Já tomou um susto enorme, daqueles de quase sair do corpo? Pois é… acontece!

Caminhava apressado para a minha casa, numa destas madrugadas da vida, vindo de um encontro romântico e inspirador, mas um pouco receoso com o horário – já que os tempos andam meio doidos e as pessoas um pouco desequilibradas – por isso, ia a passos largos e determinados.

A madrugada parece ter poderes que em nenhum outro horário aparenta ter igual, além de mexer com o imaginário em muitos níveis e – dependendo do local em que você se encontra também – ali naquele momento, me fazia desejoso de chegar o mais rápido possível.

Somos fruto divino em evolução, ou um produto de experiências de algum povo silencioso e secreto cujas intenções desconhecemos?

Eis que em certo momento da caminhada, já quase perto da rua da minha casa, uma luz vinda de algum lugar muito distante do Universo caiu sobre mim.

Quando digo que “CAIU”, estou sendo bem sincero, já que a luz – quando se deu de encontro ao meu corpo –, pareceu ter um peso diferente, como um objeto com massa própria, que estranhamente me engoliu, me fazendo sentir um clima diferente do qual me cercava até então, fazendo com que eu curvasse os joelhos no chão, tanto pelo peso, quanto pela noção de espaço, já que tudo pareceu maior, mais distante e estonteante. Como se estivesse dentro de uma grande bolha.

Talvez os espiritualistas diriam se tratar de Deus e os religiosos fervorosos, quem sabe,  duvidassem disso, daquela aparição – devido ao horário e as circunstâncias, mas minha mente que vinha acelerada com os possíveis perigos que me rondavam – a madruga amplifica o instinto de sobrevivência – só sei que me fez tomar um susto gigantesco, destes de quase desmaiar.

Com a respiração ofegante, mantive, dentro do possível, a calma e a sanidade. Esperei aquele peso da luminescência desaparecer, ou dizer a que veio, sem grandes agitações, conclusões e procurando não pirar, nem desesperar.

Quanto tempo permaneci ali imóvel eu não sei, porém, aparentaram horas sem fim.

Do jeito que veio, sumiu! E ergui o meu corpo parecendo que acabara de sair de uma sessão exaustiva de ginástica, pois suava cansado e desorientado.

Olhei para o céu e ainda tive a oportunidade de perceber aquele bloco de luz voltar rapidamente para a sua origem, lá no infinito e inimaginável céu escuro.

Respirei fundo, um pouco desequilibrado, bastante tonto e sem fôlego – tal qual um porre de uma bebida muito forte – respirei de novo e criei forças para continuar meu caminho.

Lembrava ter levado uma espécie de choque, que iniciara no topo da cabeça e em seguida ter percorrido todo o meu corpo. Cria que, graças a esta sensação, tivesse sido eletrocutado por algum cabo de energia ou coisa do tipo que pudesse ter caído sobre mim, ou alguma explicação plausível neste sentido para a doideira que acabara de acontecer comigo.

Ouvi uma voz próximo de mim, como se estivesse a me acompanhar, enquanto tropeçava em minhas próprias pernas, me segurando nos muros e cercas, até chegar em meu portão.

Enfim… perdi a consciência ali mesmo e só acordei no dia seguinte, deitado em minha cama.

Abri os olhos com calma e sem pressa, ouvia uma música suave próxima aos meus ouvidos, como se estivesse com o celular debaixo de meu travesseiro, ligado em alguma daquelas canções para meditar que costumo deixar rolando no Youtube para dormir.

Pois é! Não era isso, coisa que confirmei imediatamente ao colocar a mão sob o travesseiro, não encontrar nada e perceber que com a consciência refeita, a música sumira imediatamente.

Abri meus olhos e tentei entender em que momento deitara ali, como retirara a roupa do corpo, todo aquele ritual que precede o deitar e dormir, mas não lembrava, como se nunca tivera acontecido, um lapso de tempo.

Lembrei da luz, do peso que tinha, da sensação de choque e por fim, caminhar “embriagado”.

– Estranho! Real? Não sei!

Levantei um pouco dolorido, mas me sentindo bem, disposto – como há muito não me sentia – e fui até o espelho averiguar se tudo estava em seu devido lugar.

– Sim! Estou ótimo! E sorri mais tranquilo – Só esta dorzinha incomoda que não está legal e que podia desaparecer. Dito e feito… sarei imediatamente.

Acreditei se tratar de um mero acaso e fui me preparar para o novo dia.

Daí em diante, só maluquices e acontecimentos que, apesar de aparentar casualidades, percebi que batiam exatamente com o que eu desejava. A princípio, pequenas mudanças, acontecimentos sem grandes relevâncias, mas que me causavam estranheza pela sincronicidade.

Fui percebendo no decorrer dos dias de que tudo o que desejasse, ou falasse, se tornava realidade e isto era para todo e qualquer assunto.

Eu descobri que tinha o verdadeiro dom da palavra, literalmente.

Não me refiro àquela coisa em que algumas pessoas dizem existir, sobre a palavra ter poder ou que ela pode mudar o mundo, assim… como uma possibilidade distante e possível. Não!

Eu tinha o poder de mudar o mundo, pessoas, coisas, eu mesmo… mover montanhas!

Quando você tem um poder destes em mãos, é uma sensação inexplicável. Confesso ter ficado muito confuso, assustado, chorado por algum tempo de medo, de alegria, insegurança e incertezas… muitas delas.

Depois que fui acostumando com aquela nova realidade, comecei a aprimorar minhas descobertas ao desejar pequenas mudanças e, assim, vi admirado as gorduras de meu corpo desaparecerem, traços que me incomodavam serem aperfeiçoados, tais como: músculos, dentes mais brancos – maiores e depois menores – cabelo com uma variação incrível de cores e penteados, barba e sem barba, mais alto entre outras muitas doideiras sem fim.

Aproveitei meu novo visual para encantar, ser admirado e seduzir – coisas fúteis e mundanas – ao mesmo tempo que acompanhados de aquisições sem fim: carros, casas… objetos aos montes, com o simples desejo de ter. Algo que, creio, qualquer pessoa experimentaria se tivesse esta oportunidade, mesclada a grande imaturidade que tinha no momento, para que, desta maneira, pudesse realizar desejos engasgados há anos de luta constante, de homem comum e desprivilegiado monetariamente desde sempre. Compreensível!

Tudo aquilo teve muita graça no começo, mas comecei a perceber nas muitas oportunidades de mudar o mundo e ajudar as pessoas de verdade, algo que me empenhei ao máximo durante alguns anos e que me trouxe grande satisfação, ao ponto de me isolar, dedicando todo o tempo que dispunha em ouvir, ver, falar e auxiliar a todos que me procuravam.

Em certo momento, percebi que aquele poder se ampliava ainda mais.

Entendi que, sem entender muito bem, parecia estar em outra dimensão, graças a perfeição e harmonia, exatamente como desejara por um bom tempo, mas… pirei!

O mundo que conhecia, com todas as dificuldades e incompreensões já não existiam, nada do que sabia do passado era igual e aquilo me fez pensar de que, talvez, já não vivia uma realidade natural e verdadeira, mas o fruto dos meus desejos e imaginações.

Tinha dúvidas da existência das pessoas, das belezas infinitas que criara, da agradável e pacífica interatividade do ser humano com tudo o que nos rodeava.

A perfeição que atingira poderia ser apenas um fruto da minha imaginação trabalhando para que tudo fosse daquele jeito… e senti saudades!

O mundo não tinha uma superpopulação, todos viviam em paz e harmonia em suas lindas e pequenas casas, com atividades onde a lucratividade não era o grande objetivo de viver. A realização pessoal de todos por ali, se detinha em conhecimentos diversos e criações que ajudassem na evolução do ser. Algo inexplicável para os moldes e a compreensão de tempos passados.

Senti um vazio ao pensar que nada daquilo poderia ser de verdade, mas que eu, em meu desejo sincero de um mundo melhor, inventara aquela realidade e que possivelmente já não vivia no mesmo plano das pessoas que conhecia e amava.

Com esta preocupação, imaginei com simplicidade e de coração aberto que eu deveria encontrar a mim mesmo novamente, onde quer que eu estivesse e lá existisse de verdade.

Senti uma energia quente e gostosa surgir em meu peito. Esta energia se tornou em uma pequena luzinha brilhante e aos poucos foi crescendo, aumentando, até que todo meu corpo se transformou em luz.

Sem grande esforço e acostumado com aquelas mutações… apenas desejei me encontrar.

Ao desejar, senti que meu corpo, agora uma enorme bolha de luz relativamente maciça se ergueu do chão e como um raio partiu rumo ao céu infinito, atravessando milhares de corpos celestes, em uma velocidade inacreditável até se deparar com um planeta azul muito lindo. Aquela visão me fez ficar bastante emocionado, pois o reconhecia como sendo o nosso lindo planeta Terra.

Percebi a velocidade diminuir, rodear aquele mundo fantástico, azul e cheio de água – maravilhoso!

Eu realmente havia saltado para uma nova realidade e ao querer me encontrar, minha energia, o poder, me trouxera de volta ao meu mundo do início daquela vivência.

Agradeci toda a experiência vivida e logo na sequencia senti que caia lá de cima em uma velocidade mais próxima da realidade humana, porém ainda no formato daquela enorme bolha de luz e desabei sobre uma pessoa que caminhava acelerado logo abaixo. Um humano comum, em uma vida comum, cheio de desejos, medos e esperanças comuns, numa madrugada qualquer, de uma cidade imperfeita e para um jovem que iria viver a aventura mais louca de sua vida… Eu!

Anúncios