Atropelado-no-inverno

 

Olhou para o relógio e confirmou estar atrasado demais.

Pensou em alguma desculpa razoável o suficiente para justificar o porquê de chegar tarde naquela reunião chata dos cacete, mas não conseguia formular uma boa de verdade.

– Reunião chata da pixorra! Pensou inconformado, gelado e a ponto de mandar tudo às favas. – Impossível! Era compromisso inadiável, valia vida e seu sócio iria comer seu fígado se ele não fosse.

– Porra! Eu sou criação e não o atendimento da empresa… que inferno! Remoía aquela velha ideia em seus pensamentos. Eterna briga destas classes – Será que um dia estes rivais se ajeitam? Dependentes eternos um do outro, mas nunca em paz!!! Que bosta… que sina!

Imaginava que certas coisas deveriam ser dispensáveis. Não queria acreditar que alguém seria capaz de gostar destes encontros comerciais. – Somos um mundo com tantas tecnologias, porque caralhos ainda existe uma reunião presencial? Falava pra si mesmo e bufava mais que vaca velha.

Chamou um Uber a contragosto – Quarenta paus? Tô ferrado com estes caras, espero que fechem negócio ou vou à falência! Falava baixo, enquanto gesticulava mais que italiano nervoso.

Entrou no carro do figura com cara de maluco, mas pela porta detrás, sinalizando sua péssima disposição em socializar.

– Hoje é o primeiro dia de inverno e nestes dias a gente precisa de mais Amor e Sopa Quente… nada mais! Imaginou com cara de poucos amigos.

– Ok! Não estou no barato de dar Amor, mas recebê-lo o máximo possível. Amor destes de mãe mesmo, cobertinha fofa, Tv ligada em um desenho animado bem bobinho, palavras queridas, com biscoito recheado, leite quente e Nescau.  Pô! Isso é pedir muito?

Toda aquela agitação em horário matutino era desanimador e irritante. – Ninguém merece… mesmo.

– Corre, irmão… que eu tô ferrado! Resolvera dispensar o título de cara mais legal do mundo, com suas palavras de cuzão para o jovem Uber. – Ferre-se, sou mesmo um cuzão! Pensou com a carinha de mimadão de bosta. E riu internamente de sua atitude de um babaca completo

Mimadão

Foi a melhor e única frase que conseguiu formatar diante de tanto mal humor e frio insuportável, destes em que as entranhas tremem incontroláveis.

Através do vidro, ligeiramente embaçado, via o mundo passar – Projeção da viagem: Quarenta minutos de monotonia e lentidão? Mais carinhas de mimadão e já que não poderia fazer nada sobre isto, relaxou e acabou dormindo.

– The winter is coming, ouviu o jovem barbudo gritar… era o John Snow!!!

Ficou meio sem graça nos primeiros segundos daquele encontro, pois aquilo não fazia o menor sentido, mas sabe como são estes sonhos, não é mesmo? Rapidamente, já era um amigo antigo e completamente envolvido com aquela maluquice toda. Assim, já fazia parte da trama e sabia como a coisa toda funcionava. Estava na muralha cuidando para que os selvagens não invadissem. Porém, por perceber seu corpo de homem que sempre treinara e se preocupara com a boa forma, não poderia aceitar o papel de parceiro gorducho e desajeitado do Samwell Tarly, mas sim o próprio John Snow. E foi assim que, envolto de coragem e poses de quem sabia de tudo, fez-se John Snow.

Estava em pleno desacordo com sua tropa diante da decisão que tomara em trazer para dentro das muralhas o povo do norte – um bando de selvagens malucos – para que pudessem ajudar, todos unidos, a se protegerem dos Caminhantes Brancos.

A diferença do John Snow do seriado e dele, é que ele já estava ligado em tudo, inclusive que morreria por traição, por isso estava muito puto com aquela parte em que se encontrava do seriado, fora o frio que era de irritar as mais pacíficas das almas . De fato,  mataria, de verdade, qualquer um para ficar um pouquinho mais nas cobertas de sua cama – Odeio este frio da porra!!! Reclamou em voz alta, assustando o motorista do Uber.

Em seus sonhos, tremia feito vara verde, enquanto observava aquele lugar cheio de neve, uivos e sons desagradáveis vindos de todos os lados daquela terra horrorosa. Se sentia oprimido e cercado pelos próprios aliados – pois sabia que iriam desferir ataque traiçoeiro a qualquer momento e retirariam sua vida… fora o maldito frio… mesmo! Estava muito irritado, pois detestava duas coisas na vida… ficar acuado e sentir frio!

Foi quando ouviu uma voz vinda do além:

– Deseja que eu aumente o ar quente?

Confuso com o sonho, com o frio e o mal humor desgraçado, gritou irritado, como se estivesse em campo inimigo, para o pobre motorista:

– É lógico que sim, porra! Aumenta logo esta merda!!!

E acordou cara a cara com o jovem motorista do Uber assustado com sua expressão de doido e rosnando de ódio!

Voltou a si e percebeu o quanto estava ridículo naquela posição de ataque feroz, preso ao colarinho do rapaz e o insultando violentamente.

Se recompôs, ajeitou a camisa do motorista, pediu desculpas – muito envergonhado com a cena toda-,  e voltou para o banco detrás se sentindo muito mal. – Vergonhoso! Shame, shame, shame… foi a única coisa que conseguiu pensar.

Chegou em seu destino em apenas cinco minutos – que lhe pareceram séculos –, pagou a corrida, deixou uma gorjeta considerável, pediu mil desculpas – de novo – e partiu correndo rumo à sua reunião, assim como um John Snow arrasado por muitas punhaladas,  do tal seriado, mas ali, naquele momento, seria mais conveniente dizer que era um  John Snow atropelado pelo Uber.

Simplesmente atrapalhado com seu papel de idiota, passou a acreditar que chegar na reunião atrasado, como realmente estava, era uma coisa bastante vergonhosa, mas a cena ridícula que se prestara, com certeza, era ainda pior.

– The winter is coming…  e o resto dá-se um jeito! Pensou se sentindo um imbecil, enquanto caminhava acelerando o mais que podia,  com seus passos largos, para a tal da reunião inadiável.

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