Ele estava meio caladão naquele dia, parecia entristecido e distante.

Abri a cortina e escancarei a janela, como sempre fazia quando o visitava, e desejei-lhe um bom dia.

Nem sei dizer se era uma espécie de ritual que havia criado para carimbar a minha presença por ali, ou se era uma forma de tentar despertar alguma reação daquele moribundo.

Só sei que o retorno era quase sempre o mesmo, ele me recebia com cara de poucos amigos, resmungando alguma coisa em voz baixa, – talvez uma resposta mal criada ao meu cumprimento e a minha invasão –, mas depois sorria discretamente com olhar de deboche, talvez por me querer bem demais, reconhecer minha intimidade como algo bom e por saber que aquilo significava uma trégua para sua solidão devastadora.

De qualquer maneira, nunca fora uma pessoa amarga de fato, no máximo… sarcástica.

Ele era meu herói, mesmo diante daqueles tempos ruins, de fraqueza, cansaço e isolamento, que em nada representava a figura fantástica, bem humorada e aventureira de outrora.

Ainda tinha uma fagulha do rapaz de anos atrás, alguém com muitas ideias, pensamentos rápidos e respostas engraçadas, mesmo já não tendo aquele vigor e nem por desejar estar mais por aqui.

– Vai ficar neste quarto para sempre?

– Creio que não por muito tempo, respondeu se examinando no espelho, como se profetizasse alguma cena terrível… um possível fim!

Não o repreendi e nem tentei disfarçar a tristeza que rodeava o ambiente, apenas mudei o foco de nossa conversa.

– Está um dia lindo lá fora!

– Um bom dia para morrer?! E sorriu de cabeça baixa, ainda sentado na cama, com seu pijama descolorido e surrado.

Pensava em como aquele cara alegre, divertido, cheio de histórias e piadas, acabara tão depressivo.

– Você vai insistir com este climão delicioso? Baita deprê, meu! Sai dessa!

– É o que eu mais quero neste momento, sair desta! Mas, acho que infelizmente não será hoje! E me olhou de ombros levantados e cara de sacana, como se não entendesse minha reprovação para aquelas piadinhas.

Esconder a dor, a tristeza de um corpo mais velho e sem forças.

Ter que abdicar de algumas alegrias, se desinteressar em saber do outro, não acompanhar as novidades, não ter condições físicas para suportar e prosseguir?

Nada! Nada combinava com o que ele era de fato! Já tinha partido… era questão de tempo. Pouco, creio.

Não sei o quanto ele continuará por aqui, mas não creio que se estenda por muito mais, pois o fim se aproxima.

Triste afirmar que lhe parece bom!

Ele apenas vive o seu disfarce o melhor que consegue.

E eu também.