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Capítulo 6

Café dos infernos!

 

– Pensei que você não iria me dar o prazer de sua presença neste dia maravilhoso! Me cumprimentou com seu sorriso encantador.

– Pensei que havia dito algo sobre me dar um tempo?! Respondi no mesmo tom irônico.

– Um garoto espirituoso e de ótimo humor logo pela manhã? Estamos mudados?!

Ele sabia que meu humor era péssimo pela manhã e sempre seria, mas tenho que dar a mão à palmatória, ele sabia ser dissimulado. Porque nós dois estávamos cientes da situação à nossa volta, mas era óbvio que havia apenas uma pessoa naquele momento que realmente deveria se preocupar, no caso, eu.

Sentindo que o clima estava tenso, pois a rapaziada do mau tentava a todo custo ouvir nossa conversa, talvez para saber o nível de intimidade entre a gente, ou se falávamos de dinheiro ou qualquer coisa do gênero. Então, Jack brincou com o clima tenso, dizendo:

– O pessoal aqui está um pouco agitado, ou é impressão minha?

– Pois é! Será que, talvez, não seja porque você não tenha facilitado em nada até aqui, se exibindo deste jeito? Relógio de ouro, celular caro, carro importado do ano, roupa de bacana e pedido refinado no café da manhã? Isto, costuma instigar as imaginações. Respondi educadamente e muito controlado.

– As pessoas costumam exagerar as suas ganâncias! Que delícia, não é mesmo?! Respondeu apontando a entrada da padaria, como não se incomodasse com todos aqueles olhares sobre ele. Na verdade, ele adorava aquilo tudo.

– Não quero que você apareça mais por aqui. Tenho sido intimado por estes seus discípulos involuntários.

– Você chama estes larápios de quinta categoria de meus discípulos? Creio que você tenha esquecido o meu padrão! Sou muito melhor do que isso, apenas me divirto com as ambições mesquinhas e ruidosas destes porcos!!! São como bichinhos na gaiola, cheios de desejos, paixão e dor! Precisa ver seus olhinhos medrosos quando eu os convoco para me satisfazerem! Tão humano!!! E deu uma risada contida.

– Entendo, mas o que eu não compreendo é esta sua fissura por mim! Nunca entendi! Não sou do mau e nem planejo esta loucura para mim.

– Seu potencial me encanta, além de outras coisas, como por exemplo, o fato de sermos amigos! E amigo, para mim, é coisa séria. Disse com um leve sorriso no rosto, quase meigo.

– Já não somos amigos há muito tempo e nem vejo meios de voltarmos a ser. Você arrancou as melhores pessoas da minha vida, assim como quase arrancou as que tenho hoje!

– Confesso que sou assim, um pouco egoísta, faz parte da minha natureza. Fazer o que?

Ela dizia ser oito anos mais velha do que eu, mas tinha um jeito tão gracioso e acolhedor… maternal!

Aos poucos eu fui me recuperando e a cada dia que passava ficávamos mais íntimos, amigos e desejosos por nos conhecer melhor. Engraçado como a filha dela, – uma moça linda de rosto e bem-feita de corpo –, uma graça, com aproximadamente dezesseis anos, parecia apenas uma criança querida para mim.

Eu havia sumido com a moto do rapaz, mas como ele vivia mais drogado do que lúcido, creio que nem sequer percebera que eu havia desaparecido de casa há mais de uma semana. Acredito que nem mesmo o Wilson havia percebido a minha ausência.

Mas, havia uma figura que estava desesperada por saber de minha pessoa, alguém que armara todo o circo da minha vida e que não se conformava com meu desaparecimento sem sua autorização… esta figura sinistra era o Jack.

Disse-me logo depois que me achou, mais ou menos um mês após ao meu desaparecimento, que havia me procurado por todos os lugares e que estava indignado com meu desprezo em nem sequer tentar se comunicar.

Na realidade, meu desaparecimento tinha um propósito, pois logo que descobri aquela casa de ambiente familiar e aconchegante, senti uma vontade danada de nunca mais voltar para a minha vida de vagabundo junto àquelas pessoas viciadas.

O Jack pressentiu isso, mas supôs que, assim que eu retornasse para a nossa bagunça diária, aquela “tiazinha” seria automaticamente substituída, esquecida e enterrada em minha mente.

Eu ainda estava me recuperando do acidente,apesar de estar muito melhor, ainda sentia algumas dores de cabeça, além de grandes coceiras em minhas cicatrizações.

– Creio que seria muito bom se você ficasse um pouco mais conosco, Marçal! Assim poderíamos lhe ajudar com os cuidados em seu tratamento.

– Sim, Valquíria, se não for incomodo creio que seja mesmo uma boa ideia.

– Valquíria?! Me perguntou entre cara de nojo e riso contido, para o Jack minha paixão súbita era algo sem sentido algum, já que tínhamos em nossas aventuras, mulheres muito melhores, mais jovens e desejáveis do que aquela mulher malvestida, com sua saia abaixo dos joelhos e, – o pior de tudo –, mãe de duas filhas. Porém, diante de minha expressão de repreensão às suas criticas, apenas fingiu ter aceitado minha opinião.

Na quinta semana por ali naquela casa, – meu paraíso “secreto” –, estava completamente envolvido com a Valquíria e já me comportava como se fosse da família, acima de tudo, era feliz e útil naquele lar.

Como o Jack não se conformava com aquele meu relacionamento em que me enfiara sem sua aprovação, ele começou a agir para que eu não prosseguisse com minhas intenções… me firmar de vez naquele lar.

Eu estava irredutível, apaixonado e a Valquíria muito feliz comigo, parecendo nem perceber na existência do Jack. Foi assim que ele deve ter concluído que, tudo o que restava para ele eram as crianças. Algo que, se soubesse de seus planos, teria voltado para a minha casa no mesmo instante.

Não demorou muito para que ele seduzisse a jovem Gilda, o que me preocupou demais, pois ele se fingia apaixonado por ela, mas de alguma maneira, eu pressentia seus interesses malignos.

Conversei varias vezes com ele, para que não magoasse a menina e nem que fingisse gostar dela, caso aquilo não fosse verdadeiro. Porém, nem eu e muito menos a Valquíria teve palavras para convencer a jovem a não se iludir com as bagunças do mundo, evitar os perigos que algum galanteador parecia oferecer para ela, no caso, o experiente e sedutor Jack. Não que a Valquíria o conhecesse, mas sabia dos desejos da garota através do diário que ela escrevia sempre.

Em menos tempo do que se podia imaginar, ele havia destruído a infantilidade e a meiguice da jovem, que apesar de todo meu esforço, sucumbiu em vida degenerada, com drogas e sexo, até que um dia desapareceu para sempre, mesmo o Jack jurando que ele nada tinha nada a ver com as escolhas da menina.

Eu fiquei muito revoltado e exigi que ele a encontrasse, porque tinha certeza absoluta de que ele estava envolvido com o desaparecimento da jovem Gilda. Porém, ele apenas continuou negando seu envolvimento… e nada fez.

Foi um período bastante desesperador e triste em nossa casa. A alegria havia desaparecido junto com a menina.

A mais pequena sofreu demais com o afastamento da Gilda, o que não demorou muito para começar a ter reações estranhas sobre ela, até que doenças incontáveis a afligiram.

Me sentia culpado de alguma forma, mesmo não tendo provas suficientes de que o Jack estava por trás daquilo tudo.

Aquele sorriso encantador diante de mim mais uma vez, nem de longe denunciava o pilantra que ele sempre foi.

Se a malandragem soubesse o demônio que estava diante deles, com certeza, evitaria o contato e a aproximação. Não era o caso.

Nem mesmo comecei o meu café e na mesa ao lado sentou o Dirceu e aquele grandalhão, o possível chefe dos ladrões da região, ou qualquer coisa do gênero.

Sem grandes educações e nem boa postura, o Dirceu, que parecia ter tomado um banho pela primeira vez em sua vida, introduziu-se em nossa conversa:

– Olá Marçal! Que ótimo dia para um café da manhã, não é mesmo? Falou sem retirar o olho nos anéis, pulseiras e correntes de ouro que o Jack não fazia questão alguma de esconder. O Dirceu tinha reações estranhas, como a de algum bicho atraído por carne fresca, atitude muito similar ao seu companheiro de mesa e os outros mais distantes.

Se fosse alguma outra pessoa me acompanhando naquele café da manhã, teria sentido um desespero tremendo por nossa segurança, mas com o Jack era diferente, pois aquele bando de porcalhões não passavam de um punhado de sujeira na mesa ao lado, que só queriam espalhar ainda mais sujeira pelo mundo e o Jack os absorvia como um grande aspirador de pó. Deliciava-se!

Vi ele deixar aparecer por diversas vezes sua carteira recheada de dinheiro, cartões de crédito, além de algumas fotos onde aparecia cercado por mulheres lindas, em iates e mansões. Ele alimentava a ganância dos bandidos e os chamava de amigos, os trazendo o mais perto de sua intimidade.

– Poupe os rapazes do sofrimento, cheguei a apelar para o Jack, mas ele estava tão desejoso de seus novos escravos, quantos os otários pelo o que o Jack possuía. Era difícil dizer quem estava mais hipnotizado.

Jack, se passando por uma espécie de milionário inocente, seduziu todos os marginais ao dizer que havia gostado muito dos meus amigos e que voltaria à noite para levá-los a um passeio em uma de suas mansões na praia.

Bati a mão na testa e escorreguei até o queixo, e disse ao Jack: – Que coisa sem sentido! Uma armadilha de dar dó!

– As vezes me pergunto, por que o ser humano é tão ganancioso? Respondeu para mim, enquanto pagava o café no caixa e se retirava, sem antes deixar de “esquecer” a promessa de que voltaria naquela mesma noite para buscá-los.

– Espero que seu amigo volte mesmo, Marçal. Estaremos de olho em sua família, caso ele desapareça. Afirmou ameaçadoramente o gigante feioso, cheio de esperanças no golpe que iria dar.

Trabalhei bravamente durante toda a tarde até a entrada da noite, sem me distrair, pois sabia que o Jack voltaria, assim como havia prometido.

Era estranho como eu sabia que ele estava se aproximando, eu podia sentir no ar. Não sei se a temperatura aumentava, ou se era aquele gosto estranho na boca, como se tivesse acabado de tomar um copo de vinho. Era um sentimento semelhante ao medo, pois um arrepio subia em minhas costas, o ar parecia alterar entre o frio e o quente e de repente, lá estava ele… sentado na minha frente, mais uma vez.

– Vim buscar seus amiguinhos para passear. Quer vir comigo?

– Você sabe que não, porque me faz estas perguntas, Jack?

– Oras! Eles não vivem atormentando e roubando todos por aqui? Veja que estou fazendo um bem para humanidade, ou melhor, estou dando este presente.

– Sei como você é ótimo e sempre bem-intencionado. Não seria mais bonito dizer que você está arrastando mais um grupo para seu divertimento particular? Que está se aproveitando mais uma vez da inocência humana para se divertir?

– O que isso?!!! Você está sentindo pena destes desgraçados?! Deveria estar feliz, afinal, eles vão para um lugar onde eles são muito bem aceitos!

– Não me orgulho nem um pouco em saber para onde eles vão e, principalmente, não poder fazer nada em auxílio deles.

– Você precisa desapegar, Mac! Já que agora você está todo santo, imagine que eu sou um dos instrumentos que faz com que pessoas, como estes seus inocentes amiguinhos, possam se arrepender de suas bobagens e ter um futuro melhor.

– Imagino os instrumentos terríveis que você utilizará neles para esta catequização… péssimo! Respondi indignado pela falta de amor ao próximo com que ele conduzia a vida.

– Ok! Já que você se acha o salvador das almas, o escolhido, vou lhe dar uma oportunidade. Vamos fazer o seguinte, você acha que não devo levá-los para o meu mundo, mesmo nós dois sabendo que é exatamente o que eles merecem já que não passam de assassinos, ladrões, estupradores e gente da pior espécie.

– Vou mostrar que também posso ser generoso. A coisa é muito simples, vá comigo ao encontro deles e se você os convencer do contrario, de não entrarem em meu carro, prometo que não os carrego para a minha festinha.

Olhei em seus olhos brilhantes, cores claras, lúcidas e sorri, já que aquela era, mesmo, uma proposta sem sentido.

– Ok, deixa ver se entendi. O desafio é convence-los a não seguirem viagem com você?

Aquilo era tão estranho que acabamos rindo um para o outro – como nos velhos tempos –, e depois fizemos uns minutinhos de silêncio.

– Com qual argumento eu os convencerei? Afinal, não é você o rei da trapaça? Mesmo porque, é óbvio que eles devem estar armados, drogados e alucinando em qual maneira irão retirar todo o seu dinheiro, bens e, lógico, imaginando em qual maneira irão matá-lo.

– Foi o que eu disse, “gente do mau… vira mingau!!!!”. Respondeu Jack, se divertindo com a situação.

Ok! Vamos tentar salvar a alma destes idiotas! Afinal, não tenho mesmo o pacto com o Outro? Já “tá aceitado”.

– Não precisa me lembrar disto, porque nada é definitivo! Fecha a espelunca e vamos embora!

– Escritório, por favor!!! Respeite meu ambiente de trabalho. Disse enquanto desligava meu computador e me preparava para tentar fazer meu primeiro resgate em nome do God!