Rudolf-e-Fanfis

– Estou sem paciência, para nada. Não me chamem e nem sequer lembrem de mim. Me esqueçam por um tempo.

Foi o que escreveu em um bilhetinho mal feito, no primeiro papel que encontrou pela frente antes de partir sem rumo.

Rudolf era homem alto, forte que só e rústico feito um animal selvagem. Desses grandes demais para ser enfrentado, por isso, seu bilhete tosco – fincado na bancada de madeira com um punhal que ele mesmo fizera –, fora lido e entendido imediatamente.

Em sua mochila apenas o essencial. Tinha pela frente uma longa caminhada com destino ao local mais afastado possível que poderia ficar de tudo e todos, naquela praia isolada – depois da floresta –, numa cabana que construíra intencionalmente simples, bem afastada da pequena cidade onde vivia. Quando ele estava esgotado e emputecido com o mundo, das milhares de regras e exigências que o cercava, somente a natureza tinha o poder de recuperar suas energias.

Chegou cansado, mas se sentindo feliz e integrado ao refúgio, completamente escondido por árvores e um riozinho discreto que o fazia muito feliz, já que aquilo o bastava.

Olhou animado para a sua cabaninha, a achou bonita e especial, como sempre. Flores, que até então desconhecia, cresciam em abundância e de um colorido especial – entendeu aquilo como uma saudação, um presente da natureza em homenagem à sua chegada e sorriu satisfeito.

Sabia como deveria agir por ali, sendo assim, a primeira coisa que fez antes de qualquer coisa, foi acender sua lareira para garantir uma noite agradável e quentinha, apesar da época não ser as das mais geladas.

Arrumou, ajeitou, limpou e colocou em ordem. Cozinhou e fez seu chá predileto para, finalmente, poder descansar. Desta forma, sua cabana estava ótima para passar mais um tempo e, por fim, sentou em seu canto predileto.

Se sentia calmo e completo naquele isolamento. Era a oportunidade perfeita para colocar a mente no lugar e recompor seu corpo gigantesco da fatigante vida em sociedade.

Estava deitado entre as cobertas em sua cama, feita de penas e madeiras que juntara da natureza, por isso, já estava quase dormindo, quando teve a sensação de ter visto alguma coisa passar na frente da visão de sua porta de entrada que estava aberta. Talvez algum animal, pássaro e, nas últimas das possibilidades, uma pessoa.

Não era comum receber visitas por ali – para não dizer… impossível, graças ao isolamento do lugar–, mas algo passou entre as árvores e se não estivesse ficando maluco, mesmo desacreditando da possibilidade, lhe pareceu ser uma menina.

Ergueu-se rapidamente, arremessando suas cobertas para longe e foi até a porta para averiguar o que estava acontecendo.

Olhou e olhou, com a calma de um caçador e a experiência de quem sabe o que procura entre as árvores, mas nada lhe parecia chamar a atenção.

Tentou crer que, muito provavelmente, tinha pegado no sono e, por isso, sonhara com a tal aparição, mesmo tendo certeza absoluta de que visualizara alguém.

Naquela noite, ao contrário de todas as que já passara por ali, deitou desconfiado, dormiu atento e teve uma péssima sensação de estar sendo vigiado, ou melhor, espiado, sendo assim, acordou irritado e num mal humor de arrepiar, pois seria capaz de jurar que vira a mocinha rondando sua casinha por mais algumas vezes.

A presença fantasmagórica da garota estava tão constante em seu dia a dia que não lhe restava a menor dúvida de que tratava-se de um ser real e presente por ali, mesmo que a visse de relance e por milésimos de segundos, só não era possível afirmar o porquê daquilo.

Mesmo ressabiado,  continuou seus dias com naturalidade e sem nem alterar em nada a rotina que se propusera para si. Levantava cedo, nadava no mar limpo e azul, surfava, pescava, tocava seu violão, recolhia madeira e montava sua fogueira sem se preocupar, mesmo percebendo de relance a garota branca e de enorme cabelo branco que o observava do plano paralelo de onde deveria morar, pois cada vez que ele tentava a enxergar de frente, a moça desaparecia tal qual um fantasma.

Com o passar dos dias percebeu que a menina se aproximava mais dele, tendo a sensação de acordar, muitas vezes, com ela sentada aos seus pés o observando em silêncio, mas logo desaparecia quando tentava entrar em contato direto. Por isso, não raramente, ficava falando sozinho na tentativa frustrada de se comunicar. 

Aquela aparição o deixava muito atrapalhado, já que a via apenas de cantos de olho e muito rapidamente.

Alguns dias naquela situação e começava se adaptar com a situação, tanto que passou a perceber que ela também não o observava completamente de frente, mas o buscava pelos cantos dos olhos e, assim, ao compreenderem melhor como aquilo funcionava, passaram a conviver mais perto um do outro, sem fixarem olhares e, muitas vezes, ficavam horas, lado a lado na praia, sentados e observando o mar… em profundo silêncio, já que ela não pronunciava um som sequer.

Através destas observações de rabo de olho e sem foco, ele pode perceber que ela era uma espécie de projeção, como se fosse uma imagem holográfica, o que justificava a falta de som e a facilidade com que ela chegou por ali, já que a caminhada era bem difícil e concluíra que ela não se encontrava naquele lugar de fato, mas uma imagem de alguma realidade de outro lugar, mundo, plano, ou qualquer coisa no sentido.

Estava ali, naquele final de tarde adaptado, tranquilo e feliz, ao lado de sua “amiga imaginária”, quando resolvera pegar sua velha prancha para curtir as boas e suaves ondas que rolavam maravilhosas por ali.

Não disse nada, apenas ergueu-se da areia, pegou sua prancha e remou calmamente para dentro do mar.

Desta maneira, com algumas braçadas calmas e longas rumo ao fundo, umas ondas para trás e um lindo sol alaranjado pela frente, parou de remar, sentou em sua prancha e olhou em direção a praia, onde esteve toda a tarde sentado com sua mais nova amiga, que tomou o maior susto de sua vida, tanto que naquele momento, completamente desequilibrado de sua prancha, caiu na água apavorado. Logo atrás das árvores mais próximas de sua casinha, onde geralmente deveria haver mais um monte de outras muitas árvores, havia por ali, naquele mesmo lugar, uma enorme cidade futurística com muitas naves voando ao redor.

– Uaaau! Exclamou admirado, trêmulo e de coração disparado.

De alguma maneira, toda aquela região parecia outro lugar e com outro cenário, como se tivesse aberto um portal – ou qualquer coisa do gênero –, para um mundo completamente desconhecido até então.

Estava estupefato, tanto, que depois de alguns minutos deslumbrado com aquela aparição, pode perceber sua amiga em pé na praia, olhando diretamente para ele, pela primeira vez.

Ele ficou mudo e uma estranha sensação de reencontro bateu em seu peito, não sentia medo e nem pavor, mas uma gratidão enorme por estar diante daquela visão inacreditável. Sua amiga, mesmo percebendo que ele parecia estar agindo de forma estranha e muito assustado, abriu um lindo sorriso para ele e acenou feliz.

Ele a observava encantado, uma mulher linda, de estatura mediana, corpo forte e bem distribuído. Vestia roupas muito diferentes das de sua época, bastante coladas no corpo perfeito e um lindo cabelo branco enorme, que voava solto com o balanço do vento… hipnótico!

Ele sorriu de volta e, meio sem graça, acenou animado também.

Subiu mais uma vez em sua prancha, deu umas duas braçadas e voltou deslizando em pé até a areia. Largou sua prancha ali perto e foi até a menina, que na realidade deveria ter aproximadamente uns 30 anos de idade.

A observava impressionado com tamanha beleza e graciosidade.

Não lhe disse nada, apenas caminhou ao redor dela a admirando, pois finalmente podia  ver seu rosto bem de perto, depois de dias, assim… olhos nos olhos e sorriu.

Ela sorriu de volta com seus lindos dentes brancos e lábios rosados, enquanto observava impressionada o gigante – igualmente surpresa –, como se tivesse reencontrado um grande amigo, ou um grande amor.

Ela lhe disse algo, que não fora possível compreender já que era um idioma completamente desconhecido.

Ficaram de frente um para o outro, não havia palavra que combinasse ou fosse compreendida, mas a energia que fluía entre eles era universal e rapidamente aceita. Deram-se as mãos e sorriram felizes… lindo reencontro de almas e sabiam disto.

Suas mãos, ao se encontrarem, liberou uma energia que tremeu em ambos os corpos e como se tivessem saído de dentro da água – ou de uma bolha –, seus ouvidos se sintonizaram com os sons de ambos planos e, pela primeira vez, puderam se ouvir claramente. Eram sons estranhos para os dois e, mesmo com idiomas diferentes, a suas maneiras e jeitos, se cumprimentaram.

Ele, assombrado e estupefato, ainda de mãos dadas com aquela que seria a mulher mais querida que já amara em toda sua vida, observava as naves sobre suas cabeças e as lindas construções que se erguiam muito belas e em plena harmonia com a natureza que os cercavam… majestosa e em perfeito equilíbrio.

Ela tentou lhe dizer algo, mas ao perceber que ainda não falavam a mesma língua, apenas abaixou, pegou um galho de árvore e escreveu na areia: Fanfis, depois apontou para si mesma, dando entender que aquele era o seu nome.

Ele sorriu, repetiu seu nome em voz baixa – como se quisesse decorá-lo para sempre – e depois se apresentou, já dentro de um abraço – Rudolf.

Encontros de almas, sempre tão carregados de emoção e alegrias, mas infelizmente nem por isso eternos.

Conseguiram passear e conhecer um pouquinho da vida um do outro, porém, para a tristeza de ambos, o amor foi crescendo, as descobertas dos mundos aumentando, ao mesmo tempo em que tudo foi deixando de existir, mais uma vez.

Desta maneira, para o desgosto do lindo casal, em poucos dias tudo fora desaparecendo mais uma vez, assim como surgira.

E mais uma vez, Fanfis e toda aquela cidade atrás das árvores à beira mar foi sumindo e sumindo… até se tornar apenas uma leve aparição no canto dos olhos.

Ele, um homem cheio de nostalgia e saudades, que algumas vezes tinha a sensação de ver uma linda mulher de cabelos compridos, muito brancos e que balançavam ao sabor dos ventos, mesmo que por outros ventos e logo ali, próximo a sua humilde cabaninha.

 

 

 

 

 

 

 

 

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