– Vô? Como você conheceu a vó?

Ele olhou com carinho para o pequenino e com um sorriso amável no rosto, observou que seus traços eram muito parecidos com as feições de sua amada esposa. Depois, começou a viajar na memória.

Lembrara feliz que desde o momento em que colocara os olhos na mocinha, soubera estar apaixonado.

Menina simples, de beleza natural, dona de um olhar negro, penetrante e sobrancelhas grossas… muito expressivas.

– Eita que agora lascou-se, Zé! Que tô apaixonado demais!

– Mas, Tonho, você mal viu a moça! Deixa de ser um estrupício! Retrucara Zezinho, moleque arisco como o cão, que repetia orgulhoso e de boca cheia o xingamento que aprendera com o pai, quando se referia a quase todo mundo desta vida

– Ah, cala sua boca, moleque. Você acha que tem idade para dar conselho ou me emendar, abestado? E espantou seu irmão mais novo – já que no auge de seus 12 anos, sabia tudo sobre o amor – coisa que seu irmão de 9 não poderia compreender.

– Ô vida miserável, tô queimando por dentro! Disse antes de ter que partir rumo à roça, onde um trabalho duro que só a moléstia o aguardava.

Um simples e rápido olhar na garota, segundos que lhe parecera uma eternidade, fora o suficiente para que tivesse certeza de estar completamente apaixonado!

– Ô miséria de vida! Repetia a cada 5 minutos com o desejo profundo de voltar, invadir a casinha da moça e confessar seu mais profundo e verdadeiro amor.

Lembrava, quase em câmera lenta, a linda morena de olhos grandes e sensuais. Imagem esta que se eternizara em seu imaginário, coisa que ainda pulsava na mente do velho senhor – o vô da criança atenta em sua história.

– Tão… sensuais! Repetiu baixinho, quase como um suspiro, para si mesmo e em profundo delírio ao relembrar aquele momento. Em seguida, deu uma boa gargalhada.

– Ôxe! Vou dizer tudo pra mãe! Tá falando “pronografia”. Seu irmãozinho lhe repreendera ao ouvir a mesma palavra que o vovozinho repetira anos depois, mas na época, aquela palavra tinha uma conotação muito ruim para a família.

– Ah! Deixa de bobageira, rapá! E se diz por-no-gra-fi-a – burro! E voltou pro seu silêncio delirante.

Daquele dia em diante não havia um dia sequer em que o rapazinho, derretido em amor, passasse na frente do terreno da menina sem que a procurasse, quase desesperado, só para rever aquele olhar – como se fosse a mais linda visão que um homem tivera a oportunidade de presenciar.

Com o tempo – alguns dias neste ritual -, a pequena e inocente garota já começara a entender os horários do garoto e, tal qual um relógio, ela o esperava para que os dois trocassem olhares encantados.

Olhares que começaram a se transformar em sorrisinhos tímidos e, por fim, acenos discretos, envergonhados, mas com uma entrega verdadeira – o amor correspondido.

Amor inocente, ardente, profundo e enraizado no coração – primeiro e lindo amor, para ambos.

Todos os dias, semanas, até completar um mês – acenos, sorrisos e nada mais. O maior amor do mundo, daqueles que ao sabê-lo, nada mais tem sentido, só a esperança sincera de se encontrarem. Mãos dadas, abraço aconchegante e beijinho de bico com estalinho. Selinho inocente e sem experiência que, assim como o próprio nome denomina, sela o encontro e arde a paixão.

Tonho, filho de Zé da roça, homem porreta e sábio que só, percebera que seu filho andava quieto, meio perturbado, abobado e distante, por isso, avisara a mulher:

–  Josefa, esse moleque tá lerdo da cabeça- um estrupício. Isso só pode ser uma coisa: mulher.

Josefa era uma jovem senhora batalhadora incansável, acostumada com a dor humana e os poucos luxos, sabia pouca coisa do amor, já que seu único caso, desde sempre, era Seu Zé, como ela mesma o chamava, graças aos muitos anos de diferença entre os dois.

Preocupou-se, dentro de sua mentalidade simples e pouco estudada, sobre os milhares de sacrifícios que a palavra amor representava a uma pessoa daquelas bandas.

Lamentou a sina que parecia estar se repetindo sobre a vida de seu filho, mas nada podia fazer neste assunto, já que o menino estava saindo da idade inocente e começara a seguir o designo de Deus, o caminho natural de um homem… ficar tonto e se enroscar no rabo de saia de uma mulher.

– Ô menino besta!

Viu seus filhinhos saindo para trabalhar, labuta desgraçada de sofrida e quase quis chorar, mas estas fraquezas não eram coisas comuns por ali, engoliu a tristeza e apenas se virou de volta aos afazeres do dia a dia, assim como mandava o figurino.

Aquele dia seria o dia crucial para o casalzinho. Tonho estava decidido – A vida tem que continuar. Assim que se aproximara da casinha da menina, de cerquinhas de madeira muito simples, avisou seu irmão:

– Zé? Segue adiante que vou resolver minhas dores.

– Vai cagar nos matos, Tonho?

– Olha, que vontade não me falta! Já que tô num medo danado… desses de fazer tremer feito vara. Mas, não é isso – fez pausa misteriosa, com cara de poeta e revelou – São dores da alma. Um dia você vai entender.

– Coisa de alma? Vixi! Fale com o pai pra te mandar benzer.

– Presta atenção, Zé! Tô falando de amor.

O rapazinho até disse mais algumas coisas, mas as palavras de seu irmãozinho, assim como tudo mais… sumira… desaparecera. Lá estava ela, encostada divinamente em sua porta, como sempre… à sua espera.

O mundo ficou lerdo, o coração parecia querer explodir, as pernas fraquejaram, o suor frio brotou em sua testa, os braços perderam as forças e a face ficou quente – medo!

Caminhou até a cerca com a coragem que não tivera até o momento. Porém, muito mais por instinto do que por ensaio, assim como planejara incansavelmente por toda a noite, enfim, estava ali… onde jamais estivera.

Meio trêmulo, um pouco gago – só não demonstrava estar corado, graças a pele escura e queimada do sol constante – então, tentou dizer algo.

Segurou a cerquinha com firmeza, mais como uma muleta diante da zonzeira, do que uma simples barreira entre ele e sua desejada “alma gêmea” e, finalmente, soltou a voz:

– Ô menina!

Achou sua frase péssima – Ridículo – pensou. Todavia, antes que ele tentasse dizer mais alguma coisa, ela foi ao seu encontro.

Ela, mais corajosa, firme e aparentando mais interesse do que ele próprio, seguia determinada.

Na cabeça do rapaz, conforme ela ia chegando mais perto, a via linda, com os lindos e longos cabelos negros balançando ao vento, como se fosse uma cena em câmera lenta,  daqueles filmes das telas grandes do cinema.

Ela parou diante dele e os dois ficaram assim, mudos, estáticos, sem jeito e nem a menor ideia do que dizer um ao outro.

– Tinha tudo para ser lembrado como um encontro muito estranho e sem jeito – declarou o vovôzinho – mas para a minha sorte e surpresa, ela disse:

– Não posso ficar aqui. Toma, segure este bilhete.

Ele pegou e ela voltou correndo para a porta de sua casa, com medo de ser pega pelos pais.

– Coisa mais feia era ficar de lenga-lenga e namoricos no portão, ele lembrou com um bom sorriso no rosto.

Antes de entrar, ela lhe fitou com amabilidade, mandou um beijo e sumiu para dentro de sua casinha.

– Eu fui para o céu! Lembrava Seu Tonho.

Naquele dia, a mente do menino voava enquanto flutuava para o canavial, como se estivesse no paraíso.

Olhava aquelas letrinhas da cartinha perfumada e lindamente alinhada.

Tremia e sentia seu coração pulsando forte: Tum, tum! Tum,tum! Tum, tum!

– Eu fechei os olhos e agradeci a Deus por existir.

O vovô foi até uma gaveta, puxou um pedaço de papel, mostrou a cartinha amarelada e confessou um pouco envergonhado, já que na época, por ter dificuldades graças a pouca habilidade com as letras, lera o poeminha meigo muitas vezes tentando entender cada palavra, onde podia-se ler:

“Menino lindo que apareceu em meu portão

Despertaste coisa nova e esquisita em mim

Dorzinha estranha que aqueceu meu coração

Que nunca terá remédio, cura e nem fim.

Caso me vês como sua amada

Saiba, isto também me consome

Traga notícia boa e desejada

Já que por ti, meu peito quase explode.

Sua adorada:

Glória, eterna apaixonada.

 

– Ali, naquele momento, minha vida mudou para sempre.

Olhou para a vovó ao seu lado, deu um beijo apaixonado em sua testa e depois disse animado:

– O poema, ela copiou de uma revistinha antiga de seus pais, mas fez efeito devastador na minha mente infantil.

– Tive um dia inteiro de leitura atrapalhada, trabalho arruinado, pensamentos perturbados, desejo assustador e vontades inexplicáveis.

– Glória, meu amor! Os dois se abraçaram com carinho.

Sorriram animados ao lembrarem de que aceitaram aquele que seria o maior amor de suas vidas.

Ele ainda lembrou que, logo depois de entender o significado daquela carta com clareza, deu um beijo delicado na cartinha.

– Foi um selinho cheio de carinho que marcou para sempre o primeiro e último grande amor da minha vida.

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