Esta é uma história baseada na carta de Pero Vaz de Caminha, sobre o descobrimento de um planeta.

Terra-Cruz2

Subimos em uma das naves pequenas, assim como tinham chegado, voltamos para a praia.

Chegamos ali onde já nos esperavam cerca de duzentos homens, todos com aquele mesmo tipo de vestimenta emborrachada, com aqueles arcos e flechas iluminadas nas mãos. Os dois homens da tribo, que nós já havíamos levado em nossa nave – na presença do Capitão-mor –, e agora nos acompanhavam de volta acenaram-lhes que se afastassem e abaixassem os arcos; e eles assim o fizeram, mas não se afastaram muito. Mal pousaram os arcos, os dois homens e Afonso – o exilado –, foi com eles. Ao sair dali, não pararam mais; nem esperavam um pelo outro, mas corriam acelerados, como se estivessem apostando quem entre eles era o mais rápido, o que nos exigiu muito do condicionamento, porque tivemos que, com grande dificuldade, acompanhar aquela correria desenfreada.

Passaram num rio que por ali corre, de água doce e tamanha abundância, que passamos pela cintura, assim como outros muitos que nos acompanhavam de perto.

Todos correndo o tempo inteiro, uns gritavam, riam e falavam entre si em conversa inteligível, pelo rio e entre moitas, que para espanto, nestes muitos caminhos, encontrávamos outros que passavam a nos acompanhar também, sempre numa embalada e empolgada correria.

Tanto corremos que estava exausta, já que carregava uma mochila pesada, até que, ao chegar a um descampado, paramos. Afonso, que imaginava estar correndo bem à frente, na realidade chegou depois, junto com um daqueles homens – um senhor já bem mais velho. Este, logo que havia saído da nave, os trouxera até ali de carona, o agasalhou com a capa que tinha recebido de presente de um dos nossos e se responsabilizou em acompanhá-lo. Depois se voltaram para nós, falando bastante entre eles e infelizmente nada compreendemos. Junto a este grupo – em que estava o exilado –, vieram os outros, aqueles que nós tínhamos recebido na nave do capitão, eles vinham já sem os pertences que tinham recebido de presente do capitão, naquela oportunidade.

Correndo_Rio

Então, começaram a aparecer muitos deles. Chegavam pela beira do mar acompanhando nossas naves, em uma quantidade absurda e incontável; traziam nossos galões de água, tomaram para si alguns barris que nós reservamos, bebiam à vontade e sem cerimônias, depois enchiam novamente de água do rio e levavam até a nave de volta. Não eram todos que invadiam a nave, mas uma quantidade considerável deles. Traziam nossos barris, apontavam objetos e pediam que lhes dessem alguma coisa, quando descobriam algo de interesse, não por maldade ou ambição, mas como crianças espontâneas, curiosas e desejosas de um novo brinquedo. Levava Nicolau Coelho bijuterias e moedas consigo que as distribuía entre eles, para conquistar a simpatia dos grandalhões. Estas peças eram inúteis para seu povo no dia a dia, mas que, por serem diferentes, estendiam suas mãos de dedos enormes e compridos para recebê-las animados, desta maneira, Nicolau quebrava um pouco da desconfiança e timidez dos enormes rapazes.

Receberam seus presentes muito contentes e risonhos, mas jamais trocaram seus arcos, de forma alguma, como se fossem peças sagradas e nem mesmo entre eles via-se o costume de trocas deste objeto, o que despertou grande curiosidade entre a gente, para saber por qual motivo nunca desgrudavam daquelas armas.

Logo após aquele momento descontraído, partiram os dois que ficaram naquela noite conosco na nave e nunca mais foram vistos.

Todos que ali estavam traziam aqueles colares com a pirâmide de ponta cabeça e os arcos consigo, do mesmo modo, usavam aquela roupa interessante e muito grudada em seus corpos e rostos lisos como de um menino. Ali andavam muitos deles, almas tranquilas, animadas, simples e com seus enormes cabelos azuis. Apenas alguns tinham uma pintura nos olhos, como uma máscara igualmente azul, dando uma expressão muito forte, tal qual um guerreiro, além das penas longas e bem coloridas presas em seus cabelos.

Andavam entre eles três ou quatro moças, jovens e bem gentis, de pele muito branca, com longos cabelos muito vermelhos, até o meio de suas costas, enfeitadas de flores diversas com infinitas cores. Lindos corpos esculturais de beleza impressionante, que de tanto observar seus seios e intimidades, já não nos despertava nenhuma vergonha.

Em determinado momento do dia, não houve mais fala ou entendimento com eles, pois pareciam estar desligados daquela realidade e entrado em profunda meditação. Pareciam estar absorvendo algum encantamento da floresta que nos cercava, sentados em silêncio profundo e de olhos fechados, não interagiam entre si, nem com mais nenhum de nós, desta maneira, ninguém conversava e nem ouvia ninguém. Silêncio completo, apenas os sons da natureza. Porém, algo nos chamou bastante atenção, seus arcos pareciam estar vibrando e, ao mesmo tempo, pulsavam as luzes das flechas feita de alguma energia, tal qual um raio, acompanhando as luzes das pirâmide em seus colares.

Em certo momento, eles abriram os braços, como uma dança sincronizada, sem que se olhassem ou combinassem movimentos. Ficamos surpresos, pois as flechas luminosas deslizaram pelo arco, subiram por seus braços, como se tivessem vida própria, passando pelo pescoço e escorregando pelos rostos até o topo da cabeça. Esta energia azul ficou ali por poucos minutos e ao ascender mais forte mais uma vez, ainda como um raio, desceu pela cabeça, através da nuca, e se firmou por toda a coluna. Permanecendo ali, lindamente acesa, por um bom tempo.

Entendemos que aquela megamanifestação era algum ritual, ou coisa parecida, algo que não compreendemos, mas que – mesmo eu estando muito curiosa –, não deveríamos interromper e nem atrapalhar, por isso, saímos dali.

Voltamos no sentido do rio para colaborar com três ou quatro de nossos homens que enchiam não sei quantos barris de água que nos levaram, naquele excesso de alegria, quando nos encontramos por ali, desta maneira, em colaboração, tornamos a repor na nave. Porém, quando estávamos entrando na nave para partir, acenaram que retornássemos. Voltamos até lá e eles mandaram o exilado para gente, dando a entender que não queriam que ele ficasse lá entre eles.

Não quiseram nada do que ele carregava, pois este carregava de volta para a nave uma caneca e os bonés vermelhos. Confessara ter levado como presente, para que, assim como Nicolau Coelho, conquistaria as confianças, coisa que não aconteceu. Aquilo pareceu bem estranho, por não sentirem a mesma convicção em Afonso, da mesma maneira que depositaram nos capitães. Como se tivessem captado qualquer coisa que não os agradassem nele. Porém, Bartolomeu Dias o fez voltar e ordenou que lhes desse o que tinha, pois achou inconveniente não agradar os que ali estavam, trazendo de volta os pertences. Então, Afonso foi até eles e deu os presentes sob nossa atenção.

O que recebeu era quem havia dispensado atenção com o exilado, o coberto com a capa e o tratado com grande respeito na chegada naquela praia.

Este senhor já tinha idade avançada, andava um pouco curvado e de maneiras mais frágeis do que os moços que o acompanhavam. Seu traje era diferente dos demais, não estava com o látex grudado ao corpo, mas um tecido branco mais grosso, botas de tecido resistente com cadarços e um poncho vinho sobre tudo, tal qual uma roupa de gala. Parecia mais imponente e enfeitado, com muitas penas, colares, e com um lindo adorno colorido na cabeça. Tinha muitas pinturas no rosto e braços, eram setas e mais setas, lembrei da imagem de S. Sebastião, que apontavam em direção ao seu coração, onde estava o final de seu colar com a tal da pirâmide, num brilho esverdeado, diferente dos demais e bem interessante de se ver.

O outros usavam um adorno na cabeça também, mas com penas de apenas uma cor, as vezes amarelas, outros vermelhas e alguns com verdes.

As moças estavam ali também, não eram as mesmas de algumas horas atrás, mas outras que ainda não tínhamos visto. Não usavam aquelas roupas de borracha até o pescoço, mas um vestido fino, de tecido muito leve e transparente – podia-se afirmar nuas –, com os rostos pintados com aquelas máscaras nos olhos, só que pretas. Lindas, com seus cabelos vermelhos esvoaçantes, seios grandes, barrigas musculosas e magras, com suas nádegas cheias e bem definidas, coxas fortes e graciosas, que as muitas mulheres da nossa terra, vendo tais feições, ficariam envergonhadas de ficarem lado a lado, por não terem corpos tão bonitos como as que elas apresentavam.

Mulher-Linda

Admiramos tamanho espetáculo e graciosidade, comentamos empolgados sobre aquele encontro, depois voltamos à nave e eles se foram.

Mais tarde sai da nave-mãe juntamente com o Capitão-mor e uma boa tripulação, em uma nave menor e aberta ao vento. Outras naves também saíram em expedição conosco, com os outros capitães e tripulação, para sobrevoar a baia, em frente ao mar. Porém, ninguém saiu em terra, porque o Capitão não quis que ninguém estivesse nela. Somente saímos quando encontramos uma ilha grande – nesta mesma baia –, e que na maré baixa fica bastante vazia. Todavia, é cercada de água por toda parte, de tal maneira que ninguém pode ir até lá, somente com a nave ou a nado. Ali, pudemos relaxar por duas horas.

Alguns colegas, bastante ligeiros, levaram uma rede pequena e trataram de lançar à sorte em busca de algum peixe, o que de fato, obtiveram um certo êxito, já que conseguiram arrastar alguns peixes pequenos e em pouca quantidade.

Naquele canto onde estávamos, ocorre um fato inusitado, de efeitos surreais e de aparência encantadora. Analisado por nossos computadores e estudiosos responsáveis na nave-mãe, nos avisaram que este fenômeno interessantíssimo acontecia logo ali perto – que pudemos ver com nossos próprios olhos –, e que proporciona efeito incrível. Graças a influência da forte gravidade das quatro gigantes e maravilhosas luas presentes no céu, quase alinhadas, a água é atraída para os céus uns 20 metros de altura e pode-se visualizar a beleza surpreendente de um aquário surgir. Águas límpidas e translucidas  sem que houvesse barreiras para segurá-las, por isso, peixes de diversos tamanhos nadam lindos, livres e soltos, saltando das paredes enormes e transparentes, para caírem no mar logo abaixo. Baleias, golfinhos, tartarugas, arraias e outros muitos peixes, que nem mesmo saberia existir, ou se catalogadas na Terra, se exibem lindos naquele mar maravilhoso da Terra Cruz. Cores variadas e formatos diversos, passando a poucos metros de nós. Um show empolgante que, provavelmente, será enviado pelos responsáveis da área de mídia à Vossa Alteza.

Baleia

Então, depois daquela tarde agradável, incrível e muito prazerosa, permanecemos mais um bom tempo em alegre e descontraída conversa. Voltamos às naves, apenas quando já era bem de noite.

*Obs1: Estou testando esta história – posso mudá-la completamente, conforme sentir necessidade.

*Obs2: Segue link da carta de Pero Vaz de Caminha: http://www.biblio.com.br/defaultz.asp?link=http://www.biblio.com.br/conteudo/perovazcaminha/carta.htm

 

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