Cópia de Capa-Conflitos-JackGod

Colocou de novo o charuto na boca e, depois de uma baforada desagradável, respondeu:
– É hora de mudar e você vai me ajudar!

 

Capítulo 5

Intimado

 

Mais uma noite mal dormida e novamente iria começar o meu dia com poucas palavras e muito sono.

Tentei puxar um assunto qualquer com minha filha, mas rapidamente fui interrompido com alguma grosseria sem sentido e uma cara de poucos amigos. Esta tinha herdado todo o meu humor de poucos amigos. Parecia uma copia de mim mesmo, quando eu tinha a idade dela. Não, creio que um pouco mais insuportável!

Vendo que eu poderia acabar mais irritado do que deveria, voltei ao meu silêncio habitual e deixei aquela tentativa de um diálogo descente para uma outra hora.

Como pode uma menina ser tão parecida comigo? Ela podia ter puxado a graciosidade e a alegria da mãe, mas a genética parecia ter outros planos para o emocional dela. O que fisicamente tinha da mãe, psicologicamente tinha de mim, por isto, seguimos adiante em igual silêncio e “alegria”.

Cheguei mais cedo do que o esperado em meu trabalho, mas com a fome de sempre.

Por precaução, achei melhor não ir para a padaria, assim, evitaria os marginais e o Jack, mas um corpo viciado era um corpo viciado, precisava de café.

Pensando bem, eu já estava colaborando com eles. Precisavam de minhas informações e medo de cara feia não era a minha, já tinha passado desta fase da vida há muito tempo.

Diga-se de passagem, não era a primeira vez que via a coisa feia assim, bem de perto.

Lembrei de uma visita inesperada, mas daquela vez não foi a do Jack e sim de seu maior rival.

Eu estava brigado com o Jack há muito tempo, mesmo com ele me cercando quase todos os dias.

Era uma tarde preguiçosa e sem grandes planos, o carro que surgira repentinamente do outro lado da rua, parou a poucos centímetros de mim, espirrando uma poça de água da chuva que havia caído torrencialmente no dia anterior.

Resmunguei para mim mesmo alguma coisa e até pensei em reclamar, me exaltar, contrariando a minha natureza habitual, um cara discreto e observador diante das pessoas e acontecimentos, mas quando vi a figura que descia do automóvel, apenas me resignei em fechar o rosto, encostar novamente no muro onde estava e continuar em meu silêncio, exatamente como estava.

Antes de ver o motorista por inteiro, quando a porta do carro se abriu, um bloco de fumaça escapou de dentro do veículo e, só então, pude ver o sujeito que pilotava aquela “barca”.

Um “armário” tatuado, de roupas surradas, de olhos pequenos e avermelhados. No seu braço gigantesco, de quem sabe o que é carregar peso e socar a cara de um idiota, surgiu, graças a sua camisa sem mangas, um belo motivo pelo qual me fez abaixar a cabeça e desviar os olhos, mas mesmo de relance, podia-se ler em letras grandes, no estilo gótico, mas muito bem legíveis: Encrenca!

Ele parou ao lado de seu carro, muito próximo de mim e erguendo um charuto entre seus dedos lotados de anéis, respirou fundo, enquanto retirava o isqueiro do bolso. Senti que ele me encarou e, só então, o reacendeu, continuando com sua fábrica particular de fumaça. Em seguida, colocou um óculos escuros, cobrindo seus olhos ameaçadores, ajeitou o chapéu de abas curtas e deu uma forte tragada.

Sabe quando você sabe que se deu mal? Quando você sabe que está em um péssimo lugar, mas também tem consciência de que se fizer um mínimo movimento vai ser pior ainda? Eu estava exatamente nesta posição e daria tudo para alguém me chamar ou para que qualquer coisa acontecesse e me retirasse daquela situação, mas eu não podia fazer nada… apenas aguardei o que o destino me reservava!

– No que você se apega? Começou um diálogo comigo, o monstrão de uns dois metros de altura, o “Sr. Encrenca”, como o apelidara “carinhosamente”, no instante em que o vira de frente.

Ali estava eu, com meus humildes 1,74 de altura e ciente da bobagem que estava fazendo, ao dar atenção. O encarei soltando um “desafiador”: – Pois não? Ele, talvez percebendo o meu medo… Não! O meu”cagaço”, esboçou um sorrisinho cínico, deixando à mostra seus dentes de ouro. Então, retirou o charuto da boca, deu uma cusparada no chão e aproximou-se ainda mais. Me olhou por cima dos seus óculos e, vagarosamente, repetiu a frase com sua voz de gigante, como se falasse com um burro, um asno ignorante:

– No que você se apega?

Me senti a menor das criaturas, um menino chorão, perdido, incerto da resposta adequada, e respondi:

– Depende… qual é a situação?

– A pior possível! Ele respondeu – quase antes mesmo de eu terminar a minha frase –, como se soubesse o que eu iria dizer!

– Do que você está falando?

Demonstrando pouca paciência, ele colocou de novo o charuto na boca e depois de uma baforada desagradável, respondeu:

– É hora de mudar e você vai me ajudar!

– Mudar o que? Ajudar a você fazer o que?

– Fica esperto, moleque! Este foi apenas o seu primeiro sinal. Pegou o charuto da boca, quase na brasa, apagou no muro em que eu estava encostado e finalizou:

– Agora você já sabe que estou por aí. Você faz parte de uma equipe e quando eu voltar, apenas faça a sua parte.

Sem entender nada, perguntei confuso:

– Minha parte? O que eu tenho que fazer?

Ele me olhou com desprezo, abriu novamente a porta de seu automóvel e enquanto foi entrando respondeu:

– O que eu mandar!

– Mas quem é você? Perguntei abismado diante daquela intimação.

Ele apontou para a traseira de seu carro, fechou a porta e foi embora, acelerando seu carro indescritível… escandalosamente.

Da escuridão do vidro traseiro de seu carro eu pude ler o adesivo:

God!

Aquela foi uma experiência estranha e amedrontadora, mais do que as piores aparições que já havia presenciado.

Me perguntava de quem se tratava aquela figura grosseira e estúpida?

God! God é Deus em inglês, mas como poderia sê-lo já que o cara era um troglodita?! Fiquei muito confuso, mas também bastante impressionado. Quanto poder e autoridade tinha aquela pessoa!!! Por que me intimou para sua equipe e que equipe era aquela? Eu não era um santo, nem um anjo e nada no estilo, se ele realmente fosse Deus, porque havia me incluído em uma equipe como a dele?

Pensei que talvez ele fosse parte da equipe de Deus e não propriamente Ele. Mas, seja Ele quem fosse, me impressionou e me fez questionar à respeito da existência divina e que talvez não fosse assim tão alheia, como o Jack sempre fez questão de exaltar.

Aquela figura era impressionantemente superior e muito mais cheia de energia e poder do que o Jack. E olha que o Jack esbanjava energia e vitalidade.

God! Como alguém tão monstruoso como aquele individuo poderia ser a representação de Deus? Tudo bem que eu não era um especialista no assunto, mas Ele não tinha o aspecto de um ser divino, pelo menos, não nos padrões da igreja. Talvez, Ele quisesse me impressionar, chamar a minha atenção.

Eu acabara de ser intimado e mais uma vez estava sem uma segunda opção, como se a minha opinião pouco valesse para eles, os seres invisíveis.

Não disse que havia aceitado, nem tampouco neguei sua ordem, apenas me calei, até em pensamento, pois minha mente estava fervilhando diante daquela aparição imponente.

Lembrei de minha mãe, da forma carinhosa com que ela rezava em seus momentos de orações e como meu pai falava Dele de maneira tão simples e educada, esbanjando doçura e respeito. Sim! Respeito aquela aparição transmitia em excesso e em nada se parecia com o que se dizia por aí.

Fui para a padaria sem medo, mas atento com as esquinas e becos movimentados. Como aquela área podia ter acumulado tantos infelizes? Como aquela escória acabara sendo parte ativa daquele bairro? Não via a menor possibilidade de mudança, nem por parte daquele povo e nem do governo a respeito de tanta miséria.

Engraçado que aquele estilo de vida fazia parte constante de nosso dia-a-dia. E não era apenas ali que a coisa estava assim, a marginalidade e bandidagem já era uma realidade, algo incrustado em nossa história moderna. Postura desagradável, ações zombeteiras e músicas de péssima qualidade, quem diria que eu ainda iria achar o comportamento humano um lixo?

Lembrava do meu antigo bairro e como igualmente havia se transformado em uma zona perigosa, uma periferia pesada e desumana. Amontoado de casas mal planejadas, sobrados sem acabamentos, pessoas de todas as regiões, empurradas para a periferia, convivendo e aprendendo milhares de costumes e culturas, apertadas, socadas em uma única área. Um planejamento mal planejado que só poderia se transformar em uma tragédia social, tal qual se apresentava na atualidade.

Hoje, eu não vivo por lá, mas lamento no que minha terra natal se transformou, como também lamentava no que o bairro onde estava vivendo havia se tornado. Me sentia indignado como tudo parecia ser conduzido de maneira egoísta e sem respeito. Como lugares lindos pareciam ser destruídos pelo homem. Onde as ocupações seguiam aceleradas e que o estilo miserável parecia se tornar o estilo predominante por ali. Nem me refiro à pobreza em si, pois estava passando os meus sufocos, mas ao mau caráter.

Não me surpreendi ao dar de cara com o Jack me aguardando na porta da padaria e muito menos ainda ao ver que a malandragem estava igualmente presente para mais um “delicioso” café da manhã.

Como o Jack era insistente e sem noção, sempre gostou de uma boa encrenca, não que isto poderia ser diferente, mas ele podia pelo menos me poupar da chatice de ter que convencer os envolvidos em suas maracutaias, já que eu não tinha nada a ver com os assuntos dele.

Torcia para que ele entendesse de que já não era seu parceiro e que passamos a ser apenas conhecidos distantes e não amigos íntimos. Bastava ver minhas condições financeiras para se ter certeza absoluta disto.

Ia me aproximando dele e enxergando, através da visão periférica o burburinho da malandragem, o reboliço que o safado do boa pinta causava. Conforme eu me aproximava, o sorriso do Jack aumentava e as caras em volta se fechavam, como se o ódio se instalasse ao redor.

Jack adorava aquele clima de excitação e intolerância por perto, o caos soava como música aos seus ouvidos. E no meio disto tudo… eu!  Um homem envelhecido, cheios de dores, traumas e completamente indefeso.

Definitivamente, o sorriso do Jack não condizia em nada com nossas conversas anteriores.

Ainda me lembrava de sua primeira aparição, depois de anos distantes um do outro.

Já era tarde da noite e eu estava muito entretido em meu trabalho, que quase como sempre, estava com o prazo apertado e tinha que ser entregue com urgência.

Ele entrou na minha sala sem pedir licença, mexeu nos objetos, arrumou um quadro na parede, alegando ironicamente que aquilo dava azar e depois sentou na cadeira bem na frente da minha mesa.

Já conhecia aquele sorriso… puro sarcasmo.

– Passando dificuldades? Disse me encarando.

Vestia um terno impecável, anéis de ouro e um óculos escuros… tudo na estica.

Olhei meio puto, mas me mantive em silêncio.

Folgado como sempre, colocou os pés sobre minha mesa sem se importar com minhas reclamações, afinal, para ele, minhas vontades não contavam.

– Ainda sozinho? Disse em tom arrogante.

– Qualé? Tá achando que a vida é fácil? Dizia convicto de suas palavras – Vamos lá, se entrega. Você é um cara sozinho e está ferrado… se entrega!

Fez cara de quem compreendia uma dor. Na real, ele compreendia mesmo, já que era o dono dela… o criador e administrador!

Puxou um charuto do bolso, exatamente como O do carro indescritível – por quem fui intimado e que tinha vindo me procura há poucos dias –, mas não acendeu, apenas ficou cheirando e brincando entre os dedos, enquanto sorria para mim. Suas roupas perfeitas de tons preto e vermelho, eram mesmo incríveis. O cara tinha bom gosto, impecável, assim como quase tudo o que ele possuía. Mulheres, carros, bebidas e toda a orgia que qualquer ser humano poderia desejar.

– O que foi? Continuou tentando me intimar, assim como seu “Rival”, – Vai continuar nesta merda? Não vai dizer que vim aqui para perder meu tempo? Eu sou muito ocupado, Mac! Não tenho tempo a perder!!! Pensa bem, você está ficando velho, daqui a pouco não vai mais aguentar trabalhar e ninguém vai te dar esta oportunidade que estou te dando.

Continuei em silêncio, enquanto ele empurrava em minha mente todos os meus medos escondidos.

Muita coisa rodava em minha mente, mesmo os que eu pensei já ter superado e até os que nunca consegui.

Senti um frio na barriga, minha energia caiu e a insegurança tomou conta! Meus braços ficaram sem força e, em pleno verão tropical, surgiu um frio horrível, mas de dentro para fora, daqueles dos que estão a beira do abismo. Este frio tomou todo o meu corpo e parecia o fim da linha. Aquilo era um sentimento que eu quase desconhecia, o tal do medo do fim. O medo dos que estão a um passo de serem derrotados… massacrados!!!

Minha respiração estava forte e eu estava assustado, mas ele apenas sorria e dizia com sua voz mansa e amiga, enquanto esticava a mão calejada de quem já bateu muito:

– Você é sozinho, vem comigo. Ainda dá tempo e eu posso te ajudar!!!

Como ele não tinha a resposta que desejava, para fazer uma pressão em mim e acelerar minha escolha, pois ele tinha mesmo uma chance comigo, se ergueu da cadeira onde estava reclamando do desconforto. Levantou o braço e estalou os dedos, então, elas entraram em minha sala como cachorrinhas treinadas. Lindas, sedutoras, fáceis e muito sensuais… com a malícia das cobras.

Se tivesse juízo me entregaria e envolveria, me jogava de cabeça, afinal, o que tinha a perder? Eu não era mesmo um cara sozinho? Quem era por mim?

Eu carregava a família, eles precisavam de mim e isto fazia toda a diferença naquele momento, senão teria pirado.

Lembrei do Outro dizendo: – Você está intimado!

– Porra! Eu sou apenas um cara comum, um ser humano qualquer, com direito a toda a humanidade que me é de direito. Sou o pacote completo das dúvidas e incertezas! Bosta! A revolta fervilhava em minha mente.

Diante de mim a facilidade, bastava aceitar o acordo, uma palavrinha e já era… tudo mudava! Um simples “SIM” e a história era outra!!!

Fechei os olhos com força, me irritei e me culpei! Sabia que era uma armadilha, sabia que estava ficando velho e sabia ainda mais que minha família iria sofrer com a minha escolha.

Estava entre a fortuna e o incerto mais uma vez. Como isso dói, irrita e faz a gente tremer!

Eu continuava com os olhos bem fechados, tentando fugir das imagens de miséria e dor que ele me impunha! O pilantra era bom nisso e eu até suava de medo. Um suor gelado, como nunca aconteceu em minha vida!

Fui ficando cada vez mais irritado, cada vez mais amedrontado. Abri os olhos e ele deu uma piscadinha de quem sabia a minha dor, o meu medo! Porém, o que ele havia esquecido é que eu odeio ser acuado e confiava na força do Outro.

Tinha quer ser forte e corajoso e ali, tinha que confiar mais uma vez, mesmo sem ter certeza.

Levantei da cadeira e com a voz rouca de quem passara muito tempo sozinho e em silêncio, gritei:

– Some daqui seu filho da puta! As meninas sumiram imediatamente, respeitavam a minha energia poderosa. Joguei a primeira coisa que estava próximo da minha mão e vi o telefone espatifar na parede, atravessando seu corpo feito de ilusão, de mentiras, de nada, como suas promessas vazias!

Antes de sumir, vi seu rosto distorcido me olhar com ódio e  com desaprovação!

Se estava ferrado, pelo menos que fosse só aquela vida e não para sempre!

Ali, enfim, firmei meu pacto com o criador:

aí! Agora eu sou mesmo da sua equipe… “tá aceitado”, God!!!

Sentei na cadeira mais uma vez – muito enjoado –, e fui controlando minha respiração, até me acalmar.

Ri do meu “tá aceitado”. Aquela era uma expressão muito usada entre o Jack e eu, quando éramos pequenos. Quando surgia um desafio, riamos um para o outro e dizíamos: “Tá aceitado!!!”

Não houveram grandes mudanças após eu ter aceitado a intimação do God, apenas não havia sido mais cercado pelo Jack, até aqueles dias.

Cansado e esperançoso, fiquei aguardando novos rumos.