pouco isto mesmo?

Jack assustou a marginalidade da nossa área. E pensando bem, se eu fosse parte deste grupo, ficaria bem atento com aquela ameaça sombria que rondava por ali, pois foi exatamente o que aconteceu.

Alguém, tão mau quanto os criminosos daquela época, os levou para sempre.

Algo terrível acontecera com eles e alguém arrastou os maus dali, assim, do dia para a noite.

Até mesmo eu, que presenciara e conhecia o tal do Vingador Assassino, não saberia dizer se ele voltaria com a sede de mais almas. De qualquer maneira, se fosse um destes marginais, não arriscaria.

Foi assim que, em um piscar de olhos, se passaram dois anos.

Dizem que, quando tudo vai bem, a gente nem sente o tempo passar e, sabe que isto teve todo o sentido para mim? Porque me sentia mais concentrado no trabalho, realizando criações mais leves e bem mais à vontade do que nos tempos anteriores. Não que a vida estivesse mais fácil e que eu estivesse ganhando dinheiro aos montes. Todavia, eu havia conseguido colocar boa parte de minhas contas em dia. Vivia uma paz interior, dentro de uma boa relação familiar e isto estava fazendo grande diferença no meu dia-a-dia.

Sentir aquela paz nas ruas do meu bairro, me deixava muito mais feliz – onde eu podia caminhar nas madrugadas sem me preocupar –,  e melhorou minha produtividade.

Até mesmo meus passos eram mais suaves, mais lentos, com um semblante aparentando menos raiva e pressa, pois com as lojas do comércio abertas e em funcionamento até mais tarde, além de bancas e a tão famosa padaria, que diante de um público mais educado, resolvera investir em um visual mais apropriado e sem aquela cara de boteco de cachaça, andar por ali, era até uma forma de distrair e espairecer.

Inclusive, fui um dos grandes responsáveis pela mudança da padaria, pois conhecendo o dono, sendo eu um bom designer, propus algumas mudanças em sua comunicação, que juntamente a um arquiteto, colega de longa data, fizemos uma transformação quase inacreditável. Transformamos aquela antiga espelunca lotada de pinguços e bandidos, em um ambiente familiar, aconchegante e encantador.

Estava feliz, esta é a palavra adequada para minha nova vida, uma outra pessoa.

Sim! Havia um pouco de culpa por ter falhado com aquelas almas. O olhar desesperado do Dirceu e seus amigos, a gritaria e o medo daquelas pessoas não sumiam de minha mente. Tive alguns pesadelos com aquelas cenas horrorosas, mas de qualquer forma, tinha consciência de que com aquele meu erro conseguira uma paz muito maior para todo o meu bairro. Um benefício coletivo.

Pensava se não fora, mesmo, um desejo de God, uma combinação com o Jack, afinal, não dizia que tudo tem um propósito?

De fato, diante daquela mudança no bairro, na presença de novos frequentadores e investidores que surgiram rapidamente, fez com que, até mesmo, as características estruturais se transformassem.

Houveram impressionantes investimentos na limpeza pública, nas praças, ruas e monumentos, graças a estes empolgados comerciantes, além da própria comunidade que ao mudar também seus interesses, voltou a frequentar e consumir em nossa região, assim, os olhos da prefeitura se voltaram para nós e se interessaram em fazer boas melhorias.

Creio que para mim, a melhor de todas foi, com certeza, a mudança radical e, realmente linda, em uma das maiores praças da região, coincidentemente bem na frente da tão famosa padaria que eu frequentava diariamente. Considerei um presente de God, um prêmio depois de tanto sofrimento. Agradecia satisfeito pelo santuário, onde eu caminhava religiosamente todas as manhãs.

Em um desses dias felizes parei a correria diária e apenas resolvi usufruir um pouco mais daquela paz interior e exterior.

Queria muito aproveitar a calmaria de sentimentos, por isso, sob um sol ameno e brilhante de uma manhã linda, como poucas, ou que já percebera até então, sentei no banco daquela praça para me dispor a observar e absorver o novo mundo que me cercava.

Havia muitas pessoas naquele dia e elas pareciam tão cheias de vida, indo de um lado para o outro, sem grandes preocupações, naquele início de janeiro cheio de esperanças e promessas de dias melhores.

As minhas visões já não aconteciam com frequência e desde aquele encontro com God, as aproximações do mundo invisível havia diminuído consideravelmente, porém existia um personagem que me rodeava a um certo tempo e que pelas suas características físicas, só podia se tratar de algum tipo de aparição.

Ele era gigantesco e, ao mesmo tempo, ligeiro demais para o seu tamanho. Passou a frequentar aquela praça desde a sua reinauguração.

Eu o vi um dia depois que a praça ficou liberada para o público, mas o que me fazia entendê-lo como uma possível aparição, era o fato de, um cara tão estranho, diferente e chamativo não ser comentado por ninguém.

Falei com a minha mulher sobre ele, se por um acaso ela também o vira na praça e como sua surpreendente resposta fora negativa, isto me fez suspeitar, ainda mais, que sua condição física bastante chamativa não poderia passar despercebida. Desta forma, só poderia ser um indicativo de que a figura esdrúxula era mais um daqueles seres invisíveis.

Não queria pensar nele como alguém que estava ali por minha causa, pois sua altura e espessura, graças a alguns bons quilos acima do peso, dava um certo receio, por isso, tentei evitá-lo ao máximo.

Não me sentia incomodado, nem atrapalhado, assim como as outras duas figuras que já havia convivido de perto, quando os percebia se aproximar de mim, por isto, não podia afirmar do que ele se tratava.

Com a sensibilidade aguçada desde pequeno, mesmo que na época desconhecedor destes dons, lidava com uma certa segurança com estes aparecimentos.

Já havia sido muito materialista, daqueles radicais e cheios de defesas a respeito, mas diante de tantas experiências e pauladas, entendi que as coisas tinham os seus porquês.

Aquela praça havia sido projetada e construída com bastante cuidado e de maneira muito bem planejada. Flores de cores diversas, bancos novos, jardins, caminhos, pedras, tudo muito bem arquitetado. Mantiveram as árvores, mas como derrubaram alguns muros, morros e construções que apenas desvalorizavam e diminuíam seu espaço real, elas ficaram muito mais realçadas, além de se mostrarem mais floridas e impressionantemente altas do que anteriormente.

Passava por ali todos os dias e sempre me sentia impelido a entrar naquela praça para aproveitar ao máximo o dia, mas duas coisas me impediam, o trabalho e seus prazos malucos e aquele gigante que parecia me notar toda vez que eu passava, já que com seu jeitão maluco, sempre me acenava com seus dedões gorduchos e contentes, o que não parecia acontecer com os outros.

Imaginava que tipo de ser era aquele e do que se trava sua presença insistente naqueles cantos.

O que me preocupava mesmo, era saber quais eram suas intenções e de que lado ele estava, do Jack ou do God?! Mesmo que, conforme o God afirmara, tudo era um e todos éramos e caminhávamos para o mesmo rumo.

Já não conseguindo mais evitar nosso encontro, parei de resistir ao insistente impulso e naquela manhã bonita, radiante de luz, aos sons de vários pássaros, apenas entrei na praça, sentei em um daqueles bancos novinhos e esperei pacientemente o meu inevitável encontro com o gigante.

Não demorou a aparecer ao meu lado, dizendo:

– Olha! Começou a falar todo empolgado – Um movimento… um pequeno e aparente ato inocente e eu já vi algumas histórias mudarem completamente! Disse-me com sua cara bolachuda e engraçada! Parecendo estar sempre de bem com o mundo!

Começou a apontar algumas figuras que passavam por ali, deixando claro que sabia da vida de todos daquela praça onde estávamos.

Então, ergueu seus dedos rechonchudos e avermelhados – graças ao corante da pipoca doce que comia barulhentamente –, e os estalou no ar fazendo com que o tempo parasse… congelasse!

Depois daquele ato impressionante, em que todos daquela praça ficaram parados no mesmo lugar, com suas expressões paralisadas, com cara de boneco de cera, ele ergueu-se do banco onde estávamos com uma habilidade e rapidez impressionantes para o seu tamanho.

Ele aparentava ser um homem com um pouco mais de 200kg e altura acima dos 2 metros. Passava entre as pessoas congeladas cutucando-as, fazendo caretas e todo orgulhoso de si.

Tinha um belo e chacoalhante sorriso, que só os muito obesos possuem, como se quisesse provar para mim que, havia mesmo parado o tempo e que, por isto, queria minha aprovação, assim, parecendo um garoto exibido. No entanto, ao perceber que eu já não prestava mais atenção nele, porque estava impressionado com o que via, enquanto verificava distraído aquele cenário improvável, deu uma pigarreada, como se tivesse alguma pipoca enroscada em sua garganta, se recompôs de sua euforia e encarnou seu personagem de pessoa séria e equilibrada para, só então, começar a me explicar:

– A vida é mesmo maluca, não é mesmo? Às vezes acontecem coisas tão desapercebidas em nossas vidas, mas que, exatamente por estes detalhes, em segundos, tudo se transforma completamente! Falou esquecendo mais uma vez de sua seriedade, enquanto enfiava mais uma considerável porção de pipocas na boca.

– Por exemplo! Continuou sua explanação, com a boca lotada de pipocas – Aquele rapaz de terno e gravata, logo ali. Ele nem imagina que vai conhecer a mulher de sua vida, daqui a, mais ou menos… cinco passos!!!  E sorriu olhando para cima, como se imaginasse a cena

– Aquele senhor, do outro lado da praça, está prestes a receber um telefonema de sua filha! Ele acaba de se tornar avô… e vai ser um ótimo avô! Mesmo que por pouco tempo!!!

Parou para refletir sobre o assunto, como se visse algo além e depois prosseguiu:

– Aquele menino ali ó. Lá na balança, vai ter ódio de andar descalço na grama para o resto da vida, porque, ainda hoje, vai pisar em uma lesma nojentíssima!!! E deu uma gostosa risada, como se fosse a melhor piada que já fizera!

Olhou ao redor e apontou outra pessoa na praça, afirmando:

– Aquela menininha, vai sonhar em ter cachorros grandes para sempre, porque aquele cachorrão ali, você está vendo? Com aquele rapaz olhando as nádegas daquela mulher! Riu mais um pouco, respirou fundo e justificou – Distraído como está, diga-se de passagem, por um belo motivo, referindo-se à moça das nádegas grandes

– Pois é, ele vai deixá-lo escapar e, o cachorrão, vai direto para a menininha. Então, eles vão brincar muito e como este vai ser um dos melhores dias nesta praça para ela, vai relacionar ao cachorro, por isso, vai procurar um igual a este por muito tempo. Creio que ela terá um cão parecido como este, lá pelos seus quarenta e poucos anos!!! Disse pensativo, entre uma pipoca e outra.

– Sei que você não pode ver o que vejo e nem saber o que sei, mas há também situações interessantíssimas por aqui! Por exemplo, vê aquele menininho ali, todo melado de lama? Pois é! Vai ser o futuro presidente do país!!! Bom, pelo menos ele já está bem acostumado com a sujeira! E riu me cutucando com o cotovelo!

– Mas nem tudo é alegria, porque aqueles dois rapazes vão ter uma briga feia no futuro, por causa de uma menina que mora naquela casa ali. Porém, o que eles nem imaginam, é que ela odeia homens!!! Ela vai morar com outra mulher, que irá conhecer em uma viagem pelo litoral.

Seu bom humor e a maneira como me contava as coisas, me faziam rir quase o tempo inteiro, o que me fez pensar bastante como o ser humano era mesmo estranho, afinal, visto pelo ângulo do Gigante, tudo era, mesmo, muito cômico, ou melhor, mais engraçado do que trágico!

– Tudo é uma grande comédia!!! Deixei escapar meu pensamento em voz alta. O Gigante parou de falar, me esboçou um sorriso compreensivo, mas sem exageros desta vez, talvez querendo ser respeitoso aos meus sentimentos humanos. Me ofereceu pipoca como se quisesse me consolar, depois disse, antes de desaparecer e deixar as coisas voltarem ao normal: – Creio que você captou a mensagem!!!

Logo após sumir, vi o rapaz tropeçar em uma moça muito bonita e parar para conversar com ela, o velho receber uma ligação, a moça distraída sair de sua casa sob os olhares atentos dos dois rapazes.

Pensativo, mas bastante tranquilo, chutei uma bola para o futuro Presidente da República enlameado e fui embora assoviando, pois no fundo… a vida era, mesmo, uma comédia!!!

Tinha muito trabalho para aquele dia. No entanto, mesmo com aquela apresentação informal e sem nomes, percebi que, naquela praça, eu podia contar com aquele gigante amigável e engraçado, que não levantou nenhuma regra a ser seguida e nem me pediu fidelidade ou coisa do tipo.

Não! Eu não tinha a menor ideia do que se tratava aquele encontro, mas se quisesse alguém positivo e carismático para conversar, aquela praça tinha a pessoa certa, o que me fez querer frequentá-la muito mais vezes.