A história abaixo é mais um capítulo do livro que escrevi! Seguem os outros 2 capítulos anteriores deste mesmo livro, para que tenha mais sentido : Pedro Caveira. e Dona Carlota.

Boa leitura! 🙂

Do circo guardo bons momentos e não apenas deste último, onde ri e me diverti demais.

O circo me lembra a infância, a inocência, o olhar distraído e descontraído de quem se permite apenas repousar no acento duro de um banco grande, sem luxo, para admirar os artistas com suas ousadas acrobacias e os palhaços de humor duvidoso.

Não sei se a vida de quem vive da arte circense é difícil ou não, mas uma coisa é certa, pouco me importa! Não tenho a resposta para os sofrimentos humanos e nem soluções para as pendengas deste meu país injusto, caro, de honestidade muito aquém do ideal, para que possa me orgulhar, defender e, muito menos, resolver.

Somos criados e amestrados para sermos estes escravos que sempre fomos, isto não tem jeito, é assim e acabou!

Só sei que ri muito naquele dia, acho que entrei no circo com vontade de gargalhar e, por isso, me entreguei completamente, talvez até tenha exagerado um pouco, já que me diverti de verdade.

Ri do palhaço e de suas maluquices, admirei o mágico – como se nunca tivera visto um em minha vida –, fiquei de boca aberta com os malabaristas, tremi diante da corda bamba ao vê-los se arriscar corajosamente no que chamaram de: desafiador caminho inseguro – ou alguma coisa assim –, inclusive, arrebentaram neste número onde atravessaram de um lado ao outro do circo, cheio de momentos tensos, dramáticos, mas com a segurança e a determinação de quem caminhava pelo chão.

Havia um palhaço, engraçadíssimo, que com suas danças desengonçadas, brincava e se divertia com a plateia. Em certo momento, ele se aproximou do público e chamou um voluntário para participar de um de seus números. Até estiquei animado minha mão para que me escolhesse, porém, acabou pegando uma moça ao meu lado, o que, de fato, logo depois que vi ao que ela teve que se submeter, fiquei aliviado em não ter sido o escolhido.

Palhaços, nunca são muito confiáveis, não mesmo, e ali a lição foi aprendida. Ele a colocou sobre um cavalo e fez um lindo show de equilibrismo, mas com muitos escorregões e estripulias, como é do feitio dos palhaços, o que a fez passar por situações bastantes vexatórias, mas que no contexto geral foram, mesmo, muito divertidas. Imaginei que para meu tamanho e peso, talvez, seriam ainda muito mais ridículas.

Esta minha mania de me entregar de coração a certas situações, ainda acaba por me complicar de vez!

É o que sempre digo para mim mesmo: – Controle é tudo!

O fato é que, me diverti demais, comi pipoca, ri e me emocionei pra caramba. Saí do circo com a sensação de ter investido meu dinheiro em um momento de prazer super válido e não simplesmente tê-lo gasto por gastar. Não mesmo!

Já foi em um circo bom? Então, vá!

Saí de lá, passei no hotelzinho para pegar minhas malas e enfim, me despedir daquela cidadezinha que, se não fosse pelo circo, não teria valido a pena nem ter parado.

Entrei no meu carro, um Opala preto muito bem conservado, mas que já não era um desses carros 0km em que você pode viajar tranquilo e com a certeza que chegará rapidamente ao seu destino. Mesmo com toda a conservação e a atenção constante que eu dispensava nele, não deixava de ser um carro antigo. Não podia, também, chamá-lo de relíquia, mas se fosse um ser humano, tinha idade para ser um senhor respeitável.

Se eu fosse emotivo, ou “afrescalhado” como o povo dali se dirigia aos homens finos e educados, eu poderia até colocar um nome em meu veículo, já que ele já fazia parte de minha família desde há muito tempo.

Aquele Opala foi inicialmente do meu querido avô, que rodara pouco com ele, mas o manteve limpo e em bom funcionamento até o dia de sua morte. Um ataque rápido e fulminante, logo depois que acabara de passar o pano para secá-lo, o que meu pai sempre contava com lágrimas nos olhos, relembrando que o seu velho pai nem sequer tivera tempo de polir.

Talvez, contando assim, pareça um pouco engraçado, mas aos olhos da minha família aquilo tinha um tom respeitoso e carregado de emoção.

Assim, graças a este acidente fatídico, meu pai nunca o vendera e quando me presenteou com o Opalão brilhante como novo, houve até uma leve cerimônia cheia de pompa e respeito. Pareceu uma passagem, um ritual, como se fosse a entrega da faixa presidencial. Confesso que ainda me emociono toda vez que me lembro daquele dia solene.

Enfim, a saída da cidadezinha foi quase sem problemas, se não fosse pela Dona Fofoca ter ido correndo ao encontro do Pedro Caveira, com intenções escusas, que sinceramente não compreendi muito bem, mas que ao passar pelo bar pude notar, de leve, que ela apontara seus dedinhos malditos para mim cheia de euforia e, meu desafeto, o Cabra dos Infernos, afoito se ergueu, se dirigiu em minha direção quase correndo, aparentando uma certa inconformação, creio que, até me acenou para que parasse, mas fingindo interpretar como aceno de despedida, desconsiderei e acelerei um pouco mais para que as coisas ficassem assim mesmo. Passei ainda mais rápido, dando um “tchauzinho inocente” e “amigável”, assim, peguei a ruazinha que dava na estrada principal e fui embora.

Alguns poucos quilômetros adiante, já bem tranquilo em minha viagem e até achando engraçada toda aquela história, lembrava animado a minha aventura cheia de gente maluca, como a Dona Carlota, o bar horroroso, o Pedro Caveira, aquela cidadezinha feia demais e o circo animado, quando tive uma surpresa surpreendente, vi a poucos metros, uma figura pequena, sentada em cima de sua enorme mala de viagem e, com seu dedinho esticado, pedindo carona.

Como estava em grande velocidade, não consegui parar na sua frente, o que levantou uma certa poeira ao frear bruscamente, na intenção de oferecer-lhe a tal da carona.

Sinceramente, não sabia porque exatamente havia feito aquilo, pois meu estilo silencioso, discreto e de quem odeia intimidades, nunca teria agido daquela maneira, mas estava fazendo coisas estranhas naqueles tempos. Talvez, por ter reconhecido a figura que me pedia carona, me senti inexplicavelmente responsável por sua segurança.

Eu a havia visto no circo e até estranhei que, em tão pouco tempo, ela sendo assim tão miúda e aparentemente frágil, já havia se distanciado razoavelmente do circo onde trabalhava.

Seu nome era Linda, ou pelo menos foi este o nome que se apresentara para mim, logo que desci do carro e fui em sua direção.

– Caramba! Você foi rápida ao sair daquela cidade, hein?! Disse-lhe esticando minha mão e apertando sua mãozinha pequena e delicada.

Ela sorriu e me respondeu que era espertinha e rápida, ou qualquer coisa do gênero.

Ela era uma anã. Uma anã de circo!

Pode parecer besteira, ou que eu esteja exagerando, mas assim que a vi de perto, olhos nos olhos, percebi que ela era a mulher mais linda que já vira até o momento. Suas feições eram delicadas, seu cabelo loiro, liso e preso com um charmoso rabo de cavalo, que se estendia até o meio de suas costas. Naquele dia ela estava usando um vestido rodado rosa, com uma fita igualmente rosa na cintura, amarrado atrás, com um laço muito bem feito em suas costas. Olhando assim, ela parecia uma mini dançarina de músicas do estilo Rock dos anos 60.

Ela não era uma anã comum, pois era quase toda proporcional, não que deixasse de  perceber que era uma anã, porque era facilmente perceptível, mas era definitivamente a anã, ou melhor, a mulher mais graciosa que já havia conhecido.

Tentei disfarçar minha atração súbita, mas não perdi a oportunidade de elogiá-la, pois aquela atração, mesmo que fosse momentânea, tinha que ser registrada, ou melhor, ela tinha que saber o que eu acabara de sentir, afinal, qual o problema de um homem solteiro, desimpedido e solitário expor a pureza de seu encantamento? Apesar do tamanho, ela não era mesmo uma mulher?

Aquilo me fazia sofrer demais, já que meus preconceitos idiotas, adquiridos pelos medos e regras de uma sociedade que não me valiam em nada, criavam conflitos internos sem sentido. Me achava um estúpido em tentar dar uma explicação lógica aos meus desejos, para um eco na minha cabeça, algo totalmente vazio, sendo que não tinha a quem dar satisfações, pois amigos e familiares já não existiam.

Ela não deu muitos detalhes sobre sua vida, apenas que não aguentava mais aquela história que estava tendo junto ao circo e que precisava conhecer outros lugares e pessoas.

Parecia tão cansada, pois percebi que deu umas cochiladas no percurso, mas que quis disfarçar tentando acompanhar a música que saia do rádio, cantarolando um pouco fora do ritmo e um pouco baixo demais, quase não dando para compreendê-la.

Linda! O nome justificava sua beleza rara e excêntrica!!! Eu estava encantado com a pequena Linda!

Eu, um homem só e carente diante da imagem mais reduzida e perfeita de uma mulher, a quem eu poderia facilmente me apaixonar e seguir em frente, exatamente como me propusera quando sai de minha cidade natal, de minha casa.

Prometi para mim mesmo que seria diferente e estaria aberto as pessoas e suas possibilidades e era exatamente o que estava fazendo.

Eu já não tinha um passado, pois não havia uma história a ser contada, nada que eu me orgulhasse e, graças ao local onde morava e ao jeito que escolhi ser, ou fora criado, simplesmente não tinha mais ninguém.

Não era esperado por ninguém e não havia quem soubesse da minha saída inesperada rumo a lugar algum.

Livre, leve e solto, ou melhor, triste, só e abandonado… podia ser também, achava até mais conveniente, mais a minha cara naquele momento.

Não demorou para que ela dormisse e eu, que tinha planos de estacionar no primeiro posto de gasolina que encontrasse e dormir, acabei dando continuidade a viagem, pois temi pela segurança da Minha Pequena Linda, como acabei fantasiando na minha mente solitária e desesperada por um pouco de carinho.

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