Capítulo 8

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God!

Andava calmamente de volta para a minha casa, pelas ruas vazias de meu bairro que, até então, eram uma porcaria cheia de vultos mal-intencionados, mas que, para a surpresa dos que ali viviam, passou a ser silenciosa e pacífica. Um bom lugar para se viver.

Reparava em algumas construções mais antigas e até as achei bem bonitas. Escondidas entre aqueles becos onde sempre passava rápido e assustado demais para observá-las. Devagar e calmo, tal qual um turista, coisa que nunca pudera fazer.

Escutava o som do vento uivando passar por mim e me sentia um pouco triste ao lembrar daquelas caras desesperadas dos marginais. Porém, ao mesmo tempo, sentia um grande alívio, algo que contagiava e me dava esperança de tempos melhores.

Talvez, a existência do Jack tivesse sua necessidade, uma função difícil, mas até que bastante importante no Planeta Terra.

Seria ele um instrumento de purificação? Alguém que, através do sofrimento, fazia uma limpeza nas almas endurecidas? Usando a dor e exemplos ruins para modificar o Planeta? Respirei fundo e sem saber o que pensar, deixei escapar um:  – Sei lá!

– Esta é uma limpeza de alma, com certeza! Escutei uma voz grossa e clara falar bem atrás de mim.

Até me curvei com o susto, como se um raio tivesse caído sobre mim, ia até deixar escapar um palavrão, mas me calei diante da nova visão, pois me assustei ainda mais quando constatei de que, aquela voz que falava comigo, não era o Jack, mas aquele que se autoproclamava God!

Estava espantado que Ele estivesse ali novamente comigo, mas de qualquer forma, era uma boa oportunidade para tirar as milhares de dúvidas que circundavam minha mente, desde aquele encontro inusitado, onde Ele chegou exigente e me intimou daquela forma bastante grosseira.

Antes mesmo que eu fizesse alguma pergunta, ele me respondeu:

– Afinal, como poderia ser ouvido por você, se naquela época tudo o que carregava era um monte de revolta e incompreensão? Sou uma energia criadora e, em muitos casos, uma força da natureza. Ajo de acordo com as necessidades que o universo tem de evolução e expansão, sendo assim, quase nem sempre tem a ver com as necessidades humanas.

Me encarava com um olhar bem mais sereno e em paz do que a primeira vez em que nos vimos. Não tinha aquele aspecto apavorante e encrenqueiro, mas ainda assim, não se podia dizer que era uma figura amorosa e suave.

– Não sou humano e nem me imagino como tal, tenho a capacidade de me comunicar com vocês, mas definitivamente não sou um de vocês. Posso ter a imagem suave como a de uma energia sublime, ou então grosseira e deselegante como a de um ser humano rasteiro, mas eu, claramente, não sou um de vocês.

– Mas qual é a proposta divina para o ser humano? Perguntei quase mentalmente, pois não havia tempo suficiente de palavras faladas naquele diálogo.

– Para o ser humano? Porque você crê que tenho alguma proposta para o ser humano? Por que vocês acreditam que o mundo foi criado para vocês, quando na realidade vocês podem apenas ser um erro, ou um material em desenvolvimento? Ele ainda me parecia bastante rude, assim como na primeira vez que o vi. Porém, mais paciente com minhas perguntas aparentemente infantis e cheias de incredulidades.

Conforme me explicava, os temas que eu sugeria, sua imagem ia suavizando e se tornando naquilo em que eu acreditava como uma forma elevada deveria ser.

– Existe uma grande diferença entre ser e o que vocês imaginam o que é. Eu não sou nada daquilo que vocês conceberam como divino e nenhuma de suas regras se aplica a mim. Eu não criei pecado algum que deva ser condenado, nem leis tão favoráveis a certas elites religiosas, como se imagina por aí. Na verdade, a única coisa que vocês sabem acertadamente sobre mim é que existo, quanto ao resto, sugiro que jogue tudo fora e comece novamente.

Confesso que esta parte de sua explicação me deixou bastante surpreso. Algo que me fez pensar muito tempo.

– Vocês designam poderes, curas e doenças das quais nem mesmo imaginei que vocês seriam capazes de criar, pois tais doenças nem mesmo existem, senão apenas em suas mentes criativas e problemáticas. Uma sopa maluca dentro desta necessidade absurda de poder. Choram misérias que não criei, queimam pecadores de pecados que nunca houveram, recebem mensagens divinas de divindades que ninguém sabe de quem se trata. Todas estas suas regras de pecados e ofensas, bênçãos e benefícios são, na grande maioria, criações de suas cabeças. Dualidades que, talvez, foram surgindo graças a necessidade imatura de se imporem, de se sentirem superiores e privilegiados.

Fez uma pausa, talvez aguardando alguma outra pergunta, que não fiz, e continuou:

– Me defino, para pessoas como vocês, uma força da natureza, uma evolução superior e ainda inimaginável, onde a palavra Amor tem, mesmo, um significado especial, pois ela representa o espontâneo, o natural, a necessidade de ser e estar em paz e de bem com os meios onde habita. Aqui e agora, diante de você, sou o que você entende por Deus, mesmo sabendo que, este deus de vocês, em nada se encaixa com a realidade, mas compreensível diante de sua pouca evolução e completos desconhecedores do Deus que todos nós somos. Não posso ser melhor e nem pior, pois uma vez em meu estado natural, não passo de uma forma incongruente e indefinida, ou seja, uma forma de vida inexistente para sua capacidade de me captar. Sou aqui e agora alguém muito aquém do que sou realmente, assim como o mau ao qual você teve acesso durante anos, se diverte ao se diminuir imensamente para que você o perceba como alguém com quem possa se comunicar.

Ele passou a caminhar ao meu lado em direção à minha casa.

– Diante destas limitações, noto-me como um rascunho mal feito de mim mesmo, onde me rebaixo ao máximo e tento me fazer comunicar com você. Suas dúvidas são primárias e seus comportamentos são sem sentido diante das infinitas possibilidades que posso vivenciar. Porém, mesmo assim, me sinto “feliz” por podermos estar realizando esta comunicação.

Era engraçado que, um Ser tão poderoso, aquele que eu conhecia como o Criador de tudo o que eu conhecia, estava ali, andando ao meu lado, conversando comigo e, ao mesmo tempo, olhava para si mesmo e para suas mãos, com uma expressão feliz e quase encantada, como se reconhecesse aquela realidade pela primeira vez. Eu admirava seu semblante bonito e feliz, já bem mais limpo e menos grotesco do que a primeira vez que o vi saindo daquele carro. Era como a de uma criança, mesmo que ainda dentro de um corpo forte e poderoso de homem forte.

– Para encerrar, afirmo que o bem e o mau são polos opostos do mesmo corpo e que, através dos dois, a evolução é aceita e realizada. Aceite isso como uma realidade, ou não, apenas que, a cada um cabe sua escolha e o quanto gostaria de sofrer, ou saborear suas alegrias.

Parou, como se estivesse se despedindo de mim, enquanto vi seu carro indescritível estacionado próximo de nós.

– Sei de sua existência, assim como você percebe a minha, um relance e, ao mesmo tempo, um milagre presente. Sou a junção de tudo o que você sabe, soube ou saberá. Sou sua vitória no longo percurso de muitas derrotas. Sou o limite máximo de sua existência em eterna expansão em conhecimento e espaço construído. Não apenas sei da folha que cai, pois ela foi uma de minhas existências, assim como sou tudo o que você criou para você mesmo, durante anos, anos e anos… desde sempre!

Abriu a porta do carrão, que me pareceu mais limpo e estranhamente mais amigável, mesmo que sendo exatamente o mesmo.

– Sou sua parte crível e a que em nada crê, sou a resposta e a dúvida… sou tudo o que imaginar e conceber e até o que nunca nem mesmo imaginou. Neste momento, sou um Deus limitado, mágico e superficial, exatamente como me imagina. Sou parte fé, concepção e criação. Sou tudo o que imagina, mesmo que limitado. Para cada grau de conhecimento, sou proporcionalmente inacreditável. Por isso sou infinito, sou plural e inconcebível.

Ele respondia a todas as minhas questões, mesmo antes de conseguir transformá-las em palavras.

Ele era parte de mim e percebendo minha incapacidade de acompanhar suas palavras com a mesma rapidez com que as dizia, fez um pequeno intervalo e depois continuou:

– Aos mais elevados pensamentos me manifesto ainda mais elevado, ao mais ilustre de todos os seres do universo, sou ainda mais ilustre e inatingível. Nada do que você imaginar será surpresa ou inigualável, pois sou e existo para cada partícula, assim como sou a mais grandiosa de todas as criaturas. Se você olhar para o alto, verá o infinito. A grande diferença é que eu não vejo o infinito, eu estou para qualquer parte em que você olhar deste infinito.

Como entender uma pessoa que está para cada canto que eu pudesse ver? Como conversar com calma e ter a capacidade de criar perguntas decentes com alguém tão poderoso?

– Você é parte deste universo e pode criar uma história melhor e mais feliz, basta crer e agir de maneira que tudo em que crê, se torne real e se materialize.

Ele parecia falar um pouco mais devagar, como se quisesse que eu o compreendesse e decorasse aquelas palavras.

– Se você é tudo que existe, então você é também o mau que nos rodeia? Perguntei curioso em entender esta questão.

– Sou tudo o que é possível e imaginável, por isto, sou o mau que desejam, pois se sou criação, o mau que vocês desejam experimentar e consumir é uma das muitas realidades – fez outra pausa e depois citou:

– Batei, e abrir-se-vos-a. Lembra destas palavras? Tentando me relembrar do significado, mas com uma nova roupagem, onde o mau também tinha sua presença garantida no mundo da criação.

Sou a Luz Divina e Sou o Mau que arde, pois sou tudo o que há! A cada mente sou o que há de melhor e o que há de pior. Sou a Luz da mente mais pura e evoluída, ao Mau quase inacreditável, pois sou a força criativa do Universo. Sou uma única manta, em todos os sentidos e para todos os sentidos.

– Porque você me parece tão agressivo? Pensei meio assustado e sem muita certeza.

– Por que este é o Deus que você concebeu em sua imaginação. Você criou uma imagem distorcida de alguém superior durante estes anos todos, assim como criou seu próprio Demônio.

– O Jack é fruto de minha imaginação? Ele não existe?

– Ele é uma manifestação da natureza que você consegue captar, mas as necessidades dele, na realidade são uma invenção sua. Uma projeção, uma necessidade de atenção. Seu mundo, sua história é tudo aquilo que você consegue criar para si mesmo. Nada ou tudo é real, depende do quanto foco você dá aos seus problemas e soluções. Veja sua história com sua mãe e seu pai. Eles não morreram por causa de você, esta é a sua percepção, pois se você os tivesse aproveitado melhor, talvez esta sensação de que se foram sem nenhum propósito, não faria o menor sentido. Creio que, para eles, suas vidas neste plano material, não há este sentimento de que apenas viveram superficialmente, sem motivação e depois partiram sem realizar algumas metas. Percebo que viveram dentro do que planejaram, realizaram o que deveriam e depois partiram deste plano material para um outro, como todos aqueles que já se foram um dia. É natural que se tenha sempre uma visão muito superficial sobre as pessoas, pois não se vive os conflitos pessoais e exigências internas de cada um. Ninguém está acima e nem abaixo para si mesmos, são todos atores principais em um único palco.

Desde o começo de sua aparição até aquele momento, Ele parecia sofrer uma mutação constante, algo que me chamou muita atenção e que rapidamente pude entender que era como eu o concebia em minha mente.

Estranho que uma figura tão poderosa, a junção de todas as coisas, acabava por ser tão indefinida em minha cabeça, ao ponto de não conseguir estabilizar por mais de um minuto.

Em resumo, eu tinha um grande respeito por Ele e a mensagem era mesmo Amor, algo que não poderia conceber jamais em minha vida, ainda mais por uma figura tão rude. Preferia acreditar nisto e acreditar que meu Amor por Ele era imenso e isto de alguma maneira, suavizava seus traços de homem bruto.

Com calma a sabedoria me envolvia e tudo o que eu podia imaginar era que o mundo era mesmo uma concepção coletiva, uma grande e poderosa imaginação coletiva, por isto, nem sempre perfeita e nem totalmente desumana.

Por um instante tive pena do Jack, pois ele era uma criação da parte má da humanidade, desde um simples palavrãozinho até as crueldades mais sádicas.

Naquele dia, admirei a Criação Divina e suas muitas etapas, assim como a inesperada limpeza, mesmo que por escolha das próprias figuras que a perturbavam, daquele belo bairro.

– Livre arbítrio… é livre desde que não invada, não imponha e não incomode. O que vocês experimentam em nada se parece com esta palavra. Isto… é baderna!!! Ouvi dentro de minha mente as palavras de God!

Por uma noite que fosse, a cidade respirou um pouco melhor, livre daqueles que a estragavam e com mais dúvidas e pensamentos confusos do que o normal.

Curti aquele período de paz e de noites claras, de lua cheia e ar límpido, como se a chuva tivesse limpado o céu e a terra.

Ali, depois de refletir sobre o assunto, decidi que deveria ter uma conversa séria com o Jack, por isso, o faria assim que ele retornasse de sua “viagem”.

Sabia que ele iria demorar um tempo, pois costumava aproveitar bem as consciências cheias de terror e culpa, como as que ele havia carregado com ele, ou era isto que eu o imaginava fazendo… e por imaginar desta maneira, cria que era assim que deveria ser.

Desta maneira, simplesmente aguardei seu retorno, sem muitas expectativas, já que, sua presença nunca mais fora agradável e nem muito bem-vinda. Porém, daquela vez, eu o queria ver, muito mais com a intenção de me despedir do que tê-lo ao meu lado, como já aconteceu no passado.

Estava mais aliviado com tudo aquilo, não que tivesse todas as respostas que desejara, mas que, pelo menos, via um sentido em todas as coisas.

Me sentia como alguém que se vê diante de uma grande descoberta, pois aqueles últimos encontros foram, mesmo, bastante reveladores.

Durante quase dois meses minha vida transcorreu leve e tranquila, sem perturbações, sem cobranças excessivas e nem a pressão de marginais por todos os becos. Paz!

Rolou um boato por todo o bairro que um matador esteve circulando por ali e que eliminou sete dos piores marginais de uma só vez e com grande facilidade. Um justiceiro sanguinário e até tinha uma história sobre uma promessa feita pelo tal do assassino, de que se ele encontrasse pela noite outros iguais por ali, provavelmente seriam rapidamente eliminados.

Bom, eu não era um criminoso, por isso não tinha nada a temer. De qualquer forma, sabia exatamente o que acontecera por ali e que, também por isso, tinha menos ainda a me preocupar.

De todos os assuntos que ali surgiam, apenas em um eu tinha interesse, o fato de que em um belo dia o Jack surgiria e tudo o que tinha a dizer era que agora entendia aquele pacto com o God.

Entendi claramente que sua equipe era muito ampla e todos faziam parte dela.