Uma menina pequena, bonitinha, inocente, vivendo um mundinho perfeito e protegido.

Alimentava sonhos puros e engraçadinhos em seu cantinho cor de rosa, bem acolhida e protegida. Fofa, educadinha e feliz!

Nada sabia sobre os perigos da vida, logo ali, do lado de fora do enorme muro da mansão onde vivia.

A mansão fora construída por seus pais, desta maneira, poderia ter vários quartos se assim o desejasse, mas aquele em que vivia era especial, só dela desde sempre. Ali, se divertia até tarde com suas coisas, bonecas, internet de velocidade absurda para os padrões normais, acompanhava animada suas séries favoritas, ouvia suas músicas prediletas e mantinha conversas com seus amigos/namoradinhos constantemente.

Ela sabia tudo sobre as coisas do muro para dentro, mas do muro para fora… quase nada! Apenas experiências vividas através dos comentários nas mídias e notícias esporádicas.

Seu futuro? Promissor! Uma vida fantástica, assim como suas ideias, certezas absolutas e otimistas. Sucesso garantido quando o assunto se referia a dinheiro, empresas e fama. Uma linda, brilhante e invejável história de vida pela frente.

Logo ali, muito perto dela – sem que ninguém imaginasse – um outro alguém também tinha sonhos e expectativas, porém, nada semelhante aos que ela tinha para si. Não! Nem pensar, não seria daquela maneira!

De estatura igualmente pequena, um jovem fedorento, um desses miseráveis que se arrastam pelos cantos da cidade grande, que tinha a cor, o cheiro e o andar tão misturados nela, que ninguém notava em sua figura, mas se percebesse, logo desejava a distância.

Ele sabia tudo sobre o muro que isolava a fortuna e a bonança, da miséria e a total falta de esperança que o cercava. Tinha os detalhes daquela enorme barreira, como se fosse um ente querido, conhecia a data em que surgira por ali, como fora feito, por quem, quanto custara e em quanto tempo fora construído.

Um íntimo daquela construção, até mesmo mais do que ela, que nem sequer ligava para a existência, apenas sentia que era sufocada por ele.

O rapaz, coitadinho, sem educação, solitário, desprotegido e sempre humilhado – um sobrevivente infeliz em uma sociedade capitalista – sofria com discriminações e o peso da realidade de quem nunca tivera alguém para lhe defender.

A luta diária o fez profundo conhecedor das malandragens, dos muitos malabarismos e maneiras de se sustentar, mas nada sabia sobre as belezas da vida, logo ali, do lado de dentro daquela impressionante muralha.

Na realidade, ele morava em um buraco no muro da mansão, em uma falha discreta existente entre as vigas de sustentação, na parte traseira da mansão, voltada para um rio que passava por ali. Um canto esquecido, isolado e quase imperceptível da maravilhosa construção.

Ele que sempre passava por aquelas bandas, percebera que ninguém jamais se aproximava. Um local tranquilo, discreto e semi coberto por uma enorme árvore, um ótimo abrigo das noites frias e abandonadas. Resolvera passar uma noite, mais uma e outra, então, foi ficando, até que, daquele minúsculo espaço fez moradia, ou como alguns poucos conhecidos apelidara: um excelente esconderijo.

O muro era tudo para ele, a sua casa, sua vida e seu quarto… só dele. Não sabia o que era a tal da internet, mas era um rapaz bem informado, graças a leitura diária dos jornais, folhetos e revistas que encontrava pela rua.

Solitário, seu melhores romances ou foram pagos ou foram em momentos raros de embriaguez que, pelo excesso de álcool, não se lembrava.

Ele sabia tudo sobre as coisas do muro para fora, mas do muro para dentro… nada sabia!!!

Ela sonhava em sair dali, fugir daquela casa de muros altos, daquela cidade e saber mais sobre as coisas do mundo!

Ele sonhava em sair dali, fugir daquela casa de muros altos, daquela cidade e saber mais sobre as coisas do mundo!

Um dia, chegou uma animada notícia de que um navio passaria pelo porto e ficaria por breves dois dias e, em seguida, partiria daquela cidade em uma espetacular viagem pelos quatro cantos do mundo!

A imaginação rolou solta e com a devida propaganda, elaborada, muito bem direcionada e executada pelos dirigentes de uma companhia de viagens, ordenada pelos proprietários do tão desejado navio, todos ficaram sabendo dos boatos sobre as luxúrias e histórias incríveis que, supostamente, aconteciam nestes longos cruzeiros: Amores ardentes, romances rápidos, paisagens paradisíacas, aventuras sem fim em terras distantes e misteriosas. Foi assim que, com aquele belo marketing, naquela cidade fria, pacata, carros lentos e vidas mornas, a mágica funcionou!

Fizeram com que o impossível acontecesse, brilhar e pulsar, até mesmo nos corações mais obscuros e gelados, uma pontinha de desejo de embarcar naquelas incríveis histórias para ceder aos seus encantos.

Desta maneira, sob o efeito de uma sedutora noite de lua cheia, onde o impulso se torna realidade, duas pessoas distintas se dirigiram ao navio sorrateiramente, com o mesmo objetivo e a certeza de que suas vidas iriam mudar para sempre, cada uma à sua maneira, exatamente no dia da festiva partida do “Aventura”, nome do gigantesco navio de 15 andares, para se infiltrarem a bordo, cheios de expectativas e ilusões, rumo ao desconhecido.

Tal qual o nome da bela embarcação, a aventura, assim como prometido, talvez nem tanto pelas promessas dos folhetos e afins, mas pelos encontros e acontecimentos, o que foi inacreditável e quase inexplicável, mas diante disto tudo, apenas o que  posso afirmar é que eles tiveram milhares de experiências, retornaram muito diferentes e completamente modificados.

Ela, menos sonhadora e mais conhecedora das maldades do lado de fora do muro.
Ele, com uma visão menos sofredora e cheio de sonhos sobre o lado de dentro do muro!

Anúncios