Um convidativo sol na janela depois de tanto tempo – com o fim daquela chuvarada sem fim – nada melhor do que abri-la, respirar fundo em sua pequena sacada iluminada e apreciar um maravilhoso dia de calor.

Os ânimos elevados e desejosos por aventura, o campo florido, brilhante e lindo que se estendia até próximo a praia.

Ansiosa em viver uma linda experiência naquele dia radiante, a fez com que vestisse uma roupa curta, leve, clara e sem esquecer os acessórios apropriados ao clima, há tanto tempo guardados. Chapéu, óculos escuros e protetor solar, na ânsia de encontrar um dia perfeito como o que se apresentava para usá-los. Desta maneira, foi que surgiu diante de seu espelho, um estilo despojado e apropriado – ou imaginava que sim – para curtir um dia maravilhoso com seu amigo, o garboso gorducho mais gente boa da região, Bastião.

Eles formavam a dupla que mais permeava o imaginário da juventude da escola e quem mais agitava a galera. Bastião o rei do baião e ela a doidinha ruiva, como se autointitulavam. Quem poderia superar uma dupla destas? A resposta? Pois bem, ninguém!

De fato, eram admiráveis, o grandão risonho, falante e sempre disposto a acompanhar sua melhor amiga para onde ela desejasse, uma mocinha saltitante, sardenta, de cabelos avermelhados e dona de uma alegria peculiar.

Pareciam inundar o mundo com uma daquelas raras belezas que está acima do plano material, algo que em nada se relacionava com as motivações do desejo, de ter uma paixão egoísta e possuí-la só para si, ou então, daquelas belezas físicas que vemos nas capas das revistas ou passarelas de moda. Não! Era algo simples e encantador, uma dupla que  instantaneamente precisava ser apreciada, compartilhada e divertir-se junto, com todos e em grupo. Porque eram possuidores de uma energia grandiosa e acumulativa, ou seja, quanto mais melhor! Uma força animadora, que vem de dentro da alma, de algum lugar que hipnotiza, que não se explica, apenas vê, apaixona-se e compartilha.

Duas criaturas sensacionais, simples e divertidas. Quem as conhecia de perto e convivia, sabia existir algo profundo, espiritual, como se tivessem uma missão específica ao vir para o planeta: iluminar e, acima de tudo, enriquecer as vidas das pessoas com a linda demonstração de companheirismo e amizade, algo que todos daquela região entendia e os apontavam como referência.

A amizade deles teve seu início logo cedo, ainda dos tempos de bebês, já que eram vizinhos desde sempre.

Nunca, jamais e de jeito nenhum, saíam um sem o outro. Eram como irmãos gêmeos, daqueles que sentem as dores do outro, que se resfriam juntos e adoecem quase que no mesmo instante. Amigos, uma palavra que entre eles sempre fizera todo e completo sentido.

O dia prometia e ela tinha o roteiro perfeito, chamar o Bastião, levar lanchinhos até a praia, tomar um solzinho e aproveitar aquela energia maravilhosa até a hora do almoço, onde voltariam e comeriam na casa dele, já que sua mãe não era tão excelente cozinheira quanto a mãe do Bastião, a quem chamava carinhosamente de tia.

Saiu pulante, como era do seu costume, atravessou o jardim determinada e em direção à casa do gorducho, quando… puft! Nada! Apenas uma grande escuridão e um silêncio total, como se sua vida perfeita, até ali, tivesse desaparecido por completo. Esta foi a sensação que sentira antes de entender que sobrevoava calma e serena, tal qual uma borboleta, sobre o jardim da casa de seu amigo.

Algo estranho acontecera e não podia compreender muito bem, simplesmente voava humildezinha e próxima a grama, sendo que tinha aquilo como algo verdadeiro e de sua natureza.

De repente, olhou para a enorme árvore na calçada próxima dali e imediatamente fora sugada para ela, transformara-se nela, como se sempre estivera ali, em pé, em paz e atenta observadora das coisas ao redor.

Respirava, pensava, vivia no tempo daquela árvore e a seu modo. Entendera rapidamente e sem desesperos o quão lindo era o mundo através daquela consciência. Se sentiu em paz e profundamente tranquila em relação àquela situação.

Naquela vivência, tudo era bem incomum e em nada lembrava a vida daquela menina feliz e pulante em que, até então, se via. Porém, naquele momento, apenas uma contempladora e amável árvore que usufruía de tudo que a cercava. Era uma forma diferente, com sensações novas das que estava acostumada, desta maneira, podia perceber o vento em suas folhas, os bichinhos em seu tronco, a terra em suas raízes e o calor que provinha do céu, com o lindo sol da manhã, de uma forma diferente, algo inexplicavelmente novo e agradável.

Reparara que algo passara ali por perto e bem acima, uma sombra que se fez presente sobre ela e que ao focar sua atenção de imediato entendera se tratar de um pássaro, coisa que mal pode avaliar e captar em detalhes, já que da mesma maneira que deixou de ser a doce menininha e a borboleta, o mesmo acontecera por ali novamente e na mesma velocidade que antes. Naquele exato instante, teve sua consciência imediatamente transferida ao corpo da ave, passando a usar aquele instrumento como se fora o seu próprio, para sobrevoar pelo campo, ver a areia branquinha, o mar muito azul, a brisa refrescante que vinha dele, as ondas que quebravam redondinhas em uma serie constante e perfeita.

Percebia tudo aquilo muito admirada e curiosa, então, deu a volta graciosamente sobre o mar e com domínio completo sobre sua nova forma, retornou em direção à sua casa.

Via tudo o que passava por ela daquele ângulo inédito em sua vida e, apesar de não estar sorrindo como de costume, podia entender a alegria do momento e a satisfação de estar viva.

Observou sua casa, seus pais conversando na varanda, as coisas que se passava por ali, voou pela lateral de sua residência, acompanhando a cerquinha baixa que dividia os terrenos, até chegar na parte superior da casa vizinha onde estava seu querido amigo, Bastião, deitado tranquilamente sobre a cama onde acabara de acordar, apenas analisando o tempo através de sua janela.

Ela percebeu quando ele se assustou com sua chegada e o pouso barulhento que fizera no batente, próximo aos vasinhos secos e descuidados do jardinzinho, logo ali, no parapeito de sua janela. Ele, por instinto, sentou em sua cama para vê-la melhor e, assim, ficaram ali, por alguns segundos se observando.

Sem que ele permitisse ou que ela quisesse, ao se encararem olho no olho, ela entrou dentro da mente de seu amigão e, para seu espanto estava controlando os pensamentos do Bastião, fazendo com que tomasse conhecimento de um algo a mais, um bem-querer que, talvez, nem ele mesmo soubera existir dentro dele, por ela… Amor!

Um enorme carinho, um desejo de abraçar, de beijar e de estar junto para sempre!

A princípio ficou meio chocada, assustada com aquela revelação, porque o queria tão bem quanto a um irmão. Por outro lado, não detestou e nem rejeitou, apenas absorveu a ideia e sentiu seu coraçãozinho de menina esquentar, bater mais forte, como se tivesse acabado de encontrar a pessoa mais querida de sua vida.

Sentiu um tranco, fora expulsa da cabeça do rapaz e jogada de volta para o pássaro, que estivera quietinho por ali, talvez a aguardando.

O susto não fora apenas dela, mas o Bastião também pareceu ter percebido que algo muito errado acontecera consigo, pois levantou assustado e ofegante, como se tivesse acabado de escapar de um afogamento.

Perturbado com o que acabara de ver, correu afoito em busca de ar e se debruçou em sua janela.

Ela, já dentro do pássaro, levantou voo e antes mesmo que recomeçasse sua estranha aventura, ouviu o gorducho gritar seu nome apavorado:

– Dorinhaaaaa!!!

Ela olhou em direção ao local onde seu amigo se mostrava interessado e viu, para seu desespero, a ruivinha, uma linda mocinha, o seu verdadeiro corpo, caído no chão desacordada.

Como se fosse sugada de volta para sua realidade, caiu do alto onde se encontrava, lá do corpo do pássaro, para dentro de seu verdadeiro corpo.

Isadora, um pouco zonza e visivelmente atordoada, demorou alguns instantes para se recobrar, mas foi ali que aos poucos foi entendendo a situação, retomando a consciência, até sentar sobre o gramado, onde finalmente compreendeu que estava mais uma vez de volta ao seu mundo e apoiada pelo grandalhão, Bastião, muito preocupado com o estado de saúde dela.

– Você está bem? O que aconteceu? Está machucada?

Ela gaguejou, apoiou-se no braço dele, que parecia estar mudado, mais forte e aconchegante. Pensou que, talvez, fosse a luz do sol que há tempos já não dava o prazer de sua presença, por isso deixava seu amigo muito mais belo e atraente do que de costume.

Viu o rosto dele bem de perto e, tête-à-tête, sentiu uma coisa diferente, um brilho especial em seu olhar. Sentiu um tremelique na barriga, uma falta de ar e uma vergonha estranha. Afinal, não sabia se ele teria visto o mesmo que ela, ou se ele sabia que ela vira aqueles sentimentos dentro da cabeça dele. Ou seriam sentimentos dela ao encontrar com a essência que existia dentro do corpo dele? Um encontro de almas ou um encantamento momentâneo? Poderiam ser almas gêmeas, mas será que existia esta coisa de almas eternamente unidas? Isto parecia tão hollywoodiano – coisas de cinema, com certeza.

– Isadora, acho que você está machucada. Disse o inocente e preocupado companheiro de todas aventuras, ao apontar para seu shortinho branco todo manchado de sangue.

Ela ficou ruborizada, chateada e enraivecida com aquela situação vexatória que, apesar de nunca ter passado antes, sabia exatamente do que se tratava.

Estava constrangida e por entender o motivo de ensanguentar sua linda roupinha, minuciosamente escolhida para aquele dia, ao lado do amor da sua vida revelado há poucos minutos, o Sebastião, levantou-se num pulo, bastante desesperada e sem dizer uma palavra sequer, apenas o empurrou de perto dela e saiu correndo para a sua casa, muito envergonhada.

Tornara-se mulher.

 

 

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