Capítulo 4

Devaneios

 

A presença do Jack nunca fora anúncio de tranquilidade e sossego. Desta vez, não seria diferente.

Só o fato dele aparecer por ali, em alto estilo, transpirando elegância e fortuna, já não era boa coisa. Os pilantras da pior espécie ficaram todos instigados para saber de quem se tratava aquela figura, o que me custou vários tipos de desculpas esfarrapadas na tentativa vã para que não passassem a me seguir, perturbar minha vida e a da minha família.

Naquele dia trabalhei preocupado em como seria a minha volta para casa, pois a imagem poderosa e exuberante de quem tinha muito dinheiro, a que o Jack demonstrara, aguçou bastante a imaginação da bandidagem.

Acelerei meus trabalhos e mesmo não podendo, acabei não dando prosseguimento até mais tarde, apenas desliguei minha máquina mais cedo e saí antes que anoitecesse.

Andei pelas ruas do meu bairro me sentindo um alvo, a mira de todos os pilantras afoitos para saber de quem se tratava o cidadão que exalava riqueza pela nossa área.

Sabia que estava encrencado, mas só não sabia o quanto. Tranquei rapidamente meu escritório e fui preocupado para a rua, com a intenção de “voar” para minha casa, mas não demorou muito até que minha caminhada fosse interrompida por um daqueles “donos” da área.

– Agora, você está trazendo os riquinhos para nosso bairro? Gostei de ver! Disse uma voz, que vinha de uma daquelas inevitáveis vielas pouco iluminadas, onde teria que atravessar.

– Aí Marçal! Desta vez não tem jeito! Meus brothers querem detalhes do seu amigo e se eu fosse você colaboraria, afinal, ninguém quer machucar sua família! Saiu de trás do fortão que me abordara primeiro, o magrela do Dirceu!

– Dirceu! O que posso dizer daquele sujeito? Se vocês se acham ruins, posso afirmar que ele é bem pior! Acreditem em mim, o cara é o próprio mau encarnado! Não é uma boa ideia mexer com ele. Tentei ser o mais claro possível em relação ao quanto o meu “amigo” era ruim, talvez, daquela maneira, eles entenderiam que, sendo o Jack um igual a eles, me deixariam passar em paz. Porém, minha descrição apenas aguçou o interesse daquele grupo que viera me recepcionar.

– Qual é Marçal, você quer que a rapaziada acredite nesse seu papinho? Que seu amiguinho não é um ricaço cheio da grana? Os cara não são otários! E podem ficar bem nervosos com você!

Senti um medo muito grande pela segurança de minha família e por mim mesmo, mas o que eu poderia dizer, senão a verdade? Afinal, o Jack era realmente do mau e ao contrario do que um dia imaginei, ele não era nada imaginário.

Eu estava no auge da minha juventude, me sentia muito bem fisicamente e andava curtindo o máximo que podia. Naquela época já não tinha tantas dores de consciência e nem preocupações, mas ainda sentia uma solidão, uma vontade de ter alguém a quem pudesse cuidar e, assim, me apaixonar. O que eu não sabia era que o Jack não tinha esta mesma intenção para mim, por isto, qualquer garota que eu me envolvia, ele logo dava um jeito de retirá-la do meu caminho.

Foi dentro deste clima de incertezas e muita adrenalina que, em um dia quente de verão, onde eu passeava sozinho com uma moto pelas ruas vazias e silenciosas nas redondezas do meu bairro, fui surpreendido por um encontro inesperado.

A moto era de uma daquelas varias pessoas que frequentavam a minha casa, estava encantado com ela, com a liberdade que ela parecia me dar, com o vento gostoso que batia em meu corpo, com a proximidade com o mundo, uma interação com o ambiente tão diferente de um carro.

Quando já estava a uma certa distância, provavelmente por falta de habilidade, fiz uma curva errada e acertei em cheio uma cerca baixa de madeira, acabando o arremesso na varanda de uma casa pequena, muito simples, de quintal largo, onde galinhas, cachorros e uma quantidade razoável de brinquedos rolaram junto comigo.

A princípio, não sentindo nada, juntei minhas forças para me erguer e tentar levantar a moto, mas creio que o susto, mais a batida e o esforço de levantá-la, que estava com o garfo torto, foram a combinação perfeita para um desmaio inesperado. Antes de cair, lembro-me de ter visto uma bela garota, com um rosto angelical, de olhos grandes e brilhantes se aproximar de mim. Porém, muito assustada.

Ela veio de encontro a mim, para me ajudar a deitar no chão. Fui caindo amparado por ela, como se o mundo fosse se desligando e a imagem de seu rostinho, tão lindo, fosse ficando em foco principal. Parecia que o mundo ao lado perdia a cor, som e qualquer outro sentido… até que desliguei por completo.

Disseram que apaguei por algumas horas, onde a família toda daquela casa ficou em verdadeira polvorosa. Tinham ali, um visitante misterioso, ferido, todo ensanguentado, que chegara de forma surpreendente, mas sem saberem de quem se tratava, nem como ajudar, afinal, não era um lugar onde se podia contar com médicos, hospitais e estas coisas com grande facilidade, ainda mais para uma família simples e sem nenhum automóvel, apenas me vigiavam espantados.

Acordei com um pano sujo de sangue na cabeça, sem camisa, pois havia ralado todo o meu braço direito, com a calça rasgada até a coxa, pois minha perna também estava toda ralada e uma dor forte de cabeça, mas aparentemente sem ter quebrado nenhuma parte do corpo.

Estava deitado no sofá da casa e uma jovem senhora de seus quase trinta anos, uma criança muito loira e uma belíssima jovem me observavam atentamente, como se eu fosse alguma espécie de assombração.

Na primeira tentativa de me mover senti uma fisgada nas costas e ao mesmo tempo nos ferimentos, onde tive a sensação de que minha pele estava toda esticada, talvez por causa do sangue ressecado, mas o que, de fato, realmente as surpreendeu, não foram meus machucados, ou por eu dar sinal de vida, mas os palavrões cabeludos que soltava a cada tentativa de me movimentar, com a naturalidade de quem diz um bom dia, ou coisa parecida.

Coloquei a mão na testa e nem dei conta de que minhas maneiras eram grosseiras e completamente fora do padrão de educação daquele povo, apenas reclamava e xingava como quem sempre falara naquele tom, sem repreensões e arrependimentos. Como se diz por aí: soltava o verbo.

Aquela, diante do meu “calvário”, era a família completa. O marido já havia falecido há um certo tempo e aquelas três figuras femininas eram as únicas habitantes daquelas paragens.

– Calma moço! Tenha calma! Você caiu de sua moto, mas parece não ter quebrado nenhuma parte de seu corpo. Se eu fosse você ficaria bem quietinho e iria se recuperando devagar. Disse a mãe de todas, com os olhos ainda arregalados de medo, mas graças a sua posição na família, sentia-se na obrigação de tomar a liderança naquela situação atípica em suas vidas.

A mulher se aproximou e disse insistentemente para que eu permanecesse calmo e continuasse deitado, pois como havia batido a cabeça, talvez sentisse muitas tonturas. Ela tinha razão, pois eu me sentia bastante desnorteado, como nunca estivera antes, além de uma grande sede, o que ela deixara claro que eu não poderia tomar, pois naquela situação em que me encontrava, já que não sabíamos se eu estava com alguma lesão maior e não que podíamos saber, já que poderia estar com uma hemorragia interna, ou coisa do tipo.

Ao vê-la de perto se explicando e tentando me confortar, pude perceber o quanto era linda e que não era uma menina quem havia prestado socorro, quando eu desmaiara, mas uma mulher forte, madura e de fisionomias muito delicadas, possuidora de uma beleza rara.

Eu acabara de fazer vinte anos e me sentia um homem forte e esperto. Esperto o suficiente para saber que havia me apaixonado logo que a vi, ali, tão perto de mim. Pela primeira vez em minha vida, conhecera alguém que me parecia perfeita, pura de coração e que ninguém me apresentara, apenas o destino havia me concebido aquela graça.

Soube no momento em que a vi, bem pertinho, que aquela era a mulher da minha vida e que tinha que tê-la para mim. Sim, ter uma mulher era a única coisa que queria fazer, pois conquistar sozinho eu nunca havia conseguido, mesmo com toda a experiência que havia adquirido, nunca precisara argumentar, ou me esforçar demais para ter alguém, apenas precisava querer ficar com alguma daquelas meninas que surgiam em minha casa e tudo estava feito.

Eu estava dentro de um mundo muito diferente do qual estava acostumado, aquele ambiente confortável, silencioso e limpo, realmente era algo que já não via há alguns longos anos e estava impressionado, ou melhor, estava apaixonado por tudo aquilo, queria do fundo do meu coração conhecer um pouco mais sobre aquelas pessoas e o mundo simples, aconchegante e cheio de amor que vivenciavam.

– Ei! Otário!!! Você está viajando, ou o que? Fui interrompido de meus pensamentos por aquele brutamontes agressivo e tatuado, com um olhar quase tão assustador quanto o do Jack, quando ficava furioso.

Aproximou-se tão violentamente e decidido, que me derrubou no chão. No passado, aquilo seria inadmissível e muito provavelmente seria o começo de uma pancadaria sem fim, mas já não era mais o caso, não tinha a mesma força física e nem o mesmo ódio de outros tempos. Eu estava mais para uma pessoa pacífica e sem grandes impulsos agressivos, na realidade, nem mesmo conseguia entender porque as pessoas perdiam tanto tempo com tanta ambição e ganância.

Tudo indicava que aquele momento iria ser o começo de uma surra invejável, mas para a minha surpresa o Dirceu interveio, se colocando entre meu oponente e eu, dizendo que não valia a pena me agredir e que de qualquer forma ele iria saber mais sobre o endinheirado, pois ele tinha certeza de que eu iria colaborar.

– Melhor que colabore, mesmo! Amanhã, quero todas as informações sobre o playboy e que se você, Dirceu, não conseguir as informações, eu as arranco deste tiozinho na porrada! Disse erguendo seu braço forte enquanto fechava sua mão, com um soco inglês reluzente entre os dedos.

Do jeito que surgiu, o gigante se foi, mas para meu desespero, sabia que iria voltar.

O Dirceu me ajudou a levantar e ainda teve a “bondade” de recolher alguns papéis que saltaram de minha bolsa, com o encontrão que seu amigo me dera.

– Marçal! Que papo é esse do cara ser do mau? Rapaz, o mau aqui só tem um e acabou de te dar uma sacudida!! Entendeu?

Balancei a cabeça desorientado e envergonhado, eu já não era aquele moço cheio de si e nem sequer aguentava uma encrenca daquelas. Tinha que inventar um histórico mais humano para o Jack, algo que convencesse a bandidagem da minha área.

– Ele é um cliente! Comecei a inventar um personagem mais convincente para o Jack – Não costuma frequentar nosso bairro, mas vou me informar um pouco mais sobre ele e trago aos detalhes.

– Tá vendo? Tá vendo agora, como você entendeu o jogo?! É isto Marçal, nada pessoal, apenas algumas poucas informações e tudo vai ficar bem!!! Tá ligado? Me respondeu o alegre e horroroso Dirceu.

Ele se afastou para dentro das casinhas escuras, abandonadas há anos e eu prossegui meu caminho para minha casa.

Cheguei cedo em casa e fui recebido com a alegria de sempre pelo meu filhinho. Apenas tentei não transmitir minhas duvidas e incertezas, pois estas, eram imensas.

Na realidade, não estava preocupado com a bandidagem, mas o que iria acontecer quando o Jack fosse abordado por eles. Um demônio é sempre um demônio, bondade não era o seu forte, muito menos o perdão.

Aqueles pobres diabos nem imaginavam o quanto estavam se metendo em encrenca e, o pior de tudo, eram o tipo de gente que o Jack adorava enganar e colocar no meu caminho para me perturbar.

Primeiro pensei em fugir, depois imaginei que seria um gasto que não conseguiria bancar, pois mudanças eram bem caras para meu atual estado financeiro. Eu sabia bem o custo daquilo, afinal, havia me mudado para aquele bairro com minha mulher há quinze anos atrás e tinha consciência da dificuldade que passamos. Ironicamente, procurava sossego e uma vida nova, mas deveria saber que não iria adiantar nada, ele me encontraria facilmente. Mesmo porque, se tivesse que encarar uma bandidagem sem escrúpulos, como sempre me vi, com as ciladas do Jack, que fosse essa que já conhecia, pelo menos, não teria um gasto maior no orçamento.