Em uma agradável manhã, voltava tranquilo em animada caminhada para a minha casa, admirando as lindas ruas arborizadas do meu bairro, sob um sol fraco e brisa leve, completamente afundado  em lembranças de um tempo passado, mais precisamente o período da escola dos anos 80 – já que acabara de deixar meu filho na dele – e reportava minha memória há um tempo longínquo e quase esquecido… a 8ª serie, hoje conhecida como o 9º ano.

Mergulhado em milhares de pensamentos e ligeiramente feliz – provavelmente graças às endorfinas, dopamina e serotonina (os hormônios da felicidade – coisas de quem está em plena atividade física e, por isso, as sentia bombar em meu corpo naquela manhã de passos largos.

Pensava que nunca fora amigo de algum professor, infelizmente nunca incentivaram-me o suficiente e jamais fora querido por nenhum deles. O que me fazia imaginar que, com certeza, faltava carisma de minha parte para despertar empatia e reciprocidade.

Foi nesta compenetrada e longa conversa interior que entrei em conflitos, debates calorosos, discussões sem fim para que, e até pode parecer uma bobagem, me fizesse questionar de que, mais uma vez, me pegava pensando que se naquela época tivesse sido apoiado por algum adulto, de preferência um professor a quem eu acreditasse e respeitasse, poderia ter mudado a minha vida, minhas escolhas profissionais e, quem sabe, ter me tornado um profissional da escrita e sido muito melhor em qualquer outra atividade intelectual?

Que fique claro de que não sou introspectivo de agora, este mundo fechado e cheio de pensamentos vêm de longe! Tanto que tenho a impressão de ter sido um garoto invisível para os coleguinhas de minha classe daquele momento, já que minha luz de menino risonho e piadista brilhava em outras turmas e grupos.

Mesmo diante desta figura simples e apagada aos que por ali me percebia, dentro de mim explodia um mundo cheio de vida e alegria, coisa rara de se ver, já que reservava aos familiares e amigos mais chegados, como os do judô e natação – os esportes que praticava com maior frequência na época.

Tenho total consciência de que grande parte da culpa por não manifestar grandes interesses nas pessoas, promovendo inclusive, quem sabe, forte desejo de distância e a pouca simpatia, viera de mim mesmo, do meu jeito de ser e da minha postura melancólica diante do mundo.

Lembrava dos detalhes daqueles dias, para recordar entristecido de que houvera um momento significativo que apagara de vez a conexão entre um professor especial e minha vontade de ter qualquer sintonia e o despertar para o mundo das letras. Algo que me fez virar definitivamente invisível.

Penso que se o professor, naqueles tempos, tivesse outra postura, talvez, não teria ficado tanto tempo sem escrever, coisa que apenas voltei a fazer com maior frequência depois dos 30 anos.

Eu adorava escrever e acreditava que – com toda a infantilidade natural da idade –, tinha ótimas histórias para apresentar ao meu professor de Português, coincidentemente também chamado Raimundo.

Admirava suas explicações animadas e sua ótima didática – uma característica que muito me encanta até hoje… saber explicar e se fazer compreender –, por isso, me dedicava com todas as minhas forças em impressioná-lo com as minhas redações, pois cria que daquela maneira podia lhe passar alguma gratidão, por entender ser um privilégio de, quase diariamente, receber suas maravilhosas aulas, mesmo nunca sem receber um único elogio pelo esforço.

Um belo dia – e toda história tem esta porcaria – tudo mudou e o brilho se apagou!

Ele poderia estar infeliz por milhares de coisas, preocupado com assuntos que realmente irritam e amargam a vida e, por isso, muito provavelmente sem perceber em minha dor, menosprezou e desprezou os olhos brilhantes de um menino que acabara de entrar no mundo da escrita.

Conforme solicitado pelo Professor Raimundo, me esforcei, pensei muito e soltei a caneta bastante empolgado para escrever de forma detalhada, mais uma vez e como sempre, a redação mais incrível e gramaticalmente bem resolvida, onde descrevia características de ótimos personagens e uma história bem cadenciada que desafiasse os quatro cantos do mundo para que ele, meu professor, tivesse em suas mãos o melhor texto do universo, com regras gramaticais mais perfeitas possíveis e um final muito bem resolvido. Desta maneira, ao terminar as duas folhas de texto, me orgulhei de pertencer a raça humana. Fizera justiça e honrara o exigente e querido Professor Raimundo.

Tudo estava maravilhoso, mas havia um problema, como escrever é complicado e eu buscava a perfeição, para chegar naquele resultado, gastara mais da metade do tempo que o Professor determinara. Ele, tal um sádico, lembrava todo o tempo que iria nos aguardar e apenas receber nossas redações em classe, que após o horário estipulado por ele, levantaria de sua mesa , sairia para uma outra aula em outra classe e não receberia mais a redação de ninguém.

Desesperado, comecei a passar rápido a limpo e foi assim que vi minha obra de arte sendo deformada por uma letra horrível, no papel que recebera do professor.

Acelerei ao máximo para entregar no tempo determinado, mas para a minha surpresa, com a diferença de um segundo antes que eu acabasse de escrever, o meu maior ídolo da escrita, o Professor Raimundo, se levantou de sua cadeira determinado a partir.

Corri até ele, porém, assim como prometera, não recebeu a minha prova. Fui atrás dele com minha redação em mãos até a sala de aula onde seria seu próximo destino, implorei para que a recebesse com a promessa de que ele adoraria a história que criara. Ele, sem nem me olhar, apenas entrou na sala de aula e bateu a porta em minha cara.

Fiquei decepcionado pra caramba pelo desprezo e por ter escrito minha obra de arte para ninguém.

Pessoa alguma leu e nem jamais lera, já que, assim que estava retornando à minha classe, amassei a redação, fiz uma bolinha e joguei no lixo.

Hoje, mais velho e consciente, apenas perdoo meu ex-professor de Português. Sei que ele falhou comigo naquele momento, mas ainda tenho boas lembranças de sua aula incrível. Mesmo que o brilho especial tenha se apagado, graças aquela decisão humilhante que ele tivera sobre mim e o texto que escrevera – “o melhor da minha vida”– (provavelmente um texto comum e amador de uma criança de 14 anos)

O que parecia a melhor história da minha vida até ali, infelizmente, aquela obra de arte, me rendeu um zero

 

 

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