Capítulo 7

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Resgate

Fechei meu escritório e fomos até o carro impressionante e importado do Jack. Pela quantidade de botões e luzes, aquilo parecia mais uma nave espacial.

Observando o painel maravilhoso lembrei quando comecei a estranhar de vez o Jack e suas contradições.

Foi naquele tempo que descobri que ele era um demônio.

Ele havia desaparecido com a Gilda, algo muito difícil naquela cidade pequena em que eu conhecia toda a malandragem. Era um enigma desconcertante e desanimador que destruía nossa felicidade em estarmos juntos, tanto que a pequenina Rebeca, não resistindo a perda da irmã querida, com uma depressão tremenda que a consumia visivelmente, a entristeceu de tal maneira que a matou em pouco tempo.

Eu estava desesperado e sem rumo, ainda não conhecia o Outro, por isso tinha dificuldades em fazer alguma reza, ou pedido, ou qualquer coisa que o valesse, para trazer paz para a Valquíria e para mim. Dependíamos um do outro, estávamos sós e desamparados.

Um dia, estava ao lado do Jack, no quintal da casa da Valquíria, quando ela trouxe uma vela e uma jarra cheia de água. Não sabíamos o que ela iria fazer, por isso, apenas permanecemos em silêncio.

Ela sentou-se em uma mesa de madeira, muito bem construída pelo ex-marido, que ficava ali no fundo de seu quintal, esticou uma toalha branca e ascendeu a vela igualmente branca que segurava junto a um pires transparente. Retirou de dentro de sua bolsa uma bíblia, esticou sua mão para mim e pediu que se juntasse a ela a uma reza que aprendera com sua avó.

Me sentei em silêncio e fechei os meus olhos, em forma de respeito, na seqüência, o que vi foi o Jack desesperado, como se tivesse visto o fantasma mais horroroso de sua vida, saindo correndo do quintal da Valquíria e se negando a entrar ali, para sempre.

Ela fez sua reza, eu acompanhei em silêncio me sentindo bastante incomodado, mas fiquei até o final, ou melhor, resisti bravamente, pois me sentia quente, dolorido e com uma vontade louca de acompanhar o Jack em sua fuga.

Quando acabou a reza, ela simplesmente pediu licença, apagou a vela, serviu o copo de água, que tomei aliviado, pois me proporcionou grande paz e serenidade. Ela, tomou o copo de uma vez e, sem dizer palavra sequer, fez que iria entrar para a casa novamente, resignada.

Achando estranho que ela não comentara nada sobre a reação que o Jack tivera, perguntei se ela não achou aquilo esquisito. Ela me olhou com uma cara de espanto, de quem não sabia do que eu estava falando e depois olhou ao redor, para o vazio, dizendo:

– Você estava aqui sozinho há horas e falava sozinho o tempo inteiro, como sempre, Marçal.

A princípio, achei esquisito o que ela me dissera e até desconfiei ser alguma piada, ou coisa do tipo.

Só perdi aquele sorrisinho bobo da cara quando percebi que ela estava bem lúcida e que não havia a menor dúvida em suas palavras, mesmo eu insistindo na presença dele por ali.

Não havia nenhum Jack comigo, como nunca houvera. Ninguém jamais o vira?!

– Como nunca houve? Eu te falei dele varias vezes e ele esteve aqui conosco, até saia com sua filha a Gilda.

– Não, Marçal! Você nunca me apresentou este rapaz e a Gilda nunca namorou ninguém com este nome. Ela nunca me apresentou este rapaz que você está falando.

Estava abismado com aquele assunto, até cheguei a duvidar da sanidade da Valquíria, mas ela me parecia tão indignada quanto eu, por isso, perturbado e assustado, com toda aquela história, como se fosse tudo uma grande loucura sem sentido, abri a porta e sai correndo em direção à minha casa com a intenção de encontrá-lo para saber o que significava tudo aquilo.

Ao chegar em casa, tive a estranha sensação de que tudo o que vivera, as aventuras com o Wilson e o Jack, na realidade, nunca acontecera de verdade, ou pelo menos, não tinha rastros de nada daquilo que havia deixado para trás há poucos meses.

A casa estava abandonada, mas não parecia com a bagunça que conhecera junto ao Jack e a galera, apenas aparentava com uma das últimas arrumações que meu pai havia feito.

Procurei o Jack, chamei pelo seu nome umas três vezes, até que cansei e muito assustado, não recebi nenhuma resposta… silêncio total!

Aquela parecia mais uma casa mal-assombrada e por alguns segundos tive medo, mas não medo pela casa abandonada, mas pelo tudo que não vivi por ali.

Por um segundo achei que estava doido, foi então que escutei, vindo do fundo do quintal, um choro.

Parecia uma criança se lamentando. Um pouco receoso, pois ainda estava assustado com o que acabara de viver, fui vagarosamente até o fundo do quintal e ali eu o pude ver.

Era uma criança debruçada em seus joelhos e encolhida no cantinho mais escuro, entre as árvores e o muro.

– Olá! Chamei sem saber de quem se tratava e ainda bastante receoso com tudo aquilo, me aproximei… vagarosamente.

– Olá, menino?! Quem é você? Perguntei já bem perto dele. Quando ia chamar pela terceira vez, vi que a criança se levantou rapidamente e para meu desespero, confirmei que se tratava do Jack, exatamente como quando eu o conhecera em minha infância, mas seu rosto transfigurava entre aquele menininho e um verdadeiro demônio.

Dei alguns passos para trás de susto, quase desmaiei, porém, tentei me controlar e perguntei:

– É você Jack? Falei e esperei que ele parasse de chorar, até que começou a rir e sua risada foi engrossando, assim como seu corpo foi se transformando até a idade que já tínhamos naqueles tempos.

Ele parou de rir, ficou em silêncio por alguns segundos e então, falou:

– Me desculpe, Mac!

Estava perplexo e sem reação, uma mistura de medo e agonia, por imaginar que talvez eu jamais tivesse vivido tudo o que imaginava ter vivido.

– Desde quando estou assim? Perguntei meio gaguejando e com lágrimas nos olhos.

– Desde o dia em que sua mãe morreu. Me respondeu sereno e com cara de arrependido.

– Então, aquelas aventuras, toda aquela gente, nada foi de verdade? Disse chorando, lembrando de minha mãe, meu pai, meu irmãozinho, as filhas da Valquíria.

– Foi verdade, aconteceu mesmo, mas não foi neste plano material. Você experimentou um plano paralelo, um lugar onde eu domino e dito as regras.

– Nem a moto que bati na cerca da Valquíria? Perguntei em prantos.

– Aquela moto foi um acidente, alguém encostou ela por aqui. Por algum motivo do destino, você teve acesso àquela moto e na confusão de suas realidades, com a ajuda de alguém, você a pegou emprestada e saiu sem mim. Creio que este foi o único momento em que descuidei de você. Exatamente quando perdi o controle de sua vida.

– Você não é uma boa pessoa. Creio que você nem mesmo seja uma pessoa – falava em um diálogo alucinado, como se estivesse sozinho naquela casa assustadora –, afinal, o que é você?

– Sou o que você chama de demônio, meu amigo… apenas um demônio!

Fiquei paralisado por alguns minutos, o observando e imaginando mil coisas. Tentava compreender aquela maluquice, em vão.

Depois disso, virei as costas para ele e saí em caminhada por alguns dias, sem rumo. Só não morri – mais uma vez –, mas desta vez de desgosto, pois a Valquíria foi atrás de mim de bicicleta, tendo me achado depois alguns bons quilômetros de distância, falando sozinho, sem parar para nada e em profunda depressão.

Ela teve muito trabalho comigo, mas graças as suas preces, amor e muito carinho, acabou ajudando a me recuperar e a fazer com que tivesse vontade de seguir adiante.

– Como se sente indo ao resgate de vidas humanas pela primeira vez?! Me perguntou com um tom aparentemente sincero.

­– Sinto que não tenho a menor chance e nem ideia do que vou fazer.

Ele riu de minha insegurança e em seguida estacionou seu carro, exatamente onde já havia algumas pessoas nos esperando.

Era um grupo de seis homens e uma mulher. Conversavam de forma desagradável, grosseira e sem respeito algum pelo Jack.

Parecia um assalto combinado, onde a vítima veio de bom grado para o seu fim.

Não estava cheio de fé e nem de certezas, mas como no meio daquela rua quase sem iluminação reconheci o Dirceu entre as pessoas, resolvi começar por ele.

– Dirceu, sei que parece bobagem, mas não vá com seus amigos! Você sabe que eles têm intenções maldosas com o Jack, nem sei como te dizer isto, mas talvez não seja uma boa para você. Acredite em mim, volte daqui e vá viver sua vida. Creia, vai ser muito melhor!

Ele começou a rir sem me dar muita atenção, apenas levantou discretamente sua camisa, onde havia um revólver, abaixou rapidamente – como se fosse um segredo entre a gente –, depois disse que só não iria em uma viagem daquela, se estivesse ficando muito doido.

– Seu amiguinho se entregou à Delivery para a gente. Como não aceitar algo tão fácil de possuir? Se liga, ele é o nosso docinho garantido!!! E riu de sua própria piada, como se tivera encontrado a maior graça do mundo.

Encostei no Jack e disse:

– Não creio que tenha alguma possibilidade de me sair bem nesta história.

O Jack, que se divertia com a alegria do grupo de marginais, apenas me abraçou e caindo na gargalhada falou:

– Acho que seus amiguinhos já querem partir! Abraçou o Dirceu, o mais animado do grupo e disse:

– Vamos lá, vamos rumo ao meu maravilhoso mundo especial! Vocês têm muito o que fazer nesta viagem.

O Dirceu deu uma piscadinha para mim, declarando que a viagem estava sendo iniciada.

– Vamos nos divertir demais com seu amigo!!!

Coloquei a mão na testa como um ato de desespero, porque estava sem ação, segurei firme para imaginar algum argumento que os convencessem do contrario, mas não me vinha nada que fosse suficientemente convincente.

Antes de dar a ordem de partida, Jack me olhou tranquilamente aguardando que eu dissesse algo mais, mas como levantei os ombros sem uma boa argumentação, ele abriu a porta de seu carro e chamou animado “seus novos amigos” para o inicio da viagem.

A garota, bastante animada, ainda perguntou antes de embarcar:

– Será que vai cabê nóis tudo?

Abaixei a cabeça dizendo:

– Com certeza, afinal ele é um demônio. Todos cabem na barca para o inferno!

Eles riram daquilo que acreditaram ser uma piada. Depois, o Gigante, aquele que aparentava ser o chefe, ordenou que eu também entrasse no carro, pois não queria testemunhas sobre o que iria acontecer por lá.

– Olhei espantado, pois não tinha a menor pretensão de fazer uma viagem com eles, ainda mais para onde eles iriam.

– Calma lá rapaz! Disse Jack educadamente ao Gigante! Não vamos estragar nossa aventura. Se ele não quiser ir, que fique por aqui!

O Gigante que sempre tinha um jeito estúpido e violento, deu um soco no peito do Jack e ordenou que eu também entrasse no carro, enquanto puxava uma arma cromada de sua cintura.

Olhei para o Jack, que parecia se divertir com a atitude rude do valentão, deu um sorriso satisfeito, quase uma gargalhada para mim, enquanto todos entravam afoitos no carro, depois me disse:

– Está vendo Mac?! Esses seres humanos gananciosos nunca aprendem.

– Chega de papo, seu otário… filho da puta! Entra no carro e dirige esta bosta! E você, seu merda… entra na porra do carro. Agora!

Apontou a arma para mim e fez que iria atirar, mas da escuridão das paredes do beco, um ser rápido e misterioso como uma sombra, pulou de surpresa sobre o malandro, o dominou facilmente e o jogou para dentro do carro.

Jack, apenas me fez uma reverência educada, como se acabássemos de ter uma luta de cavalheiros e depois entrou no carro, onde, aparentemente, todos estavam amarrados em algo gosmento como um chicle avermelhado.

– Vamos, crianças, vamos nos divertir e alegrar o titio aqui!!!

Vi horrorizado que do interior de seu carro, onde anteriormente eram apenas bancos de couro claro, agora parecia uma fornalha em brasa, ouvi um ótimo rock rolando solto e os gemidos sufocados de todos, em profundo desespero.

Assim, partiu a tal da barca para o inferno, com minha primeira e grande derrota.

Sinceramente, bastante frustrado, apenas desejava do futuro, caso tivesse que resgatar mais alguém, que eu tivesse argumentos melhores.

Virei em direção à minha casa, bastante pensativo. Porém, pela primeira vez, caminhei com calma, aproveitando a brisa fresca e com a certeza de que os principais criminosos daquela região não iriam incomodar aquele bairro nunca mais.