Os tambores batem poderosos, ritmados e incessantes.

Bum! Bum! Bum…

A cada batida, um estremecer de terra acompanhado de caras nervosas e insanas.

Bum! Bum! Bum…

Caras feias, línguas de fora, olhos arregalados e rostos ameaçadores pintados para a guerra.

Bum! Bum! Bum…

Gritam, se contorcem e intimidam o inimigo, tal qual uma dança, que igualmente se enche de descontrolada vontade de lutar, bater e matar.

A cada batida, a fúria aumenta, o ódio domina, uma única motivação se faz presente… guerra, o que enraivece cada vez mais para o combate.

Nada aparenta apaziguar ou diminuir a fúria, desta maneira, com socos no próprio peito, tapas na própria cara, ao som de urros de dar medo, tudo parece estar pronto para iniciar o combate.

Bum! Bum! Bum…

Ninguém ali aparenta sentir medo ou vontade de desistir. Todos treinados para aquele momento, metade coragem e outra… adrenalina – droga que aquece o sangue e a vontade de subjugar o inimigo –, pensamentos imersos em raiva, morte e destruição pulsam fortemente em cada um dos seres que ali estão.

– A guerra vai começar. Não há volta? Pergunta o jovem rapaz, filho dos reis de um dos grupos, do alto de um morro em certa distância, próximo daquele campo de batalha.

– Não! Creio que não! Agora, só um milagre! Respondeu-lhe a jovem Rainha, sua mãe.

Obrigado a ver de perto a batalha – exigência de seu pai, para que desde cedo aprendesse sobre liderança e guerras –, já que, na mente do Rei, era a maneira ideal de um homem crescer e aprender, por isso, lá esta o jovem rapaz assistindo aquela cena pesada.

Menino bom, de espírito elevado e querido por todos. Muito provavelmente provindo de uma linhagem espiritual diferente daquele povo rasteiro que se apresentava ali. Algo impossível de explicar para aquelas pessoas bastante primitivas, em tempos remotos e esquecidos, naquele momento de trevas.

Uh! Uh! Uh…

Cantam no ritmo da batida constante! Gritam loucos e ansiosos, os guerreiros desejosos por sangue. Aproveitaremos, em mais uma ótima oportunidade, o quanto podemos ser bestiais, descontrolados e insanos, do jeito que nós humanos sempre somos, como sempre desejamos e nada nos pode deter.

Uh! Uh! Uh…

A batida dos tambores aumenta junto com os urros, a e os corações aflitos pulam nos peitos ardendo afoitos com a adrenalina.

Bum! Bum! Bum…

Tudo parece ser irreversível, até que os céus e a terra explodem em luz e som, diante de brusca e inesperada mudança de clima e um raio que cai próximo a um dos grupos, acompanhado de um trovão vindo de lugar nenhum, que estremece o mundo. Eis que diante do caos, surge ela… linda e com uma calma amedrontadora, cavalgando entre as fileiras dos homes armados!

Todos a veem curiosos e espantados, não pela linda aparência exibicionista, mas pelas muitas histórias ruins que rodeiam aquela figura nas antigas batalhas que não tinha o apoio dela.

Uma imagem que ninguém jamais conseguiu explicar o poder que emanava ao se aproximar. Exatamente como nos contos dos antepassados, ela surgiu e se fez saber:

“Lindos e loiros cabelos soltos, um perfeito corpo nu de mulher branca e extremamente clara, cavalga em um imponente cavalo acinzentado de olhos vermelhos, tal qual um fantasma. Na cabeça da bela mulher, um elmo de caveira, com chifres escuros e em sua cintura um véu esvoaçante muito claro”. Descrição exata da linda mulher que se via ali, contrastando completamente com toda a feiura e a masculinidade grosseira que a cercava.

Uma hipnótica luz poderosa no meio da escuridão, uma ilusão aos desavisados que, porventura, ousassem intervir em seu caminho, dado a grande beleza e aparente fragilidade de mulher nova.

Figura confiante e determinada, ergue seus braços e encerra imediatamente os gritos fanáticos de guerra, calando o ímpeto desesperado por destruir e em seu lugar surge o silêncio implacável!

“Alma! Alma! Alma!” Cochicham num zum-zum-zum respeitoso, assustador… temeroso!

Olhos arregalados, mas não em desafio ao inimigo como se vira até o momento, com intenções de intimidação e luta, mas o de medo insuportável, dos que que desviam assustados e se voltam ao chão, evitando serem encarados por ela.

A Dama Alma, até então um mito, uma alucinação, uma lenda para muitos, agora, em carne e osso! Quem teria coragem de desafiar, ou encarar – olho no olho – a mais temida de todas as aparições uma deusa da guerra?

Respeitada e admirada como uma das mais terríveis guerreiras de toda a mitologia daquele povo e algo poderoso além de suas imaginações.

Dama Alma! Linda, desafiadora e poderosa.

Os homens ao seu redor, ajoelham-se cabisbaixo ao vê-la passar. Amigos e inimigos em silêncio, nada interrompe seu caminho e seu determinado avanço.

Ela para entre os dois grupos inimigos e ninguém esboça reação, mesmo os mais corajosos, que ainda suspeitam de sua realidade. Porém, nem o mais valente entre os dois grupos, ousa sequer desferir palavra ou algum mísero gesto de ataque. Silêncio!

O jovem príncipe, ergue-se animado e curioso em seu cavalo, mas com estranheza volta-se para a sua mãe, e diz espantado:

– Creio que acaba de surgir o milagre que desacreditávamos, mamãe! A guerra pode ter acabado aqui.

Uma voz forte, mas muito feminina e sedutora invade o campo.

– Quem é o responsável pelos grupos aqui presentes? Grita a linda mulher sobre o cavalo inquieto, ofegante e assustador.

Ninguém abre a boca, o silêncio é sepulcral naquela manhã de névoa, garoa e terrivelmente fria.

Irritada pelo silêncio acovardado dos poderosos guerreiros, ela desafia:

– Quem são os malditos líderes deste grupo? Apresente-se ou terei que matar todos os que aqui estão?

Existe uma fidelidade sincera entre todos, mas não havia dúvidas da veracidade das palavras da mulher. O fato é que todos naquele campo iriam morrer.

Estranho era perceber que a linda mulher se transformava lentamente, conforme seu ódio pelos humanos ia crescendo no decorrer do tempo.

A pele acinzentando, o corpo inchando em músculos, a feiura desfigurando suas lindas formas e a formosura se esvaindo de seu belo rosto.

Os que estão mais perto da figura gigantesca, agora monstruosa como um demônio, se afastaram amedrontados e assustados com a horripilante criatura.

Ela, que agora já não podia ser definida como um humano, muito menos uma mulher, salta de seu cavalo, e grunhi feito um animal furioso, soltando um urro forte e poderoso, que quase paralisa os corações mais próximos dela.

Percebe-se que os mais fracos de espírito se fogem rapidamente e se acovardam atrás dos que ainda insistem em não sair do lugar, em uma estúpida demonstração de coragem sem sentido.

Uma voz grossa e monstruosa sai de sua garganta e intima os que ali estão:

– Pela última vez, quem são os líderes dos grupos?

Dois homens se apresentam humildes, a contragosto e de expressões embranquecidas de medo, talvez com a finalidade de uma possível negociação e o desejo sincero de se livrarem daquela situação péssima, para explicarem suas motivações… algo bastante ruim.

O enorme monstro dá uns três repetidos grunhidos leves, como uma espécie de sorriso de deboche e se aproxima a poucos centímetros dos rostos de cada um dos guerreiros – os desafiando –, ato que não foi copiado por nenhum deles, ao desviarem rapidamente seus olhares.

Todos os outros, apesar de fiéis ao seus líderes, porém, com o instinto de sobrevivência em alerta, se afastam consideravelmente do desagradável e fedorento personagem, que mais parecia ter surgido das sombras de algum inferno, enquanto o monstro parece se deliciar com a atmosfera carregada que permeia todo o campo.

Afasta-se dos responsáveis pelas tropas desconfiada e vagarosamente, uma cena que, muito provavelmente, deverá ser descrita como uma eternidade, pois a sensação era uma das piores já vivida por quem esteve de corpo presente e ao lado daquele momento desagradável.

– Vocês sabem que aqui é um lugar sagrado para mim e meus ancestrais? – Perguntou, enquanto acariciava seu gigantesco cavalo.

– Sim! Sabemos que há anos este lugar é sagrado e proibido, mas imaginávamos que estas leis, graças ao tempo que existem, nem fossem válidas ou reais – disse um dos homens –, eram descritas como lendas. Nunca desejamos ofender a sua pessoa ou a de seus ancestrais. Finalizou.

Ainda de costas para os dois homens, o monstro deslizou lentamente suas mãos pelo corpo de seu cavalo, até achegar sua mão em uma afiada e pesada espada próxima a cela do cavalo. A segurou firmemente e pareceu paralisar apoiada no animal. Disse algo muito baixo, como uma reza ou coisa parecida e, em seguida, fez um giro rápido e indefensável. Com um só golpe, arrancou a cabeça do que estava mais próximo e que ainda tentava se explicar.

O segundo homem, em uma reação natural de quem treina anos para isto, ergueu sua espada contra o demônio que gargalhava diante de seu ataque vitorioso. Porém, fora cortado ao meio com uma facilidade impressionante e devastadora.

Alguns outros homens, mais corajosos e fiéis aos seus governantes, até tentaram uma reação e algum golpe fatal, mas era inacreditável a força da gigante, fazendo com que acabasse com as tentativas inúteis, quase que imediatamente.

Estavam todos em choque e humilhados. Centenas de guerreiros sem reação diante daquela fúria, como se a própria Terra tivesse resolvido se manifestar contra aos que ali estavam.

Nos livros de história falarão sobre a coragem e o ataque destemido dos incríveis guerreiros que lutaram contra a Dama Alma, mas os que ali estiveram e presenciaram a rapidez com que tudo começou e acabou, onde os muitos soldados saíram correndo desesperados diante daquela aparição, creio que apenas lembrarão por muito tempo sobre a fraqueza e a covardia que sentiram em suas fugas desesperadas.

Inclusive, no meio de desencontrada correria, onde o Rei ordenara desesperado que saíssem dali, o jovem príncipe fora arrastado por um dos soldados juntamente com sua mãe. Porém, o rapazinho maravilhado com tudo aquilo, mesmo diante de tanto terror, teve tempo de perguntar embasbacado:

– Quem é este monstro?

E sua mãe, com seu instinto natural, que todas mães possuem para defender seus filhos, respondeu puxando seu cavalo junto à ela:

– Uma poderosa força da natureza… a própria Terra… sua Alma! A Dama Alma!

Conclusão

“Cuidado com o que tem feito por aí e os descuidos com o Planeta, você pode encontrar uma força poderosa demais, destas que não se deseja.”

 

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