Dona Josefa era mulher rústica, trabalhadora braçal desde sempre, ou melhor dizendo, era assim que gostava de se apresentar para si mesma a vida inteira, já que quase nunca se encontrava tranquila e descansando. Achava uma perda de tempo ficar à toa.

Nunca entendera sua condição como algo ruim ou que devera se queixar com as poucas pessoas de seu convívio.

Casara-se muito cedo com o Seu Zé e não fora por amor, mas por necessidade. Coisa que não achara ruim em momento algum, já que pretendentes nunca tivera.

Morava em lugar muito afastado do mundo – um terreno tão distante de tudo que ninguém chamava o local pelo nome do bairro, ou povoado, apenas de Roça, já que as plantações – sustento dos que ali viviam e dependiam das colheitas feitas regularmente – eram o que se podia ver para qualquer lugar que olhasse.

Ela era vista como uma força extraordinária por todos, em qualquer lar e lugar que já vivera, principalmente da casa de seu marido, uma casinha muito simples de madeira, cercada por um terreno lotado de galinhas, uma horta de dar inveja, uns porquinhos e uma vaquinha por detrás do arame farpado.

Seu coração era bom, mas a cara era fechada, com sorrisos disfarçados e escondidos pela mão calejada.

Era mãe querida de dois meninos – o moço de 12 anos, Antônio e o menino de 9, o garoto mais feliz do mundo, Zé – tal qual o pai -, seu herói.

Nunca fora sentimental e nem se abalava com facilidade, desde pequena acostumada com a vida dura e de pouco luxo a transformara em uma pessoa fria, – até aquele dia.

Seu marido lhe trouxera notícias de seu filho mais velho, estava apaixonado por uma alguma menina da vizinhança.

Quando recebera o recado não se mostrou abalada para o Seu Zé, apenas ouviu, depois deu as costas e voltou para seus afazeres, mas dentro dela surgira uma coisa ruim, um sentimento péssimo em seu peito, com pensamentos estranhos que a abalaram.

Talvez, tenha se lembrado do tempo em que fora prometida para o Seu Zé, o quanto era criança e nem sequer pensava nestas coisas do “Amor”. Mesmo depois de tantos anos junto com seu marido, e até apreciava a convivência, não entendia direito essa coisa de gostar desesperadamente. Achava uma bobagem, pois imaginava que se tivesse que voltar para a casa de seus pais, o faria sem grandes sofrimentos.

No mundo executivo, talvez fosse admirada pelo seu senso prático e determinado, mas em sua condição humilde, de trabalhos cotidianos e manuais, apenas uma alma rústica sem coração? É possível, quem sabe?

– Sem coração! Disse para si mesma ao refletir sobre seus pensamentos duros em relação as emoções de seu filho.

– Ô menino besta! Tanto pra viver e se metendo em encrenca? É cedo demais, rapaz.

Olhou sobre a mesa da cozinha e lá estava a marmita do Tonho. Arroz, feijão, frango, ovo e um pedaço de bolo de milho enrolado no pano de prato.

– E pensa que é gente. Não tem responsabilidade, este cabeça de vento!

O dia mal havia começado, mas tudo indicava que seria um dos mais longos de sua vida, pois contrario ao seu estilo prático e aparentemente frio, sentira que deveria averiguar o que estava acontecendo com seu menino mais velho, por isso, resolveu segui-lo com o pretexto de levar a marmita até o rapaz.

Acelerou o passo até alcançá-lo e lá adiante descobriu seu filho na cerca do vizinho. Se tratava da casa da família nova que os boatos tanto falavam. Seu marido lhe dissera sobre eles num jantar destes.

Olhou bem e descobrira que uma jovenzinha estava por ali, próxima à cerquinha de madeira, onde seu filho estava encostado.

Vira quando a menina entregara um pedaço de papel pro Tonho.

Sentiu medo pelo filho e muitas coisas ruins se passaram na cabeça de Dona Josefa.

Medo de que seu filhinho sofresse, que não fosse tão forte quanto ela fora a vida toda, que se entregasse a uma menina ruim, que a vida do rapazinho fosse tão difícil quanto ao que ela vivera durante anos.

Sua fortaleza, aquela mulher de coração duro, sumira, desaparecera, pois havia partido ao meio… bem ali naquele instante. Sentindo um medo que jamais tivera, se escondeu atrás de uma árvore, não queria que descobrissem que também podia ser fraca.

Voltou para sua casa fragilizada e, neste dia, pela primeira vez em sua vida, não fez direito o serviço de casa, já que a insegurança e o medo tomara conta de seu ser.

Passara o dia inteiro se ocupando sobre aquele assunto. Pensava como tudo estava fora dos eixos e nada podia ser diferente, enfraquecida como nunca, era uma mãe de verdade, como todas as outras – com pensamentos aflitos de uma mãe comum, quando sua cria está em perigo e prestes a sofrer uma grande decepção – imaginava que deveria apoiar e proteger seu filho, mas sem a menor ideia de como agir, apenas esperou o menino voltar do trabalho e entender a situação.

Não queria se omitir ao cuidado e carinho, assim como sua mãezinha fizera no passado ao apoiar sua retirada de seus braços, de seu lar, daquela maneira fria e do dia para a noite.

– Pobre mãezinha querida!

Aguardou impaciente e o viu chegar um pouco mais tarde do que o normal. Contrariada, evitou cruzar olhares – como se estivesse com medo de que seus pensamentos fossem descobertos, sendo assim, apenas colocou o jantar na mesa, como sempre, e foi para seu quarto.

Logo depois que percebera o rapazinho dormindo, entrou de fininho em seu quarto e puxou do bolso de sua calça a tal cartinha que vira a menina entregar na cerca.

Sentindo suas mãos trêmulas, leu com dificuldades toda a cartinha:

“Menino lindo que apareceu em meu portão

Despertaste coisa nova e esquisita em mim

Dorzinha estranha que aqueceu meu coração

Que nunca terá remédio, cura e nem fim.

Caso me vês como sua amada

Saiba, isto também me consome

Traga notícia boa e desejada

Já que por ti, meu peito quase explode.

Sua adorada:

Glória, eterna apaixonada.”

Uma confusão de sentimentos! Não sabia como lidar com aquilo: Menino, lindo, coração, desejada e apaixonada – muitas palavras reveladoras e um instinto de mãe apitando… estava alerta!

Pensou em rasgar a carta e sumir com ela, mas respirou fundo, se controlou e colocou de volta no bolso do menino.

Naquela noite, foi dormir perturbada.

No outro dia, um pouco mais calma, teve uma ideia. Como era sábado, decidira que iria visitar a nova família que se mudara para a vizinhança – a família da “eterna apaixonada” –, para ver de perto que tipo de família se tratava e, ao mesmo tempo, se podia confiar.

A contragosto de quase toda a família e mesmo sob a reclamação de Seu Zé, iriam todos naquele passeio.

Seu Zé achou estranho, porém, por reconhecer aquele súbito e raro ânimo de sua esposa surpreendente, não teve como recusar a decisão firme de sua esposa, conformou-se e resolvera contribuir com aquela chateação, bem no dia de seu descanso.

Todos pareciam irritados com aquele passeio sem prévio aviso, menos o jovem Tonho, que quase pulara de alegria e ansiedade ao saber de tamanha “coincidência”, desta maneira, foram logo cedo conhecer os novos vizinhos.

Dona Josefa, prendada e boa cozinheira, havia feito um delicioso bolo de fubá para o evento.

Chegaram de surpresa, mas contrario do que se pensa, foram recebidos com grande felicidade e receptividade pela família da menina, que quando viu o seu amado entrando porta adentro, quase desmaiara de susto, mas soubera disfarçar muito bem sua alegria.

O dia correra melhor do que o esperado, sendo que as famílias tiveram grande entrosamento e dali surgiram grandes amigos.

Dona Josefa, para a surpresa de todos, se mostrara muito querida, falante e uma ótima alma acolhedora, talvez pelo desejo sincero de que seu filhinho querido não encontrasse na vida a rejeição e a desagradável sensação de ser empurrado de encontro a um ambiente desconhecido e sem apoio, assim como vivenciara em sua vida conjugal.

Viu assustada seu filho beijar a tal menina nos fundos da casa e até encobertou o flerte de seu filho, chamando a atenção para outros lados da casa, trazendo consigo os pais da Glorinha, como chamavam a menina.

A visita terminou bem e ela saiu aliviada, acreditava ter sido uma ótima ideia ter ido conferir a tal da família e, ao mesmo tempo, por ter dado um passo importante na vida de seu filho, sem ter que se expor, ou ter que cobrar qualquer resposta dele.

Fosse como tivesse ser o futuro, estava segura de que havia feito o certo e ela estava orgulhosa de si mesma, por estar ao lado de seu filho, mesmo que ele nunca viesse a saber sobre suas verdadeiras intenções ao fazer aquela visita.

– Ele tem uma família e tem nosso apoio. Que isto fique claro.

Já em sua casa, viu Tonho rindo para as paredes, sonhando acordado e encantado.

O sol estava na linha do horizonte, os reflexos batiam na pele morena do menino,  revelando seus traços bem feitos. O corpo forte para a idade – provavelmente fruto do trabalho braçal – cabelos lisos na altura dos ombros e olhos claros.

Ela o admirou e se orgulhou de seu rapazinho, enquanto pensava:

– Crescido e forte… bonito!

A menina tinha razão de se apaixonar. Sua cartinha estava certa, porque seu filho era exatamente como o poema revelara.

– Um menino lindo!

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