Capítulo 12

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Caminho suave

 

Não comentei nada sobre o ocorrido com a Valquíria, apenas a recebi com o carinho de sempre. Todavia ela já me conhecia muito bem, percebeu que algo estranho havia ocorrido comigo. Porém, não insistiu em saber, apenas me deu um beijo carinhoso e se concentrou em finalizar a arrumação das malas.

Nisto eu tive sorte na vida e era muito grato, por estar sempre cercado de pessoas queridas e que me amavam. Eu podia ser um cabeça de vento, mas não devia ser uma pessoa tão ruim assim, afinal, a Valquíria, assim como meus filhos, eram maravilhosos comigo.

Ainda estava entristecido e preocupado com o ocorrido e até pensei em desistir do passeio, mas como já tinha feito minhas malas e a nossa viagem estava marcada para o dia seguinte, apenas dei uma desculpa qualquer e fui caminhar com meu filho, já que fiquei preocupado e não o queria deixá-lo sozinho.

O que mais me chateava era o fato de que eu queria acreditar, talvez em vão, de que aquela história com o Jack tinha ficado para trás. Remoía o pensamento infeliz de que nada era como eu pretendia.

Bateu uma revolta e uma preocupação, quase um delírio, porque tinha em mente de que aquele demônio ainda fazia parte da minha vida e, pior, cercava meu filho também. Eu iria ter que aturá-lo por mais uns bons anos, já que meu filho ainda era uma criança… quase um bebê.

Andava pelas ruas sem um rumo certo, apenas caminhando e imaginando o que seria da vida de meu filhinho. Aquela ideia ardia dentro de mim, ganhava poder e me fazia sofrer tremendamente com as probabilidades… uma angústia!

Relembrava as várias situações de perigo em que eu me enfiara ao lado do Jack, o quanto ele tinha me ensinado sobre as malícias e malandragens.

Nada mais fazia sentido para mim, sofria com a possibilidade de que Jack se aproximara de meu filho e, por isso, tinha que achar uma saída para aquele problema.

Fiquei triste por ter passado aquele “dom” para o pequeno Pedro, afinal, qual seria a resposta daquele problema? Teria passado minhas loucuras para ele? Visões e fantasmas? Se fosse mesmo uma realidade era lógico que eu tinha culpa.

– Caramba! Que saco!!! Falei em voz alta.

– Por que você está reclamando, papai? Me perguntou com seus olhinhos infantis, o que me fez sentir ainda pior.

– Pedrinho, lembra que eu falei com você para nunca se envolver com pessoas ruins? Ele balançou a cabeça afirmativamente e, mesmo dentro de seu mundinho puro e inocente, parecia estar tentando buscar o motivo de minha inquietação. – Então, isto vale também para seus amiguinhos. Às vezes, mesmo eles parecendo muito legais, têm ideias ruins e que nos levam a fazer coisas perigosas.

Queria achar um jeito de saber se ele estava tendo contato com o Jack, mas estava difícil de fazer alguma pergunta sem ser direto, ou abrir a visão dele para as investidas do feioso.

Imaginava uma forma tranquila e discreta de saber um pouco mais sobre seus amiguinhos de escola sem citar o nome do demônio, porque não queria que, ao tentar evitar o problema, acabasse fazendo com que meu filho se interessasse por ele. Assim, evitava que minhas investigações tivessem o efeito contrario, ou seja, ao invés de afastá-lo, acabar entregando meu filhinho de bandeja para o esperto Jack.

– Você tem algum amigo assim? Que é ruim?

– Sim! Ele me respondeu de pronto, o que me deixou até arrepiado.

– E quem é este menino? Perguntei com muito medo da resposta.

– Tem um menino na minha escola que sempre faz muita bagunça e deixa a tia do pátio muito nervosa.

– Sério?! E qual é o nome dele?

– Eu não sei o nome dele! Ele é novo na escola e não é da minha classe. Eu só vejo ele no recreio!

– E ele tem provocado você? Te fez algo que você não tenha gostado?

– Comigo não, mas com quase todos da escola! Acho que ele gosta de mim!

O que poderia ter sido uma resposta boa para qualquer pai, para mim foi como um soco no estômago. Era exatamente a mesma situação que havia vivido no passado. Como se a história se repetisse.

– Acho que você deveria evitá-lo, Pedrinho! Ele não me parece boa pessoa!

– Mas, pai! Ele nunca fez nada de errado para mim! Ele divide o lanche dele comigo e até me defende dos meninos grandes! Ele é engraçado, chama os grandões de estrume! O que é estrume papai?

Quando ele me falou a palavra estrume, me senti sendo arrancado de minha realidade e jogado aos primeiros anos de vida.

– Ei, Mac! Vamos acabar com estes estrumes?! Dizia o pequeno e ousado Jack para mim! Na época, apenas um moleque sardento e completamente maluquinho, que encantava corajosamente ao desafiar e enfrentar, de igual para igual, os meninos das turmas mais adiantadas da minha humilde escola de madeira.

Foi uma das primeiras palavras malucas e malcriadas, lançadas com gestos desafiadores, que Jack me ensinara.

– Venham, estrumes! Nós não gostamos de vocês. Gritava de punhos fechados e desafiando para uma briga, os meninos do pátio.

Na realidade, a gente fingia que era muito forte e poderoso, mas se a coisa ficasse realmente feia, o que quase nunca acontecia, corríamos feito loucos até a professora, ou fugíamos para nosso esconderijo secreto, até tudo ficar mais calmo.

Me sentia em desespero e, de tão irritado e sem rumo diante daquele possível encontro do Jack com meu filho, caminhei quase instintivamente para a praça, onde desejava um pouco de apoio com meu amigo invisível.

Antes de chegar nela, porém, apenas pensei alto:

– Isto não é bom! Não é nada bom, mesmo! Isto é desagradável! Referindo-me ao fato do Jack estar armando alguma nova aproximação.

– Sério papai? Porque não é bom? O que quer dizer esta palavra? Estrume? Perguntava o curioso Pedrinho, acreditando que eu me referia a nossa conversa.

– Sim! Respondi um pouco enraivecido ­– Esta palavra é o mesmo que cocô. Não é nada bonito chamar seus amiguinhos de cocô! Este seu amigo é mesmo um estúpido desagradável! Respondi com o tom de voz alterado, tanto que, ao assustá-lo, o deixou com um biquinho de choro, o que me cortou ainda mais o coração!

– Está vendo? Só de falar nestas bobagens já nos fez discutir! Creio, mesmo, que você deva se afastar deste menino bobo! Respondi de forma grosseira e sem pensar.

Depois, arrependido com a minha atitude estúpida, me desculpei e o peguei no colo, dando-o um abraço apertado.

Quis crer que ele nem devia ter entendido o que se passou com a gente, pois foi algo bastante confuso, até mesmo para mim.

Respirei fundo e continuamos nossa caminhada para a praça, onde pensei muito sobre o assunto e acabei chegando a algumas conclusões.

Primeiro, de que precisava me acalmar, porque tudo aquilo era apenas uma suposição e tinha uma grande possibilidade de que todos aqueles sentimentos fossem só uma criação em minha cabeça, já que havia a grande probabilidade do Pedrinho não ter nada a ver com minhas alucinações.

Chegamos na praça e sentamos em silêncio em um dos bancos.

Tinha a esperança de que o Gigante aparecesse rapidamente, mas pressenti que este não era um sentimento compartilhado pelo Pedrinho, já que ele, mesmo parecendo bem mais tranquilo e falante do que a vez anterior em que estivemos por ali, talvez, ainda não estivesse acostumado com a imagem impressionante do grandão.

Aquela praça tinha um clima totalmente diferente de todos os lugares que já conhecera em minha vida, muito provavelmente uma abertura para alguma dimensão mais evoluída e tão bem-intencionada, que transmitia uma sensação boa o suficiente para me deixar muito relaxado… quase com sono!

Estava bastante relaxado e minha cabeça parecia bem pesada, o que fazia com que desse rápidas cabeçadas no ar. Assim, neste estado sonolento, reequilibrei novamente meus sentimentos, emoções e fiquei bem em paz. Talvez, por este motivo, via passar por mim, bem discretamente, alguns seres de luz voando pelo ar, como se fossem vaga-lumes em pleno dia. Só então, vi o grandalhão surgir do outro lado da praça.

Ao nos ver sentados, ele se aproximou sem fazer muito alarde. Deu uma enrolada por onde estava e ficou “discretamente” trabalhando em suas novas flores. Deu um sorrisinho singelo, seguido de um tchauzinho engraçado, o que fez com que meu pequeno amigo risse de suas palhaçadas.

Estávamos em paz naquele momento e nem parecia que – há pouquíssimos minutos atrás -, vivenciamos momentos afoitos, contrariados e atrapalhados.

Queria perguntar ao Gigante se ele acreditava que o pequeno Pedro poderia, de alguma maneira, estar sendo influenciado pelo Jack, ou se ele estaria tentando seduzi-lo como fez comigo, mas não parecia uma oportunidade adequada. Como os dois brincavam à distancia e sorriam um para o outro o tempo inteiro, achei mais conveniente não interromper.

O Gigante não se aproximou em momento algum, muito provavelmente para não acabar com a boa sintonia que estava tendo com o menino.

Em certo momento, o grandão começou a brincar de se esconder do Pedrinho, entrando em um arbusto, saindo em outro e coisas do tipo. Aquilo era tão engraçado e divertido que fez com que até eu caísse na gargalhada.

Quem olhava de longe podia ver um homem e uma criança rindo despreocupadamente, em um belo final de tarde.

Como o Gigante era um ser diferente de todos os que conhecia! Animado, sempre feliz, divertido e de bem com a vida.

Me perguntava se ele não tinha seus medos, preocupações e se eu não estava exagerando com aquela história toda sobre o Jack.

Demorou, mas o gorducho encantador finalmente se aproximou e finalmente sentou ao nosso lado.

O Pedrinho conversou com ele, cantou algumas musiquinhas para ensinar o Gigante e até deu um abraço no seu enorme e novo amigo.

Esperei pacientemente para entrar no assunto que desejava, assim que o Pedro se distraiu e foi correr pela praça, o Gigante virou para mim e me disse:

– Me explica esta nuvem que envolve seus pensamentos, meu amigo?!

Sorri sem graça ao ser descoberto – por estar envolvido em meus piores sentimentos –, para que pudesse, finalmente, lhe explicar minhas dores e o quanto me preocupava a possibilidade do envolvimento do Jack com o meu filhinho.

Ele ouviu cada dor, cada palavra minha em silêncio e sem mudar de expressão, depois, assim que terminei, me disse:

– Não entendo vocês, humanos, ou têm fé demais e se entregam as coisas mais absurdas, ou andam completamente descrentes e se juntam com as energias mais pesadas.

Do ar, ele pareceu criar um belo pacote de pipoca doce, enquanto começava a filosofar a respeito:

– Marçal, meu caro, olha para este mundo em que estamos neste momento. Um pouco seu e um outro tanto meu. Colocou as pipocas na boca, mastigou-as e, continuou:

– Aqui não lhe parece um lugar agradável e gostoso de estar? Respirou fundo, talvez para passar aquela sensação agradável que ele sentia e calmamente, prosseguiu:

– Agora, vamos supor que você o tenha imaginado e que nada seja verdadeiro! Mesmo assim, não te parece maravilhoso todas estas coisas que acontecem por aqui?

– Sim! É um dos meus cantos preferidos, também!

– Bom! Isto é ótimo, me esforço para que seja assim mesmo! E deu um sorriso orgulhoso de seu trabalho.

– Pense comigo, de qualquer maneira, mesmo você tendo a capacidade de enxergar o que, até então, só você percebia, esta praça não continua sendo aberta a todos que desejarem estar aqui?

Aquilo não parecia ter muito significado, mas de qualquer maneira, acenei que sim.

– Ótimo! Então, para que você compreenda o que desejo lhe dizer, vou explicar algo que sei existir, mas não me preocupo e nem tenho pretensões de conhecer, mesmo sabendo o que também ocorre por aqui.

Deu um intervalo em seu comentário para amassar o saquinho de pipoca, fazendo com que desaparecesse no ar – como um engraçado passe de mágica –, divertindo o Pedrinho que, ao longe, lhe devolvesse o sorriso feliz e, em seguida, saísse correndo novamente para outros cantos daquela enorme praça.

– Há outros planos neste mesmo lugar onde estamos – exatamente neste mesmo lugar –, que são bem menos tranquilos do que vemos agora. Lugares difíceis, doentios e pouco agradáveis aos olhos! Você é capaz de acreditar nisto?!

Concordei em silêncio, pois cria naquela verdade. Mesmo porque, eu só poderia acreditar mesmo, já que estivera em um daqueles planos obscuros, assim como me havia dito o Jack, quando vivíamos naquela que foi uma das possibilidades da casa dos meus pais – logo após a morte deles –, no tempo daquelas festas e bagunças todas.

– Pois bem! Agora, observe bem ao seu redor e veja seu querido  e divertido filhinho. O que você acha que ele está presenciando neste exato momento? Em qual dimensão ele está?

Olhei meio sem saber o que dizer. Levantei os ombros como se não houvesse uma resposta a ser dada e, abrindo as mãos no ar, apenas esperei que ele concluísse.

O Gigante sorriu da minha aparente ignorância e depois apontando pela praça, onde existia uma quantidade razoável de seres leves e praticamente feitos de Luz, respondeu:

– Observe, meu amigo! Veja este mundo suave e encantador que vivemos. Por mais que as forças densas também frequentem este mesmo ambiente, mas em outro plano, agora, neste exato momento, tudo o que seu filhinho vê é esta linda oportunidade que desfrutamos.

– Pense, Marçal! Você pode ter passado este dom ao seu filho, mas a vida ainda é dele!!! E a preparação que ele está tendo, mesmo com estas forças o circundando e investindo, nunca terão o mesmo resultado que obtiveram com você, em sua história passada!

Fiquei calado, absorvendo aquela informação sem sequer tentar uma conclusão, por isso, o Gigante fez o desfecho batendo em meu ombro:

– Não queira para si apenas a dor, meu amigo! Já que você é um humano e adora duvidar na hora em que as coisas são óbvias, então, vou te dar uma dica… seu filho não é você, ele tem a missão dele. Não precisa ser um gênio para perceber que terá um futuro brilhante, cheio de Luz e Amor. Acredite em mim, rapaz, nem mesmo mil Jacks mudará isto! Sua experiência e seu Amor por ele já está fazendo a coisa ir por este caminho feliz… um caminho suave!!!

Eu estava com os olhos cheios de lágrimas, pois queria crer exatamente naquelas palavras do Gigante. Ele, por sua vez, me deu um tapinha em meu ombro, levantou do banco onde estávamos sem dizer mais nada, me deu uma piscada como se confirmasse que tudo estava bem e foi brincar com o Pedro.

Duas ótimas, alegres e maravilhosas figuras muito divertidas!

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