Capítulo 10

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Evoluindo!

 

Depois da tormenta, a paz!

Algo de bom surgira do caos! Esta era a sensação ao desfrutar aqueles tempos bons.

Já tinha acostumado com aquela felicidade e, sendo assim, não perdia a oportunidade de sempre passear com meus filhos e minha mulher nos finais de semana.

Nunca quis que ninguém conhecesse as figuras invisíveis que conhecera, desde que passei a ter consciência de que se tratavam de seres de outras dimensões, ou sei lá como defini-las, até conhecer o gorducho da praça.

Lembrava incomodado de que os outros dois eram seres bastantes diferentes de nossa convivência.

O Jack, era desequilibrado, ciumento, possessivo e exalava maldade demais. O God, também era sinistro demais, porque ainda estava em desenvolvimento em minha cabeça e, por isso, aparentava um brutamontes impaciente.

Já aquele personagem da praça, o gorducho, era tão doce e engraçado que eu lamentava que ninguém mais o via. Seu sorriso animado e suas palavras de incentivo tinham que ser ouvidas por todos que ali se encontravam.

De qualquer forma, creio que apenas o fato de ter sua presença amiga por lá, já parecia influenciar bastante na boa vibração do ambiente, onde flores e plantas se mostravam mais vivas do que as que não pertenciam àquela praça.

Sentia uma energia boa e me alegrava ver como todos se deixavam influenciar pelo encantamento que o Gigante espalhava para todos os lados.

Me perguntava impressionado como poderia um ambiente ser transformado tão radicalmente?

Lembrava da história que o Gigante havia contado sobre as mudanças radicais e inesperadas que aconteciam em nossas vidas e como tudo isto parecia ser programado por alguém.

Passava pela praça e de imediato me prontificava a cumprimenta-lo, algo impulsivo e que eu não resistia, mesmo com minha mulher me olhando com cara engraçada diante de minha maluquice, mas ao ver o Gigante, como acabei o batizando, mandava logo um sorriso e um “Olá” tímido. Porém, o que ela jamais pode ver, infelizmente, era o meu enorme amigo passar sorrindo e me desejando de volta um ótimo dia.

Por causa dele, acostumei a dar uma passada pela praça toda vez que saia da padaria. Gostava de ouvir algumas de suas histórias e comentários positivos. Aquilo me fazia bem, afinal, eu já não tinha um amigo íntimo por perto durante muitos anos, ou talvez a vida inteira, já que o Jack, apesar de se esforçar muito, nunca fora uma boa amizade.

– Gigante! Sinto que sua presença é tão diferente dos outros que conheci. Você se porta de forma humilde e age com simplicidade. Por que você se manifesta desta maneira diferente, já que também é um ser de outra dimensão?

– Ora, Marçal! Ninguém tem a necessidade de agir e ser da mesma maneira, não é mesmo? É verdade que, também tem o fato de você aceitar bem as outras vibrações. Talvez, eles nem sejam da maneira que você os percebe, mas a sua consciência é quem os mostra daquela maneira.

– Então, o Jack e o God podem nem mesmo existir? Ou melhor, eu os imaginei da forma errada? Como você os percebe? Perguntei para o ocupado Gigante, que ao tocar nas plantas do jardim, as moldava, coloria, polinizava e abrilhantava.

Ele parou alguns segundos, como se pensasse na questão e depois respondeu:

– Acho que nunca os vi! Depois, deu um belo sorriso chacoalhante e retornou à sua tarefa diária.

– Como assim? Você nunca viu o God ou o Jack?

– Não! Nem penso nisto e creio que nem pretendo! Estou feliz com a vida desta maneira, assim, do jeito que ela tem se apresentado. Respondeu sem nem mesmo me olhar.

– Você acredita em Deus, não é mesmo?

– Huumm! Acredito plenamente! Mas, não nesse que você criou… este é muito radical!

– Mas, então eu não tive um contato com Deus de verdade? Falei com uma certa preocupação, pois o mundo invisível podia, mais uma vez, ter me pregado uma peça.

Ele gargalhou e me disse:

– Você não deve levar as coisas tão à sério, rapaz! Tente vivenciá-las com maior naturalidade e captar o que há de melhor. Se eles eram mesmo o bem e o mau encarnados, tanto faz. Apenas, aproveite o dia de hoje. Não foram eles que abriram as portas para o mundo que vivemos agora? Creia, amanhã o dia pode ser ainda melhor, se o hoje for compreendido como deveria.

– Então, não devo crer no que vi e vivi?! Perguntei confuso.

– Eu não disse isso! Falou me dando as costas.

– Gigante! Preciso saber de verdade, você acredita em Deus?

– Se acredito em Deus? Claro! Eu já não disse isso? Sou temente à Deus, mas rio das bobagens que criam para chegar Nele! Aí, eu desconfio e acho graça! Por isso, devo despertar esta sua dúvida se acredito em Deus ou não.

Deu um último retoque na flor próxima dele e, na sequencia, sentou ao meu lado, dizendo:
– Sabe? Agradeço por tocar neste assunto, porque, meu amigo, acredito que Deus seja nós mesmos! Disse em tom tranquilo e calmo, como era de seu feitio.

– Como isto é possível? Raciocina comigo: Imagine que nossa alma não tenha limites na escala da evolução. Digo evolução na questão de descobrir, aprender, reaprender e questionar. Pense em você há alguns anos atrás, agora, de certa forma, você não faria muitas coisas de um jeito melhor e de uma maneira mais fácil? Eu, pelo menos, creio que sim.

Fiquei olhando para ele em total silêncio, tal qual uma criança que espera a continuidade da história.

– Esta é a evolução a que me refiro. Seguindo este raciocínio, imagine agora que sua alma é imortal. Tirando todas as crenças e religiões, vamos apenas imaginar você daqui a milhares e milhares de anos lá na frente. Olha o quanto você já aprendeu?

– Agora, imagina você com mais milhares e milhares de anos. Não podemos esquecer que a alma é imortal, ou seja, para sempre!!! Você nem sequer lembra mais que ouviu esta nossa conversa, pois nem neste plano você estará mais. Então, você continua evoluindo mais ainda, sendo assim, vamos colocar mais milhares e milhares de anos. Eu nem saberia te dizer de que material você poderia feito! E deu sua gargalhada gostosa.

– Muito bem, parece que já estamos bem distantes destes nossos tempos, não é mesmo? Vamos melhorar isto, só para acrescentar um pouquinho mais de experiência na sua vida? Coloquemos mais alguns bilhões de anos! Não consigo nem te imaginar!!! E deu mais uma gargalhada engraçada.

– Talvez, você seja feito de algum material brilhante, algo parecido com alguma energia, ou plasma… estas melecas espirituais, dizia com seu ótimo humor, enquanto balançava seus dedos gorduchos no ar, sugerindo uma fumaça, ou pó brilhante!

– Você, meu amigo, chegou a uma condição inexplicável e impensável para nossas humildes realidades!!!
Sendo você e estando você numa condição espiritual inconcebível, dentro de uma realidade inadmissível e uma espiritualidade altíssima, aí sim, vamos colocar mais outros bilhões de anos. Será que você acredita que agora você aprendeu algo? Disse me cutucando a testa, como se eu fosse o maior cabeça dura que conhecera em vida.

– Te parece tempo suficiente para aprender algo de bom? Ok! Assim mesmo, depois de mais de vigesilhão de anos passados e outros muitos vigesilhões de anos, você se encontra dentro de um nível espiritual inacreditável, junto com outros espíritos da mesma categoria, unidos na criações de… talvez, quem sabe, por exemplo, mundos e luz, ou qualquer coisa que nem me pergunte o que!!! Você, então, se vê, pensa um pouquinho e chega à conclusão, em uníssono aos demais: Estamos vibrando em frequências absurdamente altas… Somos Deus!!! Então, neste local onde tempo e espaço já não querem dizer mais nada, e seu “corpo”, a soma de outras milhares de luzes e energias… feitas sabe-se lá do que!!! Numas dessas viagens pelo espaço/tempo, se depara com uma pessoa sentada nesta praça, em uma bela manhã de sol, exatamente como hoje, há muitos vigesilhões de anos atrás e percebe surpreso que esta figura simples e cheia de dúvidas, que conversa com um bonitão gigante de outra dimensão… é você mesmo!

Só aí então, é que você repara encantado de que esta pessoa é parte de você naquela realidade divina e para pra ver e perceber um pouco daquele ser tão frágil. Você, Deus, escuta que, talvez, ele – você nos dias de hoje –, depois de tanto pensar na existência e seus mistérios, começasse uma prece para Deus – que agora é também você mesmo –, para ajudar nos enfrentamentos de todos os perigos, agonias, travas sem fim e provações que possam aparecer no percurso.

Parou de falar por um instante, respirou um pouquinho, olhou ao redor como se visse algo que eu não podia acompanhar e, prosseguiu:

– Você, Deus, olha para nossa realidade, sorri e diz baixinho no seu próprio ouvido, os desta realidade atual, os que você possui hoje:
– Fica em paz! Isto é passageiro… você vai chegar lá!

Neste momento, uma brisa bateu em meu rosto e a voz do Gigante pareceu ecoar em minha cabeça, como se milhares de almas falassem a mesma frase sussurrada em meus ouvidos.

Ele fechou os olhos, como se recebesse a mesma mensagem que vinha de todas as direções:

­– “Não há uma folha que caia de uma árvore, sem que Deus não saiba”. Pense nisso! Ele sabe, porque Ele pode ser você! Ele pode ser a árvore e a folha que cai.

Fez um breve silêncio e ainda de olhos fechados, me perguntou:
– Te parece estranho?

Como eu não disse nada, apenas abriu os olhos e me deu aquele sorriso bochechudo e amigo de sempre, depois prosseguiu:
– Queira bem a todos, pois ainda temos muito o que trabalhar, até chegarmos a ser Deus, ou melhor, já Somos mas, ainda não sabemos! Numas dessas viagens de Tempo/Espaço.

Levantou com a rapidez de sempre e sem dizer mais nada, virou-se para seus afazeres e desapareceu no ar.

Se ele tinha razão, ou não, ninguém poderia me confirmar naquele momento, mas que aquelas palavras haviam sido bem interessantes, isto eu não podia negar.

Só podia agradecer por mais aquele dia e a oportunidade de tê-lo conhecido, porque minha percepção do mundo era outra, completamente diferente da que acreditava há pouquíssimos tempos atrás.

A mente se abriu e com ela o coração! Podia compreender o Amor ao próximo, já que a nuvem do ódio e da falta de alegrias havia passado.

Não fui direto para o escritório como costumava no passado. Sentei em um daqueles bancos, daquela praça muito florida, com uma quantidade razoável de pássaros e borboletas e ri de mim mesmo.

Houve tempo em que admirar a natureza seria um sinal de fraqueza. Como se demonstrasse alguma feminilidade, ou velhice, como se um ou outro também fossem algum problema.

As vezes a juventude é tão cruel e preconceituosa, pelo menos a idade me permitiu ser mais sensato.

Minha sensibilidade não só havia me melhorado como pessoa, mas também como um ser espiritual, porque além de ter o Gigante como companheiro de praça, as condições do meio onde vivia estavam muito melhores, começava a perceber que além do próprio Gigante, outras figuras igualmente positivas e até mesmo mais suaves passavam a transitar por ali.

Eram ainda muito discretas e tímidas, por isso, as percebia de canto de olhos.

Umas eram pequenas e se confundiam facilmente por insetos e pequenos pássaros, mas seus cantos e conversas se faziam notar e se diferenciavam demais dos bichinhos que conhecia e, desde que conheci mais a fundo o Gigante, passaram a ser parte do repertório daquela bela praça.

Percebi que minha aceitação, minha postura com as pessoas ao meu redor e a paciência comigo mesmo faziam toda diferença diante destes seres invisíveis.

Conforme os dias se passavam, ao perdoar o próximo e a mim mesmo, novas figuras surgiam e mesmo que muitas vezes, nem prestassem atenção em minha figura discreta e silenciosa por ali – diariamente sentado em um daqueles bancos –, as via continuar a surgir.

Com o passar do tempo, eu conseguia notar que umas quantidades interessantes daquelas figurinhas passavam de um lado para o outro, umas trabalhando naquela praça, outras apenas de passagem e, outras ainda, aparentavam estar assim como eu, apenas curtindo aquela praça, o belo visual daquele cantinho especial que se tornara.

Um certo dia perguntei para o Gigante, como podia aquela quantidade de visitantes que surgiam todos os dias por ali?

– Ora, Marçal! Eles sempre existiram!!! Sabe de uma coisa? Talvez, você nem sequer acompanhe os outros muitos que também vejo por aqui!

– Será que estou maluco?! Perguntei bastante preocupado.

Ele parou de trabalhar em suas flores, como costumava fazer quase o tempo inteiro, somente parando vez ou outra para comer alguma guloseima e ficou me observando.

– Marçal! Quantos de vocês humanos podem nos ver?

– Bom, eu não conheço mais ninguém que saiba de vocês!

Ele me olhou fixamente, levantou os ombros e respondeu:

– Então, não creio que você seja lá muito normal, não é mesmo? E deu sua famosa gargalhada.

A resposta não foi muito animadora, mas também não me deixou desesperado, pois ele pareceu tão natural e engraçado, que não chegou a me impressionar.

Levantei do banco onde costumava admirá-los e ameacei a me retirar, então, o Gigante me chamou, dizendo:

– Ei, Marçal?! Traga seu filho amanhã! Gostei do menino!

Sorri de volta, pois como diz o ditado: “Quem agrada meus filhos, adoça minha boca”.

Despedi com um aceno discreto, para que as pessoas não me tomassem por um maluco completo, me retirei sem esperar respostas do Gigante e fui para mais um dia de trabalho.

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