– Está caindo o mundo. Notei enquanto admirava da porta do metrô a tempestade que caia abundantemente.

Não era possível sair dali de onde estava – nem por um segundo sequer – sem que ficasse encharcado.

Esperei alguns minutos, assim como as outras muitas pessoas que ali estavam, na esperança vã de uma possível melhora, coisa que não aconteceu em nenhum momento e nem iria acontecer pela madrugada adentro.

– Todos se molharão! E ri da frase que imaginara, tal qual um profeta na beira da montanha. Frase certeira e objetiva, com aquela confiança absoluta de que se tem, ao se deparar com assuntos relacionados ao fim… nosso rumo certo. E completei em minha imaginação: – Ninguém escapara! E ri ainda mais de minhas palavras apocalípticas.

Certo de que aquela chuva não iria acabar tão cedo, liguei para a minha esposa para pedir uma carona. Não porque imaginava que daquela maneira iria ficar livre de me molhar, mas apenas com o desejo sincero de chegar o mais rápido possível em casa, chuveiro, sopa e cama.

– Onde você está? Ela me perguntou com um tom verdadeiro de preocupação.

Não entendendo direto a pergunta dela, graças ao ruído da chuva nas estruturas metálicas da estação, ao burburinho das milhares de pessoas agitadas e um grau elevado de surdez, repeti incerto o que entendera: – Onde eu estou?

– Sim! Onde você está?

Respondi que estava no metrô, combinei onde nos encontraríamos e desliguei o celular pensativo: – Onde eu estou?

O temporal é uma realidade única e maravilhosa para nos fazer refletir sobre a vida e, ao mesmo tempo, uma forma muito material de nos colocar no momento presente, com suas gotas gordas e geladas.

Onde eu estou? Onde eu estou? Esta pergunta é muito doida!

Fisicamente, eu estou aqui e agora, mas no campo da consciência estou em milhares de lugares ao mesmo tempo. E isso pode ser bem estranho, já que, mesmo no meio daquela bagunça generalizada, depois de 5 minutos olhando a chuva correr solta e poderosa no asfalto, minha mente já estava a quilômetros dali.

Isso é um fato, porém, se esticar um pouquinho mais este pensamento e aumentando a doideira que corre solta nesta minha cabeça, me pergunto duvidoso: Onde eu estou? E pergunto com a convicção de que dentro deste corpo existe, sim, uma ALMA, a minha essência… ou o EU de verdade.

Em que lugar me encontro, onde eu realmente estou e faço moradia?

Imaginei que, muito provavelmente, estou aqui na minha cabeça, um lugar bem óbvio, já que a audição, visão, tato, paladar e o cheiro das coisas são percebidos em minha cabeça, deixando os outros órgãos como coadjuvantes desta história – menos na dor – porém, me veio uma questão.. será?

Será que estou aqui dentro da minha cabeça?

Bom, posso estar a um palmo sobre ela, ou quem sabe em algum lugar lindo, meditando sobre o cara que represento na Terra e prestes a ficar ensopado?

A vida passa e assim como o esperado, me molho completamente ao correr até o carro, onde entro rindo da chuvarada que inunda o mundo a nossa volta.

Já em casa, são e salvo em minha cama e no silêncio escuro do meu quarto, me procuro dentro de mim sem muito sucesso. O que me faz crer que, tenho que me procurar com mais constância, para descobrir e afirmar com propriedade onde eu realmente estou!

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