– Tristeza? Ela perguntou com a voz lenta de sono.

– Pois é… acontece!

Se despediram carinhosamente, mas sua aparente fraqueza o deixara ainda mais pra baixo.

– Quem vai querer ter alguma coisa com um cara com uma pegada destas? Pensava com o olhar fixo no chão, como se procurasse sua honra caída em alguma fresta entre os tacos mal encaixados de seu quarto antigo e mal arrumado.

– Que porra é essa? Se perguntava irritado – Que mulher se interessa por um Zé Roela destes?

Lembrava desanimado os conselhos de sua madrasta:

– Jão, o que você vai ser quando crescer? Quem aguenta um bosta como você?

Deu um forte soco na escrivaninha, ao lado de sua cama, rachando a madeira de lado a lado.

– Oh merda! Não é possível que minha luta em desviar do fracasso acabou me empurrando pra este buraco?

Acabara de perder o emprego. Trabalhava de estoquista em uma megaloja de sapatos.

– Merda!

Sentia uma dor de cabeça, uma vontade de deitar e dormir para sempre.

Pegou o skate, sua terapia – como costumava chamar o rolê – e saiu pela cidade sem rumo.

A cada remada mais distante se sentia de tudo, problemas, aluguel atrasado, decepções, batalha sem sentido e vencida… desde sempre.

Sentia que não fazia parte daquele sistema: estudar, trabalhar, salário de fome e perdas sem fim.

Soltou o cabelo, abriu sua camisa de botão, ergueu a barra da calça e foi remando, saltando, desviando e fugindo.

Na orelha um som antigo, coisa que nem gostava mais, ou melhor, já não tinha certeza. Conhecia poucas pessoas capazes de curtir aquele som – Pink Floyd! Riu ao pronunciar o nome da banda, como se soletrasse o nome de Deus – Us and Them – será que havia alguém da idade dele que ouvia aquela música inteira e várias vezes ao dia? Não cria nisto.

– Porra de música louca, não quer dizer nada, mas é tão linda!

Dizia aquilo imaginando que sua vida também não fazia o menor sentido, uma conexão de meros acasos.

Passados 15 minutos de skate acelerado, já estava longe do quarto, da menina sonolenta, do ex-trabalho, de tudo!

Só um cabeludo, com barba para fazer e completamente livre em uma avenida rumo ao leste – extremo leste! O que tinha a perder? Afinal, já não perdera tudo o que tinha, ou que aparentava ter algum valor?

Corpo magro, mal nutrido, mal se sustentado e mal criado!

– Sou um fodido, mesmo!

Remadas raivosas – ódio e velocidade. Ao longe, apenas um menino andando feliz e determinado pelas ruas com seu skate loko! De perto, cara a cara, a alma mais infeliz que se vira. Revoltado!

Indo e indo sem parar, sem dizer palavra e nem interagir com ninguém – ódio demais!

Uma viagem interna, na calada da noite, alguns últimos trocados e completamente perdido.

– Jão! Jão! Seu futuro não presta – gritava a velha madrasta.

– E não prestou mesmo. Confirmava entristecido a sina maldita que o destino lhe reservara. – Triste fim!

Foi seu último pensamento antes de saltar uma escada e pousar atrapalhado no meio de uma estrada de grande movimento.

Uma luz forte nos olhos, a freada violenta dos pneus no chão, um baque – bem no meio de seu corpo esquelético – e a escuridão se fez presente.

João Batista – vulgo Jão – um dos melhores alunos do primário que frequentou aquele colégio de todos os anos, mas em matérias sem valor: skate, risada, fôlego e correria.

O mais forte da adolescência, mais charmoso e cobiçado entre as meninas, porém o mais desinteressado nas aulas – repetente carimbado.

O mais amado filho da mãe que morrera ainda na infância e o mais odiado pela madrasta.

O mais querido da rua – entre meninos e meninas – que disputavam sua atenção… e o mais sem rumo no caminho profissional.

O mais viajado entre os irmãos, uma família de 4 irmãos e um pai ausente, que morrera de cachaça, lá no início de sua vida adulta.

Sem apoio, nem grana ou conquistas.

Mais um desprivilegiado de um governo ruim, de políticos desonestos e em um país caótico. Tudo deles… e a gente, o que será?

A lista dos muitos erros era grande e imperdoável – chorou arrependido, não por ter sido quem fora, mas por ter fechado o ciclo de enganos e desgraças, assim… solitário.

Morre Jão e enterram Jão – indigente na cova rasa de um cemitério qualquer da Zona Leste de São Paulo.

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