Capítulo 11

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De pai para filho

 

Tive mais um dia de trabalho puxado e, por estar bastante disposto, acelerei ao máximo os serviços mais complicados, já que desejava dormir cedo e, desta maneira, passear com meu filho na praça na manhã seguinte, porque achei mesmo a ideia do Gigante – em levar o menino até lá –, bem interessante.

Era uma sexta de manhã, minha filha estava cansada demais da semana de provas que acabara de passar, por isso, inventou um ataque de dores na cabeça e de barriga, com gemidos agonizantes, que me “convenceram” a deixá-la não ir para a escola para poder dormir um pouco mais.

Como eu também não levantei cedo, meus planos acabaram mudando radicalmente, por isso, acordei igualmente mais tarde e esperei meu filho de cinco anos levantar e, só então, tomamos um café da manhã juntos na padaria e fomos passear pela praça.

Ele sempre fora muito agitado e falante, me perguntava sobre tudo, subia em todos os lugares, corria, cantava e pulava o tempo inteiro. Um menino feliz que quase não me deixava espaço nem mesmo para pensar em qual resposta mais acertada deveria lhe dar. Porém, na praça, pela primeira vez, tive uma estranha surpresa, ele se sentou ao meu lado bem quietinho e apenas pareceu observar em silêncio, assim como eu sempre fazia.

Silêncio, tranquilidade e muito atenção em tudo o que passava ao redor.

Imaginei que ele estivesse me imitando, assim como era de seu costume, mas daquela vez ele não repetia os movimentos exatos aos meus, apenas se sentou ali do meu lado e ficou quieto, nem mesmo me respondia quando lhe fazia algumas perguntas.

Eu contemplava, bem na minha frente – enquanto o Gigante parecia moldar algumas flores –, várias figuras bem pequenas que voavam de flor em flor, tal qual um beija-flor.

O Gigante sabia que eu não costumava lhe responder quando havia algum estranho passando por perto e nem quando alguém se sentava ao meu lado, pois nós dois tínhamos consciência de que não seria de bom tom aparentar um maluco falando com alguém invisível. Já tinha passado demais por isso na vida… não mais!

Esta era uma norma minha, na realidade, que nem sempre o Gigante respeitava, por isso, naquele dia em especial, ele parecia não estar nem um pouco disposto a colaborar com as minhas regras.

Talvez, ele estivesse empolgado com a presença de meu filho, ou porque queria desabafar, só sei que não parou de falar por nem um minuto sequer desde o momento em que eu havia chegado por ali.

Ele falava e falava, mas como meu filhinho estava por ali, eu apenas concordava discreto com a cabeça, ou esboçava um sorriso em concordância com sua conversa sem fim.

Já estava lá há pelo menos uns quinze minutos e meu filho não demonstrava a menor reação, nem interesse de sair correndo e pular por toda a praça, como era de seu feitio em lugares espaçosos e convidativos como aquele.

Achando a postura do pequenino um tanto quanto estranha, quis saber:

– Mas por que você não se levanta deste banco e vai correr pela praça? Não está se sentindo bem?

E ele, para a minha surpresa, me respondeu quase cochichando:

– É que estou com medo!

– Medo? Por que você está com medo?

– Estou com medo deste homem gigante que não para de falar com você!!! Ele parece estar criando flores o tempo inteiro!!!! Isto é normal, papai?!

Quando ele falou aquilo, até mesmo o Gigante parou de falar e ficou me observando espantado!

Fizemos silêncio por alguns segundos, então lhe perguntei:

– Você consegue vê-lo?

Ele apenas balançou a cabeça afirmativamente e depois voltou a se esconder atrás de mim.

Eu olhei para o Gigante – que ainda estava parado em silêncio diante de mim –, e sorri, no que o Gigante correspondeu imediatamente, dizendo com sua voz de trovão:

– Pelo visto, Marçal, sua maluquice é contagiosa!!! Ou então, talvez você não seja tão maluco quanto imaginava! E rimos espantados.

Expliquei com bastante calma e da forma mais tranquila possível de que o Gigante não era ruim e que ele era apenas diferente, mas não lhe falei de outras dimensões e coisas do tipo, pois imaginei que ainda não era o momento.

Não forcei a amizade deles, somente deixei que ele se acostumasse com a presença do Gigante ao nosso lado, mas estava eufórico com a ideia de que mais alguém podia ver os seres e vultos que apareciam naquele lugar. Também não demoramos demais por ali, pois percebendo que o pequeno Pedro não se acostumava com a imagem do Gigante, apenas me retirei mais cedo.

Nos despedimos educadamente do Gigante, sem muita aproximação, porque o Pedrinho estava se escondendo quase completamente atrás de mim, o que fez o Gigante dar algumas boas risadas e, em seguida, nos retiramos.

Tentei ser natural ao falar sobre o assunto, dizendo que o Gigante era meu amigo e que ele era legal, além, óbvio, de muito grande, como nunca vira antes ninguém ser assim… tão alto. Mas, que era uma boa pessoa e que tinha um bom coração.

O Pedrinho, apenas se mantinha em silêncio e parecia fugir da conversa, por isso, não insisti, mudei de assunto também, mas sabia que uma hora ou outra teríamos que falar um pouco mais sobre aquilo.

Como explicar aqueles fatos estranhos para uma criança, sem que ela se confundisse? O cenário que tinha daquela praça parecia mais um vídeo de musica infantil, ou qualquer coisa no estilo. Muitas cores, seres voando, sons diferentes, pessoas gigantescas, mulheres translúcidas e alguns vultos claros, que só podiam ser vistos pelos cantos dos olhos. Fora o próprio Gigante, que se via ali… claramente!

De qualquer forma, cria que, pelo menos meu menino tinha a oportunidade de ver coisas legais e positivas. Sabia bem o que era ver e conviver com uma energia pesada. Não era nada fácil!

Os tempos eram outros e queria aproveitar tudo aquilo, até mesmo, financeiramente, já que havia entrado bons clientes e a fartura começava a sorrir para mim.

Tinha mudado meu escritório para um lugar maior, mais bem estruturado e próximo ao antigo. Era dentro de uma daquelas vielas antigas onde se escondiam a bandidagem anteriormente. Dei uma boa reformada e descobri, surpreso, meu novo e lindo estúdio… inacreditável!

Como minha família tinha entrado no período de férias, procurei dois bons designers de confiança para uma parceria naquele tempo de descanso. O que me ajudou demais aproveitar meu tempo junto à minha família e, assim, dar atenção e curtir com eles.

Pouco tempo depois daquele encontro com o Gigante, diante da oportunidade de aproveitar meus passeios, decidi que iria fazer algo que há muito não fazia, ir na praia com a minha família.

Eles ficaram muito empolgados com a ideia e em menos de algumas horas já havíamos decidido para onde e quando iríamos.

Antes de partir, porém, resolvi passar na praça discretamente, como sempre, e me despedir do Gigante, porque gostava de sua companhia e suas palavras positivas.

Como imaginei, ele não foi diferente, sorridente e animado incentivou a fazer aquela viagem, além de contar algumas boas histórias sobre o quanto ele adorava o mar e como já havia conhecido ótimas pessoas por lá.

No final daquele encontro nos despedimos bastante empolgados. Até me deu uma grande saudade do tempo em que eu passeava pela praia, ou acho que passeava, pois nunca soube exatamente até onde aquelas viagens foram fisicamente reais.

Em casa, admirava as brincadeiras do Pedrinho, enquanto admirava o quanto era incrível como certas coisas pareciam ser transmitidas aos filhos.

Percebia como o Pedrinho, além de se parecer fisicamente comigo, também tinha algumas manias e costumes semelhantes aos meus e, por isso, viajava em meus pensamentos em como aquilo era possível? Imaginava que só poderia ser a tal da genética, com certeza!

O jeito de brincar com as pessoas e até mesmo irritá-las, além de algumas manias e vergonhas.

Estava divagando sobre isto, arrumando minhas malas, quando de repente senti um medo, um frio no corpo. Lembrei do Jack e do God e, por um minuto, temi que aquela sensação de arrepios e enjoos fosse um provável sinal de aproximação de um dos dois.

Respirei fundo e aguardei, mas por não visualizar nada, apenas quis crer que não havia passado de um mal-estar, provavelmente causado por algo que deveria ter comido ou coisa do gênero.

Diante de meu armário, apenas continuei a separar as roupas que levaria naquela promissora viagem para a uma divertida semana na praia.

Comecei escolhendo as bermudas de água, porque mesmo tanto tempo distante do mar ainda tinha costumes daquelas épocas, onde sempre tinha que ter duas ou três bermudas boas para entrar na água e que secassem facilmente.

Lembrei novamente do Jack quando ainda era um menino, me dizendo que eu tinha que ter uma boa bermuda para entrar na água, uma camiseta leve e um óculos bacana.

Dei risada da lembrança, pois já não colocava um óculos escuros há tanto tempo, que nem saberia dizer se tinha coragem de usá-los, afinal, acreditava já não ter idade para estas coisas.

Estava concentrado em minha tarefa, até mesmo me divertindo em pensamentos e lembranças, quando ouvi meu filho brincando em seu quarto.

Ele parecia empolgado em sua brincadeira. O ouvia rir e murmurar várias coisas, que pela distância onde estava nada fazia muito sentido.

Naquele momento estávamos a sós em casa, minha mulher e minha filha tinham saído para comprar protetores solar, além de outras coisinhas de mulher.

Em casa, sozinho, distraído e empolgado nos meus afazeres, apenas curtia aquele momento de descontração. Pedrinho em seu mundo particular – muito provavelmente criando alguma aventura junto aos seus carrinhos e seu universo infantil –, nem podia imaginar as maluquices que seu pai já vivera e, de verdade, desejava crer que era melhor assim.

Estava quase finalizando minha mala e, descontraído como estava, tomei um choque quando escutei a voz inocente de meu filhinho, dizendo:

– Tá aceitado!

Aquela frase tão simples e curta, que para qualquer pessoa não passaria de mais um assunto qualquer de criança, para mim soou como uma explosão. Algo dentro de mim estalou e me senti tremendamente amedrontado.

Um frio percorreu todo meu corpo, uma mistura de pânico e ódio, pois parecia que havia retornado há muitos anos atrás.

Me vi diante do Jack, ainda pequeno, um menininho bobo e infantil, que em seu mundinho, sem nem mesmo imaginar, aceitava de um outro menino seu primeiro acordo, seu primeiro pacto!

Arrepiado e gelado, soltei minha mala no chão – que se espatifou toda aberta –, e corri para o quarto do Pedrinho.

O chamei desesperado – quase aos berros –, para que parasse com aquele acordo, fosse com quem fosse, pois em minha mente, via claramente o Jack segurando sua mãozinha e o sentenciando a uma vida de pressão, cobranças e um escravo dos jogos que ele inventava.

Ao chegar em seu quarto, o encontrei com dois bonequinhos nas mãos, envolvido em uma brincadeira simples e inocente, sozinho… com mais ninguém.

Ele me olhava assustado, como se não conseguisse compreender o motivo de meu desespero, minha gritaria insistente.

Eu respirava forte e sem controle. De olhos arregalados procurava pelos quatro cantos do quarto algo que denunciasse a visita desagradável do Jack.

Só depois de ter certeza absoluta de que não havia mais ninguém por perto, relaxei um pouco e me acalmei. Então, ao notar que havia sido exagerado demais, o abracei forte, dei-lhe um beijo no rosto e pedi para que não ligasse para as minhas maluquices, mesmo ainda estando bastante preocupado com aquela frase que ele falara, muito familiar para mim.

O que o Pedrinho não viu, foi que voltei em meu quarto, para a minha mala, com os olhos avermelhados e cheios de lágrimas, pois mesmo vendo que ele estava bem, em algum lugar da minha mente… algo não ficou legal.

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