Licença Seu Boldrin, homem bom e que encanta pela luta das boas memórias de um tempo em que se batia no peito e afirmava: Sim, sou brasileiro!

Porém, por que não consigo afirmar isto com a mesma alegria e o orgulho que outros povos parecem declarar convictos, ao se dizerem nascidos em seus países de origem?

Ah! Seu Boldrin, o que acontece comigo, ao me sentir fraco, apagado e até um pouco envergonhado de tudo que vejo por aqui? É uma coisa estranha, destas que beiram a tristeza profunda e sombria.

Na real, acredite, é quase uma depressão… e isto me preocupa demais, pois esta situação ruim que nos rodeia, me faz ficar muitas vezes abismado ao ver que outras pessoas também sentem!

Parece que somos um povo que se perdeu, agimos de maneira a fazer acreditar que um pedaço de nossa humanidade foi pro ralo, inclusive, aparentemente, a parte mais inteligente dela. Sendo assim, andamos pela vida de forma deselegante, sem educação e cheios de dores incuráveis, que aborrecem, emburrecem e constrange.

Ser brasileiro, Seu Boldrin, principalmente na atual situação de desencanto em que nos encontramos, não é algo que proporciona muito orgulho e felicidade como, talvez, fora em algum outro momento de nossa história, ou melhor, destas lindas histórias que o senhor nos conta e que me faz tão bem! Pois é, não é não!

Em outras épocas, quem sabe, tivéssemos orgulho do povo alegre, simples, querido que por aqui andava e que se mantinha sempre de cabeça erguida, mesmo que simplesinho de dar dó… pois é, não mais!

Percebo que estamos tentando, Seu Boldrin, e esta pode ser uma boa característica que defina nosso status: “Tentando” – assim, no gerúndio mesmo, para ser mais apropriado e indefinido.

Me choca ao ver esta linda terra, que abriga e abraça feliz as muitas etnias, dos vários povos que por aqui se estabeleceram com suas lutas sem fim – mesmo que, nem sempre boas de se saber, mas superadas de alguma maneira –, acabarmos desta forma… “tentando”.

Somos um povo que está “tentando”, mas já nem sei exatamente o que!!! No lugar deste gerúndio maldito, deveríamos ser declarados maravilhosos e abençoados. Trocaria o “tentando”, pelo “Somos”. Mas, infelizmente, parece que ainda não é a hora.

O senhor mesmo sabe disto e não cansa de nos contar sobre quanta cultura existe por aqui. Pessoas, histórias impressionantes e emocionantes, destas de encher nossos olhos de lágrimas, com paixão autêntica, amorosa, das que envolve, canta, fala e escreve todos os dias nestas muitas cidades sem fim. Orgulho e emoção que enche nosso peito de um bem-querer incontrolável, a cada manhã e em lindos finais de tarde. Por todos, para todos e por tudo que por aqui passa, alastrando, envolvendo e apaixonando declaradamente. Ah!!! Que linda terra, Seu Boldrin.

Olhem, admirem este lindo país e este povo extraordinário, diz o senhor. Pois é, Seu Boldrin! Acredito no senhor e até quero, de verdade, que isto seja uma realidade constante, pois é o que deveríamos ver todos os dias em nossos lares, trabalhos e cidades. Assim que teríamos que ser… bem tratados pelo governo que aí está e termos alegrias sem fim! Sempre!

Sim, nossa terra é um encontro maravilhoso, uma linda mistura de culturas e conhecimentos que o tempo conseguiu juntar.

Olha lá…

Sempre, ou desde que se têm consciência e registro, vemos os índios, um povo que um dia já foi o único dono destas terras e, do seu jeito e regras, viveram – e vivem –, suas lindas tradições.

Me alegro com a maravilhosa e animada presença dos povos africanos no Brasil, pois sem eles este país nunca teria sido o mesmo – com certeza. Negros com suas estruturas físicas impressionantes e poderosas, que nos ofereceram a oportunidade de conhecermos e assimilarmos esta cultura especial. Nos enobreceram com a força de um povo sem igual, de lindas características espirituais, musicais e físicas. Graças por hoje fazerem parte de nosso país e abrilhantarem com uma beleza sem igual.

Com a presença dos povos orientais, temos que ser igualmente agradecidos, pois trouxeram conhecimento especial e muito rico. Nos ensinaram características importantes, tais como a determinação, o esforço e a perseverança, além de nos doar um pouco destas milenares experiências e sabedorias.

Os europeus, com forte presença em muitos momentos de nossa história, pudemos aprender infinitos exemplos, desde os mais básicos aos mais complexos. Organização, artes e técnicas que mudaram e transformaram a cara do Brasil desde o início.

Sou grato, de verdade, por todos os muitos povos que por aqui chegaram e nos ajudaram a nos moldar.

Sei, também, das muitas dores e bobagens que estes mesmos povos carregaram para dentro deste lindo país… tudo bem, acontece. Não quero me ater aos erros e defeitos humanos, já que acredito sermos sujeitos a falhas.

Estou tentando entender o porquê desta nuvem ruim que insiste em pairar sobre nosso país – uma energia desmotivadora e que tem nos trazido tanta dor.

Seria apenas ganância da classe política ou é  uma característica abominável que está em todos nós, como uma doença ou uma herança no DNA? É algo que vêm de dentro ou foi implantado por alguma estratégia vinda de fora do país… ou do mundo? Trazida por algum Et malandro?

Será que existe alguém tão cruel, um líder, um grupo – ou o próprio Deus –, cheio de maldade e arrogância, que aparenta pensar apenas em si mesmo e, com isto, faz questão de despejar violência e terror sobre este país maravilhoso, tal qual um castigo?

Seria inveja, vingança, ou pura imbecilidade?

Penso, Seu Boldrin, que a ganância e o vício são, de fato, tão incontroláveis quanto uma coceira, destas de micose crônica nos dedos do pé, em que, uma vez iniciada, dificilmente será ignorada e não coçada prazerosamente. O problema maior é que, se ninguém desejar parar esta doença, ela jamais terá um fim. Sendo assim, criam-se bolhas, feridas, sangram e destroem as unhas e deformam os dedos e, em casos extremos, tomam todo o corpo.

Sabe, Seu Boldrin, espero que esta fase passe de uma vez e que possamos encontrar paz, alegria, harmonia e consigamos voltar a sorrir aliviados mais uma vez.

O senhor tem razão, nosso povo é bom e tem espírito apaziguador, pacífico e atencioso. Recebe todos de braços abertos, contentes e alegres, tal qual a um irmão.

Minhas preces são bobinhas e sem muita força, pois sou homem simples e de fé fraca, mas, hoje mesmo, coloco meus joelhinhos no chão pra rezar pra Deus, mesmo não sendo muito íntimo, para que, mais uma vez, nos alivie do peso deste momento e que possamos receber todos os povos do mundo, com a velha simpatia, cheios de saúde, mesa farta e o bem-querer de outrora.

Um abraço, Seu Boldrin!

Obs: Quando minhas forças estiverem se acabando, é em um de seus contos que buscarei lembrar que ainda sou brasileiro e dos bons.

Obrigado! 🙂

 

 

 

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