– Descobrir a esta altura do campeonato que tudo o que se pensava sobre a verdadeira razão da vida, seus porquês divinos, respostas prontas vindas de um livro ou de um possível líder religioso, mas que não era nada do que imaginavam, lhe seria muito surpreendente?

Ouvir, paralisado, aquela voz bem próxima ao seu ouvido dizendo aquelas palavras, no meio da escuridão, não era uma coisa muito fácil, mas fosse como fosse, nada poderia mudar o que estava por acontecer, porque já estava sendo encaminhado para onde deveria ir. Sabia ter que ser assim, daquela maneira. Também não estava tranquilo, longe disto, porém, apenas imaginou que deveria aceitar, algo apontava que aquilo era o melhor caminho, mesmo estando bem atordoado com os últimos acontecimentos.

– E se a coisa fosse mais material do que se pudera conceber? Pensava consigo mesmo, se sentindo um pouco entristecido pelo desligamento, o abandono brusco de tudo aquilo que interpretava como sendo a vida.

Lembrou de muitos momentos, passagens que marcaram sua existência, naquele experimento que tinha como humano, na Terra, e perguntava para si mesmo se ali, naquele estado, podia-se autodenominar, ainda, um Ser Humano?

Os medos de criança e seus fantasmas, os cafés da manhã com sua família, os animais de estimação, as brincadeiras na rua de terra e lama, no terreno baldio, nas brigas de rua, na solidão da adolescência, descobrindo o sexo, das perturbações, dos amigos, dos melhores amigos, na bebedeira, no show de rock, nas drogas que atravessaram seu caminho, na rebeldia, dos cabelos longos, dos amores, das paixões e desilusões, trabalhos que adorou estar e outros que acordava deprimido, chorando antes de vestir a roupa pela manhã, das coisas legais que escrevera e das muitas porcarias, da mulher querida, dos filhos adoráveis que cresceram e partiram… do fim!

E a voz retornou a falar:

– Não se culpe e nem lute tanto com suas certezas absolutas, você pode apenas estar completamente enganado. Por isso, se solte, aja com mais aceitação e pare de brigar com a imaginação. Nada é assim a ferro e fogo! Calma!

– Calma? Eu estou calmo, mas não estou nada confortável! De verdade! – Retrucou bastante apreensivo.

Criou coragem, respirou fundo e, preocupado, abriu os olhos.

Estava sozinho em uma enorme sala muito branca e de temperatura levemente gelada.

Não havia por onde entrar e nem sair, não fora recepcionado por ninguém, nenhuma luz especial… Nada!

Estranhamente lembrava de sua vida, aquela que tivera até aquele momento, bem ali, ao abrir seus olhos. Tudo aquilo que já fora um dia lhe aparentava algo muito antigo, distante e sem ligação com tudo que o cercava. Como se a única realidade de sua existência sempre estivera por ali, naquela sala branca e muito iluminada, daquele presente.

Reconhecera que aquilo que se apresentava junto a ele, a tranquila, silenciosa e muito clara sala onde se encontrava, era o seu lugar de origem e nada mais importava.

Uma sala que não lhe parecia completamente estranha, nem incompreensível, já que a considerava familiar e toda sua… seu lugar.

De repente, um som suave surgiu de um canto daquele lugar branquinho e confortável. Deste ponto, onde provinha o som, fez-se  um risco mais escuro, um corte perfeito na parede, do lado oposto onde se encontrava, abrindo uma passagem. Algo que acontecera repentinamente!

Sem prévio aviso, o corte se abriu lenta e tranquilamente para que, desta forma, revelasse uma luz muito forte, que abrilhantou ainda mais aquela sala onde estava e que já considerava bastante clara. Instintivamente, talvez com os anseios e instintos de defesa da vida passada, como humano, a qual acabara de viver, colocou as mãos sobre os olhos para se defender de tamanha claridade, fazendo com que percebesse melhor em sua própria estrutura física, onde a princípio notara abismado, mas que, na sequencia, de forma tranquila e bastante amorosa, que mudara consideravelmente.

Agora, passara para uma nova realidade, daquelas bem surpreendentes e válidas. Era um ser branco azulado com três dedos e completamente desprovido de pelos.

Nada restara da figura que conhecia como sendo sua imagem, como se tudo que houvera passado, fora apenas um sonho confuso e desconexo, já que aquela nova vida se tornara sua efetiva identidade.

Todas as dúvidas, medos, ódios, alegrias, preconceitos e tristezas, nada mais sobrara.

Se sentiu confuso por alguns segundos, mas rapidamente se recompôs, voltou a ter consciência de que retornara ao seu propósito original. Alongou o pescoço, o corpo e as mãos e, assim, quis e refazer do estranho sonho que vivera intensamente, conforme desejara antes de iniciar a ambicionada viagem naquele planeta lindo, porém muito estranho, carregado e cheio de malandragens desnecessárias chamado Terra.

Como se tivesse acabado de acordar de um sonho ruim, aliviado, apenas seguiu em frente, muito animado e saudoso, através da fresta, tal qual um bebê ao ser parido de sua mãe para um novo mundo.

A experiência existiu, mas nada se comparava com aquele lugar! Nada!

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