Dormir naquela noite foi mais uma dificuldade diante de tantas outras que D. Joana tivera que suportar.

Como sempre, aproximadamente às 22h ela se deitou sonolenta, cansada do dia, da vida e deitou-se rapidamente antes que o frio lhe tomasse conta de vez. – Malditos dias gelados – resmungou mal-humorada.

Queria, do fundo de sua alma, ter uma noite inteira de sono profundo para se desligar de sua vida tediosa e abandonada, mas sabia que não iria muito longe. Às 0h e 15min já  estava de pé em sua cozinha, fervendo o leite, requentando o café e praguejando tudo o que estava ao seu alcance.

No meio de pensamentos atordoados e exacerbados, além do aceitável, muito provavelmente graças a sua triste solidão, um alguém com quem dividir seus “problemas” e questionamentos, foi assim que, dentro de seus pensamentos mais profundos, voltou-se assustada para um canto mais sombrio onde percebera um vulto escuro e furtivo que se aproximava pé ante pé.

– Geraldo! Seu gato miserável, quer me matar de susto?

Geraldo, Salomão, Nestor, Oswaldo e outros muitos nomes que recebera de seus vários “donos” pela vizinhança afora,. Todos acreditavam-se proprietários do belo bichano de lindos olhos cor de mel, pelos fofos e de tom cinza-azulado, quase negro.

D. Joana via em seu delicado e atencioso felino um animal carente, solitário e necessitado das melhores e constantes atenções que ela pudesse oferecer. Confessava-se em voz alta para o gatinho atento e dengoso, como se quisesse confortá-lo e mostrar-lhe que nunca precisaria se sentir só, pois ela sempre estaria ali ao seu lado, em seu apoio.

Engraçado ter a visão do todo, quando se vê a vida inteira do “pobre” gatinho, que na realidade, de solitária e abandonada não existia em nenhum momento.

O gato era um ser livre e muito amado. Circulava pelas ruas e casas de seu bairro como um rei. Não lhe faltava comida, bebida e amor… muito amor.

De solidão nunca morreria, jamais!

Suas outras muitas famílias o tratavam com muito carinho e respeito.

Solitária, mesmo, só a vida de Dona Joana… coitada!