Por ali, não se ligava muito para a vida, apenas a vivia sem que fosse analisada e nem pensada a todo momento, assim como seu pai costumava fazer diante de seu computador, por horas a fio, com seus longos textos, a troco de nada.

– Que perda de tempo!

Sentia que viver não era uma obrigação árdua e nem tão pouco um mar de rosas, cria nisto e ponto final.

O dia era Domingo e, graças a isso, uma ótima oportunidade para se deixar levar sem grandes pretensões, vagabundear até mais tarde, andar de skate, beber uma cerveja e escutar suas músicas prediletas, as vezes acompanhado e em outras solitário.

Sobre ele, o chamavam de Clemente, apenas um cara comum da periferia, a “escória do mundo” para os “playboys” – ou imaginava que fosse assim–, já para a rapaziada do “rolê” um “chegado” muito querido.

– É nóis!

Não era um menino desses adolescentes irritantes e cheios de piadinhas e sentimentos confusos.

– Moleques chatos do caralho – como costumava se referir aos mais novos, mas também ainda não tinha atingido a maturidade, até por isto, o pensamento nada agradável sobre a criançada. Estava no ponto intermediário entre o adulto complicado e cumpridor de seus deveres e o adolescente dependente dos pais.

– Preciso achar meu caminho, minha vida! Não aguento mais viver com estes velhos.

Sem crenças religiosas, nem políticas definidas e claramente sem vontade nenhuma de se aprofundar neste ou em qualquer assunto relacionado.

Dono de um temperamento ruim, quase sempre emburrado e de poucas palavras. Alguém que, se não tivesse o ponto de vista positivo dos amigos do skate e da noitada, poderia afirmar que as pessoas que ele definia como “playboys”, tinham total razão sobre sua existência – um ser desprezível.

– Quem liga? Vai cuidar da sua vida.

Não raramente chegava em sua casa alcoolizado ou sob efeito da maconha, sua droga predileta, onde se trancava em seu quarto e passava horas se entorpecendo.

– Loko! Esse é do bom.

A vida lhe era dispensável e cansativa. Muita energia gasta em torno de sexo, jogos e baladas. Algo que o consumia e já aparentava ter saído do controle.

– Eu tô legal, relaxa! Sei o que estou fazendo.

Estava em um ponto crítico, já que era necessário definir um rumo para a sua vida em que permitisse continuar com suas próprias pernas e garantisse seu sustento. Mas, nada o fazia sair daquele maldito ciclo vicioso.

Naquele Domingo, apesar dos muitos planos, entristecido pela falta de motivação, apenas encostou sua cabeça em seu travesseiro e desejou baixinho, quase em desespero, como um pedido de socorro:

– Ou me reconecta ou me leva!

Coincidentemente, naquele exato momento, através do reflexo da luz azulada de seu celular, pode ver, de relance, algo minúsculo cair do teto ao lado de seu travesseiro.

Acendeu a luz de seu abajur, uma luz amarelada e razoavelmente forte para que, desta maneira, pudesse ver o inseto mais minúsculo que pudera observar em toda a sua vida, logo ali, caminhando vagarosamente em seu lençol.

Espantado, diante daquela figura frágil e pequenina, esforçou-se para entendê-la e sabê-la se um inseto, um aracnídeo, ou o que?

Ao se aprofundar naquela viagem, coisa que nunca acontecera em sua vida, perdendo um tempo razoável, como jamais se interessara por alguém ou alguma coisa, diante das muitas possibilidades, manteve sua total atenção ao minúsculo bichinho, que de tão pequeno, quis crer quase imaginário.

Olhou e olhou, curioso, imaginava se era possível aquele serzinho acanhado saber de sua presença e interesse nele. Imaginou se saberia o perigo que corria ao se mostrar por ali, já que o ser humano não costumava ser muito piedoso com insetos e qualquer coisa que tenha muitas pernas, e o bicho aparentava ser destes que tinham muitas delas, ou melhor, pelo menos umas quatro, ou oito se fosse uma micro aranha.

Imaginava se aquele pontinho azul esbranquiçado tinha algum propósito na vida, ao mesmo tempo que riu de seu interesse, já que chegara até aquele momento completamente anestesiado e sem rumo.

– Que moral eu tenho para te perguntar isto?

Queria compreender mais sobre aquilo e o porquê de sua existência, mesmo tendo certeza de que jamais saberia. Olhou para o criado mudo, esticou seu braço em direção ao móvel e pegou um fósforo queimado para que, desta maneira, pudesse empurrar o pontinho branco azulado, delicadamente, para ver se ele ainda estava vivo. Foi aí que um sorriso surgiu ao perceber que o estranho ser correu assustado em fuga, mas seus passinhos, coitadinho, não o levava muito longe, apesar de notar a vontade com que se movimentava.

– Nossa vida não têm o menor sentido, amiguinho.

Mal pronunciou estas palavras, quando, de repente, um outro serzinho daqueles caiu bem ao lado do primeiro, em seguida mais um, outro e mais um, até que milhares daqueles pontinhos começaram a cair do teto de seu quarto, consecutivamente… sem parar. Em poucos minutos, toneladas deles surgiram de forma inexplicável até que todo seu quarto ficasse encoberto e o rapaz, assustado, ficasse completamente soterrado.

– Minha vida faz todo o sentido, a sua é que está estancada, diga-se de passagem, graças a você mesmo!

Ele olhou horrorizado para a cena que acontecia bem ali na sua frente. Um homem, ou melhor, um ser masculino, muito alto, branco azulado, tal qual o bichinho que acabara de empurrar com o fósforo. Eis que ele aparentava ter crescido significantemente e o contestava livremente, com inteligência, calma, de maneira educada, apropriada, porém, ao mesmo tempo, fria e direta.

Ele fora transportado muito rapidamente para um outro ambiente, estava em uma sala branca, sem móveis, sem nenhuma abertura, sem janelas e nem portas.

Se sentiu intimidado, invadido e perturbado com aquele acontecimento, como aquilo poderia estar acontecendo, estar completamente consciente em um lugar desconhecido e diante  de uma pessoa esquisita, aparentando vir de uma outra realidade?

– Tudo está conectado. Tudo mesmo! Sua história, seus pais, seus amigos, os que você convive, os que odeia, aqueles bichinhos minúsculos, você, eu!

– Quem é você? Deus?

– Não! Ninguém chegou até lá, ainda.

– O que você quer de mim? Perguntou meio desesperado – Eu morri?

– Esta relação entre viver e morrer, é com você! Vim, porque me pediram para te reconectar. E cá estou.

O rapaz respirou fundo algumas vezes, porque estar diante daquela figura o descontrolava demais. Porém, percebeu que não era uma ameaça, por isto, tentou relaxar e aceitar aquela situação.

Não eram amigos e ,o branquelo ali parado diante dele, também não parecia estar por ali com o intuito de amizades, mas de executar seu trabalho, sabe-se lá com quais intenções e objetivos. Fora solicitado e iria fazer o que pediram, desde que fosse  a vontade do jovem Clemente.

– Vim para retirar o que te amarra e ajudar com que volte a enxergar a vida de uma outra forma, a verdadeira. Se você melhora, todo o universo saberá. Se você evolui, todos nós crescemos com você. É isto que deseja?

Ele tremeu, não por duvidar sobre o que o ser lhe prometia, mas por sentir que estava finalmente no caminho tão desejado. Lamentou por ter sido tão idiota e por um período tão grande. Lembrou de seus pais e as muitas pessoas que odiou, aparentemente, sem um motivo justo e claro. Entendeu que foi uma fase ruim, pediu desculpas a todos e a si mesmo, mentalmente.

Olhou para o grandão, sentiu uma lágrima escorrer, e confirmou:

– Sim! É o que desejo.

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