Conflitos – Entre Jack e God – Capítulo1

Capítulo 1

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Perseguido

Naquela madrugada de muito trabalho, diferente de mim, ele apareceu muito bem vestido, perfumado, com ares de quem estava acima de qualquer suspeita, com seu jeitão cativante e amigo.

Estava tão convincente e tranquilo que não consegui desprezá-lo, por isso, respondi ao seu aceno sorridente de quem me considerava, respeitava e me queria bem. Espontâneo, como poucos sabiam ser.

Eu apenas pensava em como estas visitas noturnas já não me surpreendiam, assim como no passado.

Desta vez, ao contrario de alguns anos atrás, aparentava estar mais equilibrado nos argumentos e impulsividades. Transmitia – em sua bela encenação – ser menos arrogante, estranhamente menos empetecado de anéis e ouro. Talvez, tenha sido exatamente esta mudança, este detalhe, que me fez esquecer daquelas muitas bobagens que ele fizera comigo, quando eu ainda era um jovem rebelde e fiel às minhas “convicções e certezas absolutas”. Atitudes confiantes que, muito provavelmente, foram exatamente o que me tornara alvo fácil para os aproveitadores, assim como ele.

Quase desacreditava no que via logo ali, mais uma vez  ele aparecera na minha frente. Quem diria?

Pensei que nunca mais voltaríamos a nos ver. Depois da briga feia que tivemos, com sua saída abrupta e ofendida, tive esperança que viveria em paz. Porém, ele é o rei das maracutaias e safadezas – o Rei da Sacanagem bem na minha frente – já deveria saber que nada e nunca é realmente o fim para ele, mas que tudo é encarado como apenas “um tempo”, uma pausa para os próximos capítulos.

– Saudades, Mac?!

Fazia tempo que não ouvia aquele apelido: Mac! Mac de Macaco, de menino bagunceiro e que não parava no lugar. O mesmo motivo pelo qual me deram este apelido na infância, hoje é diagnosticado de hiperativo. Na realidade meu nome é Marçal.

Ele chegou com aquele seu sorrisinho entre os lábios e, por reflexo, sorri de volta. Para o meu próprio azar, pois desta maneira havia permitido quebrar o gelo.

– Aguenta a pressão!!! Pensei comigo mesmo, pois sabia que meu pensamento não ficara em segredo, guardado no mais impenetrável canto de minhas reflexões, porque não estavam. Ele fingiu nada saber e se manteve em silêncio, discreto, sem fazer nenhum comentário. Queria se passar por bom rapaz, como se isso fosse possível!!! Ele era o mau, o feio, o sujo, o criador e mantenedor de tudo o que havia de pior.

Não poderia ter mudado de uma hora para a outra… não mesmo!

Depois do breve silêncio, perguntou educadamente:

– Como vai sem mim, velho amigo?

– Estou ótimo e você sabe disso! Respondi com um tom irônico, já que desejava que ele saísse daquele personagem que interpretava, por isso, provoquei – Porque me pergunta, ou melhor, porque insiste em me visitar? Não sabe que tenho um pacto com o Outro, aquele que você tanto teme?

Ele não se irritou, nem sequer alterou o tom de sua voz onde, costumeiramente, seguiam muitos xingamentos e maldições, apenas um silêncio calmo. Surpreendente, vindo de alguém que sabia usar ofensas muito bem e que saiam de sua boca como poesia, naquela voz de locutor de rádio.

Ao invés, gargalhou de boca aberta, deixando aparecer a língua nervosa, apoiada por dentes muito bem tratados. Ele demonstrava animado que meu comentário fora só uma piada… e das boas.

Seu jeito sem modos, revelava que tinha esquecido, por segundos, a interpretação refinada de bom moço.

Se sentou na poltroninha que ficava na frente da minha mesa e ficou me encarando, talvez arquitetando algo para me arrastar para seu lado, mais uma vez.

Estava disposto a ficar e me convencer, persistência incômoda e admirável.

– Que cara chato! Pensava comigo mesmo, enquanto ele estalava os dedos, tal qual um mágico, para fazer com que surgisse da minha máquina, onde eu trabalhava tranquilamente até o momento, uma versão remixada e maluca de vários sons, Black Sabbath, Mettálica e AC/DC, etc…

Assustei com o som alto e ele apenas levantou os ombros, como se quisesse dizer que somente queria deixar o clima mais alegre. – Uma musiquinha quente, garoto. Clima bom e papo descontraído… só isso! O papo de sempre.

– Até quando você vai ficar nesta bosta de escritório, com este monte de livros, embalagens, e caixas de pizza?!! Falou com cara de nojo, segurando nas pontinhas dos dedos, com unhas muito bem envernizadas, minha bolsa, que estava na poltrona onde ele se esparramara, então, a jogando num canto qualquer, como se fosse algum bicho morto, afirmou:

– Ei! Sai dessa… vem comigo! Lembra como a vida era divertida?

– É! Respondi relembrando a bagunça que promovíamos nos velhos tempos.

Era um pedido bastante interessante já que, naquele momento, de glamorosa só os vários catálogos de moda e sites criados por mim, destinados às senhoras de classes A e AA da vida.

Ele estava diferente, se movia devagar e falava pausadamente, talvez por se lembrar de nosso último encontro – quando veio me visitar –, rodeado de mulheres lindas, gostosas e pouco vestidas. Antes, usava roupas extravagantes, cheio de si, exalando perfume, vinho e impaciência… muita impaciência.

– Deixa de bobagem, meu amigo!!! Vamos fazer história!!! Sei da sua vida e das suas vontades. O mar e a diversão ainda estão lá! Lembra?

Lembrar era uma tortura. Alegria e tristeza, pelo o que foi e o que estava sendo.

– Eu posso mudar tudo… sua vida, doenças e pobrezas desagradáveis. Toda esta piada que tem vivido!!! Só está assim, “travadão”, porque o Outro não liga mais para você e nem para ninguém! Nunca ligou e você sabe disto.

Ele falava e em minha mente fervilhavam lembranças de tempos em que tinha uma saúde invejável. Recordações que, misturada com aquele som empolgante vindo do meu computador, me confundiam demais. Por sinal, até tentei desligar minha máquina, mas parecia ter criado vida própria.

Sons que traziam lembranças, sensações, desejos esquecidos, enterrados em minhas memórias e que davam uma certa euforia.

O som e as imagens em que se passavam em minha mente eram como uma dose de alguma droga, desorientava e, ao mesmo tempo, acendia aquele cara que já existiu em mim, mas que há muito havia morrido.

Era triste saber que dentro da minha mente aquelas imagens ainda eram muito felizes, reais e cheias de emoção. Triste saber que eu concordava com cada palavra que ele me sugeria mentalmente e dizia em alto e bom tom diante de mim.

O que me fazia continuar firme com minhas convicções era o fato de me achar velho demais.

Tinha consciência de que estava vivenciando outra fase da vida e minhas dores – muitas dores –, não me deixava perder a sanidade.

Definitivamente, o que criei para mim – aquela existência – não era nem de perto a tal da felicidade de outrora! Não havia nenhum prazer em estar vivo!

Como ele podia ser tão esperto? E, fosse como fosse, onde estava o Outro afinal, para me mostrar o que fazer? Qual era o segredo da felicidade para Ele? Nem sequer uma visita, uma mínima demonstração de que o caminho Dele poderia me dar tanto prazer e alegria, assim como o que este, que diziam ser o MAU encarnado, me oferecia?

O que estava diante de mim, logo ali, sabia o que eu precisava e do que gostava. Me daria tudo o que eu desejasse em um rápido aceno positivo de cabeça, um simples SIM. Eu sabia disso, já vivera isto antes e havia sido muito bom!

– Preciso de um tempo. Sei que não é a sua, mas seja paciente e volte outro dia!

Ele não reclamou, nem praguejou como sempre fizera. Levantou, deu um sorriso de vencedor e desapareceu, assim como sua música, aos poucos, como um sino ecoando, um degrade…vagarosamente.

Já havia acostumado com essas aparições inexplicáveis, não era a primeira e provavelmente não seria a última.

Logo depois que desapareceu, senti enjoo e muita revolta. Coisas que eu sentia sempre que ele surgia, como qualquer droga.

Precisava entender porque eu passava por estas experiências e as outras pessoas não!

De qualquer forma, estava muito cansado e louco de vontade de ir para minha casa, descansar daquele dia tremendamente puxado de trabalhos e aparições.

Desliguei os computadores, alguns aparelhos ligados na tomada e fechei todas as janelas do meu estúdio de design, minuciosamente, como toda pessoa que tem toc e, só então, desci as escadarias para a rua, ainda bastante pensativo.

Aquela iria ser uma noite difícil para dormir, porque além de minhas preocupações naturais do dia-a-dia: prazos nos trabalhos, as contas bem atrasadas e etc, naquele momento, ainda tinha aquela aparição me cobrando, novamente.

Aquilo não era nada legal e, diga-se de passagem, pouco natural, mas não tinha dinheiro para um psiquiatra – ou coisa do tipo – por isso, o melhor que eu podia fazer era tentar dormir e descansar muito, pois o dia seguinte prometia ser ainda mais puxado.

Minha casa era muito próxima do meu trabalho – ou ia a pé ou de bicicleta –, algo muito refrescante e importante para mim, para me desligar completamente depois de um dia inteiro criando. Abstraia a mente, acalmava e conseguia deixar de criar, já que sem aquela caminhada era quase impossível. O caminho até em casa me proporcionava este relaxamento. Mesmo porque, deixar meu carrinho na rua, naquele bairro lotado de marginais era, certeza absoluta, arriscar perdê-lo ou danificá-lo.

Acostumado com os fantasmas aparecendo desde pequeno, o que mais me preocupava ao estar nas ruas pouco iluminadas do meu bairro eram, com certeza, os ladrões. Estes, infelizmente, não eram nem raros e nem de grande expressão. Não tinham o perfil dos que furtavam coisas significativas, mas as que eram fáceis de levar e trocar por drogas, sendo assim, eu era um ótimo alvo em potencial.

Tinha uma regra comigo, se saísse muito tarde do serviço, sempre evitava levar qualquer coisa que, caso fosse roubado, pudesse me fazer grande falta. Também não era bobo de não ter absolutamente nada de valor, pois poderia acabar sendo agredido ou tomar um tiro pelo “desaforo” de ser pobre demais e não carregar algo que fosse aproveitável.

Para isto, eu utilizava uma técnica de um amigo, que batizou como: Técnica de Sobrevivência. Esta técnica consistia em sempre ter um dinheirinho do ladrão em minha carteira.

Todos os dias minha mulher fazia questão de conferir se eu tinha algum antes de sair de casa, pois como era constantemente abordado pelos pilantras da região, ela nunca me deixava sem nada na carteira e até brigava comigo se me esquecesse de repô-lo no dia seguinte, se consumado o furto ou gasto no dia anterior.

Eu já estava no limite com aquilo, porque ser assaltado com aquela constância era algo que não suportava mais.

Podia conviver com as dificuldades da vida, mas ser roubado daquele jeito, em um lugar que vivia por mais de quinze anos, já não era mais para mim… não mesmo!

Graças a isso, eu tinha planos constantes de me mudar daquela região, queria tentar a vida em outros lugares, com novas possibilidades. Porém, dois detalhes me impediam: filhos e mulher, sendo assim, eu arrastava esta ideia no meu imaginário e secretamente torcia para que em um dia de coragem arrastasse todo mundo comigo para fora dali.

Um dos maiores sonhos daqueles tempos, profundamente conhecer desejoso por outras possibilidades muito melhores para todos. Éramos boas pessoas e merecíamos vivermos mais tranquilos.

Devaneios que me faziam suportar tanta pressão e perseguição, no entanto, tudo o que eu podia fazer naquele momento era ir rápido para minha casa, evitando os cantos escuros e torcendo para que não fosse roubado, pois a grana estava curta e o pouquinho que tinha comigo fazia a diferença.

Às vezes pensava nos motivos da minha vida estar daquele jeito – tão atrapalhada –, e tudo me levava a crer que era, mesmo, um teste do invisível… dos grandes.

Andava pelas ruas vazias daquela noite quente demais para se ficar em casa – ou ficar no escritório – mas deliciosamente refrescante e nítida nas ruas, já que as chuvas de final de ano tinham este poder mágico… limpar o ar.

Imaginava como sairia daquela situação. Com a cabeça fria, sem querer prever o futuro e suas consequências era bastante simples recusar as ofertas indecorosas que surgira. Todavia, se projetasse o mínimo para frente, começava a me sentir desconfortável, para não dizer desesperado. Contas atrasadas, clientes melindrosos que podiam me trocar por qualquer outro profissional do dia para a noite. Imaginava que isto não seria nada assustador se eu fosse um cara sozinho, mas como seria a vida dos meus filhos e da minha mulher se tudo desse errado?

As vezes pensava que casar e ter filhos nesta terra, neste país de malucos, só podia ser uma péssima ideia. Ter uma família, casa, saúde e educação era algo quase inatingível.

Tantos empecilhos e dificuldades davam um ótimo argumento para nunca apoiar os casamentos de jovens inexperientes.

Minha mulher ficava enraivecida quando nas rodas de conversas animadas, com os amigos mais jovens, eu era um poço de desmotivação sobre o matrimônio. Ela não entendia quando os desanimava, não pelo meu relacionamento amoroso, mas pelo meu relacionamento “patriótico detonado, cuspido e arrebentado”, graças as bagunças que meu país sempre fez questão de ser um dos melhores do mundo.

Nunca me vira estável o suficiente para isto!

Caminhava pelas ruas em ritmo acelerado, o mais rápido que podia e, entre uma esquina e outra, via-o na escuridão das construções, escondido, mas ao mesmo tempo, nem tanto. Sabia que ele queria que eu o visse, que eu não o esquecesse.

Ele, que na verdade poderia ser o que quisesse e estar onde desejasse, pois tinha grandes poderes, me cercava desde muito tempo, creio que desde sempre, assim como o outro, o do BEM.

Nunca compreendi esta necessidade estranha que eles tinham de me quererem tanto, diga-se de passagem, sou completamente dispensável, mas infelizmente eles não pensavam da mesma forma.

Depois que cheguei intacto e livre na segurança do meu lar, vi feliz que minha família dormia tranquilamente. Todos embolados como um ninho de gatos na minha cama. Não me restando alternativa senão deitar na cama da minha filha mais velha e ficar por lá mesmo. Não iria acordá-la de seu soninho profundo.

Era uma cena que me enchia de alegria, todos dormindo em paz.

– Melhor assim, deixar a loucura da vida por minha conta, pensava. Já tinha acostumado viver tão acuado e preocupado.

– Um dia isto terá um fim!!! Foi um dos meus últimos pensamentos antes de dormir profundamente, logo depois de um banho relaxante.

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4 opiniões sobre “Conflitos – Entre Jack e God – Capítulo1”

  1. Marcelo você escreveu este livro? Desculpe perguntar… 😉

    • Sim! Espero que goste, mereceria mais uma boa revisada, mas não é fácil! Eu já tinha postado alguns capítulos por aqui anteriormente, mas como perdi um pouco a esperança de publicar, vou colocar inteiro no meu Blog. Tenho mais 4 livros que acredito que terá o mesmo destino… é, de certa forma , uma derrota. Porém, fico feliz em expor esta criação aos meus queridos colegas de escrita.
      No final… é isso aí, tudo certo. 🙂

      • Marcelo nunca pense em derrota. Por favor!!!! São poucas as pessoas que escrevem um livro. Sinta-se orgulhoso disto. Parabéns pela sua iniciativa. Hoje em dia é muito difícil alguém ler um livro. É um vício, mas acredito que 70% das pessoas ficam vendo e lendo coisas sem nenhuma informação no celular e internet. Fica um vazio de conteúdo. Continue escrevendo e postando os capítulos do seu livro. Acredite na sua capacidade. Por favor. 🙂 ❤

      • Escrever é uma necessidade, por isso, escrevo para mim mesmo, pois não conheço muita gente que curta ler! Estranho… mas é uma realidade! Mas, compreendo… tanto que desisti de publicar, como deveria ser o certo! Tudo bem… continuarei por aqui mesmo! :p
        Obrigado pelo apoio e espero que você tenha tempo para ler este livro.
        Hoje ele está aqui no meio de vários contos, mas depois vou colocar ele inteiro na página dele, no topo do Blog, do lado esquerdo… onde está escrito o Título e o capítulo 1.
        Um grande beijo e até! 🙂

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