– Ei! Gritou o jovem soldado do alto de seu cavalo imponente – Quem ousa cruzar as exclusivas ruas da Rainha?! Não sabe que esta estrada não pode ser utilizada por mais ninguém além dela? Desça de sua carruagem e enfrente sua punição!

Ordens são ordens, imaginava o jovem soldado e, sendo assim, ninguém poderia encostar naquela estrada banhada a ouro, que tinha como única e exclusiva finalidade servir a magnânima figura real e seus caprichos melindrosos.

Uma mulher mimada e “sensível” demais quando o assunto era seu próprio umbigo, porém, bem menos, obviamente, quando se tratava dos problemas alheios. Aí, você já sabe: – Levem-no, matem-no e desapareçam com isto! Gritava a louca cheia de nojinhos e carinhas de desprezo.

Julgar o dedicado soldado, um jovem que apenas recebia ordens, já que as executava fielmente e nada mais… era fácil, o difícil era entender suas motivações. Aquilo era a sua vida, o que tinha que fazer para sobreviver e afastar sua humilde família de problemas. Quanto ao resto? Não podia ser muito racional, não estava ali para estas coisas.

O soldado era mesmo um jovem rapaz – quase uma criança–, todavia, de bobo não tinha nada e nem de fraco, já que só os muito bons podiam ser os Guardiões da estrada dourada. Porém, sabia muito bem de que outros em seu lugar, por deixarem de executar suas tarefas, ou muito menos do que aquele desaforo que presenciava, invadir a estrada exclusiva da Rainha, se lascaram completamente! Graças aos caprichos da “adorada, sensível e a que se dizia cheia de empatia pela humanidade”, a poderosa dona absoluta de tudo o que existia por ali e, até mesmo, das pessoas daquele reino.

Ordens eram ordens e, creia nisso, este é um conselho de quem só deseja o bem, caso você passe por ali, nunca entre na Estrada Dourada da Rainha.

– Ah! Me sinto tão sensível e desprovida de atenções dos meus tolos bajuladores! Como sou infeliz  – Lamentava-se em voz alta, para que alguém viesse rapidamente socorrê-la. Maldita mulher esnobe e enfadonha, mas, que se supunha, “querida e amada”por todos.

Aquele soldado, assim como todos do reino, dizia amá-la para que ela sempre cresse nesta promessa, porém, uma mentira absoluta, pois era melhor que ela pensasse deste jeito e mantivesse seu emprego, mesmo que em uma vida muito difícil, mas possuidor de algumas poucas vantagens sobre os muitos miseráveis desejosos obcecados por seu trabalho e “benefícios”.

Ele não tinha muitas escolhas, lutava bravamente pelo pouco que tinha, por isso, era obrigado a prender a pessoa responsável por aquele ultraje real. Tinha que retirar da via e enjaular a pobre alma que desobedecera a regra primordial daquelas paragens: Nunca, jamais e em hipótese alguma, invadir o caminho exclusivo da Rainha Cibila!!! Também conhecida entre o povo menos culto como: a Rainha Gomi, abreviação maldosa de Rainha Gorda Mimosa. Se bem que os nobres também utilizavam tal alcunha entre eles, discretamente, na surdina e sob risinhos sarcásticos.

As pessoas da carruagem estavam em maus lençóis, em situação delicada, era o que se supunha ao vê-los atravessando abusivamente os caminhos reais, mas não é bem isto que o destino reservara para eles.

Rapidamente o soldado se aproximou e enraivecido diante de tamanha audácia, gritou:

– Quem ousa cruzar o caminho exclusivo de minha Rainha?!

E teve, para sua surpresa, uma resposta ainda mais agressiva do soldado responsável pela carruagem que saíra de trás do veículo inoportuno:

– Eu quem pergunto, quem ousa cruzar o caminho da sua majestade, o Rei?! Gritou o soldado que seguia e protegia de perto a carruagem invasora, mas que o coitadinho do soldado da Rainha não percebera.

O Rei, no caso, era o marido da Rainha Cibila.

Homem prepotente, poderoso e o parceiro da monstrinha, a Rainha Gorda Mimosa, a Gomi.

O primeiro soldado, da guarda dourada, dos que protegiam a estrada imponente, ao perceber que se tratava do Rei, tremeu! A segunda maior lei daquele reino era: Nunca bloquear o caminho do Rei, tendo como castigo a pena de morte. Porém, se não fizesse seu trabalho, o de proteger a estrada dourada, a lei número um, teria sérios problemas com sua Rainha impiedosa.

O soldado dourado, sem saber o que fazer, apenas manteve-se ali, sua arma em riste e disposto a tudo, mesmo sabendo estar diante de seu possível fim.

Estava em uma cilada do destino e ciente de seu erro, pensava que tinha que exercer sua função corretamente, pois caso contrário, o próprio Rei seria testemunha de sua falha ao se descuidar da estrada da Rainha.

– Retire-se da frente do Rei. Gritou o soldado do Rei.

Mesmo os dois soldados sendo amigos de batalhão e do próprio reino onde moravam, havia um protocolo a ser seguido:

– Desculpe-me, majestade! Porém, não é permitido passar por este caminho. Peço para que deem meia-volta.

Tudo estava bem horrível por ali – o soldado da Rainha já estava quase cedendo aos pedidos do soldado do Rei –, eis que surge, vinda do caminho contrário, a Rainha com sua carruagem e em correria enlouquecida, mas que ao ter que frear, teve um ataque de nervos, já que a estrada era apenas sua de mais ninguém. Com tamanha audácia da invasão de seu caminho exclusivo – e mesmo sabendo se tratar de seu marido –, estava irredutível quanto a ceder aos pedidos do Rei, começou a gritar histericamente e muito furiosa para que saíssem de sua frente, ato que não aconteceu, graças às ordens do Rei para que não desviassem, ao mesmo tempo que determinava de seu acento confortável:

– Os soldados que resolvam a questão entre si, mesmo que para isso a morte seja a única opção. Saia você de meu caminho! Se não estiver de acordo então, que seu guarda lute com o meu até que vença o melhor!

Nenhum dos dois soldados estavam de acordo com aquilo, pois eram motivos muito fúteis, mas tinham juramentos, honra e família. O combate era inevitável, pois eram treinados para aquele momento, a defesa dos Reis.

– Que assim seja! Gritou a Rainha Gomi de dentro de sua luxuosa carruagem.

Inconformado, temeroso e irritado com aquele absurdo, o jovem guardião do caminho dourado, desceu de seu lindo alazão – ato copiado por seu oponente -, para iniciar sangrenta batalha sem sentido, provavelmente com um desfecho desagradável para ambos os lados.

Nenhuma das realezas, ali presentes, pudera observar o sentimento de desprezo que ambos os soldados sentiam em ter que defender as figuras desprezíveis de seus líderes mimados.

Aproximaram-se, para que pudessem cumprimentar um ao outro pela ultima vez, afastaram-se por alguns poucos metros, pegaram as espadas mais apropriadas para aquela luta, que ficavam em suas montarias, e se puseram em guarda para que iniciassem a luta.

Reis ruins e suas decisões egoístas, quantos não erraram miseravelmente em nome do orgulho e estupidez? Quantas guerras iniciaram em nome de nada e por motivo algum?

Lá estavam os rapazes preparados para o que desse e viesse, dispostos a se matarem por nada, já que a desistência significaria um fim ainda pior.

Inocente quem imagina que uma luta destas tem um fim rápido e definitivo. Duas almas preparadas para um combate violento, ótimos guardas dando a vida por questões estúpidas, fúteis e que no cair da tarde, já nos lençóis reais, com certeza um caso esquecido.

O embate começou desconfiado, sem um ataque definitivo e nem decisivo, talvez com esperanças de que seriam poupados de tamanha bobagem, coisa que foi deixada de lado assim que um deles, por puro instinto, fez um ataque realmente forte, provocando um corte mais profundo, desta forma, todo cavalheirismo fora esquecido.

A luta durou algumas horas e despertou a curiosidade de todo o reino, graças aos sons de espadas que se batiam, gritos e grunhidos de luta feroz . Milhares de pessoas assistiram boquiabertos dois valiosos, honrados, amigos de infância e praticamente vizinhos, se destruírem em terrível combate.

Revoltados ao vê-los cair cansados, ensanguentados e gravemente feridos, todo o povo entrou em furiosa inconformidade. Sem que tivessem uma guarda real para defendê-los e nem mesmo soldados dispostos a protegê-los, pela primeira vez na história, um povo irritado com tantas injustiças e crueldades, atacou violentamente as carruagens e em meio a tanta violência, machucaram gravemente as majestades arrogantes que, agredidas covardemente, morreram indefesos e vergonhosamente.

Fim de uma liderança ruim e de, literalmente, real estupidez.

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