[Capitulo1 deste Livro, canto superior esquerdo deste Blog]

Capítulo 2

 

_Capa-Capitulo2

Primeiro pacto

Mais uma noite mal dormida, cheia de pesadelos, pernilongos, calor e insônia.

– Acorda amor! Você tem que levar a Beth para a escola!!! Chamou minha mulher, entre uma bocejada e outra, como um zumbi e só voltou para a cama assim que teve certeza que eu havia acordado.

– Seis horas da manhã!!! Quem em sã consciência matricula a filha para estudar a esta hora? Isto é desumano com qualquer pessoa que trabalha até tarde e tem problemas de insônia!!! Reclamei ainda deitado, tentando me convencer que dias melhores viriam, mesmo.

Levei minha filha para a escola numa disputa de maus humores, onde eu quase sempre perdia, pois ela, de manhã, era mesmo a pessoa mais insuportável do mundo. Já havia deixado de lado qualquer interesse, ou tentativa de ter um bom dialogo com ela naquele horário, onde sempre me respondia com grunhidos e olhares de desprezo. Adolescentes são insuportáveis no período da manhã e eu, pessoa igualmente desagradável, apenas me mantinha no mais profundo silêncio, como todos os outros dias. Quase silêncio, já que do radio vinha um velho rock, a contragosto da pequena fera que preferia as canções mais atuais.

Logo depois que a deixei na escola, me dirigi ao trabalho cheio de lembranças do passado. Tudo o que já havia vivido, o quanto eu era ativo, empolgado e determinado. Talvez, graças à visita da noite anterior, eu ainda estivesse vivendo aquela atmosfera saudosista.

Comecei a relembrar alguns momentos intensos, quando eu ainda era o melhor amigo do Jack… este era o nome daquele que havia me visitado na noite passada. Não gostava nem de pensar naquele nome, pois sabia que ele estava me espreitando, me cercando… aguardando minha fraqueza, – ou alguma mínima demonstração de desistência –, para entrar em ação.

Interiormente, lamentava pensar que me sentia muito perto disto!

Jack era um demônio… e dos poderosos. Ele foi, a princípio, meu amigo… um amigo imaginário, ou penso que tenha sido, pois eu me lembrava perfeitamente dele na minha infância, mas ele não estava na lembrança de mais ninguém das pessoas que frequentaram o meu passado.

Ele surgiu há muito tempo, como quem não queria nada, nos primeiros anos de escola. Simpático, atencioso, brincalhão e protetor. Desta maneira, fomos os melhores amigos que um tinha para o outro.

Não! Ele nunca foi agradável com ninguém e nem fazia questão de ser um bom menino.

Naquela época eu não sabia de sua condição de demônio, apenas o achava bagunceiro demais e muito atrevido. Nunca soube se ele realmente chegou a aparecer para as outras pessoas da escola, ou se apenas eu o via, mas uma coisa era certa, os meninos morriam de medo de nós e as meninas nos adoravam. Éramos engraçados, ousados e divertidos. Uma boa encrenca para quem quisesse se envolver conosco.

Achava incrível que nada dava errado para gente, já que não eram poucas as enrascadas que nos metíamos, as vezes bem perigosas, mas sempre saíamos ilesos e rindo.

Assim, passei boa parte de minha infância me divertindo e inventando as mil aventuras.

Meu bairro era um lugar simples, com características de interior, nada parecido com a porcaria que se transformou mais para frente: bandidagem, pobreza extrema, má educação, casas amontoadas e claramente mal planejadas. Uma periferia barra pesada, sem atrativo algum e completamente esquecida pelos governantes.

Na minha infância havia sítios, fazendas, ar puro, muitas árvores e animais, onde corríamos livres para todos os lados e sem grandes preocupações. O que, de certa maneira, agradeço a Deus por ter nascido naqueles tempos, em um lugar tão pacífico como aquele, pois nos dias de hoje, provavelmente, ou teria morrido cedo, ou me tornado um delinquente, com certeza!

Um pouquinho mais velhos, no meio daquelas bagunças intermináveis, o Jack me apresentou um pessoal muito animado e de pouca responsabilidade moral. Eles eram bem mais velhos do que a gente e sabiam se divertir.

Com eles conheci o mar, o surf, onde nasceu um amor sincero e eterno… as ondas. Porém, com eles também vieram as bebidas, o sexo e as drogas. Eles gostavam muito de mim e do Jack, por isso, passamos a ser uma espécie de mascotes da galera e íamos para todos os lugares em suas companhias.

Tinha um rapaz, o mais velho de todos e também o mais rico deles, deveria ter aproximadamente uns dezoito ou dezenove anos, que nos adotou como as mascotes oficiais da galera, conforme ele mesmo nos apelidara, para nos levar para cima e para baixo em seu carrão.

Ele era filho de um empresário importante da região, que por algum motivo, ou algo que desconhecia o porquê até aquele momento, simpatizou com a nossa figura.

Hoje, me faz pensar que, muito provavelmente, teve algum “toque mágico” do Jack, pois além de sermos de idades diferentes, éramos de classes sociais completamente opostas, mas que estranhamente não parecia incomodá-lo em nada.

Minha pequena e humilde família não dizia nada de meus passeios e dos presentes que recebia, pois sabiam que nunca teriam capacidade de comprar nada parecido, sendo assim, minha mãe apenas tentava me orientar da melhor forma possível, o que as vezes me dava um pouco de pena dela, porque alguns de seus conselhos eram tão simples e cheios de bondade, que já não combinavam com minha momentânea consciência de vida.

Em minha arrogância juvenil pensava que mesmo bem mais novo, já havia visto e feito muito mais coisas do que ela tivera oportunidade de fazer em toda a sua vida. Meu pai, coitado, trabalhador de sol a sol – no sítio próximo de casa –, nem sequer tinha tempo de falar ou dar conselhos para mim.

Era homem bom e de uma humildade incomparável. Falava baixo, pouco e estava sempre de bom humor. As pessoas estranhas quase nunca ouviam sua voz, já que sua timidez exagerada não permitia a aproximação e, muito menos, grandes diálogos.

Meu irmãozinho era uma criança feliz e igualmente humilde. Fazia festa quando eu voltava de meus passeios demorados, principalmente quando trazia algum doce ou qualquer coisa para agradá-lo.

Depois do Jack e do Wilson – o filho do empresário –, meu irmão era a pessoa com quem eu mais gostava de passar meu tempo. As vezes eu podia levá-lo para alguns lugares com meus amigos e ele se divertia muito.

Antônio, ou simplesmente Toinho, era um menino bom demais. Sua presença feliz e carinhosa, me alegrava e fazia muito bem. Ele sempre me dava um beijo e um abraço antes de ir dormir.

Seu sorriso era encantador e sua alegria de menino simples de seis anos enchia a casa com uma vida sem igual, ele era a luz da nossa família.

Jack adorava o fato de minha família ser bem simples, pois podia manipulá-la com facilidade, sempre me arrastando para as suas aventuras mais malucas.

Com a turma do Wilson aprendemos a surfar rápido, pois eles desciam para a praia todo final de semana, onde ele  tinha uma linda casa de praia que aproveitávamos ao máximo.

Minha família nunca poderia imaginar as bagunças que aprontávamos por lá e eu, um menino que, desde os doze, já participava intensamente. Não era raro ter drogas, meninas e muita sacanagem rolando. No começo estranhei e até me preocupei com aquilo tudo, pois não tinha a mesma maldade que meus amigos e, muito menos, a do Jack.

Ele praticamente dominava aquele lugar, sempre aprontando, brigando e inventando as maiores doideiras que se podia fazer em uma casa de praia comandada por moleques rebeldes.

Não! Nada daquilo me chocava ou me desagrava, muito pelo contrario, foram os melhores anos da minha vida, graças a liberdade e as aventuras.

Poderia viver aquilo para o resto da minha vida, tanto que ficava irritado quando minha mãe inventava de irmos à igreja, ou alguma festa de família nos finais de semana. Estava viciado com um outro estilo de vida.

Ela ficava muito chateada comigo quando eu fazia birra e reclamava para que não precisasse ir com ela, o que era impossível convencer do contrario e acabava a acompanhando, mesmo sob protesto e as reclamações insuportáveis de Jack na minha orelha. Porém, com as vontades de minha mãe ninguém podia, nem mesmo ele.

Hoje, imagino que talvez ele não conseguia a convencer, porque minha mãe era muito ligada ao Outro, ao inimigo do Jack.

Este Outro, não O conhecia tão bem quanto o Jack, pois Ele só apareceu em minha vida, definitivamente, bem mais tarde, de uma forma inusitada e surpreendente, quando eu já estava saindo da minha adolescência.

Eu já era um rapaz muito revoltado,  arrogante e estava passando por um momento bastante delicado, onde a descrença e a rebeldia estavam em patamares intoleráveis.

Estava em pé de guerra com o Jack, ele não concordava com a mulher que eu havia me apaixonado mas para não ficar de fora tentava de todas as formas entrar para a família de minha namorada e, por isso, também fingia  estar apaixonado por uma menina, a filha da minha namorada, fato que não tenho certeza, pois sua vocação para provocador era muito maior do que a de romântico.

Por algum motivo Jack sempre estava disputando comigo tudo o que eu queria para mim. Hoje eu imagino que se ele realmente quisesse me superar, o faria com grande facilidade, já que era um demônio muito esperto e poderia ter tudo o que quisesse. Porém, ele não chegava tomando, ou me deixando em total desvantagem, ele retirava as coisas de mim devagar, de forma sofrida e sempre tentando me rebaixar. Ao mesmo tempo, ele me alegrava com novidades, oportunidades, viagens e milhares de presentes.

Antes de conhecer esta namorada, a minha atual esposa, eu vivia entre ganhos e perdas espetaculares. Jack me fazia crer que o destino era uma coisa maluca, onde eu não tinha domínio sobre a situação. Ele praguejava Deus toda vez em que as coisas davam erradas, como se não tivéssemos apoio divino algum.

Como muitas coisas costumavam dar errado, principalmente nas horas em que não podiam, acabei por acreditar que Jack tinha toda a razão do mundo e passei a praguejar também. Foi nessa época que tive o maior desgosto da minha vida.

Era um dia de calor, um domingo quente e ensolarado. Minha mãe querendo ir à igreja e eu querendo ir para praia. Discutimos de verdade, praguejei, reclamei e a ofendi, como nunca fizera em minha vida.

Parti irritado com meus amigos para a praia e deixei minha mãe para trás, sem me despedir, apenas ouvindo ela reclamando que eu não deveria fazer aquilo e que meu irmão precisava de mim. Lembro do Jack rindo e dizendo que minha mãe não estava com nada, que era velha demais, que ela não compreendia que nós estávamos na idade de nos divertir.

Aquela, foi a última vez que vi as duas pessoas que mais amava em minha vida. Eles morreram naquele mesmo dia, em um acidente besta à beira da estrada, rumo à igrejinha.

Minha alma caiu no mais profundo silêncio e instintivamente quis distância daquele que parecia ser o maior culpado daquele dia maldito, o Jack.

Ele, sempre malandro, um mestre em enganar e confundir, não chegou arrebentando, dando ordens e me dizendo o que fazer, apenas me seguia, em igual silêncio. Respeitoso, cabeça baixa e sempre por perto.

Tínhamos uns quinze anos, quando pela primeira vez, cansado, oprimido e sem rumo, sentei em baixo de uma árvore na beira da estrada e chorei, como nunca havia chorado em minha vida. Muito perto de mim, para me consolar, apenas o Jack, que se manteve ao meu lado como um “verdadeiro irmão”.

– Porque Jack?! Porque isto tinha que acontecer?

– A vida dá as regras, Deus dá as ordens e nós escolhemos nosso caminho! Agora, neste momento, chorar é a sua única opção, depois a gente resolve o resto!

­– O que é o resto, Jack!

– O resto… somos nós dois, meu amigo! Aceita a minha amizade, me segue, que eu prometo que você vai ser feliz!!! Disse me estendendo a mão, como se conjurasse um pacto.

Olhei em seu rosto sincero e infantil, mas cheio de determinação e, diante daquele cenário quase abandonado, sem perspectivas e planos, apertei sua mão, aceitando sua amizade sincera, protetora e para sempre.

Assim que apertei sua mão, um vento fort e sem sentido surgiu. Era um redemoinho que parecia ter vida própria, correndo em nossa direção, me derrubando e fazendo com que eu batesse a cabeça no chão.

Um medo subiu pelas minhas costas, junto com um arrepio que se espalhou pelo meu corpo inteiro. Ouvi uma gargalhada sinistra e inesperada. Graças ao medo sai correndo em direção à casa de meu pai.

Quando cheguei por lá, estava bastante cansado, quase sem fôlego e muito pensativo sobre onde estaria o Jack, se ele também teria corrido daquele ventão danado e assustador.

– Ei Mac! Aqui! Ouvi seu grito do alto do morro que ficava ao lado da minha casinha de três cômodos.

– Caramba Jack! Como você conseguiu escapar daquela ventania toda e chegar primeiro do que eu?

– Oras! Eu sou mais esperto do que você, esqueceu? Eu sempre escapo do perigo! Disse isso e caiu na gargalhada, como se todo aquele momento horripilante que estávamos vivendo fosse apenas uma grande piada.

Não compartilhei da mesma animação, nem do mesmo humor. Na realidade, tinha, mesmo, ficado desesperado e louco de vontade de chegar em casa.

Me despedi um tanto irritado com tudo aquilo, mas com um detalhe estranho para o momento, o Jack fez questão de lembrar que agora tínhamos um pacto e que nada poderia nos separar.

Não gostei do tom que ele usou, de cobrança, ou algo parecido, mas como aqueles dias estavam exageradamente cansativos e depressivos, apenas acenei a cabeça concordando e entrei rapidamente em minha casa.

Não sabia o que tinha feito, mas havia sido enganado mais uma vez pelo esperto Jack e só saberia disto no futuro.