Capítulo 3

Cobrança

 

Nunca havia vivido momentos tão tristes e sem esperança como aqueles que passara, o pior de tudo era que minha decadência moral ainda estava apenas começando.

Eu havia me largado na bagunça do mundo junto ao meu melhor amigo, Jack. E sem prestar atenção, não apenas havia abandonado minha mãe e meu irmãozinho, como estava fazendo o mesmo com o meu querido pai.

Ele não tinha voz para brigar com ninguém e nem sequer percebia meu distanciamento, ou não parecia perceber. Naquela vida simples, de trabalho difícil e constante, nunca me cobrava para que eu parasse por mais tempo em casa. Enquanto isso, eu praticamente dormia e vivia na casa de meus amigos, passando dias e dias sem vê-lo.

As vezes nos encontrávamos em casa, quando eu aparecia por lá, mas geralmente já era tão tarde que ele quase nem tinha forças para conversar. Apenas me dava um abraço carinhoso – como era seu jeito de ser –, e muito exausto ia se deitar. Acordava apenas no dia seguinte, ainda muito cedo – antes mesmo do galo cantar –, para voltar ao trabalho.

Trabalho pesado, coisa de peão – como ele mesmo explicava –. sobre seu emprego altamente desgastante. Porém, o que eu não sabia, era que ele estava bastante cansado, triste com a perda de minha mãe e do meu irmãozinho, coisa que o corroía por dentro.

Em poucos meses ele já havia envelhecido mais do que os últimos anos de sua vida.

Foi naquele ritmo doido de trabalho, cansado, deprimido e esgotado, que uma pneumonia o dominou e em pouco tempo também não aguentou.

Faleceu em profunda solidão, distante dos meus olhos de filho desinteressado e egoísta.

Nem sequer participei de seu velório e enterro. Não estava presente, nem nunca estive.

Merecidamente, me vi sozinho no mundo, ou melhor, quase sozinho, pois sabia que podia culpá-lo de tudo, menos de desprezível, porque o Jack jamais me abandonara, ele sempre esteve por perto.

Durante todo aquele período, depois que minha família partiu, eu nunca fiquei sem a presença dele. Éramos unidos para tudo, o que muitas vezes pensava se aquilo era bom para mim, mas tinha consciência de que não existia outra maneira de ser, afinal, tínhamos o tal do pacto. Algo que ele nunca me deixava esquecer.

Eu não tinha emprego e nem um tipo de renda financeira, mas nunca me faltava nada. Pensava que tinha sorte de ter o Jack e aqueles amigos ricos que sempre traziam tudo o que precisava.

Na verdade, passei a ter um padrão de vida ainda melhor do que aquele em que eu tinha junto aos meus pais, pois como minha casa passou a ser o ponto de encontro do pessoal, eles abasteciam a dispensa com comidas e bebidas à vontade, além de aparelhos domésticos mais novos, sofás, camas e etc.

Vivia uma realidade que jamais esperava, porque havia coisas por ali que aquela casa nunca sonhara em ter.

Estava sem fazer nada, nem um esforço sequer, porém atingira um patamar muito elevado, sem o menor esforço. Era praticamente um daqueles filhos de playboy, já que nada me faltava.

Não reconhecia a minha própria casa, aquele barraco simples que outrora tinha apenas dois dormitórios, uma cozinha humilde e um banheiro nos fundos do quintal, fora transformada rapidamente em um local confortável e bonito, o “Refúgio”, a moradia de pessoas que nem mesmo conhecia.

Em poucos anos tudo mudara e eu, um menino simples e cheio de energia, já não podia ser reconhecido.

Aquelas pessoas circulavam nela como se tivessem nascido ali. Eu não tinha o controle de quem podia e quem não podia ficar. Não tinha voz ativa para isso e, a cada dia que passava, mais e mais pessoas surgiam, quase sempre jovens atraídos pela lábia do Jack e apoiado pelo Wilson, que as trazia para o “Refúgio da Galera”, como passou a ser chamada.

Eu e algumas daquelas “visitas”, morávamos uns tempos em minha casa e outros tempos na casa de praia do Wilson, entre outros “Refúgios”.

Não sabia o que era amar alguém, nem tinha como me relacionar, pois as minhas referências de vida não costumavam falar sobre isso e nem eram amorosas com as garotas que conheciam. O Wilson parecia mais ser feito de pedra, sempre mudando de parceiras e envolvido nas maiores orgias. O Jack era o pior de todos, o que elaborava e agitava as bagunças, que ficavam a cada dia que passava mais pesadas.

Em minha casa já circulavam figuras tão famosas e cheias de malandragem, quanto a casa de praia do Wilson, na verdade, uma era a extensão da outra.

Estávamos sem limites nem escrúpulos. Meninos cheios de dinheiro, mulheres da vida, garotas desvirtuadas, traficantes e curiosos desejosos por aventura nos rodeavam o tempo inteiro.

Lembrava de meus pais em casa, tão bondosos e simples, meu irmãozinho querido brincando no quintal e aquilo me deixava ainda mais revoltado.

Quando esta revolta surgia, parecia que Jack sempre adivinhava.

Hoje, mais vivido e racional penso que naquela época não podia saber das malandragens de Jack, porque ele não só sabia de minhas tristezas e revoltas, como também as alimentava, me enchendo de idéias malignas e cheias de ódio. Colocava a culpa em Deus e em qualquer coisa que poderia ser sagrada.

Fumávamos e reclamávamos contra o mundo quase o tempo todo e, assim, passei minha juventude.

Já vivo neste bairro há alguns anos e ando por aqui exatamente como cheguei: duro, preocupado com o futuro e trabalhando como um louco, mas ainda assim, feliz. Me sinto parcialmente livre!

Quando paro para lembrar da minha juventude, tudo o que me vem à cabeça é aquela bagunça sem fim, onde encrencas e mais encrencas pareciam nunca acabar.

Cria que a solidão também fora um fardo grande que carreguei naquela época. Não tinha uma pessoa que eu amasse, ou que cuidasse de mim e com boas intenções. Havia milhares de pessoas ao meu redor, mas nenhuma parecia fazer parte da minha vida. Eu sentia uma solidão interna terrível, mesmo cercado por tantos jovens.

Lembro que um dia eu estava dormindo profundamente, depois de umas duas, ou três noites viradas em uma dessas viagens malucas junto com o Jack, o Wilson e mais algumas garotas. Tínhamos chegado de uma viagem improvisada em que o Jack havia elaborado e convencido a todos. Nesta viagem experimentamos tudo do “bom” e do “melhor”, algo muito parecido com aqueles clipes de rapper. Usufruímos, sem moderação, tudo o que o dinheiro poderia pagar.

Sonhara de forma muito real, como se fora um aviso de que as garotas que estavam conosco não eram mulheres comuns, mas devotas de um demônio. Vi assustado que o demônio era o Jack.

Acordei me sentindo muito mal como se estivesse em terrível perigo. Percebi que alguém tentava me avisar de que eu estava vivendo sem propósitos e a serviço das trevas. Foi neste clima de desespero que minha mãe apareceu naquele sonho também, ela dizia para que eu tomasse cuidado com o Jack, que ele era um perigo e coisas do tipo.

No começo do sonho quis me desvencilhar de minha mãe, mas aos poucos, pude perceber que ela me falava sério e em tom muito forte e claro. Exercia uma autoridade que em vida nunca a vi. Por isto, parei de lutar e comecei a prestar atenção em suas palavras.

– Olhe Marçal! Observe o momento que está vivendo. Perceba que, com sua omissão, o Jack está conduzindo sua vida para onde ele bem entende.

Via que eu não tinha vida própria e que não controlava meus caminhos. Nisto, escutei meu pai me dizer:

– Se você não usa seu poder, alguém usará por você!

Achei engraçado meu pai dizer isto, justamente ele que apreciava ser sempre tão alheio e sem voz. Porém, eram palavras fortes e de grande sentido para mim.

Acordei como se estivesse sendo acariciado e protegido pela minha mãe e meu pai, o que me fez um bem muito grande. Porém, não foi naquela época que me separei do Jack, não daquela vez, pois aquilo, mesmo tendo sido um ótimo sonho… infelizmente não passou de um sonho para mim.

– E aí Marçal?!

Nos dias atuais, eu não tinha muitos amigos e companheiros de aventura, aquele que me cumprimentava era a figura mais próxima de um amigo que eu poderia considerar naquele bairro.

– Fala Dirceu?!

Me cumprimentava como se fosse um amigo, mas não passava de um dos mais antigos vagabundos do bairro.

Me esticou sua mão imunda de unhas longas e cheias de sujeira. Sua palma era grossa como pé de velho. Ele já havia me roubado umas três vezes, assim que cheguei naquele bairro. Eu sabia disso, ele também sabia, mas agíamos como se aqueles episódios nunca tivessem acontecido.

– Tem um trocado aí pra mim? Preciso comer qualquer coisinha… por favor?! Disse com seu sorrisinho malandro.

Ele era repugnante, no hálito, nos cabelos desgrenhados, nas roupas amarrotadas e no toque de mão imunda, mas não era o pior entre os que ali viviam, naquela situação vexatória.

Saquei umas duas ou três moedas e lhe dei, mesmo sabendo que aquele assuntinho de comer era, mesmo, uma grande lorota. Vagabundo viciado como ele, nunca usaria suas moedas para comer.

Agradeceu com aquele sorriso doente e cheio de rugas, que só as pessoas nas condições em que ele vivia sabiam dar e se afastou. Se minha mulher me visse dando moedinhas para aquele ser desprezível teria um ataque e com razão, pois de certo que era um investimento sem futuro.

Pelo menos ele não estava me roubando, como costumava fazer durante as madrugadas, na volta do meu trabalho.

– Que figura pacifica que você se tornou, hein?!!! Escutei a cobrança daquela voz tão conhecida por mim.

– Creio que lhe tenha pedido um tempo, não foi? Disse meio irritado com aquela cobrança ali, logo cedo.

– Calma valentão! Estou apenas “coincidentemente” indo à mesma padaria que você. Quero me dar o prazer de um café da manhã! Será que você pode abaixar a guarda de vez em quando? Disse-me o irônico Jack, muito bem vestido e com seu sorriso eternamente cativante.

– Sei de suas coincidências! Respondi cum pouco irritado com sua presença insistente.

Ele não retrucou e nem fez cara de reprovação, apenas fez que não percebeu meu inconformismo e prosseguiu ao meu lado em direção à padaria.

– Será que, pelo menos, desta vez as pessoas têm consciência de sua presença ao meu lado, ou continuam me vendo como um doido que fala sozinho?

– Mac, relaxa! Pense que elas nem sequer percebem em nossa presença. Talvez, isso te deixe mais tranqüilo. Me respondeu animado, enquanto erguia seu braço para a atendente, como se provasse que ele não era uma alucinação, mas uma pessoa real e de gosto muito refinado, pois seu pedido era bastante diferente dos que costumavam freqüentar aquela padaria de quinta categoria.

Mesmo vendo que ele interagia com as pessoas em nossa volta e com naturalidade, suspeitei de sua presença física até o momento em que pude constatar que a jovem esquálida e apática que nos atendera com sua indiferença habitual, deixara em nossa mesa nossos pedidos, com a mesma má vontade diária.

Minto, pois creio ter percebido que ela esboçou um sorriso “gracioso” para o cativante Jack. Creio que tenha sido a primeira demonstração de afeto naqueles muitos anos que já vivi no bairro.

Eu, meu pão na chapa de sempre e um café espresso mal tirado, queimado e amargo, feito por quem nunca acertara o ponto ideal, provavelmente uma mistura de desinteresse com falta de habilidade.

– É por isso que não peço café espresso em espelunca,  só os bons baristas têm esta habilidade. Diga-se de passagem, isto é coisa que você não vai encontrar aqui, não é mesmo?  Disse-me sorvendo seu belo copo de suco de laranja com mamão. Enquanto passava educadamente uma lindíssima geléia de morango em suas torradas. Coisa que nunca vi servirem por ali.

Ainda suspeitando da cena que vislumbrava diante de mim, segurei o braço da garçonete para lhe perguntar qual seria a marca da geléia que meu “amigo” degustava, afinal, eu havia achado ela uma delícia e desejaria consumir mais vezes. A garota, um pouco assustada com minha postura, me respondeu deixando o vidro do potinho em minha mesa, enquanto dizia que meu amigo tinha um bom gosto, talvez atraída pela beleza dele, mas o principal de tudo era que ela confirmara que eu realmente não estava falando sozinho naquela mesa.

Diferente daquele passado solitário, ele já não se portava como uma alucinação, mas resolvera, pelo menos, se portar como alguém que realmente existia fisicamente.

Ele se manteve calmo, elegante e muito educado o tempo inteiro, mas em certo ponto de nosso café matinal, ele olhou o relógio, diga-se de passagem caríssimo, algo que me desagradou bastante, pois me colocava em situação de risco perante aos marginais que freqüentavam aquele lugar. Na sequência, limpou seus lábios com um pano de restaurante chique, coisa que destoava com o cenário, porque não existia aqueles guardanapos no estabelecimento, ergueu-se gentilmente e me fez um lembrete, no qual denunciou seus verdadeiros propósitos:

– Lembre-se, Mac de que lhe fiz novamente uma proposta de parceria, mas não tenho a vida inteira para esperar sua resposta. Confesso que tenho um pouco mais de paciência com você, em respeito à nossa amizade e ao nosso passado tão próximos, mas sei que você tem total consciência de que minha paciência tem limites.

Como não lhe respondi nada e continuei “concentrado” em meu cafezinho, ele apenas se despediu educadamente e partiu.

O recado estava dado.