Andava pela chuva a passos largos, pois tinha a palavra “compromisso” fervendo em sua mente.

Dizia com seu jeito educado e simples que, para todo cidadão decente: – Hora marcada é questão de honra!

Se arrumara de forma impecável mais uma vez, passara seu perfume predileto e dera aquela admirada básica no espelho de sua sala, através da imagem partida ao meio graças a um trinco que rasgava seu enorme espelho em dois, para confirmar, desta maneira, sua elegante aparência e em seguida partir orgulhoso de si mesmo… duas horas antes do compromisso marcado.

Mesmo sabendo do exagero da partida adiantada para o seu destino, mas sua consciência e responsabilidade não lhe permitia sequer a possibilidade de um atraso, ainda mais em um dia chuvoso, onde tudo favorecia a demora.

Se esmagou nas conduções lotadas e desrespeitosas aos trajes asseados e detalhadamente passados, do jeito que costumara andar, correu, cansou e se molhou, como não queria que acontecesse, mesmo com seu guarda-chuvas em punho.

Homem esperto, sempre prevenido e comprometido com os papéis importantes que carregava com zelo, os protegendo em sacos plásticos na sua bolsa impermeável. Tudo pensado e planejado em defesa de sua profissão.

Como era de se esperar, lá estava o homem mais orgulhoso do mundo, no lugar marcado e bem adiantado, mais uma vez!

Homem magro, longilíneo, de aparência simples e de beleza apagada, uma sombra diante daquele ambiente tão sofisticado.

Se sentia, muitas vezes, grato por poder frequentar lugares como aquele, mesmo que a trabalho e sem calorosas receptividades! Observava as caras frias e indiferentes sobre ele, mas traduzia aquela má vontade humana como um sinal de excesso de responsabilidades e jamais de preconceito.

Diante de tanta arrogância, criou sua própria barreira, por isso, jamais se apresentava como um mero e pretenso “Quase Auxiliar de Contabilidade”, mas inventara um nome mais imponente ao seu cargo, pois se autointitulava um CMF.i (Coordenador de Material Fiscal .imprescindível e o “.i” que se via em seu cartão pessoal – que ele mesmo mandara confeccionar –, era assim mesmo, com um ponto e uma letra minúscula, pois passava uma aparência mais apropriada ao ato de se doar as tarefas, um toque futurista, tecnológico, já que carregava aquela importante papelada fiscal das empresas, diariamente.

Ele tinha estas viagens mesmo, algo muito inocente, não por vergonha de sua profissão, mas por amor à ela e, por isso, não admitia que a desmerecessem por nada… nunca!

Porém, naquele dia, ele teve uma decepção traumática. Pela primeira vez percebera que não pertencia, definitivamente, ao mundo que servia fielmente.

Fora desprezado em alto e bom tom pelo Diretor Geral daquela empresa Multinacional que tanto admirava e defendia.

Logo ele, que sempre se mostrara competente, proativo e, acima de tudo, comprometido.

Desacreditou de seus ouvidos ao se deparar com tamanho desrespeito.

O insulto que veio de trás de uma porta de madeira grossa e polida, o rebaixou a categoria de imbecil e atrapalhado, acompanhado de falatórios maldosos, contentes e descarados sorrisinhos satisfeitos.

Comprometimento, esta era sua frase predileta e comprometido sempre fora todos os dias de sua vida, ao sair de cedo de sua casa – muito adiantado mesmo –, preocupar-se com sua agenda, traçar rotas mais rápidas, horários corretos de conduções, desde sempre, até ali, naquele momento!

Se sentiu fraco, chocado e entristecido. Percebeu que sua importância, na escala dos comprometidos do mundo dos negócios, era a mais insignificante aos olhos do poder. Alguém facilmente descartável!

Algo estalou em sua cabeça.

Naquele dia ele se libertou e apenas “.i”mportou-se a queimar os tais papéis “imprescindíveis”, partir rumo  para o nada e ao que realmente interessava: o comprometimento consigo mesmo.

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