Acordou disposto, mas foi para o banheiro cambaleando fazer sua higiene pessoal.

Olhou para o espelho e se orgulhou de sua barba.

— Que homem, hein? E riu de suas palavras, já que a frase era mais uma bobagem do que uma opinião formada.

Foco1

Ter uma opinião forte e verdadeira era algo que importava muito para ele, pois considerava que poucos tinham a oferecer neste quesito, por isso, poucos mereciam sua atenção.

– É muita arrogância? É… e daí?! E fez cara de poucos amigos ao reflexo do espelho.

Pensava que, inclusive ele mesmo, andava pela vida sem uma boa dose de bom senso ao emitir as suas verdades pela vida afora.

Em grande parte do dia apenas dizia algumas bobagens e palavras vazias – em nome da convivência agradável e o espírito da boa vizinhança.

Tomava seu banho em pleno devaneio, sem muita pressa, ao mesmo tempo em que recordava de seus colegas com um sorrisão no rosto, percebia o quanto isso era bem comum em seu trabalho.

— Como é rara esse tal de “ter uma boa opinião”, hein?

Imaginava o Sr. Carlos – o gerente geral do emprego que mantinha com unhas e dentes –, e gargalhou.

— Alguém precisa avisá-lo de que ladainha é diferente de opinião! Ficar rodeando um assunto igual mosca de padaria, não o tornava um formador de opinião.

— Mais foco, Sr. Carlos! Imaginava-se conversando abertamente com o seu gerente, ainda diante do espelho, e riu ao lembrar dos muitos discursos sem propósitos, enquanto seu melhor amigo fingia pegar no sono, ou fazia caretas, obviamente pelas costas do velho sabichão.

Foco2.1

O melhor era ver o amigo cumprimentar, todo empolgado e falsamente, o coitado do Sr. Carlos pelas ótimas palavras, lá nos finalmentes da reunião.

— Esse mundo corporativo é maluco e tem uns momentos muito infantis. Pode crer!

Com certeza, a parte dos egos eram as melhores, lembrava animado de várias situações que lhe pareciam bem vexatórias e em alguns momentos sem sentido – com alto teor de vergonha alheia –, e muito corriqueiras.

—A famosa guerra dos egos! Quem pode com isso? Disse isso em voz alta, enquanto abria um pouco mais o chuveiro, para curtir a forte e prazerosa pressão da água aumentar contra seu corpo.

Os almoços forçados com os superiores eram de doer na alma – e no saco.

— Baita situação constrangedora! Os caras sabem que nossos salários são bem menores e marcam estas “confraternizações” uma ou duas vezes por mês. E ainda por cima, em restaurantes que são completamente fora do nosso poder aquisitivo? Bando de babacas e bunda moles! Isso sim é o que são. Disse dando socos no ar, como estivesse brigando com um inimigo imaginário, tal qual o Sylvester Stalonne, em um de seus filmes do Rock Balboa, com seus treinos exaustivos de boxe.

De repente parou e perdeu o sorriso fácil ao constatar que aqueles encontros seriam bem mais proveitosos se fossem com a Laura, a secretaria do Sr. Carlos!!!

—Ah! A Laura!

E assim, seu banho já sem foco, durou mais alguns minutos além do imaginado.

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