– Ei! Vai pensando que o garotinho é um menininho bobo… vai nessa!

Escutei a Margarete dizer para uma outra amiga antes de sairmos correndo sala afora, doidos para nos livrarmos de mais aquele dia de escola. Porém, mesmo sabendo de que ela se referia a mim, talvez porque tivesse visto ou sabido de alguma coisa, não dei bola e continuei meu caminho, um pouco envergonhado. Nunca fui muito curioso, sempre achei que se alguém desejasse me dizer algo, esta pessoa viria até mim e falaria. Se não disse, é porque não me interessa e ponto final.

Mesmo porque, o assunto que ela queria puxar, eu não queria conversar com ninguém.

A vida é uma doideira que rola solta e pode te surpreender, pode crer.

Abri a porta de casa, dei um abraço no meu filho e fiquei vendo ele ir para a escola. Não sei porque, lembrei da frase daquela menina ao se referir de mim, coisa antiga de muitos anos atrás.

Senti tristeza e um nó na garganta me derrubou por alguns instantes.

Nem toda história é boa e traz uma energia legal, mesmo que em muitos casos, nem tenha feito um mal tão terrível assim.

Ainda com sono, por ser muito cedo para mim, sentei no sofá e ruminei aquela história que aconteceu há muitos anos.

Era um dia comum como qualquer outro, aproximadamente umas 19h e nem o rapazinho da história que vou contar sabia o que iria acontecer, já que ao terminar mais um dia de aula, colocou os cadernos na mochila e voou direto para o portão, louco para chegar em casa, assistir seu desenho predileto, comer, brincar e dormir… como sempre!

Ah! A vida é um lugar estranho para se estar, coisas acontecem sem que você tenha planejado, ainda mais quando você é uma criança inocente e distraída, como é o caso deste menino, no começo da década de 80.

Ele saltou de sua carteira junto com todas as outras crianças e correu para a saída.

Falou algumas últimas palavras com seu amigo e se desvencilhou rapidamente dele, já que a vontade de estar em casa era descontrolada.

Falava-se muito de assédio de meninas e pouco se conversava sobre meninos, por isso, creio que foi exatamente por este motivo que ele, sem maldade, parou para ouvir uma moça que surgira do nada e o interpelara.

Ele, menino bom e educado, como era de seu costume, não deixou a garota sem resposta, pois considerou um ato de má educação, sendo assim, parou diante dela e, mesmo querendo muito ir embora, tentou ouvir o que ela tinha para contar.

– Ei! Você estuda com a minha prima. Viu a Margarete sair da classe?

Fez cara de surpresa, mas como conhecia a moça de quem a garota se referia, balançou a cabeça afirmativamente, já que ele realmente estudava com ela.

– Não a vi! Mas, acho que ela já deve ter saído! Respondeu sem muita certeza.

– E você? O que vai fazer agora?

Aquela pergunta era bem estranha e não soube responder… não tinha malícia para aquilo, mas não conseguiu desprezar a conversa e, sendo assim, quis saber onde ela queria chegar.

– Vou para a minha casa! E … nada mais! Respondeu um pouco tímido.

Sentiu um frio no estômago, um medo estranho como um portal para uma dimensão tivesse se aberto diante dele, mas não conseguia identificar o porquê do medo, da repulsa e do desejo esquisito de sair correndo.

– Você tem quantos anos?

– Dez!

Ela sorriu, disse que tinha 17. Riu do bobinho diante dela, depois afirmou que era, mesmo, muito mais velha e mais experiente.

Sem jeito, confirmou com um sorrisinho atrapalhado e perdido, mas entendeu que muito provavelmente ela queria divertir-se com a inocência dele, mas não conseguiu correr… apenas gelou, tremeu, mas ficou para ouvir o que ela tinha para dizer.

– Você é um menino muito bonitinho! Quer namorar comigo?

Ele tomou um susto, um frio, uma zonzeira… medo! Baita medo! Não sabia explicar, mas tinha certeza de que aquilo era errado… bem errado! Pensou em sua mãe, em seu pai e desejou nunca ter parado para ouvir aquilo! Pareceu bem perigoso.

– Está com medo de mim?!

A palavra “medo” era exatamente a que conseguia definir com precisão aquele instante! Medo terrível… de verdade! Porém, ele odiava sentir medo, que soubessem ou descobrissem este sentimento nele e foi por isso que não correu dali.

– Não! Acho que não! Tenho que sentir medo de você? Respondeu com uma firmeza que não tinha e nem sentia… o que a surpreendeu.

Ela sorriu, acendeu um cigarro, encostou no muro da escola e o ficou admirando com cara de safada e de quem tinha mil maldades em mente… coisas sobre sexo, com certeza.

Ele, por não estar entendendo nada, sorriu de volta e a ficou admirando… sentia coisas diferentes em seu corpo. Sentiu calor… muito calor. E se algum conhecido o visse ali e falasse para a sua família?

A perna tremia, a barriga se mexia, parecia que estava em perigo, mas ao mesmo tempo queria entender o que aquela moça queria com ele.

Ela era morena, estava com um shorts curto de jeans onde se podia ver lindas coxas grossas e lisas, a barriga aparecia vez ou outra, deixando mostrar propositadamente um lindo corpo muito bem feito de mulher… algo inadmissível para sua idade, seus sonhos infantis e desejos bobinhos.

– O que você sabe fazer, garoto? Disse se insinuando.

Podia dizer a verdade, ou seja, que não entendia nada de coisa nenhuma, mas apenas riu sem graça.

Estavam sozinhos na rua, todos tinham partido, – como era de se esperar graças ao horário –, algo rolava solto ali, uma situação muito diferente para ele.

Ela jogou seu cigarro para longe, abriu maliciosamente uma bala de hortelã, fez um silêncio de poucos minutos, aproximou-se, colocou seus braços em torno do pescoço dele, puxou seu rosto contra seus seios, pegou forte em seu cabelo e levou a boca dele até a sua.

Deu-lhe seu primeiro beijo!

Um gosto de hortelã que nunca mais esqueceria!

Ela o olhou bem de pertinho, olho no olho e deixou claro quem mandava. Depois o intimou: – Agora, você é meu!

Encerrou aquele dia, assim como muitos outros que iriam acontecer –  intimado e sem escolha!

Ninguém jamais soubera do que vivera naqueles tempos. Apenas lembranças, um certo incomodo e nada mais!

Hoje, o medo voltou e o nó na garganta daquela época rondou mais uma vez nos pensamentos!

Fechei os olhos e fiz uma prece, como há muito não fazia!

Em silêncio quase pude ouvir aquelas palavras mais uma vez, um cochicho ameaçador de algum fantasma mal resolvido:

– Você é meu!

 

 

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