Conflitos – Entre Jack e God – Capítulo8

Capítulo 8

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God!

Andava calmamente de volta para a minha casa, pelas ruas vazias de meu bairro que, até então, eram uma porcaria cheia de vultos mal-intencionados, mas que, para a surpresa dos que ali viviam, passou a ser silenciosa e pacífica. Um bom lugar para se viver.

Reparava em algumas construções mais antigas e até as achei bem bonitas. Escondidas entre aqueles becos onde sempre passava rápido e assustado demais para observá-las. Devagar e calmo, tal qual um turista, coisa que nunca pudera fazer.

Escutava o som do vento uivando passar por mim e me sentia um pouco triste ao lembrar daquelas caras desesperadas dos marginais. Porém, ao mesmo tempo, sentia um grande alívio, algo que contagiava e me dava esperança de tempos melhores.

Talvez, a existência do Jack tivesse sua necessidade, uma função difícil, mas até que bastante importante no Planeta Terra.

Seria ele um instrumento de purificação? Alguém que, através do sofrimento, fazia uma limpeza nas almas endurecidas? Usando a dor e exemplos ruins para modificar o Planeta? Respirei fundo e sem saber o que pensar, deixei escapar um:  – Sei lá!

– Esta é uma limpeza de alma, com certeza! Escutei uma voz grossa e clara falar bem atrás de mim.

Até me curvei com o susto, como se um raio tivesse caído sobre mim, ia até deixar escapar um palavrão, mas me calei diante da nova visão, pois me assustei ainda mais quando constatei de que, aquela voz que falava comigo, não era o Jack, mas aquele que se autoproclamava God!

Estava espantado que Ele estivesse ali novamente comigo, mas de qualquer forma, era uma boa oportunidade para tirar as milhares de dúvidas que circundavam minha mente, desde aquele encontro inusitado, onde Ele chegou exigente e me intimou daquela forma bastante grosseira.

Antes mesmo que eu fizesse alguma pergunta, ele me respondeu:

– Afinal, como poderia ser ouvido por você, se naquela época tudo o que carregava era um monte de revolta e incompreensão? Sou uma energia criadora e, em muitos casos, uma força da natureza. Ajo de acordo com as necessidades que o universo tem de evolução e expansão, sendo assim, quase nem sempre tem a ver com as necessidades humanas.

Me encarava com um olhar bem mais sereno e em paz do que a primeira vez em que nos vimos. Não tinha aquele aspecto apavorante e encrenqueiro, mas ainda assim, não se podia dizer que era uma figura amorosa e suave.

– Não sou humano e nem me imagino como tal, tenho a capacidade de me comunicar com vocês, mas definitivamente não sou um de vocês. Posso ter a imagem suave como a de uma energia sublime, ou então grosseira e deselegante como a de um ser humano rasteiro, mas eu, claramente, não sou um de vocês.

– Mas qual é a proposta divina para o ser humano? Perguntei quase mentalmente, pois não havia tempo suficiente de palavras faladas naquele diálogo.

– Para o ser humano? Porque você crê que tenho alguma proposta para o ser humano? Por que vocês acreditam que o mundo foi criado para vocês, quando na realidade vocês podem apenas ser um erro, ou um material em desenvolvimento? Ele ainda me parecia bastante rude, assim como na primeira vez que o vi. Porém, mais paciente com minhas perguntas aparentemente infantis e cheias de incredulidades.

Conforme me explicava, os temas que eu sugeria, sua imagem ia suavizando e se tornando naquilo em que eu acreditava como uma forma elevada deveria ser.

– Existe uma grande diferença entre ser e o que vocês imaginam o que é. Eu não sou nada daquilo que vocês conceberam como divino e nenhuma de suas regras se aplica a mim. Eu não criei pecado algum que deva ser condenado, nem leis tão favoráveis a certas elites religiosas, como se imagina por aí. Na verdade, a única coisa que vocês sabem acertadamente sobre mim é que existo, quanto ao resto, sugiro que jogue tudo fora e comece novamente.

Confesso que esta parte de sua explicação me deixou bastante surpreso. Algo que me fez pensar muito tempo.

– Vocês designam poderes, curas e doenças das quais nem mesmo imaginei que vocês seriam capazes de criar, pois tais doenças nem mesmo existem, senão apenas em suas mentes criativas e problemáticas. Uma sopa maluca dentro desta necessidade absurda de poder. Choram misérias que não criei, queimam pecadores de pecados que nunca houveram, recebem mensagens divinas de divindades que ninguém sabe de quem se trata. Todas estas suas regras de pecados e ofensas, bênçãos e benefícios são, na grande maioria, criações de suas cabeças. Dualidades que, talvez, foram surgindo graças a necessidade imatura de se imporem, de se sentirem superiores e privilegiados.

Fez uma pausa, talvez aguardando alguma outra pergunta, que não fiz, e continuou:

– Me defino, para pessoas como vocês, uma força da natureza, uma evolução superior e ainda inimaginável, onde a palavra Amor tem, mesmo, um significado especial, pois ela representa o espontâneo, o natural, a necessidade de ser e estar em paz e de bem com os meios onde habita. Aqui e agora, diante de você, sou o que você entende por Deus, mesmo sabendo que, este deus de vocês, em nada se encaixa com a realidade, mas compreensível diante de sua pouca evolução e completos desconhecedores do Deus que todos nós somos. Não posso ser melhor e nem pior, pois uma vez em meu estado natural, não passo de uma forma incongruente e indefinida, ou seja, uma forma de vida inexistente para sua capacidade de me captar. Sou aqui e agora alguém muito aquém do que sou realmente, assim como o mau ao qual você teve acesso durante anos, se diverte ao se diminuir imensamente para que você o perceba como alguém com quem possa se comunicar.

Ele passou a caminhar ao meu lado em direção à minha casa.

– Diante destas limitações, noto-me como um rascunho mal feito de mim mesmo, onde me rebaixo ao máximo e tento me fazer comunicar com você. Suas dúvidas são primárias e seus comportamentos são sem sentido diante das infinitas possibilidades que posso vivenciar. Porém, mesmo assim, me sinto “feliz” por podermos estar realizando esta comunicação.

Era engraçado que, um Ser tão poderoso, aquele que eu conhecia como o Criador de tudo o que eu conhecia, estava ali, andando ao meu lado, conversando comigo e, ao mesmo tempo, olhava para si mesmo e para suas mãos, com uma expressão feliz e quase encantada, como se reconhecesse aquela realidade pela primeira vez. Eu admirava seu semblante bonito e feliz, já bem mais limpo e menos grotesco do que a primeira vez que o vi saindo daquele carro. Era como a de uma criança, mesmo que ainda dentro de um corpo forte e poderoso de homem forte.

– Para encerrar, afirmo que o bem e o mau são polos opostos do mesmo corpo e que, através dos dois, a evolução é aceita e realizada. Aceite isso como uma realidade, ou não, apenas que, a cada um cabe sua escolha e o quanto gostaria de sofrer, ou saborear suas alegrias.

Parou, como se estivesse se despedindo de mim, enquanto vi seu carro indescritível estacionado próximo de nós.

– Sei de sua existência, assim como você percebe a minha, um relance e, ao mesmo tempo, um milagre presente. Sou a junção de tudo o que você sabe, soube ou saberá. Sou sua vitória no longo percurso de muitas derrotas. Sou o limite máximo de sua existência em eterna expansão em conhecimento e espaço construído. Não apenas sei da folha que cai, pois ela foi uma de minhas existências, assim como sou tudo o que você criou para você mesmo, durante anos, anos e anos… desde sempre!

Abriu a porta do carrão, que me pareceu mais limpo e estranhamente mais amigável, mesmo que sendo exatamente o mesmo.

– Sou sua parte crível e a que em nada crê, sou a resposta e a dúvida… sou tudo o que imaginar e conceber e até o que nunca nem mesmo imaginou. Neste momento, sou um Deus limitado, mágico e superficial, exatamente como me imagina. Sou parte fé, concepção e criação. Sou tudo o que imagina, mesmo que limitado. Para cada grau de conhecimento, sou proporcionalmente inacreditável. Por isso sou infinito, sou plural e inconcebível.

Ele respondia a todas as minhas questões, mesmo antes de conseguir transformá-las em palavras.

Ele era parte de mim e percebendo minha incapacidade de acompanhar suas palavras com a mesma rapidez com que as dizia, fez um pequeno intervalo e depois continuou:

– Aos mais elevados pensamentos me manifesto ainda mais elevado, ao mais ilustre de todos os seres do universo, sou ainda mais ilustre e inatingível. Nada do que você imaginar será surpresa ou inigualável, pois sou e existo para cada partícula, assim como sou a mais grandiosa de todas as criaturas. Se você olhar para o alto, verá o infinito. A grande diferença é que eu não vejo o infinito, eu estou para qualquer parte em que você olhar deste infinito.

Como entender uma pessoa que está para cada canto que eu pudesse ver? Como conversar com calma e ter a capacidade de criar perguntas decentes com alguém tão poderoso?

– Você é parte deste universo e pode criar uma história melhor e mais feliz, basta crer e agir de maneira que tudo em que crê, se torne real e se materialize.

Ele parecia falar um pouco mais devagar, como se quisesse que eu o compreendesse e decorasse aquelas palavras.

– Se você é tudo que existe, então você é também o mau que nos rodeia? Perguntei curioso em entender esta questão.

– Sou tudo o que é possível e imaginável, por isto, sou o mau que desejam, pois se sou criação, o mau que vocês desejam experimentar e consumir é uma das muitas realidades – fez outra pausa e depois citou:

– Batei, e abrir-se-vos-a. Lembra destas palavras? Tentando me relembrar do significado, mas com uma nova roupagem, onde o mau também tinha sua presença garantida no mundo da criação.

Sou a Luz Divina e Sou o Mau que arde, pois sou tudo o que há! A cada mente sou o que há de melhor e o que há de pior. Sou a Luz da mente mais pura e evoluída, ao Mau quase inacreditável, pois sou a força criativa do Universo. Sou uma única manta, em todos os sentidos e para todos os sentidos.

– Porque você me parece tão agressivo? Pensei meio assustado e sem muita certeza.

– Por que este é o Deus que você concebeu em sua imaginação. Você criou uma imagem distorcida de alguém superior durante estes anos todos, assim como criou seu próprio Demônio.

– O Jack é fruto de minha imaginação? Ele não existe?

– Ele é uma manifestação da natureza que você consegue captar, mas as necessidades dele, na realidade são uma invenção sua. Uma projeção, uma necessidade de atenção. Seu mundo, sua história é tudo aquilo que você consegue criar para si mesmo. Nada ou tudo é real, depende do quanto foco você dá aos seus problemas e soluções. Veja sua história com sua mãe e seu pai. Eles não morreram por causa de você, esta é a sua percepção, pois se você os tivesse aproveitado melhor, talvez esta sensação de que se foram sem nenhum propósito, não faria o menor sentido. Creio que, para eles, suas vidas neste plano material, não há este sentimento de que apenas viveram superficialmente, sem motivação e depois partiram sem realizar algumas metas. Percebo que viveram dentro do que planejaram, realizaram o que deveriam e depois partiram deste plano material para um outro, como todos aqueles que já se foram um dia. É natural que se tenha sempre uma visão muito superficial sobre as pessoas, pois não se vive os conflitos pessoais e exigências internas de cada um. Ninguém está acima e nem abaixo para si mesmos, são todos atores principais em um único palco.

Desde o começo de sua aparição até aquele momento, Ele parecia sofrer uma mutação constante, algo que me chamou muita atenção e que rapidamente pude entender que era como eu o concebia em minha mente.

Estranho que uma figura tão poderosa, a junção de todas as coisas, acabava por ser tão indefinida em minha cabeça, ao ponto de não conseguir estabilizar por mais de um minuto.

Em resumo, eu tinha um grande respeito por Ele e a mensagem era mesmo Amor, algo que não poderia conceber jamais em minha vida, ainda mais por uma figura tão rude. Preferia acreditar nisto e acreditar que meu Amor por Ele era imenso e isto de alguma maneira, suavizava seus traços de homem bruto.

Com calma a sabedoria me envolvia e tudo o que eu podia imaginar era que o mundo era mesmo uma concepção coletiva, uma grande e poderosa imaginação coletiva, por isto, nem sempre perfeita e nem totalmente desumana.

Por um instante tive pena do Jack, pois ele era uma criação da parte má da humanidade, desde um simples palavrãozinho até as crueldades mais sádicas.

Naquele dia, admirei a Criação Divina e suas muitas etapas, assim como a inesperada limpeza, mesmo que por escolha das próprias figuras que a perturbavam, daquele belo bairro.

– Livre arbítrio… é livre desde que não invada, não imponha e não incomode. O que vocês experimentam em nada se parece com esta palavra. Isto… é baderna!!! Ouvi dentro de minha mente as palavras de God!

Por uma noite que fosse, a cidade respirou um pouco melhor, livre daqueles que a estragavam e com mais dúvidas e pensamentos confusos do que o normal.

Curti aquele período de paz e de noites claras, de lua cheia e ar límpido, como se a chuva tivesse limpado o céu e a terra.

Ali, depois de refletir sobre o assunto, decidi que deveria ter uma conversa séria com o Jack, por isso, o faria assim que ele retornasse de sua “viagem”.

Sabia que ele iria demorar um tempo, pois costumava aproveitar bem as consciências cheias de terror e culpa, como as que ele havia carregado com ele, ou era isto que eu o imaginava fazendo… e por imaginar desta maneira, cria que era assim que deveria ser.

Desta maneira, simplesmente aguardei seu retorno, sem muitas expectativas, já que, sua presença nunca mais fora agradável e nem muito bem-vinda. Porém, daquela vez, eu o queria ver, muito mais com a intenção de me despedir do que tê-lo ao meu lado, como já aconteceu no passado.

Estava mais aliviado com tudo aquilo, não que tivesse todas as respostas que desejara, mas que, pelo menos, via um sentido em todas as coisas.

Me sentia como alguém que se vê diante de uma grande descoberta, pois aqueles últimos encontros foram, mesmo, bastante reveladores.

Durante quase dois meses minha vida transcorreu leve e tranquila, sem perturbações, sem cobranças excessivas e nem a pressão de marginais por todos os becos. Paz!

Rolou um boato por todo o bairro que um matador esteve circulando por ali e que eliminou sete dos piores marginais de uma só vez e com grande facilidade. Um justiceiro sanguinário e até tinha uma história sobre uma promessa feita pelo tal do assassino, de que se ele encontrasse pela noite outros iguais por ali, provavelmente seriam rapidamente eliminados.

Bom, eu não era um criminoso, por isso não tinha nada a temer. De qualquer forma, sabia exatamente o que acontecera por ali e que, também por isso, tinha menos ainda a me preocupar.

De todos os assuntos que ali surgiam, apenas em um eu tinha interesse, o fato de que em um belo dia o Jack surgiria e tudo o que tinha a dizer era que agora entendia aquele pacto com o God.

Entendi claramente que sua equipe era muito ampla e todos faziam parte dela.

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Conflitos – Entre Jack e God – Capítulo7

Capítulo 7

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Resgate

Fechei meu escritório e fomos até o carro impressionante e importado do Jack. Pela quantidade de botões e luzes, aquilo parecia mais uma nave espacial.

Observando o painel maravilhoso lembrei quando comecei a estranhar de vez o Jack e suas contradições.

Foi naquele tempo que descobri que ele era um demônio.

Ele havia desaparecido com a Gilda, algo muito difícil naquela cidade pequena em que eu conhecia toda a malandragem. Era um enigma desconcertante e desanimador que destruía nossa felicidade em estarmos juntos, tanto que a pequenina Rebeca, não resistindo a perda da irmã querida, com uma depressão tremenda que a consumia visivelmente, a entristeceu de tal maneira que a matou em pouco tempo.

Eu estava desesperado e sem rumo, ainda não conhecia o Outro, por isso tinha dificuldades em fazer alguma reza, ou pedido, ou qualquer coisa que o valesse, para trazer paz para a Valquíria e para mim. Dependíamos um do outro, estávamos sós e desamparados.

Um dia, estava ao lado do Jack, no quintal da casa da Valquíria, quando ela trouxe uma vela e uma jarra cheia de água. Não sabíamos o que ela iria fazer, por isso, apenas permanecemos em silêncio.

Ela sentou-se em uma mesa de madeira, muito bem construída pelo ex-marido, que ficava ali no fundo de seu quintal, esticou uma toalha branca e ascendeu a vela igualmente branca que segurava junto a um pires transparente. Retirou de dentro de sua bolsa uma bíblia, esticou sua mão para mim e pediu que se juntasse a ela a uma reza que aprendera com sua avó.

Me sentei em silêncio e fechei os meus olhos, em forma de respeito, na seqüência, o que vi foi o Jack desesperado, como se tivesse visto o fantasma mais horroroso de sua vida, saindo correndo do quintal da Valquíria e se negando a entrar ali, para sempre.

Ela fez sua reza, eu acompanhei em silêncio me sentindo bastante incomodado, mas fiquei até o final, ou melhor, resisti bravamente, pois me sentia quente, dolorido e com uma vontade louca de acompanhar o Jack em sua fuga.

Quando acabou a reza, ela simplesmente pediu licença, apagou a vela, serviu o copo de água, que tomei aliviado, pois me proporcionou grande paz e serenidade. Ela, tomou o copo de uma vez e, sem dizer palavra sequer, fez que iria entrar para a casa novamente, resignada.

Achando estranho que ela não comentara nada sobre a reação que o Jack tivera, perguntei se ela não achou aquilo esquisito. Ela me olhou com uma cara de espanto, de quem não sabia do que eu estava falando e depois olhou ao redor, para o vazio, dizendo:

– Você estava aqui sozinho há horas e falava sozinho o tempo inteiro, como sempre, Marçal.

A princípio, achei esquisito o que ela me dissera e até desconfiei ser alguma piada, ou coisa do tipo.

Só perdi aquele sorrisinho bobo da cara quando percebi que ela estava bem lúcida e que não havia a menor dúvida em suas palavras, mesmo eu insistindo na presença dele por ali.

Não havia nenhum Jack comigo, como nunca houvera. Ninguém jamais o vira?!

– Como nunca houve? Eu te falei dele varias vezes e ele esteve aqui conosco, até saia com sua filha a Gilda.

– Não, Marçal! Você nunca me apresentou este rapaz e a Gilda nunca namorou ninguém com este nome. Ela nunca me apresentou este rapaz que você está falando.

Estava abismado com aquele assunto, até cheguei a duvidar da sanidade da Valquíria, mas ela me parecia tão indignada quanto eu, por isso, perturbado e assustado, com toda aquela história, como se fosse tudo uma grande loucura sem sentido, abri a porta e sai correndo em direção à minha casa com a intenção de encontrá-lo para saber o que significava tudo aquilo.

Ao chegar em casa, tive a estranha sensação de que tudo o que vivera, as aventuras com o Wilson e o Jack, na realidade, nunca acontecera de verdade, ou pelo menos, não tinha rastros de nada daquilo que havia deixado para trás há poucos meses.

A casa estava abandonada, mas não parecia com a bagunça que conhecera junto ao Jack e a galera, apenas aparentava com uma das últimas arrumações que meu pai havia feito.

Procurei o Jack, chamei pelo seu nome umas três vezes, até que cansei e muito assustado, não recebi nenhuma resposta… silêncio total!

Aquela parecia mais uma casa mal-assombrada e por alguns segundos tive medo, mas não medo pela casa abandonada, mas pelo tudo que não vivi por ali.

Por um segundo achei que estava doido, foi então que escutei, vindo do fundo do quintal, um choro.

Parecia uma criança se lamentando. Um pouco receoso, pois ainda estava assustado com o que acabara de viver, fui vagarosamente até o fundo do quintal e ali eu o pude ver.

Era uma criança debruçada em seus joelhos e encolhida no cantinho mais escuro, entre as árvores e o muro.

– Olá! Chamei sem saber de quem se tratava e ainda bastante receoso com tudo aquilo, me aproximei… vagarosamente.

– Olá, menino?! Quem é você? Perguntei já bem perto dele. Quando ia chamar pela terceira vez, vi que a criança se levantou rapidamente e para meu desespero, confirmei que se tratava do Jack, exatamente como quando eu o conhecera em minha infância, mas seu rosto transfigurava entre aquele menininho e um verdadeiro demônio.

Dei alguns passos para trás de susto, quase desmaiei, porém, tentei me controlar e perguntei:

– É você Jack? Falei e esperei que ele parasse de chorar, até que começou a rir e sua risada foi engrossando, assim como seu corpo foi se transformando até a idade que já tínhamos naqueles tempos.

Ele parou de rir, ficou em silêncio por alguns segundos e então, falou:

– Me desculpe, Mac!

Estava perplexo e sem reação, uma mistura de medo e agonia, por imaginar que talvez eu jamais tivesse vivido tudo o que imaginava ter vivido.

– Desde quando estou assim? Perguntei meio gaguejando e com lágrimas nos olhos.

– Desde o dia em que sua mãe morreu. Me respondeu sereno e com cara de arrependido.

– Então, aquelas aventuras, toda aquela gente, nada foi de verdade? Disse chorando, lembrando de minha mãe, meu pai, meu irmãozinho, as filhas da Valquíria.

– Foi verdade, aconteceu mesmo, mas não foi neste plano material. Você experimentou um plano paralelo, um lugar onde eu domino e dito as regras.

– Nem a moto que bati na cerca da Valquíria? Perguntei em prantos.

– Aquela moto foi um acidente, alguém encostou ela por aqui. Por algum motivo do destino, você teve acesso àquela moto e na confusão de suas realidades, com a ajuda de alguém, você a pegou emprestada e saiu sem mim. Creio que este foi o único momento em que descuidei de você. Exatamente quando perdi o controle de sua vida.

– Você não é uma boa pessoa. Creio que você nem mesmo seja uma pessoa – falava em um diálogo alucinado, como se estivesse sozinho naquela casa assustadora –, afinal, o que é você?

– Sou o que você chama de demônio, meu amigo… apenas um demônio!

Fiquei paralisado por alguns minutos, o observando e imaginando mil coisas. Tentava compreender aquela maluquice, em vão.

Depois disso, virei as costas para ele e saí em caminhada por alguns dias, sem rumo. Só não morri – mais uma vez –, mas desta vez de desgosto, pois a Valquíria foi atrás de mim de bicicleta, tendo me achado depois alguns bons quilômetros de distância, falando sozinho, sem parar para nada e em profunda depressão.

Ela teve muito trabalho comigo, mas graças as suas preces, amor e muito carinho, acabou ajudando a me recuperar e a fazer com que tivesse vontade de seguir adiante.

– Como se sente indo ao resgate de vidas humanas pela primeira vez?! Me perguntou com um tom aparentemente sincero.

­– Sinto que não tenho a menor chance e nem ideia do que vou fazer.

Ele riu de minha insegurança e em seguida estacionou seu carro, exatamente onde já havia algumas pessoas nos esperando.

Era um grupo de seis homens e uma mulher. Conversavam de forma desagradável, grosseira e sem respeito algum pelo Jack.

Parecia um assalto combinado, onde a vítima veio de bom grado para o seu fim.

Não estava cheio de fé e nem de certezas, mas como no meio daquela rua quase sem iluminação reconheci o Dirceu entre as pessoas, resolvi começar por ele.

– Dirceu, sei que parece bobagem, mas não vá com seus amigos! Você sabe que eles têm intenções maldosas com o Jack, nem sei como te dizer isto, mas talvez não seja uma boa para você. Acredite em mim, volte daqui e vá viver sua vida. Creia, vai ser muito melhor!

Ele começou a rir sem me dar muita atenção, apenas levantou discretamente sua camisa, onde havia um revólver, abaixou rapidamente – como se fosse um segredo entre a gente –, depois disse que só não iria em uma viagem daquela, se estivesse ficando muito doido.

– Seu amiguinho se entregou à Delivery para a gente. Como não aceitar algo tão fácil de possuir? Se liga, ele é o nosso docinho garantido!!! E riu de sua própria piada, como se tivera encontrado a maior graça do mundo.

Encostei no Jack e disse:

– Não creio que tenha alguma possibilidade de me sair bem nesta história.

O Jack, que se divertia com a alegria do grupo de marginais, apenas me abraçou e caindo na gargalhada falou:

– Acho que seus amiguinhos já querem partir! Abraçou o Dirceu, o mais animado do grupo e disse:

– Vamos lá, vamos rumo ao meu maravilhoso mundo especial! Vocês têm muito o que fazer nesta viagem.

O Dirceu deu uma piscadinha para mim, declarando que a viagem estava sendo iniciada.

– Vamos nos divertir demais com seu amigo!!!

Coloquei a mão na testa como um ato de desespero, porque estava sem ação, segurei firme para imaginar algum argumento que os convencessem do contrario, mas não me vinha nada que fosse suficientemente convincente.

Antes de dar a ordem de partida, Jack me olhou tranquilamente aguardando que eu dissesse algo mais, mas como levantei os ombros sem uma boa argumentação, ele abriu a porta de seu carro e chamou animado “seus novos amigos” para o inicio da viagem.

A garota, bastante animada, ainda perguntou antes de embarcar:

– Será que vai cabê nóis tudo?

Abaixei a cabeça dizendo:

– Com certeza, afinal ele é um demônio. Todos cabem na barca para o inferno!

Eles riram daquilo que acreditaram ser uma piada. Depois, o Gigante, aquele que aparentava ser o chefe, ordenou que eu também entrasse no carro, pois não queria testemunhas sobre o que iria acontecer por lá.

– Olhei espantado, pois não tinha a menor pretensão de fazer uma viagem com eles, ainda mais para onde eles iriam.

– Calma lá rapaz! Disse Jack educadamente ao Gigante! Não vamos estragar nossa aventura. Se ele não quiser ir, que fique por aqui!

O Gigante que sempre tinha um jeito estúpido e violento, deu um soco no peito do Jack e ordenou que eu também entrasse no carro, enquanto puxava uma arma cromada de sua cintura.

Olhei para o Jack, que parecia se divertir com a atitude rude do valentão, deu um sorriso satisfeito, quase uma gargalhada para mim, enquanto todos entravam afoitos no carro, depois me disse:

– Está vendo Mac?! Esses seres humanos gananciosos nunca aprendem.

– Chega de papo, seu otário… filho da puta! Entra no carro e dirige esta bosta! E você, seu merda… entra na porra do carro. Agora!

Apontou a arma para mim e fez que iria atirar, mas da escuridão das paredes do beco, um ser rápido e misterioso como uma sombra, pulou de surpresa sobre o malandro, o dominou facilmente e o jogou para dentro do carro.

Jack, apenas me fez uma reverência educada, como se acabássemos de ter uma luta de cavalheiros e depois entrou no carro, onde, aparentemente, todos estavam amarrados em algo gosmento como um chicle avermelhado.

– Vamos, crianças, vamos nos divertir e alegrar o titio aqui!!!

Vi horrorizado que do interior de seu carro, onde anteriormente eram apenas bancos de couro claro, agora parecia uma fornalha em brasa, ouvi um ótimo rock rolando solto e os gemidos sufocados de todos, em profundo desespero.

Assim, partiu a tal da barca para o inferno, com minha primeira e grande derrota.

Sinceramente, bastante frustrado, apenas desejava do futuro, caso tivesse que resgatar mais alguém, que eu tivesse argumentos melhores.

Virei em direção à minha casa, bastante pensativo. Porém, pela primeira vez, caminhei com calma, aproveitando a brisa fresca e com a certeza de que os principais criminosos daquela região não iriam incomodar aquele bairro nunca mais.

 

Conflitos – Entre Jack e God – Capítulo6

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Capítulo 6

Café dos infernos!

 

– Pensei que você não iria me dar o prazer de sua presença neste dia maravilhoso! Me cumprimentou com seu sorriso encantador.

– Pensei que havia dito algo sobre me dar um tempo?! Respondi no mesmo tom irônico.

– Um garoto espirituoso e de ótimo humor logo pela manhã? Estamos mudados?!

Ele sabia que meu humor era péssimo pela manhã e sempre seria, mas tenho que dar a mão à palmatória, ele sabia ser dissimulado. Porque nós dois estávamos cientes da situação à nossa volta, mas era óbvio que havia apenas uma pessoa naquele momento que realmente deveria se preocupar, no caso, eu.

Sentindo que o clima estava tenso, pois a rapaziada do mau tentava a todo custo ouvir nossa conversa, talvez para saber o nível de intimidade entre a gente, ou se falávamos de dinheiro ou qualquer coisa do gênero. Então, Jack brincou com o clima tenso, dizendo:

– O pessoal aqui está um pouco agitado, ou é impressão minha?

– Pois é! Será que, talvez, não seja porque você não tenha facilitado em nada até aqui, se exibindo deste jeito? Relógio de ouro, celular caro, carro importado do ano, roupa de bacana e pedido refinado no café da manhã? Isto, costuma instigar as imaginações. Respondi educadamente e muito controlado.

– As pessoas costumam exagerar as suas ganâncias! Que delícia, não é mesmo?! Respondeu apontando a entrada da padaria, como não se incomodasse com todos aqueles olhares sobre ele. Na verdade, ele adorava aquilo tudo.

– Não quero que você apareça mais por aqui. Tenho sido intimado por estes seus discípulos involuntários.

– Você chama estes larápios de quinta categoria de meus discípulos? Creio que você tenha esquecido o meu padrão! Sou muito melhor do que isso, apenas me divirto com as ambições mesquinhas e ruidosas destes porcos!!! São como bichinhos na gaiola, cheios de desejos, paixão e dor! Precisa ver seus olhinhos medrosos quando eu os convoco para me satisfazerem! Tão humano!!! E deu uma risada contida.

– Entendo, mas o que eu não compreendo é esta sua fissura por mim! Nunca entendi! Não sou do mau e nem planejo esta loucura para mim.

– Seu potencial me encanta, além de outras coisas, como por exemplo, o fato de sermos amigos! E amigo, para mim, é coisa séria. Disse com um leve sorriso no rosto, quase meigo.

– Já não somos amigos há muito tempo e nem vejo meios de voltarmos a ser. Você arrancou as melhores pessoas da minha vida, assim como quase arrancou as que tenho hoje!

– Confesso que sou assim, um pouco egoísta, faz parte da minha natureza. Fazer o que?

Ela dizia ser oito anos mais velha do que eu, mas tinha um jeito tão gracioso e acolhedor… maternal!

Aos poucos eu fui me recuperando e a cada dia que passava ficávamos mais íntimos, amigos e desejosos por nos conhecer melhor. Engraçado como a filha dela, – uma moça linda de rosto e bem-feita de corpo –, uma graça, com aproximadamente dezesseis anos, parecia apenas uma criança querida para mim.

Eu havia sumido com a moto do rapaz, mas como ele vivia mais drogado do que lúcido, creio que nem sequer percebera que eu havia desaparecido de casa há mais de uma semana. Acredito que nem mesmo o Wilson havia percebido a minha ausência.

Mas, havia uma figura que estava desesperada por saber de minha pessoa, alguém que armara todo o circo da minha vida e que não se conformava com meu desaparecimento sem sua autorização… esta figura sinistra era o Jack.

Disse-me logo depois que me achou, mais ou menos um mês após ao meu desaparecimento, que havia me procurado por todos os lugares e que estava indignado com meu desprezo em nem sequer tentar se comunicar.

Na realidade, meu desaparecimento tinha um propósito, pois logo que descobri aquela casa de ambiente familiar e aconchegante, senti uma vontade danada de nunca mais voltar para a minha vida de vagabundo junto àquelas pessoas viciadas.

O Jack pressentiu isso, mas supôs que, assim que eu retornasse para a nossa bagunça diária, aquela “tiazinha” seria automaticamente substituída, esquecida e enterrada em minha mente.

Eu ainda estava me recuperando do acidente,apesar de estar muito melhor, ainda sentia algumas dores de cabeça, além de grandes coceiras em minhas cicatrizações.

– Creio que seria muito bom se você ficasse um pouco mais conosco, Marçal! Assim poderíamos lhe ajudar com os cuidados em seu tratamento.

– Sim, Valquíria, se não for incomodo creio que seja mesmo uma boa ideia.

– Valquíria?! Me perguntou entre cara de nojo e riso contido, para o Jack minha paixão súbita era algo sem sentido algum, já que tínhamos em nossas aventuras, mulheres muito melhores, mais jovens e desejáveis do que aquela mulher malvestida, com sua saia abaixo dos joelhos e, – o pior de tudo –, mãe de duas filhas. Porém, diante de minha expressão de repreensão às suas criticas, apenas fingiu ter aceitado minha opinião.

Na quinta semana por ali naquela casa, – meu paraíso “secreto” –, estava completamente envolvido com a Valquíria e já me comportava como se fosse da família, acima de tudo, era feliz e útil naquele lar.

Como o Jack não se conformava com aquele meu relacionamento em que me enfiara sem sua aprovação, ele começou a agir para que eu não prosseguisse com minhas intenções… me firmar de vez naquele lar.

Eu estava irredutível, apaixonado e a Valquíria muito feliz comigo, parecendo nem perceber na existência do Jack. Foi assim que ele deve ter concluído que, tudo o que restava para ele eram as crianças. Algo que, se soubesse de seus planos, teria voltado para a minha casa no mesmo instante.

Não demorou muito para que ele seduzisse a jovem Gilda, o que me preocupou demais, pois ele se fingia apaixonado por ela, mas de alguma maneira, eu pressentia seus interesses malignos.

Conversei varias vezes com ele, para que não magoasse a menina e nem que fingisse gostar dela, caso aquilo não fosse verdadeiro. Porém, nem eu e muito menos a Valquíria teve palavras para convencer a jovem a não se iludir com as bagunças do mundo, evitar os perigos que algum galanteador parecia oferecer para ela, no caso, o experiente e sedutor Jack. Não que a Valquíria o conhecesse, mas sabia dos desejos da garota através do diário que ela escrevia sempre.

Em menos tempo do que se podia imaginar, ele havia destruído a infantilidade e a meiguice da jovem, que apesar de todo meu esforço, sucumbiu em vida degenerada, com drogas e sexo, até que um dia desapareceu para sempre, mesmo o Jack jurando que ele nada tinha nada a ver com as escolhas da menina.

Eu fiquei muito revoltado e exigi que ele a encontrasse, porque tinha certeza absoluta de que ele estava envolvido com o desaparecimento da jovem Gilda. Porém, ele apenas continuou negando seu envolvimento… e nada fez.

Foi um período bastante desesperador e triste em nossa casa. A alegria havia desaparecido junto com a menina.

A mais pequena sofreu demais com o afastamento da Gilda, o que não demorou muito para começar a ter reações estranhas sobre ela, até que doenças incontáveis a afligiram.

Me sentia culpado de alguma forma, mesmo não tendo provas suficientes de que o Jack estava por trás daquilo tudo.

Aquele sorriso encantador diante de mim mais uma vez, nem de longe denunciava o pilantra que ele sempre foi.

Se a malandragem soubesse o demônio que estava diante deles, com certeza, evitaria o contato e a aproximação. Não era o caso.

Nem mesmo comecei o meu café e na mesa ao lado sentou o Dirceu e aquele grandalhão, o possível chefe dos ladrões da região, ou qualquer coisa do gênero.

Sem grandes educações e nem boa postura, o Dirceu, que parecia ter tomado um banho pela primeira vez em sua vida, introduziu-se em nossa conversa:

– Olá Marçal! Que ótimo dia para um café da manhã, não é mesmo? Falou sem retirar o olho nos anéis, pulseiras e correntes de ouro que o Jack não fazia questão alguma de esconder. O Dirceu tinha reações estranhas, como a de algum bicho atraído por carne fresca, atitude muito similar ao seu companheiro de mesa e os outros mais distantes.

Se fosse alguma outra pessoa me acompanhando naquele café da manhã, teria sentido um desespero tremendo por nossa segurança, mas com o Jack era diferente, pois aquele bando de porcalhões não passavam de um punhado de sujeira na mesa ao lado, que só queriam espalhar ainda mais sujeira pelo mundo e o Jack os absorvia como um grande aspirador de pó. Deliciava-se!

Vi ele deixar aparecer por diversas vezes sua carteira recheada de dinheiro, cartões de crédito, além de algumas fotos onde aparecia cercado por mulheres lindas, em iates e mansões. Ele alimentava a ganância dos bandidos e os chamava de amigos, os trazendo o mais perto de sua intimidade.

– Poupe os rapazes do sofrimento, cheguei a apelar para o Jack, mas ele estava tão desejoso de seus novos escravos, quantos os otários pelo o que o Jack possuía. Era difícil dizer quem estava mais hipnotizado.

Jack, se passando por uma espécie de milionário inocente, seduziu todos os marginais ao dizer que havia gostado muito dos meus amigos e que voltaria à noite para levá-los a um passeio em uma de suas mansões na praia.

Bati a mão na testa e escorreguei até o queixo, e disse ao Jack: – Que coisa sem sentido! Uma armadilha de dar dó!

– As vezes me pergunto, por que o ser humano é tão ganancioso? Respondeu para mim, enquanto pagava o café no caixa e se retirava, sem antes deixar de “esquecer” a promessa de que voltaria naquela mesma noite para buscá-los.

– Espero que seu amigo volte mesmo, Marçal. Estaremos de olho em sua família, caso ele desapareça. Afirmou ameaçadoramente o gigante feioso, cheio de esperanças no golpe que iria dar.

Trabalhei bravamente durante toda a tarde até a entrada da noite, sem me distrair, pois sabia que o Jack voltaria, assim como havia prometido.

Era estranho como eu sabia que ele estava se aproximando, eu podia sentir no ar. Não sei se a temperatura aumentava, ou se era aquele gosto estranho na boca, como se tivesse acabado de tomar um copo de vinho. Era um sentimento semelhante ao medo, pois um arrepio subia em minhas costas, o ar parecia alterar entre o frio e o quente e de repente, lá estava ele… sentado na minha frente, mais uma vez.

– Vim buscar seus amiguinhos para passear. Quer vir comigo?

– Você sabe que não, porque me faz estas perguntas, Jack?

– Oras! Eles não vivem atormentando e roubando todos por aqui? Veja que estou fazendo um bem para humanidade, ou melhor, estou dando este presente.

– Sei como você é ótimo e sempre bem-intencionado. Não seria mais bonito dizer que você está arrastando mais um grupo para seu divertimento particular? Que está se aproveitando mais uma vez da inocência humana para se divertir?

– O que isso?!!! Você está sentindo pena destes desgraçados?! Deveria estar feliz, afinal, eles vão para um lugar onde eles são muito bem aceitos!

– Não me orgulho nem um pouco em saber para onde eles vão e, principalmente, não poder fazer nada em auxílio deles.

– Você precisa desapegar, Mac! Já que agora você está todo santo, imagine que eu sou um dos instrumentos que faz com que pessoas, como estes seus inocentes amiguinhos, possam se arrepender de suas bobagens e ter um futuro melhor.

– Imagino os instrumentos terríveis que você utilizará neles para esta catequização… péssimo! Respondi indignado pela falta de amor ao próximo com que ele conduzia a vida.

– Ok! Já que você se acha o salvador das almas, o escolhido, vou lhe dar uma oportunidade. Vamos fazer o seguinte, você acha que não devo levá-los para o meu mundo, mesmo nós dois sabendo que é exatamente o que eles merecem já que não passam de assassinos, ladrões, estupradores e gente da pior espécie.

– Vou mostrar que também posso ser generoso. A coisa é muito simples, vá comigo ao encontro deles e se você os convencer do contrario, de não entrarem em meu carro, prometo que não os carrego para a minha festinha.

Olhei em seus olhos brilhantes, cores claras, lúcidas e sorri, já que aquela era, mesmo, uma proposta sem sentido.

– Ok, deixa ver se entendi. O desafio é convence-los a não seguirem viagem com você?

Aquilo era tão estranho que acabamos rindo um para o outro – como nos velhos tempos –, e depois fizemos uns minutinhos de silêncio.

– Com qual argumento eu os convencerei? Afinal, não é você o rei da trapaça? Mesmo porque, é óbvio que eles devem estar armados, drogados e alucinando em qual maneira irão retirar todo o seu dinheiro, bens e, lógico, imaginando em qual maneira irão matá-lo.

– Foi o que eu disse, “gente do mau… vira mingau!!!!”. Respondeu Jack, se divertindo com a situação.

Ok! Vamos tentar salvar a alma destes idiotas! Afinal, não tenho mesmo o pacto com o Outro? Já “tá aceitado”.

– Não precisa me lembrar disto, porque nada é definitivo! Fecha a espelunca e vamos embora!

– Escritório, por favor!!! Respeite meu ambiente de trabalho. Disse enquanto desligava meu computador e me preparava para tentar fazer meu primeiro resgate em nome do God!

Conflitos – Entre Jack e God – Capítulo5

Cópia de Capa-Conflitos-JackGod

Colocou de novo o charuto na boca e, depois de uma baforada desagradável, respondeu:
– É hora de mudar e você vai me ajudar!

 

Capítulo 5

Intimado

 

Mais uma noite mal dormida e novamente iria começar o meu dia com poucas palavras e muito sono.

Tentei puxar um assunto qualquer com minha filha, mas rapidamente fui interrompido com alguma grosseria sem sentido e uma cara de poucos amigos. Esta tinha herdado todo o meu humor de poucos amigos. Parecia uma copia de mim mesmo, quando eu tinha a idade dela. Não, creio que um pouco mais insuportável!

Vendo que eu poderia acabar mais irritado do que deveria, voltei ao meu silêncio habitual e deixei aquela tentativa de um diálogo descente para uma outra hora.

Como pode uma menina ser tão parecida comigo? Ela podia ter puxado a graciosidade e a alegria da mãe, mas a genética parecia ter outros planos para o emocional dela. O que fisicamente tinha da mãe, psicologicamente tinha de mim, por isto, seguimos adiante em igual silêncio e “alegria”.

Cheguei mais cedo do que o esperado em meu trabalho, mas com a fome de sempre.

Por precaução, achei melhor não ir para a padaria, assim, evitaria os marginais e o Jack, mas um corpo viciado era um corpo viciado, precisava de café.

Pensando bem, eu já estava colaborando com eles. Precisavam de minhas informações e medo de cara feia não era a minha, já tinha passado desta fase da vida há muito tempo.

Diga-se de passagem, não era a primeira vez que via a coisa feia assim, bem de perto.

Lembrei de uma visita inesperada, mas daquela vez não foi a do Jack e sim de seu maior rival.

Eu estava brigado com o Jack há muito tempo, mesmo com ele me cercando quase todos os dias.

Era uma tarde preguiçosa e sem grandes planos, o carro que surgira repentinamente do outro lado da rua, parou a poucos centímetros de mim, espirrando uma poça de água da chuva que havia caído torrencialmente no dia anterior.

Resmunguei para mim mesmo alguma coisa e até pensei em reclamar, me exaltar, contrariando a minha natureza habitual, um cara discreto e observador diante das pessoas e acontecimentos, mas quando vi a figura que descia do automóvel, apenas me resignei em fechar o rosto, encostar novamente no muro onde estava e continuar em meu silêncio, exatamente como estava.

Antes de ver o motorista por inteiro, quando a porta do carro se abriu, um bloco de fumaça escapou de dentro do veículo e, só então, pude ver o sujeito que pilotava aquela “barca”.

Um “armário” tatuado, de roupas surradas, de olhos pequenos e avermelhados. No seu braço gigantesco, de quem sabe o que é carregar peso e socar a cara de um idiota, surgiu, graças a sua camisa sem mangas, um belo motivo pelo qual me fez abaixar a cabeça e desviar os olhos, mas mesmo de relance, podia-se ler em letras grandes, no estilo gótico, mas muito bem legíveis: Encrenca!

Ele parou ao lado de seu carro, muito próximo de mim e erguendo um charuto entre seus dedos lotados de anéis, respirou fundo, enquanto retirava o isqueiro do bolso. Senti que ele me encarou e, só então, o reacendeu, continuando com sua fábrica particular de fumaça. Em seguida, colocou um óculos escuros, cobrindo seus olhos ameaçadores, ajeitou o chapéu de abas curtas e deu uma forte tragada.

Sabe quando você sabe que se deu mal? Quando você sabe que está em um péssimo lugar, mas também tem consciência de que se fizer um mínimo movimento vai ser pior ainda? Eu estava exatamente nesta posição e daria tudo para alguém me chamar ou para que qualquer coisa acontecesse e me retirasse daquela situação, mas eu não podia fazer nada… apenas aguardei o que o destino me reservava!

– No que você se apega? Começou um diálogo comigo, o monstrão de uns dois metros de altura, o “Sr. Encrenca”, como o apelidara “carinhosamente”, no instante em que o vira de frente.

Ali estava eu, com meus humildes 1,74 de altura e ciente da bobagem que estava fazendo, ao dar atenção. O encarei soltando um “desafiador”: – Pois não? Ele, talvez percebendo o meu medo… Não! O meu”cagaço”, esboçou um sorrisinho cínico, deixando à mostra seus dentes de ouro. Então, retirou o charuto da boca, deu uma cusparada no chão e aproximou-se ainda mais. Me olhou por cima dos seus óculos e, vagarosamente, repetiu a frase com sua voz de gigante, como se falasse com um burro, um asno ignorante:

– No que você se apega?

Me senti a menor das criaturas, um menino chorão, perdido, incerto da resposta adequada, e respondi:

– Depende… qual é a situação?

– A pior possível! Ele respondeu – quase antes mesmo de eu terminar a minha frase –, como se soubesse o que eu iria dizer!

– Do que você está falando?

Demonstrando pouca paciência, ele colocou de novo o charuto na boca e depois de uma baforada desagradável, respondeu:

– É hora de mudar e você vai me ajudar!

– Mudar o que? Ajudar a você fazer o que?

– Fica esperto, moleque! Este foi apenas o seu primeiro sinal. Pegou o charuto da boca, quase na brasa, apagou no muro em que eu estava encostado e finalizou:

– Agora você já sabe que estou por aí. Você faz parte de uma equipe e quando eu voltar, apenas faça a sua parte.

Sem entender nada, perguntei confuso:

– Minha parte? O que eu tenho que fazer?

Ele me olhou com desprezo, abriu novamente a porta de seu automóvel e enquanto foi entrando respondeu:

– O que eu mandar!

– Mas quem é você? Perguntei abismado diante daquela intimação.

Ele apontou para a traseira de seu carro, fechou a porta e foi embora, acelerando seu carro indescritível… escandalosamente.

Da escuridão do vidro traseiro de seu carro eu pude ler o adesivo:

God!

Aquela foi uma experiência estranha e amedrontadora, mais do que as piores aparições que já havia presenciado.

Me perguntava de quem se tratava aquela figura grosseira e estúpida?

God! God é Deus em inglês, mas como poderia sê-lo já que o cara era um troglodita?! Fiquei muito confuso, mas também bastante impressionado. Quanto poder e autoridade tinha aquela pessoa!!! Por que me intimou para sua equipe e que equipe era aquela? Eu não era um santo, nem um anjo e nada no estilo, se ele realmente fosse Deus, porque havia me incluído em uma equipe como a dele?

Pensei que talvez ele fosse parte da equipe de Deus e não propriamente Ele. Mas, seja Ele quem fosse, me impressionou e me fez questionar à respeito da existência divina e que talvez não fosse assim tão alheia, como o Jack sempre fez questão de exaltar.

Aquela figura era impressionantemente superior e muito mais cheia de energia e poder do que o Jack. E olha que o Jack esbanjava energia e vitalidade.

God! Como alguém tão monstruoso como aquele individuo poderia ser a representação de Deus? Tudo bem que eu não era um especialista no assunto, mas Ele não tinha o aspecto de um ser divino, pelo menos, não nos padrões da igreja. Talvez, Ele quisesse me impressionar, chamar a minha atenção.

Eu acabara de ser intimado e mais uma vez estava sem uma segunda opção, como se a minha opinião pouco valesse para eles, os seres invisíveis.

Não disse que havia aceitado, nem tampouco neguei sua ordem, apenas me calei, até em pensamento, pois minha mente estava fervilhando diante daquela aparição imponente.

Lembrei de minha mãe, da forma carinhosa com que ela rezava em seus momentos de orações e como meu pai falava Dele de maneira tão simples e educada, esbanjando doçura e respeito. Sim! Respeito aquela aparição transmitia em excesso e em nada se parecia com o que se dizia por aí.

Fui para a padaria sem medo, mas atento com as esquinas e becos movimentados. Como aquela área podia ter acumulado tantos infelizes? Como aquela escória acabara sendo parte ativa daquele bairro? Não via a menor possibilidade de mudança, nem por parte daquele povo e nem do governo a respeito de tanta miséria.

Engraçado que aquele estilo de vida fazia parte constante de nosso dia-a-dia. E não era apenas ali que a coisa estava assim, a marginalidade e bandidagem já era uma realidade, algo incrustado em nossa história moderna. Postura desagradável, ações zombeteiras e músicas de péssima qualidade, quem diria que eu ainda iria achar o comportamento humano um lixo?

Lembrava do meu antigo bairro e como igualmente havia se transformado em uma zona perigosa, uma periferia pesada e desumana. Amontoado de casas mal planejadas, sobrados sem acabamentos, pessoas de todas as regiões, empurradas para a periferia, convivendo e aprendendo milhares de costumes e culturas, apertadas, socadas em uma única área. Um planejamento mal planejado que só poderia se transformar em uma tragédia social, tal qual se apresentava na atualidade.

Hoje, eu não vivo por lá, mas lamento no que minha terra natal se transformou, como também lamentava no que o bairro onde estava vivendo havia se tornado. Me sentia indignado como tudo parecia ser conduzido de maneira egoísta e sem respeito. Como lugares lindos pareciam ser destruídos pelo homem. Onde as ocupações seguiam aceleradas e que o estilo miserável parecia se tornar o estilo predominante por ali. Nem me refiro à pobreza em si, pois estava passando os meus sufocos, mas ao mau caráter.

Não me surpreendi ao dar de cara com o Jack me aguardando na porta da padaria e muito menos ainda ao ver que a malandragem estava igualmente presente para mais um “delicioso” café da manhã.

Como o Jack era insistente e sem noção, sempre gostou de uma boa encrenca, não que isto poderia ser diferente, mas ele podia pelo menos me poupar da chatice de ter que convencer os envolvidos em suas maracutaias, já que eu não tinha nada a ver com os assuntos dele.

Torcia para que ele entendesse de que já não era seu parceiro e que passamos a ser apenas conhecidos distantes e não amigos íntimos. Bastava ver minhas condições financeiras para se ter certeza absoluta disto.

Ia me aproximando dele e enxergando, através da visão periférica o burburinho da malandragem, o reboliço que o safado do boa pinta causava. Conforme eu me aproximava, o sorriso do Jack aumentava e as caras em volta se fechavam, como se o ódio se instalasse ao redor.

Jack adorava aquele clima de excitação e intolerância por perto, o caos soava como música aos seus ouvidos. E no meio disto tudo… eu!  Um homem envelhecido, cheios de dores, traumas e completamente indefeso.

Definitivamente, o sorriso do Jack não condizia em nada com nossas conversas anteriores.

Ainda me lembrava de sua primeira aparição, depois de anos distantes um do outro.

Já era tarde da noite e eu estava muito entretido em meu trabalho, que quase como sempre, estava com o prazo apertado e tinha que ser entregue com urgência.

Ele entrou na minha sala sem pedir licença, mexeu nos objetos, arrumou um quadro na parede, alegando ironicamente que aquilo dava azar e depois sentou na cadeira bem na frente da minha mesa.

Já conhecia aquele sorriso… puro sarcasmo.

– Passando dificuldades? Disse me encarando.

Vestia um terno impecável, anéis de ouro e um óculos escuros… tudo na estica.

Olhei meio puto, mas me mantive em silêncio.

Folgado como sempre, colocou os pés sobre minha mesa sem se importar com minhas reclamações, afinal, para ele, minhas vontades não contavam.

– Ainda sozinho? Disse em tom arrogante.

– Qualé? Tá achando que a vida é fácil? Dizia convicto de suas palavras – Vamos lá, se entrega. Você é um cara sozinho e está ferrado… se entrega!

Fez cara de quem compreendia uma dor. Na real, ele compreendia mesmo, já que era o dono dela… o criador e administrador!

Puxou um charuto do bolso, exatamente como O do carro indescritível – por quem fui intimado e que tinha vindo me procura há poucos dias –, mas não acendeu, apenas ficou cheirando e brincando entre os dedos, enquanto sorria para mim. Suas roupas perfeitas de tons preto e vermelho, eram mesmo incríveis. O cara tinha bom gosto, impecável, assim como quase tudo o que ele possuía. Mulheres, carros, bebidas e toda a orgia que qualquer ser humano poderia desejar.

– O que foi? Continuou tentando me intimar, assim como seu “Rival”, – Vai continuar nesta merda? Não vai dizer que vim aqui para perder meu tempo? Eu sou muito ocupado, Mac! Não tenho tempo a perder!!! Pensa bem, você está ficando velho, daqui a pouco não vai mais aguentar trabalhar e ninguém vai te dar esta oportunidade que estou te dando.

Continuei em silêncio, enquanto ele empurrava em minha mente todos os meus medos escondidos.

Muita coisa rodava em minha mente, mesmo os que eu pensei já ter superado e até os que nunca consegui.

Senti um frio na barriga, minha energia caiu e a insegurança tomou conta! Meus braços ficaram sem força e, em pleno verão tropical, surgiu um frio horrível, mas de dentro para fora, daqueles dos que estão a beira do abismo. Este frio tomou todo o meu corpo e parecia o fim da linha. Aquilo era um sentimento que eu quase desconhecia, o tal do medo do fim. O medo dos que estão a um passo de serem derrotados… massacrados!!!

Minha respiração estava forte e eu estava assustado, mas ele apenas sorria e dizia com sua voz mansa e amiga, enquanto esticava a mão calejada de quem já bateu muito:

– Você é sozinho, vem comigo. Ainda dá tempo e eu posso te ajudar!!!

Como ele não tinha a resposta que desejava, para fazer uma pressão em mim e acelerar minha escolha, pois ele tinha mesmo uma chance comigo, se ergueu da cadeira onde estava reclamando do desconforto. Levantou o braço e estalou os dedos, então, elas entraram em minha sala como cachorrinhas treinadas. Lindas, sedutoras, fáceis e muito sensuais… com a malícia das cobras.

Se tivesse juízo me entregaria e envolveria, me jogava de cabeça, afinal, o que tinha a perder? Eu não era mesmo um cara sozinho? Quem era por mim?

Eu carregava a família, eles precisavam de mim e isto fazia toda a diferença naquele momento, senão teria pirado.

Lembrei do Outro dizendo: – Você está intimado!

– Porra! Eu sou apenas um cara comum, um ser humano qualquer, com direito a toda a humanidade que me é de direito. Sou o pacote completo das dúvidas e incertezas! Bosta! A revolta fervilhava em minha mente.

Diante de mim a facilidade, bastava aceitar o acordo, uma palavrinha e já era… tudo mudava! Um simples “SIM” e a história era outra!!!

Fechei os olhos com força, me irritei e me culpei! Sabia que era uma armadilha, sabia que estava ficando velho e sabia ainda mais que minha família iria sofrer com a minha escolha.

Estava entre a fortuna e o incerto mais uma vez. Como isso dói, irrita e faz a gente tremer!

Eu continuava com os olhos bem fechados, tentando fugir das imagens de miséria e dor que ele me impunha! O pilantra era bom nisso e eu até suava de medo. Um suor gelado, como nunca aconteceu em minha vida!

Fui ficando cada vez mais irritado, cada vez mais amedrontado. Abri os olhos e ele deu uma piscadinha de quem sabia a minha dor, o meu medo! Porém, o que ele havia esquecido é que eu odeio ser acuado e confiava na força do Outro.

Tinha quer ser forte e corajoso e ali, tinha que confiar mais uma vez, mesmo sem ter certeza.

Levantei da cadeira e com a voz rouca de quem passara muito tempo sozinho e em silêncio, gritei:

– Some daqui seu filho da puta! As meninas sumiram imediatamente, respeitavam a minha energia poderosa. Joguei a primeira coisa que estava próximo da minha mão e vi o telefone espatifar na parede, atravessando seu corpo feito de ilusão, de mentiras, de nada, como suas promessas vazias!

Antes de sumir, vi seu rosto distorcido me olhar com ódio e  com desaprovação!

Se estava ferrado, pelo menos que fosse só aquela vida e não para sempre!

Ali, enfim, firmei meu pacto com o criador:

aí! Agora eu sou mesmo da sua equipe… “tá aceitado”, God!!!

Sentei na cadeira mais uma vez – muito enjoado –, e fui controlando minha respiração, até me acalmar.

Ri do meu “tá aceitado”. Aquela era uma expressão muito usada entre o Jack e eu, quando éramos pequenos. Quando surgia um desafio, riamos um para o outro e dizíamos: “Tá aceitado!!!”

Não houveram grandes mudanças após eu ter aceitado a intimação do God, apenas não havia sido mais cercado pelo Jack, até aqueles dias.

Cansado e esperançoso, fiquei aguardando novos rumos.

Conflitos – Entre Jack e God – Capítulo4

Capítulo 4

Devaneios

 

A presença do Jack nunca fora anúncio de tranquilidade e sossego. Desta vez, não seria diferente.

Só o fato dele aparecer por ali, em alto estilo, transpirando elegância e fortuna, já não era boa coisa. Os pilantras da pior espécie ficaram todos instigados para saber de quem se tratava aquela figura, o que me custou vários tipos de desculpas esfarrapadas na tentativa vã para que não passassem a me seguir, perturbar minha vida e a da minha família.

Naquele dia trabalhei preocupado em como seria a minha volta para casa, pois a imagem poderosa e exuberante de quem tinha muito dinheiro, a que o Jack demonstrara, aguçou bastante a imaginação da bandidagem.

Acelerei meus trabalhos e mesmo não podendo, acabei não dando prosseguimento até mais tarde, apenas desliguei minha máquina mais cedo e saí antes que anoitecesse.

Andei pelas ruas do meu bairro me sentindo um alvo, a mira de todos os pilantras afoitos para saber de quem se tratava o cidadão que exalava riqueza pela nossa área.

Sabia que estava encrencado, mas só não sabia o quanto. Tranquei rapidamente meu escritório e fui preocupado para a rua, com a intenção de “voar” para minha casa, mas não demorou muito até que minha caminhada fosse interrompida por um daqueles “donos” da área.

– Agora, você está trazendo os riquinhos para nosso bairro? Gostei de ver! Disse uma voz, que vinha de uma daquelas inevitáveis vielas pouco iluminadas, onde teria que atravessar.

– Aí Marçal! Desta vez não tem jeito! Meus brothers querem detalhes do seu amigo e se eu fosse você colaboraria, afinal, ninguém quer machucar sua família! Saiu de trás do fortão que me abordara primeiro, o magrela do Dirceu!

– Dirceu! O que posso dizer daquele sujeito? Se vocês se acham ruins, posso afirmar que ele é bem pior! Acreditem em mim, o cara é o próprio mau encarnado! Não é uma boa ideia mexer com ele. Tentei ser o mais claro possível em relação ao quanto o meu “amigo” era ruim, talvez, daquela maneira, eles entenderiam que, sendo o Jack um igual a eles, me deixariam passar em paz. Porém, minha descrição apenas aguçou o interesse daquele grupo que viera me recepcionar.

– Qual é Marçal, você quer que a rapaziada acredite nesse seu papinho? Que seu amiguinho não é um ricaço cheio da grana? Os cara não são otários! E podem ficar bem nervosos com você!

Senti um medo muito grande pela segurança de minha família e por mim mesmo, mas o que eu poderia dizer, senão a verdade? Afinal, o Jack era realmente do mau e ao contrario do que um dia imaginei, ele não era nada imaginário.

Eu estava no auge da minha juventude, me sentia muito bem fisicamente e andava curtindo o máximo que podia. Naquela época já não tinha tantas dores de consciência e nem preocupações, mas ainda sentia uma solidão, uma vontade de ter alguém a quem pudesse cuidar e, assim, me apaixonar. O que eu não sabia era que o Jack não tinha esta mesma intenção para mim, por isto, qualquer garota que eu me envolvia, ele logo dava um jeito de retirá-la do meu caminho.

Foi dentro deste clima de incertezas e muita adrenalina que, em um dia quente de verão, onde eu passeava sozinho com uma moto pelas ruas vazias e silenciosas nas redondezas do meu bairro, fui surpreendido por um encontro inesperado.

A moto era de uma daquelas varias pessoas que frequentavam a minha casa, estava encantado com ela, com a liberdade que ela parecia me dar, com o vento gostoso que batia em meu corpo, com a proximidade com o mundo, uma interação com o ambiente tão diferente de um carro.

Quando já estava a uma certa distância, provavelmente por falta de habilidade, fiz uma curva errada e acertei em cheio uma cerca baixa de madeira, acabando o arremesso na varanda de uma casa pequena, muito simples, de quintal largo, onde galinhas, cachorros e uma quantidade razoável de brinquedos rolaram junto comigo.

A princípio, não sentindo nada, juntei minhas forças para me erguer e tentar levantar a moto, mas creio que o susto, mais a batida e o esforço de levantá-la, que estava com o garfo torto, foram a combinação perfeita para um desmaio inesperado. Antes de cair, lembro-me de ter visto uma bela garota, com um rosto angelical, de olhos grandes e brilhantes se aproximar de mim. Porém, muito assustada.

Ela veio de encontro a mim, para me ajudar a deitar no chão. Fui caindo amparado por ela, como se o mundo fosse se desligando e a imagem de seu rostinho, tão lindo, fosse ficando em foco principal. Parecia que o mundo ao lado perdia a cor, som e qualquer outro sentido… até que desliguei por completo.

Disseram que apaguei por algumas horas, onde a família toda daquela casa ficou em verdadeira polvorosa. Tinham ali, um visitante misterioso, ferido, todo ensanguentado, que chegara de forma surpreendente, mas sem saberem de quem se tratava, nem como ajudar, afinal, não era um lugar onde se podia contar com médicos, hospitais e estas coisas com grande facilidade, ainda mais para uma família simples e sem nenhum automóvel, apenas me vigiavam espantados.

Acordei com um pano sujo de sangue na cabeça, sem camisa, pois havia ralado todo o meu braço direito, com a calça rasgada até a coxa, pois minha perna também estava toda ralada e uma dor forte de cabeça, mas aparentemente sem ter quebrado nenhuma parte do corpo.

Estava deitado no sofá da casa e uma jovem senhora de seus quase trinta anos, uma criança muito loira e uma belíssima jovem me observavam atentamente, como se eu fosse alguma espécie de assombração.

Na primeira tentativa de me mover senti uma fisgada nas costas e ao mesmo tempo nos ferimentos, onde tive a sensação de que minha pele estava toda esticada, talvez por causa do sangue ressecado, mas o que, de fato, realmente as surpreendeu, não foram meus machucados, ou por eu dar sinal de vida, mas os palavrões cabeludos que soltava a cada tentativa de me movimentar, com a naturalidade de quem diz um bom dia, ou coisa parecida.

Coloquei a mão na testa e nem dei conta de que minhas maneiras eram grosseiras e completamente fora do padrão de educação daquele povo, apenas reclamava e xingava como quem sempre falara naquele tom, sem repreensões e arrependimentos. Como se diz por aí: soltava o verbo.

Aquela, diante do meu “calvário”, era a família completa. O marido já havia falecido há um certo tempo e aquelas três figuras femininas eram as únicas habitantes daquelas paragens.

– Calma moço! Tenha calma! Você caiu de sua moto, mas parece não ter quebrado nenhuma parte de seu corpo. Se eu fosse você ficaria bem quietinho e iria se recuperando devagar. Disse a mãe de todas, com os olhos ainda arregalados de medo, mas graças a sua posição na família, sentia-se na obrigação de tomar a liderança naquela situação atípica em suas vidas.

A mulher se aproximou e disse insistentemente para que eu permanecesse calmo e continuasse deitado, pois como havia batido a cabeça, talvez sentisse muitas tonturas. Ela tinha razão, pois eu me sentia bastante desnorteado, como nunca estivera antes, além de uma grande sede, o que ela deixara claro que eu não poderia tomar, pois naquela situação em que me encontrava, já que não sabíamos se eu estava com alguma lesão maior e não que podíamos saber, já que poderia estar com uma hemorragia interna, ou coisa do tipo.

Ao vê-la de perto se explicando e tentando me confortar, pude perceber o quanto era linda e que não era uma menina quem havia prestado socorro, quando eu desmaiara, mas uma mulher forte, madura e de fisionomias muito delicadas, possuidora de uma beleza rara.

Eu acabara de fazer vinte anos e me sentia um homem forte e esperto. Esperto o suficiente para saber que havia me apaixonado logo que a vi, ali, tão perto de mim. Pela primeira vez em minha vida, conhecera alguém que me parecia perfeita, pura de coração e que ninguém me apresentara, apenas o destino havia me concebido aquela graça.

Soube no momento em que a vi, bem pertinho, que aquela era a mulher da minha vida e que tinha que tê-la para mim. Sim, ter uma mulher era a única coisa que queria fazer, pois conquistar sozinho eu nunca havia conseguido, mesmo com toda a experiência que havia adquirido, nunca precisara argumentar, ou me esforçar demais para ter alguém, apenas precisava querer ficar com alguma daquelas meninas que surgiam em minha casa e tudo estava feito.

Eu estava dentro de um mundo muito diferente do qual estava acostumado, aquele ambiente confortável, silencioso e limpo, realmente era algo que já não via há alguns longos anos e estava impressionado, ou melhor, estava apaixonado por tudo aquilo, queria do fundo do meu coração conhecer um pouco mais sobre aquelas pessoas e o mundo simples, aconchegante e cheio de amor que vivenciavam.

– Ei! Otário!!! Você está viajando, ou o que? Fui interrompido de meus pensamentos por aquele brutamontes agressivo e tatuado, com um olhar quase tão assustador quanto o do Jack, quando ficava furioso.

Aproximou-se tão violentamente e decidido, que me derrubou no chão. No passado, aquilo seria inadmissível e muito provavelmente seria o começo de uma pancadaria sem fim, mas já não era mais o caso, não tinha a mesma força física e nem o mesmo ódio de outros tempos. Eu estava mais para uma pessoa pacífica e sem grandes impulsos agressivos, na realidade, nem mesmo conseguia entender porque as pessoas perdiam tanto tempo com tanta ambição e ganância.

Tudo indicava que aquele momento iria ser o começo de uma surra invejável, mas para a minha surpresa o Dirceu interveio, se colocando entre meu oponente e eu, dizendo que não valia a pena me agredir e que de qualquer forma ele iria saber mais sobre o endinheirado, pois ele tinha certeza de que eu iria colaborar.

– Melhor que colabore, mesmo! Amanhã, quero todas as informações sobre o playboy e que se você, Dirceu, não conseguir as informações, eu as arranco deste tiozinho na porrada! Disse erguendo seu braço forte enquanto fechava sua mão, com um soco inglês reluzente entre os dedos.

Do jeito que surgiu, o gigante se foi, mas para meu desespero, sabia que iria voltar.

O Dirceu me ajudou a levantar e ainda teve a “bondade” de recolher alguns papéis que saltaram de minha bolsa, com o encontrão que seu amigo me dera.

– Marçal! Que papo é esse do cara ser do mau? Rapaz, o mau aqui só tem um e acabou de te dar uma sacudida!! Entendeu?

Balancei a cabeça desorientado e envergonhado, eu já não era aquele moço cheio de si e nem sequer aguentava uma encrenca daquelas. Tinha que inventar um histórico mais humano para o Jack, algo que convencesse a bandidagem da minha área.

– Ele é um cliente! Comecei a inventar um personagem mais convincente para o Jack – Não costuma frequentar nosso bairro, mas vou me informar um pouco mais sobre ele e trago aos detalhes.

– Tá vendo? Tá vendo agora, como você entendeu o jogo?! É isto Marçal, nada pessoal, apenas algumas poucas informações e tudo vai ficar bem!!! Tá ligado? Me respondeu o alegre e horroroso Dirceu.

Ele se afastou para dentro das casinhas escuras, abandonadas há anos e eu prossegui meu caminho para minha casa.

Cheguei cedo em casa e fui recebido com a alegria de sempre pelo meu filhinho. Apenas tentei não transmitir minhas duvidas e incertezas, pois estas, eram imensas.

Na realidade, não estava preocupado com a bandidagem, mas o que iria acontecer quando o Jack fosse abordado por eles. Um demônio é sempre um demônio, bondade não era o seu forte, muito menos o perdão.

Aqueles pobres diabos nem imaginavam o quanto estavam se metendo em encrenca e, o pior de tudo, eram o tipo de gente que o Jack adorava enganar e colocar no meu caminho para me perturbar.

Primeiro pensei em fugir, depois imaginei que seria um gasto que não conseguiria bancar, pois mudanças eram bem caras para meu atual estado financeiro. Eu sabia bem o custo daquilo, afinal, havia me mudado para aquele bairro com minha mulher há quinze anos atrás e tinha consciência da dificuldade que passamos. Ironicamente, procurava sossego e uma vida nova, mas deveria saber que não iria adiantar nada, ele me encontraria facilmente. Mesmo porque, se tivesse que encarar uma bandidagem sem escrúpulos, como sempre me vi, com as ciladas do Jack, que fosse essa que já conhecia, pelo menos, não teria um gasto maior no orçamento.

Conflitos – Entre Jack e God – Capítulo3

Capítulo 3

Cobrança

 

Nunca havia vivido momentos tão tristes e sem esperança como aqueles que passara, o pior de tudo era que minha decadência moral ainda estava apenas começando.

Eu havia me largado na bagunça do mundo junto ao meu melhor amigo, Jack. E sem prestar atenção, não apenas havia abandonado minha mãe e meu irmãozinho, como estava fazendo o mesmo com o meu querido pai.

Ele não tinha voz para brigar com ninguém e nem sequer percebia meu distanciamento, ou não parecia perceber. Naquela vida simples, de trabalho difícil e constante, nunca me cobrava para que eu parasse por mais tempo em casa. Enquanto isso, eu praticamente dormia e vivia na casa de meus amigos, passando dias e dias sem vê-lo.

As vezes nos encontrávamos em casa, quando eu aparecia por lá, mas geralmente já era tão tarde que ele quase nem tinha forças para conversar. Apenas me dava um abraço carinhoso – como era seu jeito de ser –, e muito exausto ia se deitar. Acordava apenas no dia seguinte, ainda muito cedo – antes mesmo do galo cantar –, para voltar ao trabalho.

Trabalho pesado, coisa de peão – como ele mesmo explicava –. sobre seu emprego altamente desgastante. Porém, o que eu não sabia, era que ele estava bastante cansado, triste com a perda de minha mãe e do meu irmãozinho, coisa que o corroía por dentro.

Em poucos meses ele já havia envelhecido mais do que os últimos anos de sua vida.

Foi naquele ritmo doido de trabalho, cansado, deprimido e esgotado, que uma pneumonia o dominou e em pouco tempo também não aguentou.

Faleceu em profunda solidão, distante dos meus olhos de filho desinteressado e egoísta.

Nem sequer participei de seu velório e enterro. Não estava presente, nem nunca estive.

Merecidamente, me vi sozinho no mundo, ou melhor, quase sozinho, pois sabia que podia culpá-lo de tudo, menos de desprezível, porque o Jack jamais me abandonara, ele sempre esteve por perto.

Durante todo aquele período, depois que minha família partiu, eu nunca fiquei sem a presença dele. Éramos unidos para tudo, o que muitas vezes pensava se aquilo era bom para mim, mas tinha consciência de que não existia outra maneira de ser, afinal, tínhamos o tal do pacto. Algo que ele nunca me deixava esquecer.

Eu não tinha emprego e nem um tipo de renda financeira, mas nunca me faltava nada. Pensava que tinha sorte de ter o Jack e aqueles amigos ricos que sempre traziam tudo o que precisava.

Na verdade, passei a ter um padrão de vida ainda melhor do que aquele em que eu tinha junto aos meus pais, pois como minha casa passou a ser o ponto de encontro do pessoal, eles abasteciam a dispensa com comidas e bebidas à vontade, além de aparelhos domésticos mais novos, sofás, camas e etc.

Vivia uma realidade que jamais esperava, porque havia coisas por ali que aquela casa nunca sonhara em ter.

Estava sem fazer nada, nem um esforço sequer, porém atingira um patamar muito elevado, sem o menor esforço. Era praticamente um daqueles filhos de playboy, já que nada me faltava.

Não reconhecia a minha própria casa, aquele barraco simples que outrora tinha apenas dois dormitórios, uma cozinha humilde e um banheiro nos fundos do quintal, fora transformada rapidamente em um local confortável e bonito, o “Refúgio”, a moradia de pessoas que nem mesmo conhecia.

Em poucos anos tudo mudara e eu, um menino simples e cheio de energia, já não podia ser reconhecido.

Aquelas pessoas circulavam nela como se tivessem nascido ali. Eu não tinha o controle de quem podia e quem não podia ficar. Não tinha voz ativa para isso e, a cada dia que passava, mais e mais pessoas surgiam, quase sempre jovens atraídos pela lábia do Jack e apoiado pelo Wilson, que as trazia para o “Refúgio da Galera”, como passou a ser chamada.

Eu e algumas daquelas “visitas”, morávamos uns tempos em minha casa e outros tempos na casa de praia do Wilson, entre outros “Refúgios”.

Não sabia o que era amar alguém, nem tinha como me relacionar, pois as minhas referências de vida não costumavam falar sobre isso e nem eram amorosas com as garotas que conheciam. O Wilson parecia mais ser feito de pedra, sempre mudando de parceiras e envolvido nas maiores orgias. O Jack era o pior de todos, o que elaborava e agitava as bagunças, que ficavam a cada dia que passava mais pesadas.

Em minha casa já circulavam figuras tão famosas e cheias de malandragem, quanto a casa de praia do Wilson, na verdade, uma era a extensão da outra.

Estávamos sem limites nem escrúpulos. Meninos cheios de dinheiro, mulheres da vida, garotas desvirtuadas, traficantes e curiosos desejosos por aventura nos rodeavam o tempo inteiro.

Lembrava de meus pais em casa, tão bondosos e simples, meu irmãozinho querido brincando no quintal e aquilo me deixava ainda mais revoltado.

Quando esta revolta surgia, parecia que Jack sempre adivinhava.

Hoje, mais vivido e racional penso que naquela época não podia saber das malandragens de Jack, porque ele não só sabia de minhas tristezas e revoltas, como também as alimentava, me enchendo de idéias malignas e cheias de ódio. Colocava a culpa em Deus e em qualquer coisa que poderia ser sagrada.

Fumávamos e reclamávamos contra o mundo quase o tempo todo e, assim, passei minha juventude.

Já vivo neste bairro há alguns anos e ando por aqui exatamente como cheguei: duro, preocupado com o futuro e trabalhando como um louco, mas ainda assim, feliz. Me sinto parcialmente livre!

Quando paro para lembrar da minha juventude, tudo o que me vem à cabeça é aquela bagunça sem fim, onde encrencas e mais encrencas pareciam nunca acabar.

Cria que a solidão também fora um fardo grande que carreguei naquela época. Não tinha uma pessoa que eu amasse, ou que cuidasse de mim e com boas intenções. Havia milhares de pessoas ao meu redor, mas nenhuma parecia fazer parte da minha vida. Eu sentia uma solidão interna terrível, mesmo cercado por tantos jovens.

Lembro que um dia eu estava dormindo profundamente, depois de umas duas, ou três noites viradas em uma dessas viagens malucas junto com o Jack, o Wilson e mais algumas garotas. Tínhamos chegado de uma viagem improvisada em que o Jack havia elaborado e convencido a todos. Nesta viagem experimentamos tudo do “bom” e do “melhor”, algo muito parecido com aqueles clipes de rapper. Usufruímos, sem moderação, tudo o que o dinheiro poderia pagar.

Sonhara de forma muito real, como se fora um aviso de que as garotas que estavam conosco não eram mulheres comuns, mas devotas de um demônio. Vi assustado que o demônio era o Jack.

Acordei me sentindo muito mal como se estivesse em terrível perigo. Percebi que alguém tentava me avisar de que eu estava vivendo sem propósitos e a serviço das trevas. Foi neste clima de desespero que minha mãe apareceu naquele sonho também, ela dizia para que eu tomasse cuidado com o Jack, que ele era um perigo e coisas do tipo.

No começo do sonho quis me desvencilhar de minha mãe, mas aos poucos, pude perceber que ela me falava sério e em tom muito forte e claro. Exercia uma autoridade que em vida nunca a vi. Por isto, parei de lutar e comecei a prestar atenção em suas palavras.

– Olhe Marçal! Observe o momento que está vivendo. Perceba que, com sua omissão, o Jack está conduzindo sua vida para onde ele bem entende.

Via que eu não tinha vida própria e que não controlava meus caminhos. Nisto, escutei meu pai me dizer:

– Se você não usa seu poder, alguém usará por você!

Achei engraçado meu pai dizer isto, justamente ele que apreciava ser sempre tão alheio e sem voz. Porém, eram palavras fortes e de grande sentido para mim.

Acordei como se estivesse sendo acariciado e protegido pela minha mãe e meu pai, o que me fez um bem muito grande. Porém, não foi naquela época que me separei do Jack, não daquela vez, pois aquilo, mesmo tendo sido um ótimo sonho… infelizmente não passou de um sonho para mim.

– E aí Marçal?!

Nos dias atuais, eu não tinha muitos amigos e companheiros de aventura, aquele que me cumprimentava era a figura mais próxima de um amigo que eu poderia considerar naquele bairro.

– Fala Dirceu?!

Me cumprimentava como se fosse um amigo, mas não passava de um dos mais antigos vagabundos do bairro.

Me esticou sua mão imunda de unhas longas e cheias de sujeira. Sua palma era grossa como pé de velho. Ele já havia me roubado umas três vezes, assim que cheguei naquele bairro. Eu sabia disso, ele também sabia, mas agíamos como se aqueles episódios nunca tivessem acontecido.

– Tem um trocado aí pra mim? Preciso comer qualquer coisinha… por favor?! Disse com seu sorrisinho malandro.

Ele era repugnante, no hálito, nos cabelos desgrenhados, nas roupas amarrotadas e no toque de mão imunda, mas não era o pior entre os que ali viviam, naquela situação vexatória.

Saquei umas duas ou três moedas e lhe dei, mesmo sabendo que aquele assuntinho de comer era, mesmo, uma grande lorota. Vagabundo viciado como ele, nunca usaria suas moedas para comer.

Agradeceu com aquele sorriso doente e cheio de rugas, que só as pessoas nas condições em que ele vivia sabiam dar e se afastou. Se minha mulher me visse dando moedinhas para aquele ser desprezível teria um ataque e com razão, pois de certo que era um investimento sem futuro.

Pelo menos ele não estava me roubando, como costumava fazer durante as madrugadas, na volta do meu trabalho.

– Que figura pacifica que você se tornou, hein?!!! Escutei a cobrança daquela voz tão conhecida por mim.

– Creio que lhe tenha pedido um tempo, não foi? Disse meio irritado com aquela cobrança ali, logo cedo.

– Calma valentão! Estou apenas “coincidentemente” indo à mesma padaria que você. Quero me dar o prazer de um café da manhã! Será que você pode abaixar a guarda de vez em quando? Disse-me o irônico Jack, muito bem vestido e com seu sorriso eternamente cativante.

– Sei de suas coincidências! Respondi cum pouco irritado com sua presença insistente.

Ele não retrucou e nem fez cara de reprovação, apenas fez que não percebeu meu inconformismo e prosseguiu ao meu lado em direção à padaria.

– Será que, pelo menos, desta vez as pessoas têm consciência de sua presença ao meu lado, ou continuam me vendo como um doido que fala sozinho?

– Mac, relaxa! Pense que elas nem sequer percebem em nossa presença. Talvez, isso te deixe mais tranqüilo. Me respondeu animado, enquanto erguia seu braço para a atendente, como se provasse que ele não era uma alucinação, mas uma pessoa real e de gosto muito refinado, pois seu pedido era bastante diferente dos que costumavam freqüentar aquela padaria de quinta categoria.

Mesmo vendo que ele interagia com as pessoas em nossa volta e com naturalidade, suspeitei de sua presença física até o momento em que pude constatar que a jovem esquálida e apática que nos atendera com sua indiferença habitual, deixara em nossa mesa nossos pedidos, com a mesma má vontade diária.

Minto, pois creio ter percebido que ela esboçou um sorriso “gracioso” para o cativante Jack. Creio que tenha sido a primeira demonstração de afeto naqueles muitos anos que já vivi no bairro.

Eu, meu pão na chapa de sempre e um café espresso mal tirado, queimado e amargo, feito por quem nunca acertara o ponto ideal, provavelmente uma mistura de desinteresse com falta de habilidade.

– É por isso que não peço café espresso em espelunca,  só os bons baristas têm esta habilidade. Diga-se de passagem, isto é coisa que você não vai encontrar aqui, não é mesmo?  Disse-me sorvendo seu belo copo de suco de laranja com mamão. Enquanto passava educadamente uma lindíssima geléia de morango em suas torradas. Coisa que nunca vi servirem por ali.

Ainda suspeitando da cena que vislumbrava diante de mim, segurei o braço da garçonete para lhe perguntar qual seria a marca da geléia que meu “amigo” degustava, afinal, eu havia achado ela uma delícia e desejaria consumir mais vezes. A garota, um pouco assustada com minha postura, me respondeu deixando o vidro do potinho em minha mesa, enquanto dizia que meu amigo tinha um bom gosto, talvez atraída pela beleza dele, mas o principal de tudo era que ela confirmara que eu realmente não estava falando sozinho naquela mesa.

Diferente daquele passado solitário, ele já não se portava como uma alucinação, mas resolvera, pelo menos, se portar como alguém que realmente existia fisicamente.

Ele se manteve calmo, elegante e muito educado o tempo inteiro, mas em certo ponto de nosso café matinal, ele olhou o relógio, diga-se de passagem caríssimo, algo que me desagradou bastante, pois me colocava em situação de risco perante aos marginais que freqüentavam aquele lugar. Na sequência, limpou seus lábios com um pano de restaurante chique, coisa que destoava com o cenário, porque não existia aqueles guardanapos no estabelecimento, ergueu-se gentilmente e me fez um lembrete, no qual denunciou seus verdadeiros propósitos:

– Lembre-se, Mac de que lhe fiz novamente uma proposta de parceria, mas não tenho a vida inteira para esperar sua resposta. Confesso que tenho um pouco mais de paciência com você, em respeito à nossa amizade e ao nosso passado tão próximos, mas sei que você tem total consciência de que minha paciência tem limites.

Como não lhe respondi nada e continuei “concentrado” em meu cafezinho, ele apenas se despediu educadamente e partiu.

O recado estava dado.

Conflitos – Entre Jack e God – Capítulo2

[Capitulo1 deste Livro, canto superior esquerdo deste Blog]

Capítulo 2

 

_Capa-Capitulo2

Primeiro pacto

Mais uma noite mal dormida, cheia de pesadelos, pernilongos, calor e insônia.

– Acorda amor! Você tem que levar a Beth para a escola!!! Chamou minha mulher, entre uma bocejada e outra, como um zumbi e só voltou para a cama assim que teve certeza que eu havia acordado.

– Seis horas da manhã!!! Quem em sã consciência matricula a filha para estudar a esta hora? Isto é desumano com qualquer pessoa que trabalha até tarde e tem problemas de insônia!!! Reclamei ainda deitado, tentando me convencer que dias melhores viriam, mesmo.

Levei minha filha para a escola numa disputa de maus humores, onde eu quase sempre perdia, pois ela, de manhã, era mesmo a pessoa mais insuportável do mundo. Já havia deixado de lado qualquer interesse, ou tentativa de ter um bom dialogo com ela naquele horário, onde sempre me respondia com grunhidos e olhares de desprezo. Adolescentes são insuportáveis no período da manhã e eu, pessoa igualmente desagradável, apenas me mantinha no mais profundo silêncio, como todos os outros dias. Quase silêncio, já que do radio vinha um velho rock, a contragosto da pequena fera que preferia as canções mais atuais.

Logo depois que a deixei na escola, me dirigi ao trabalho cheio de lembranças do passado. Tudo o que já havia vivido, o quanto eu era ativo, empolgado e determinado. Talvez, graças à visita da noite anterior, eu ainda estivesse vivendo aquela atmosfera saudosista.

Comecei a relembrar alguns momentos intensos, quando eu ainda era o melhor amigo do Jack… este era o nome daquele que havia me visitado na noite passada. Não gostava nem de pensar naquele nome, pois sabia que ele estava me espreitando, me cercando… aguardando minha fraqueza, – ou alguma mínima demonstração de desistência –, para entrar em ação.

Interiormente, lamentava pensar que me sentia muito perto disto!

Jack era um demônio… e dos poderosos. Ele foi, a princípio, meu amigo… um amigo imaginário, ou penso que tenha sido, pois eu me lembrava perfeitamente dele na minha infância, mas ele não estava na lembrança de mais ninguém das pessoas que frequentaram o meu passado.

Ele surgiu há muito tempo, como quem não queria nada, nos primeiros anos de escola. Simpático, atencioso, brincalhão e protetor. Desta maneira, fomos os melhores amigos que um tinha para o outro.

Não! Ele nunca foi agradável com ninguém e nem fazia questão de ser um bom menino.

Naquela época eu não sabia de sua condição de demônio, apenas o achava bagunceiro demais e muito atrevido. Nunca soube se ele realmente chegou a aparecer para as outras pessoas da escola, ou se apenas eu o via, mas uma coisa era certa, os meninos morriam de medo de nós e as meninas nos adoravam. Éramos engraçados, ousados e divertidos. Uma boa encrenca para quem quisesse se envolver conosco.

Achava incrível que nada dava errado para gente, já que não eram poucas as enrascadas que nos metíamos, as vezes bem perigosas, mas sempre saíamos ilesos e rindo.

Assim, passei boa parte de minha infância me divertindo e inventando as mil aventuras.

Meu bairro era um lugar simples, com características de interior, nada parecido com a porcaria que se transformou mais para frente: bandidagem, pobreza extrema, má educação, casas amontoadas e claramente mal planejadas. Uma periferia barra pesada, sem atrativo algum e completamente esquecida pelos governantes.

Na minha infância havia sítios, fazendas, ar puro, muitas árvores e animais, onde corríamos livres para todos os lados e sem grandes preocupações. O que, de certa maneira, agradeço a Deus por ter nascido naqueles tempos, em um lugar tão pacífico como aquele, pois nos dias de hoje, provavelmente, ou teria morrido cedo, ou me tornado um delinquente, com certeza!

Um pouquinho mais velhos, no meio daquelas bagunças intermináveis, o Jack me apresentou um pessoal muito animado e de pouca responsabilidade moral. Eles eram bem mais velhos do que a gente e sabiam se divertir.

Com eles conheci o mar, o surf, onde nasceu um amor sincero e eterno… as ondas. Porém, com eles também vieram as bebidas, o sexo e as drogas. Eles gostavam muito de mim e do Jack, por isso, passamos a ser uma espécie de mascotes da galera e íamos para todos os lugares em suas companhias.

Tinha um rapaz, o mais velho de todos e também o mais rico deles, deveria ter aproximadamente uns dezoito ou dezenove anos, que nos adotou como as mascotes oficiais da galera, conforme ele mesmo nos apelidara, para nos levar para cima e para baixo em seu carrão.

Ele era filho de um empresário importante da região, que por algum motivo, ou algo que desconhecia o porquê até aquele momento, simpatizou com a nossa figura.

Hoje, me faz pensar que, muito provavelmente, teve algum “toque mágico” do Jack, pois além de sermos de idades diferentes, éramos de classes sociais completamente opostas, mas que estranhamente não parecia incomodá-lo em nada.

Minha pequena e humilde família não dizia nada de meus passeios e dos presentes que recebia, pois sabiam que nunca teriam capacidade de comprar nada parecido, sendo assim, minha mãe apenas tentava me orientar da melhor forma possível, o que as vezes me dava um pouco de pena dela, porque alguns de seus conselhos eram tão simples e cheios de bondade, que já não combinavam com minha momentânea consciência de vida.

Em minha arrogância juvenil pensava que mesmo bem mais novo, já havia visto e feito muito mais coisas do que ela tivera oportunidade de fazer em toda a sua vida. Meu pai, coitado, trabalhador de sol a sol – no sítio próximo de casa –, nem sequer tinha tempo de falar ou dar conselhos para mim.

Era homem bom e de uma humildade incomparável. Falava baixo, pouco e estava sempre de bom humor. As pessoas estranhas quase nunca ouviam sua voz, já que sua timidez exagerada não permitia a aproximação e, muito menos, grandes diálogos.

Meu irmãozinho era uma criança feliz e igualmente humilde. Fazia festa quando eu voltava de meus passeios demorados, principalmente quando trazia algum doce ou qualquer coisa para agradá-lo.

Depois do Jack e do Wilson – o filho do empresário –, meu irmão era a pessoa com quem eu mais gostava de passar meu tempo. As vezes eu podia levá-lo para alguns lugares com meus amigos e ele se divertia muito.

Antônio, ou simplesmente Toinho, era um menino bom demais. Sua presença feliz e carinhosa, me alegrava e fazia muito bem. Ele sempre me dava um beijo e um abraço antes de ir dormir.

Seu sorriso era encantador e sua alegria de menino simples de seis anos enchia a casa com uma vida sem igual, ele era a luz da nossa família.

Jack adorava o fato de minha família ser bem simples, pois podia manipulá-la com facilidade, sempre me arrastando para as suas aventuras mais malucas.

Com a turma do Wilson aprendemos a surfar rápido, pois eles desciam para a praia todo final de semana, onde ele  tinha uma linda casa de praia que aproveitávamos ao máximo.

Minha família nunca poderia imaginar as bagunças que aprontávamos por lá e eu, um menino que, desde os doze, já participava intensamente. Não era raro ter drogas, meninas e muita sacanagem rolando. No começo estranhei e até me preocupei com aquilo tudo, pois não tinha a mesma maldade que meus amigos e, muito menos, a do Jack.

Ele praticamente dominava aquele lugar, sempre aprontando, brigando e inventando as maiores doideiras que se podia fazer em uma casa de praia comandada por moleques rebeldes.

Não! Nada daquilo me chocava ou me desagrava, muito pelo contrario, foram os melhores anos da minha vida, graças a liberdade e as aventuras.

Poderia viver aquilo para o resto da minha vida, tanto que ficava irritado quando minha mãe inventava de irmos à igreja, ou alguma festa de família nos finais de semana. Estava viciado com um outro estilo de vida.

Ela ficava muito chateada comigo quando eu fazia birra e reclamava para que não precisasse ir com ela, o que era impossível convencer do contrario e acabava a acompanhando, mesmo sob protesto e as reclamações insuportáveis de Jack na minha orelha. Porém, com as vontades de minha mãe ninguém podia, nem mesmo ele.

Hoje, imagino que talvez ele não conseguia a convencer, porque minha mãe era muito ligada ao Outro, ao inimigo do Jack.

Este Outro, não O conhecia tão bem quanto o Jack, pois Ele só apareceu em minha vida, definitivamente, bem mais tarde, de uma forma inusitada e surpreendente, quando eu já estava saindo da minha adolescência.

Eu já era um rapaz muito revoltado,  arrogante e estava passando por um momento bastante delicado, onde a descrença e a rebeldia estavam em patamares intoleráveis.

Estava em pé de guerra com o Jack, ele não concordava com a mulher que eu havia me apaixonado mas para não ficar de fora tentava de todas as formas entrar para a família de minha namorada e, por isso, também fingia  estar apaixonado por uma menina, a filha da minha namorada, fato que não tenho certeza, pois sua vocação para provocador era muito maior do que a de romântico.

Por algum motivo Jack sempre estava disputando comigo tudo o que eu queria para mim. Hoje eu imagino que se ele realmente quisesse me superar, o faria com grande facilidade, já que era um demônio muito esperto e poderia ter tudo o que quisesse. Porém, ele não chegava tomando, ou me deixando em total desvantagem, ele retirava as coisas de mim devagar, de forma sofrida e sempre tentando me rebaixar. Ao mesmo tempo, ele me alegrava com novidades, oportunidades, viagens e milhares de presentes.

Antes de conhecer esta namorada, a minha atual esposa, eu vivia entre ganhos e perdas espetaculares. Jack me fazia crer que o destino era uma coisa maluca, onde eu não tinha domínio sobre a situação. Ele praguejava Deus toda vez em que as coisas davam erradas, como se não tivéssemos apoio divino algum.

Como muitas coisas costumavam dar errado, principalmente nas horas em que não podiam, acabei por acreditar que Jack tinha toda a razão do mundo e passei a praguejar também. Foi nessa época que tive o maior desgosto da minha vida.

Era um dia de calor, um domingo quente e ensolarado. Minha mãe querendo ir à igreja e eu querendo ir para praia. Discutimos de verdade, praguejei, reclamei e a ofendi, como nunca fizera em minha vida.

Parti irritado com meus amigos para a praia e deixei minha mãe para trás, sem me despedir, apenas ouvindo ela reclamando que eu não deveria fazer aquilo e que meu irmão precisava de mim. Lembro do Jack rindo e dizendo que minha mãe não estava com nada, que era velha demais, que ela não compreendia que nós estávamos na idade de nos divertir.

Aquela, foi a última vez que vi as duas pessoas que mais amava em minha vida. Eles morreram naquele mesmo dia, em um acidente besta à beira da estrada, rumo à igrejinha.

Minha alma caiu no mais profundo silêncio e instintivamente quis distância daquele que parecia ser o maior culpado daquele dia maldito, o Jack.

Ele, sempre malandro, um mestre em enganar e confundir, não chegou arrebentando, dando ordens e me dizendo o que fazer, apenas me seguia, em igual silêncio. Respeitoso, cabeça baixa e sempre por perto.

Tínhamos uns quinze anos, quando pela primeira vez, cansado, oprimido e sem rumo, sentei em baixo de uma árvore na beira da estrada e chorei, como nunca havia chorado em minha vida. Muito perto de mim, para me consolar, apenas o Jack, que se manteve ao meu lado como um “verdadeiro irmão”.

– Porque Jack?! Porque isto tinha que acontecer?

– A vida dá as regras, Deus dá as ordens e nós escolhemos nosso caminho! Agora, neste momento, chorar é a sua única opção, depois a gente resolve o resto!

­– O que é o resto, Jack!

– O resto… somos nós dois, meu amigo! Aceita a minha amizade, me segue, que eu prometo que você vai ser feliz!!! Disse me estendendo a mão, como se conjurasse um pacto.

Olhei em seu rosto sincero e infantil, mas cheio de determinação e, diante daquele cenário quase abandonado, sem perspectivas e planos, apertei sua mão, aceitando sua amizade sincera, protetora e para sempre.

Assim que apertei sua mão, um vento fort e sem sentido surgiu. Era um redemoinho que parecia ter vida própria, correndo em nossa direção, me derrubando e fazendo com que eu batesse a cabeça no chão.

Um medo subiu pelas minhas costas, junto com um arrepio que se espalhou pelo meu corpo inteiro. Ouvi uma gargalhada sinistra e inesperada. Graças ao medo sai correndo em direção à casa de meu pai.

Quando cheguei por lá, estava bastante cansado, quase sem fôlego e muito pensativo sobre onde estaria o Jack, se ele também teria corrido daquele ventão danado e assustador.

– Ei Mac! Aqui! Ouvi seu grito do alto do morro que ficava ao lado da minha casinha de três cômodos.

– Caramba Jack! Como você conseguiu escapar daquela ventania toda e chegar primeiro do que eu?

– Oras! Eu sou mais esperto do que você, esqueceu? Eu sempre escapo do perigo! Disse isso e caiu na gargalhada, como se todo aquele momento horripilante que estávamos vivendo fosse apenas uma grande piada.

Não compartilhei da mesma animação, nem do mesmo humor. Na realidade, tinha, mesmo, ficado desesperado e louco de vontade de chegar em casa.

Me despedi um tanto irritado com tudo aquilo, mas com um detalhe estranho para o momento, o Jack fez questão de lembrar que agora tínhamos um pacto e que nada poderia nos separar.

Não gostei do tom que ele usou, de cobrança, ou algo parecido, mas como aqueles dias estavam exageradamente cansativos e depressivos, apenas acenei a cabeça concordando e entrei rapidamente em minha casa.

Não sabia o que tinha feito, mas havia sido enganado mais uma vez pelo esperto Jack e só saberia disto no futuro.

Trocas

– Troca-se lâmpadas velhas por lâmpadas novas… – Troca-se lâmpadas velhas por lâmpadas novas…

Ouvi o velho gritar lá na rua com cara de safadão.

Confesso que não fez o menor sentido para mim, mas ele parecia bem determinado e cheio de fé nesta frase.

Ok, ele não era o único, pois a mulher do meu vizinho, o Alladin, também pareceu entender a solicitação do estranho carroceiro e, aparentemente, fez uma troca.

A mulher do meu vizinho não percebeu, mas o velho, assim que pegou a “lâmpada [?]” abandonou sua carroça e saiu correndo felicíssimo.

Sei lá! Vai entender estas maluquices? Que troca estranha foi aquela que o deixou tão satisfeito?

Tudo é uma troca, nada segura ninguém se não houver um mínimo de interesse em saber do outro.

Nada é por nada… nem que seja por ódio.

Até os cães, estes amáveis “serumaninhos” não se interessam pelo ser “humanão” se este não tiver algo a oferecer.

Somos uma eterna troca de informações, dinheiro, energia, amor, ódio, calor e benefícios sem fim.

E assim, seguimos por aí… trocando interesses.

O mendigo por trocados, o cão por comida e abrigo, o casal por amor, o gigolô por grana, o Roger – do Ultraje –, por mulheres, o médium por espírito, o religioso por Deus, Deus pela existência, o Capeta por domínio [?].

Somos uma poderosa fonte de energia de trocas e, creia, quem não tem… não é nada!

Eu também, tampouco, estou aqui sem motivos. Não mesmo!

Preciso colocar por aqui os meus textos para que um leitor me leia, me entenda e saiba de mim. Lógico! Creio que você também seja assim. Normal!

Porém, tenho em mente de que, se um dia esta energia que nos rodeia terminar, já não há mais motivos para continuar. Creio que isto signifique o Fim!

Não ter o que oferecer, seja lá o que for, é se autoproclamar eliminado, inútil… descartável.

Então, eu me pergunto, qual é momento certo de sair deste ciclo?  Talvez, esta seja uma percepção humana, ou melhor, bem humana mesmo, daquelas nada divinas, mas, desculpe-me, caro leitor, não poderia ser diferente, afinal, a divindade não me parece uma das minhas melhores características.

Talvez, esta energia que conecta por aqui, não seja a mesma que une os seres mais evoluídos, não é mesmo? Quem sabe?

Pode ser também que neste exato momento, esta figura que entendo como um Deus, esteja sorrindo e pensando… que humano bobinho! Tanta energia desperdiçada e nada para trocar… ainda! :p

Viajando nos pensamentos, os mais doidos possíveis, noto que tenho muito que aprender e tanto para trocar, mesmo que inocentemente, assim como uma criança que imagina ter em mãos as figurinhas brilhantes e mais raras do mundo, daqueles álbuns de campeonatos mundiais e crê, piamente, que tal exclusividade seja um tesouro de imenso valor, por isso, possivelmente, deva despertar no adulto algum interesse relevante, desta maneira, objeto de uma possível troca, sem perceber que o homem, bastante cansado, apenas sorri por amor e o imenso carinho que tem pela alma ingênua logo a sua frente… nada mais. Vivido, experiente e cansado, carrega em si os mistérios que a infância não compreende, como a insegurança da responsabilidade que ela ainda não pode sentir e o desejo sincero de trocar tudo o que tem, apenas por uma cama confortável!

E você, o que tem para trocar comigo? Será que nossa relação termina aqui?

🙂

 

 

Reagrupar

Deitei um pouco mais cedo do que de costume, pois estava bem cansado da semana agitada que vivera e, ao invés de sair ou procurar algum agito, preferi me recolher ao meu canto e descansar, dormindo quase que de imediato.

Dormia profundamente quando, de sobressalto, tomei consciência de que estava em um sonho lúcido, estranhamente ciente dos acontecimentos ao meu redor e completamente envolvido com o momento.

Estava dentro de uma imensa nave, observando entristecido a debandada de poderosos aliados que declaravam não terem condições de continuar por aqui, enquanto ouvia a mensagem de alerta vinda dos alto-falantes:

“– Atenção todos! Aos que se encontram por aqui e têm total consciência de que perderam esta batalha!

Especialmente aos humanos vivos, ou no entorno da Terra… é hora de reagrupar!

Estamos perdendo o controle e a oportunidade, por isso, não desanimem e nem desistam!

A sanidade e o Amor estão fortemente comprometidos e, sendo assim, é preciso juntar todas as forças para desejar ir adiante, mesmo que se sintam sozinhos, abandonados e um tanto enlouquecidos. Não desistam!

Saibam que grupos de elevadas intenções já partiram daqui, pois não aguentaram a pressão deste mundo tomado por governantes poderosos e de propósitos duvidosos com relação à sua espécie.

Não estamos solicitando uma guerra, revoltas e nem destruições, muito pelo contrário… permaneçam na Luz! Porque esta há de transformar vosso planeta.

Nunca estiveram tão envoltos na escuridão, na dúvida e na total descrença como agora e avisamos isso completamente constrangidos por dizê-lo.

Surpresos por não conseguirmos ajudar com maior facilidade, nos surpreendermos ao observar que crenças e bobagens inventadas por vocês, humanos têm tanta influência.

Tristes por ver vocês muito resistentes em evoluir.”

Acordei suando, já eram 4h e me sentia confuso e desesperado ao lembrar dos aliados partindo!!! Tristeza imensa. Não queria desistir, mesmo os decepcionando… não mesmo!

Um tanto assustado lembrava do recado e, mesmo revendo em minha mente a partida de tão querida e poderosa força aliada, sabia de que, ainda assim, deveria manter minha fé e continuar crendo piamente de que algo era preciso ser feito, ter nova postura e buscar um outro caminho. Porém, tinha consciência de que sozinho não seria possível!

O Planeta Terra precisa da gente, precisa continuar sua evolução e é de mal tom não ajudá-la neste sentido.

É fato de que também quero estar melhor, me ver mais feliz, em perspectivas mais leves e horizontes mais bonitos, mas ficaria muito triste de abandonar este Lindo Planeta à mercê de energias tão sombrias…

– Tenho que tentar alguma coisa!!! Avisar as pessoas!!!

Não quero dizer que abandonei minha personalidade humana à mingua, longe disto! Estou trabalhando, querendo estudar mais, lendo, escrevendo, desenhando e outras muitas coisas, mas sei que tudo isso é o momento do Agora, não é eterno!

Escutei alguém me chamar de um lugar bem distante… como um grito ao longe:

– Entenda e busque saber mais. Não desista! Tenha fé na boa luta dos sentimentos elevados e tudo há de dar certo. Busque sua origem, acredite e continue na boa luta!

Sentei na cama bastante ofegante e, ao mesmo tempo, revia minhas atitudes diárias  e se eram positivas e eficientes na guerra silenciosa que parecia acontecer no Planeta. Ao mesmo tempo tentava entender o porquê daquele sonho e como poderia ser mais eficiente em favor da humanidade, mesmo me sentindo comum demais e pequeno para tamanho desafio.

Não tinha boas respostas e me perguntava como não tinha a mesma clareza e o mesmo empenho consciente que minha alma, bem mais esclarecida?

Estava completamente envolvido com os sentimentos que acabara de viver.

– Tenho esperança! Vamos vencer!

 

 

Fraqueza

Da primeira vez que a vi só tive impressões bem ruins… sorriso fraco, sem expressão e acompanhado de uma tosse catarrenta.

Imaginei que provavelmente fosse excesso de fumo em um passado não tão distante, ou talvez fosse por fraqueza mesmo.

A princípio uma mulher distante e sem vontade de grandes diálogos, apenas resumindo a comunicação em sons secos, respostas monossilábicas e nada mais.

Sua fisionomia transmitia e exalava uma figura de extrema fragilidade, algo assustador e contaminado por uma áurea sombria.

De longe, antes de se aprofundar em suas ideias e pensamentos mais íntimos, dava a impressão de se tratar alguém com algum tipo de desequilíbrio mental… dessas demências discretas que não transmite medo, mas também não se confia totalmente.

Nunca imaginei que um dia estaríamos sentados juntos em uma mesa de uma padaria elegante, tomando um café caprichado, entre conversas francas e confidências sinceras. Não mesmo e nem pensar!

Me chamem de preconceituoso, imbecil e aquelas coisas todas que costumam esculhambar um homem, mas confesso que sua fisionomia me causava um sentimento estranho… creio que fosse vergonha!!! Sim e desculpem por isto, mas era meio constrangedor como as pessoas nos encaravam quando circulávamos por aí, entre as charmosas pessoas daquele bairro nobre onde ela morava.

Ela é uma mulher muito rica e herdeira de uma grande fortuna, por isso, é desconhecedora da vida que levo. Onde enfrento com unhas e dentes um dia a dia pesado e cheio de restrições, inclusive na minha alimentação, apesar de aparentar um homem de corpo bem formado e desenvolvido, onde poucos podem crer as dificuldades que encaro.

Nossa relação sempre foi comercial e sabíamos disto, por isso, costumávamos nos tratar com um certa distância e fingimento… ou foi assim durante um bom período.

Tinha em mente de que deveria chegar no horário marcado, executar meu trabalho, para o qual fui contratado, e partir… sem apegos!

Cheguei até aqui aos trancos e barrancos, nem me pergunte como, por isso, só Deus pode me julgar! Foda demais!

Nossos encontros foram arranjados por uma amiga dela, uma antiga cliente destas noites da vida.

– Já tive que encarar cada parada cabulosa! Esta não iria me travar… não mesmo! Pensava.

Cheguei por aqui cheio da banca e todo me achando. Eu sei da minha beleza e capacidade, mas não contava que iria me apegar… me envolver!

– Pois é!

Sempre fui mesquinho, interesseiro, materialista e tudo o que fosse favorável para o meu umbigo. Isto era o que importava… até agora, neste momento! Estou diante de uma possível separação.

Recordava emocionado de que dela recebi um ser humano que jamais havia encontrado em minha batalha sem fim! Amor, carinho, interesse, bom papo e atenção.

– Que merda! Não esperava por isso!

Criei uma dependência que sempre evitara.

– Sou profissional, nada de envolvimento. Tento me controlar, mas não é o que está rolando aqui dentro da minha cabeça.

Cheguei com a fama de bonito e distante. Ela era a feia, a fraca… porém, isso já não é mais uma realidade.

Só tem um feio aqui e a gente sabe que não é ela.

Sinto que ela está mais distante, estou mudado e dependente também.

Hoje sabemos quem é o fraco da relação e já não posso mais com esta dor!

Era minha última chance antes de nos separarmos para sempre.

Preciso dela…

– Maldita fraqueza!