Não estava cansado, mas o silêncio do ambiente transmitia uma calma bastante propícia e necessária, já que a viagem fora longa e cheia de histórias para contar.

Cheguei por ali em um estado calamitoso, insustentável e precisava descansar.

Não me lembrava de onde exatamente estava chegando, mas tinha consciência que a luta havia sido intensa e exagerada demais para mim.

O Rosto ainda molhado de suor e algumas lágrimas de um choro sentido ainda escorriam.

Alguém propôs que eu descansasse, apenas aceitei sem ao menos tentar entender quem, como e onde.

Foi aí que a vida passou a valer a pena mais uma vez.

Do cansaço profundo, de sabedoria reduzida e corpo dolorido, sentei próximo a uma árvore gigantesca, tanto na largura, quanto na altura.

Notei que não estava só, mas ajoelhado entre outras muitas pessoas que se distribuíam no enorme bosque de muitas árvores que se mantinham próximas o suficiente, porém sem se entrelaçarem. Como se respeitassem a distância da companheira ao lado.

O lugar exibia uma quantidade considerável de vultos coloridos que flutuavam por ali, sem se preocuparem em se esconder e nem interagir, apenas iam e vinham de passagem.

Com estas visões etéreas que acalmavam, reorganizavam a mente e a energia, percebi que bem diante de mim havia uma figura andrógina, calma e equilibrada que parecia estar em profunda meditação.

Ergueu as mãos calmamente e as juntou diante de sua testa, curvou-se respeitosamente à imensa árvore centenária. Ato imitado copiosamente por todos os outros presentes por ali!

Palavras eram ditas em minha cabeça, sem que ninguém assumisse responsabilidade em pronunciá-las:

– Paz! Acertadamente, a palavra cochichada em meus ouvidos vibrava o que aquele momento emanava.

– Amor! Ouvi um pouco depois. Fazendo com que eu entendesse que as palavras aleatórias, na realidade, escapavam da imensa árvore, envolvendo as pessoas com uma energia renovadora e pouco compreensível para mim.

– Fé! Era a certeza que tudo ali tinha um propósito e não caminhávamos sozinhos.

Ao som leve do vento que assobiava entre os troncos da velha árvore, pude admirar aquele gesto tão simples e cheio de respeito.

Comovido, depois daquela longa viagem, apenas imitei os movimentos de olhos fechados.

Feliz, percebi as pessoas iniciarem uma canção, quase um murmúrio,  próximo a mim, algo muito reconfortante que em instantes foi se espalhando entre os muitos que por ali se encontravam, ganhando corpo, transformando-se em pouco tempo em um suave coral de milhares de almas.

Tudo fazia sentido e me fazia crer que tinha valido a caminhada até ali.

Não era inimigo de ninguém, não havia revolta, dor em nada e nem nada para arrastar comigo.

Livre, consciente, feliz e em paz.

A palavra gratidão tinha um sentido maior. Sim! Porque chegar até ali  fez tudo valer a pena.

A possibilidade de ouvir tamanho poder depois de uma vida inteira de muitos erros e acertos duvidosos, mesmo depois de se achar inadequado e sem merecimentos, era um grande alívio!

Vozes de alegria equilibrada! De emoção sem exageros!

Valeu ter vivido! Aceitei o momento como um troféu, um carinho!

Um mar de vozes, milhares de timbres, que juntas chegavam e passavam por mim transformando tudo o que existia por ali, inclusive eu mesmo, física e mentalmente.

– Seja como for, valeu a pena! Disse para mim mesmo.

Iria continuar minha vida, ainda não tinha planos e nem pressa, mas sabia que tudo iria ficar bem.

Valeu o fim!

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