Este texto é o 1º Capítulo do Livro: Conflitos. Entre Jack e God.

 

– Capítulo 1 ( e é só esse mesmo – o resto ainda tenho sonho de publicar o livro! kkkk)

Perseguido

Naquela madrugada de muito trabalho, diferente de mim, ele apareceu muito bem vestido, perfumado, com ares de quem estava acima de qualquer suspeita, jeitão cativante e amigo.

Estava tão convincente que não consegui desprezá-lo, por isso, respondi ao seu aceno sorridente, de quem me considerava, respeitava e me queria bem. Espontâneo, como poucos sabiam ser.

Eu apenas pensava em como estas visitas noturnas já não me surpreendiam tanto.

Desta vez, ao contrario dos tempos passados, mudou seus argumentos e impulsividades, o que aparentava – em sua bela encenação – se mostrar menos arrogante, estranhamente empetecado de anéis e ouro. Talvez, tenha sido exatamente esta mudança, este detalhe, que me fez esquecer das milhares de bobagens que ele já havia feito, quando eu ainda era um jovem rebelde e fiel às minhas convicções e certezas absolutas. Muito provavelmente, lá no passado, estas atitudes eram exatamente o que me tornara alvo fácil para os aproveitadores, assim como ele.

Quase desacreditava no que via logo ali, ele mais uma vez na minha frente. Até pensei que nunca mais voltaria, depois daquela briga feia que tivemos. Porém, ele é o rei das maracutaias e safadezas – o Rei da Sacanagem bem na minha frente – já deveria saber que nada e nunca é realmente o fim para ele, mas que tudo é encarado como apenas “um tempo”, uma pausa para os próximos capítulos.

– Saudades, Mac?!

Fazia tempo que não ouvia aquele apelido: Mac! Mac de Macaco, de menino bagunceiro e que não parava no lugar, o que hoje chamam de hiperativo. Aquele era meu apelido de infância, na realidade meu nome é Marçal.

Ele chegou com aquele seu sorrisinho entre os lábios, o que me fez sorrir também, para o meu próprio azar. Assim, havia permitido quebrar o gelo.

– Aguenta a pressão!!! Pensei comigo mesmo, o que não necessariamente significava que tais pensamentos havia ficado em segredo, guardadas no mais impenetrável canto de minhas reflexões, porque não estava. Ele sabia fingir nada saber e se manteve em silêncio, discreto, sem fazer nenhum comentário. Queria se passar por bom rapaz, como se isso fosse possível!!! Ele era o mau, o feio, o sujo. O criador e mantenedor de tudo o que era de pior.

Depois do breve silêncio, perguntou educadamente:

– Como vai sem mim, velho amigo?

– Estou ótimo!!! Você sabe disso! Queria que ele saísse do personagem que interpretava, então provoquei – Porque me pergunta, ou melhor, porque insiste em me visitar? Não sabe que tenho um pacto com o Outro, aquele que você tanto teme?

Ele não se irritou e nem sequer alterou o tom de sua voz, onde normalmente seguiam muitos xingamentos, algo que sabia usar muito bem e que saiam de sua boca como poesia, com aquela sua voz de locutor de rádio. Ao invés, gargalhou de boca aberta, deixando aparecer a língua nervosa, apoiada por dentes muito bem tratados. Ele, aparentemente, encarou meu comentário como uma piada… e das boas. Esquecendo, até mesmo, a interpretação refinada de bom moço por alguns segundos.

Se sentou na poltroninha que ficava na frente da minha mesa e ficou me encarando, talvez arquitetando algo para me arrastar para seu lado, mais uma vez.

Estalou os dedos e da minha máquina, onde eu trabalhava tranquilamente até o momento, passou a tocar uma versão remixada e maluca de vários sons, Black Sabbath, Mettálica e AC/DC, etc…

Assustei com o som alto e ele apenas levantou os ombros, como se dissesse que somente queria deixar o clima mais alegre.

– Até quando você vai ficar nesta bosta de escritório, com este monte de livros, embalagens, e caixas de pizza?!! Falou com cara de nojo, segurando nas pontinhas dos dedos, com unhas muito bem envernizadas, minha bolsa, que estava na poltrona onde ele se esparramara, então, a jogou num canto qualquer, como se fosse algum bicho morto.

– Ei! Sai dessa… vem comigo! Lembra como a vida era divertida?

– É! Respondi relembrando a bagunça que promovíamos nos velhos tempos!!! Era um pedido bastante interessante, já que naquele momento, de glamorosa, só tinham os vários catálogos de moda e sites criados por mim, destinados às senhoras de classes A e AA da vida.

Ele estava diferente, se movia devagar e falava pausadamente, talvez por se lembrar de nosso último encontro – quando veio me visitar –, rodeado de mulheres lindas, gostosas, pouco vestidas , usava roupas extravagantes e cheio de si. Exalava perfume, vinho e impaciência… muita impaciência.

– Deixa de bobagem, meu amigo!!! Vamos fazer história!!! Sei da sua vida, das suas vontades. O mar e a diversão ainda estão lá! Lembra?

Lembrar era uma tortura. Alegria e tristeza, pelo o que foi e o que estava sendo.

– Eu posso mudar tudo… sua vida, doenças e pobrezas desagradáveis. Toda esta piada que tem vivido!!! Só está assim, “travadão”, porque o Outro não liga mais para você e nem para ninguém! Nunca ligou e você sabe disto.

Ele falava e em minha mente fervilhavam lembranças de tempos em que tinha uma saúde invejável, recordações que misturada com aquele som empolgante, vindo do meu computador, que por sinal até tentei desligar, mas parecia ter criado vida própria e até me davam uma certa euforia. O som e as imagens em que se passavam em minha mente – tipo uma dose de alguma droga – desorientava e ao mesmo tempo acendia aquele cara, que há muito havia morrido.

Era triste saber que dentro de mim aquelas imagens eram felizes, reais e cheias de emoção. Triste saber que eu concordava com cada palavra que ele me sugeria mentalmente e dizia claramente diante de mim.

Ao mesmo tempo me achava velho demais, pois sentia dores, muitas dores. Definitivamente, o que criei para mim – aquela existência – não era nem de perto a tal da felicidade! Não havia nenhum prazer em estar vivo!

Como ele podia ser tão esperto? E, fosse como fosse, onde estava o Outro afinal, para me mostrar o que fazer? Qual era o segredo da felicidade para Ele? Nem sequer uma visita, uma mínima demonstração de que o caminho Dele poderia me dar tanto prazer e alegria como o que este, que diziam ser o MAU, me oferecia.

O que estava diante de mim, logo ali, sabia o que eu precisava e do que gostava. Me daria tudo o que eu desejasse em um rápido aceno positivo de cabeça, um simples SIM. Eu sabia disso, já vivera isto antes e havia sido muito bom!

– Preciso de um tempo. Sei que não é a sua, mas seja paciente e volte outro dia!

Ele não reclamou, nem praguejou como sempre fizera. Levantou, deu um sorriso de vencedor e desapareceu, assim como sua música, aos poucos, como um sino ecoando, um degrade…vagarosamente.

Já havia acostumado com essas aparições inexplicáveis, não era a primeira e provavelmente não seria a última.

Logo depois que desapareceu, senti enjoo e muita revolta. Coisas que eu sentia sempre que ele surgia, assim como qualquer droga.

Precisava entender porque eu passava por estas experiências e as outras pessoas não!

De qualquer forma, estava muito cansado e louco de vontade de ir para minha casa, descansar daquele dia tremendamente puxado de trabalhos e aparições.

Desliguei os computadores, alguns aparelhos ligados na tomada e fechei todas as janelas do meu estúdio de design, minuciosamente, como toda pessoa que tem toc, só então desci as escadarias para a rua, bastante pensativo.

Aquela iria ser uma noite difícil para dormir, pois além de minhas preocupações naturais do dia-a-dia: prazos nos trabalhos, as contas bem atrasadas e etc… naquele momento, ainda tinha aquela aparição me cobrando, novamente.

Aquilo não era nada legal e, diga-se de passagem, pouco natural, mas não tinha dinheiro para um psiquiatra – ou coisa do tipo – por isso, o melhor que eu podia fazer, era tentar dormir e descansar muito, pois o dia seguinte prometia ser ainda mais puxado.

Minha casa era muito próxima do meu trabalho, ou ia a pé ou de bicicleta, algo muito refrescante e importante para mim, pois me desligar completamente, depois de um dia inteiro criando, era quase impossível. Aquela caminhada me proporcionava este relaxamento. Mesmo porque, deixar meu carrinho na rua, naquele bairro lotado de marginais era, certeza absoluta, arriscar perdê-lo ou danificá-lo.

Acostumado com os fantasmas aparecendo desde pequeno, o que mais me preocupava ao estar na rua de madrugada eram os ladrões, que na região onde morava, não eram nem raros e nem de grande expressão. Não tinham o perfil dos que furtavam coisas significativas, mas as que eram fáceis de levar para trocar por drogas, sendo assim, eu era um ótimo alvo em potencial.

Tinha uma regra comigo, se saísse muito tarde do serviço sempre evitava levar qualquer coisa que, caso fosse roubado, pudesse me fazer grande falta. Também não era bobo de não ter absolutamente nada de valor, pois poderia acabar sendo agredido ou tomar um tiro pelo desaforo de ser pobre demais e não carregar algo que fosse aproveitável.

Para isto, eu utilizava uma técnica de um amigo, que batizou como: Técnica de Sobrevivência. Esta técnica consistia em sempre ter um dinheirinho do ladrão em minha carteira.

Todos os dias minha mulher fazia questão de conferir se eu tinha algum antes de sair de casa, pois como era constantemente abordado pelos pilantras da região, ela nunca me deixava sem nada na carteira e até brigava comigo se me esquecesse de repô-lo no dia seguinte, caso houvesse o furto ou simplesmente gasto no dia anterior.

Eu já estava no limite com aquilo, porque ser assaltado com aquela constância era algo que não suportava mais.

Podia conviver com as dificuldades da vida, mas ser roubado daquele jeito, em um lugar que vivia por mais de quinze anos, já não era mais para mim… não mesmo! Graças a isso, eu tinha planos constantes de me mudar daquela região, queria tentar a vida em outros lugares, com novas possibilidades. Porém, dois detalhes me impediam: filhos e mulher, sendo assim, eu arrastava esta ideia no meu imaginário e secretamente torcia para que em um dia de coragem arrastasse todo mundo comigo.

Um dos maiores sonhos daqueles tempos, desejar profundamente conhecer outras possibilidades muito melhores para todos.

Devaneios que me faziam suportar tanta pressão e perseguição, no entanto, tudo o que eu podia fazer naquele momento era ir rápido para minha casa, evitando os cantos escuros e torcendo para que não fosse roubado, pois a grana estava curta e o pouquinho que tinha significava muito para mim.

As vezes pensava nos motivos da minha vida estar tão atrapalhada e tudo me levava a crer que aquilo era mesmo um teste do invisível e um dos grandes.

Andava pelas ruas vazias daquela madrugada quente demais para se ficar em casa – ou no escritório – mas deliciosamente refrescante e nítida, pois as chuvas de final de ano tinham este poder mágico… limpar o ar.

Imaginava como sairia daquela situação, pois de cabeça fria e sem querer prever o futuro e suas consequências era bastante simples recusar as ofertas indecorosas que me cercava. Todavia, se projetasse o mínimo para frente, começava a me sentir desconfortável, para não dizer desesperado. Contas atrasadas, clientes melindrosos que podiam me trocar por qualquer outro designer, assim, em um estalo de dedos e do dia para a noite. Imaginava que isto não seria nada assustador se eu fosse um cara sozinho, mas como seria a vida dos meus filhos e da minha mulher se tudo desse errado?

As vezes pensava que casar e ter filhos nesta terra, neste país de malucos, só podia ser uma péssima ideia. Porque ter uma família com casa, saúde e educação era algo quase inatingível. Isto era um ótimo argumento para nunca apoiar os casamentos de jovens inexperientes, o que deixava minha mulher enraivecida quando nas rodas de conversas animadas, com amigos mais jovens, eu era um poço de desmotivação quando o assunto era o matrimônio. Ela não entendia que eu era contra e desanimava meus amigos, não pelo meu relacionamento amoroso, mas pelo meu relacionamento “patriótico detonado, cuspido e arrebentado”, graças as tantas bagunças que meu país sempre fez questão de ser um dos melhores do mundo.

Caminhava pelas ruas em ritmo acelerado, o mais rápido que podia e, entre uma esquina e outra, eu o via na escuridão das construções, escondido, mas ao mesmo tempo, nem tanto. Sabia que ele queria que eu o visse, que eu não o esquecesse.

Ele, que na verdade poderia ser o que quisesse e estar onde desejasse, pois tinha grandes poderes, me cercava desde muito tempo, creio que desde sempre, assim como o outro, o do BEM.

Nunca compreendi esta necessidade estranha que eles tinham de me quererem tanto, diga-se de passagem, sou completamente dispensável, mas infelizmente eles não pensavam da mesma forma.

Depois que cheguei intacto e livre das perturbações na segurança do meu lar, vi feliz que minha família dormia tranquilamente na minha cama. Todos embolados como um ninho de gatos. Não me restou alternativa senão deitar na cama da minha filha mais velha e ficar por lá mesmo. Não iria acordá-la de seu soninho profundo.

Era uma cena que me enchia de alegria, todos dormindo em paz. – Melhor assim, deixar a loucura da vida por minha conta, pensava. Já tinha acostumado viver tão acuado e preocupado.

– Um dia isto terá um fim!!! Foi um dos meus últimos pensamentos antes de dormir profundamente, logo depois de um banho relaxante.

Anúncios