Preferia ser como os outros, sem grandes reflexões e pensamentos profundos, mas era impossível, já que se pegava analisando tudo o que passava ao seu redor, constantemente.

Todos se conheciam por ali e ele a todos, com raras exceções. Um menino magrelo, feio e sujinho, quase uma sombra despercebida, apenas mais um no meio dos muitos que por ali passavam.

Sua casa era a mais próxima do porto, se é que se podia chamar aquele cais velho, emporcalhado, fedendo a peixe e a mijo de bêbado, disto.

Era um ponto muito frequentado, tanto pelos endinheirados em viagem, quanto pela escória imunda da cidade.

Um agito danado, mais movimentado do que a rua das lojas, com suas promoções atraentes, abarrotada pelos turistas e os muitos comerciantes na busca de mercadorias para seus estabelecimentos em outras cidades, além do próprio povo que por lá vivia.

Um local especial para ele, para sua mente acelerada, fértil e observadora como um continuísta compulsivo daquelas filmagens megalomaníacas. Nada lhe escapava, jamais.

Ele vivia com duas mulheres, sua mãe, uma vovozinha enferma que raramente saia da cama, e sua irmã cega, uma senhora muito mais velha do que ele e bem gorda, que tinha no tricot uma das rendas extras bastante importantes para o sustento da família.

Graças a elas, incentivando a famigerada mania de analisar as pessoas que passavam na rua, logo abaixo do sobradinho de madeira onde viviam, ele passava boa parte do dia debruçado na janela citando pessoas, descobrindo profissões, descrevendo acontecimentos, adivinhando paradeiros e romances. Uma diversão para as idosas.

Este costume aflorara e se tornara uma obsessão, deixando a oratória do jovem menino mais afiada do que a de um locutor de rodeio. As mulheres, que quase nunca se levantavam de seus assentos, ouviam atentas a locução única do rapaz dependurado logo ali e interagiam com indagações, exclamações empolgadas e risos sem fim.

No tempo em que rádio era um objeto para poucos, o menino animado descrevia o mundo à sua frente com detalhes e possibilidades sem fim. Conseguia, desta maneira, tornar a vida simples e sem luxos das figuras frágeis de suas velhinhas risonhas, em dias coloridos e alegres.

Assim, cresceu o homem observador e surpreendentemente introspectivo.

Naquela madrugada fria, ele seguia silencioso para mais uma tarefa, solucionar um crime que chocara toda a cidade. Um político de grande expressão e credibilidade  sumira. Todos acreditavam ter sido assassinado, mas ele não cria em nada. O questionamento, a investigação e as provas  é quem daria o caminho certo e a martelada final para o assunto.

Fazia muitos anos que não passava por ali, no velho porto da cidade, sua antiga moradia.

O cheiro nojento, a feiura sofrida dos que ali passavam, as mesmas sujeiras que arrepiavam seus colegas de trabalho, lhe traziam belas lembranças de um tempo simplesinho e cercado por pessoas maravilhosas, sua querida família.

Lembrou, envergonhado, da época do colégio onde evitava comentar sobre sua origem humilde e das velhas protetoras, suas queridas mulheres. Adolescentes, suas crises de existência e “vergonhas alheias”. – Bobagem! Balbuciou distraidamente.

– Não é bobagem, Altair. Este caso é muito importante para todos nós! Temos que esclarecer, dar uma satisfação para a população, para a sociedade e para a família deste importante político assassinado – retrucou seu parceiro grosseirão, sem imaginar que as reais queixas do velho eram voltadas a outro assunto, coisa que rapidamente foi disfarçada pelo astuto Detetive Altair, homem compenetrado, observador e atento aos mínimos detalhes… como sempre!

– Assassinato? Respondeu revertendo a situação – Nada provou isto, ainda!

Daquela pequena praia miserável, via-se o corpo de um homem corpulento, carcomido pelos peixes e camarões, e o centro das atenções do burburinho desesperado da gente feia daquela área. Necessitados em saber e ver a desgraça mais de perto, cercava, empurrava e se acotovelava curiosa, se já não bastasse as tantas porcarias diárias que suportavam em excesso, em suas vidas precárias.

Sendo o velho Detetive um semelhante, transfigurado em bom cidadão de outro nível e irreconhecível em seu terno alinhado, sapatos brilhantes, boa fala, com educação respeitosa, nunca se alterava ou se indispunha com os miseráveis que, costumeiramente, atrapalhavam seu trabalho. Tinha em mente que só os que serviram e se submeteram por muitos anos podiam saber a dor dos coitados. E por sabê-la de perto, não se encorajava a criticá-los.

Tranquila e silenciosamente, caminhou até o corpo desfigurado do cadáver repugnante coberto de areia. O silêncio foi surgindo entre os curiosos, assim como o espaço desejável para que pudesse trabalhar.

Seu parceiro de trabalho, o Boris, menos educado e gentil, rapidamente afastou os infelizes mais invasivos, permitindo que o velho Altair, com poucas palavras e a segurança de costume – características que a profissão lapidou com eficiência – conseguisse analisar detalhadamente toda a situação.

Ficou alguns minutos em pé e em profundo silêncio, apenas absorvendo toda a cena. Seu colega, acostumado com o jeitão do Altair, resignou-se em acender seu charmoso charuto e baforar, para espanto e admiração do povo simples que ali estava, uma fumaça exagerada e com uma fragrância diferenciada para, em seguida, aguardar pacientemente as observações detalhadas do experiente Detetive.

Se o Boris estivesse dentro de sua cabeça saberia que raramente em sua carreira estivera daquela maneira, constrangedoramente distraído. Porque, daquele canto isolado podia-se ver claramente a janelinha verde da sua antiga casinha de madeira, onde vivera os anos mais coloridos de sua vida.

De dentro da casinha, mal pintada e quase multicolorida, graças ao péssimo trabalho do pintor responsável pela obra, ou melhor, muito provavelmente pela falta de dinheiro para se fazer uma pintura com várias demãos, uma luz surgia bem discreta, tal qual a luminária de querosene que utilizava em sua época.

Naquela viagem, uma invasão de recordações, com cheiros característicos, sombras familiares e pessoas similares as daqueles dias, sua mente poderosa e especial, quase conseguiu enxergar sua pequenina e generosa mãezinha acenando da janelinha.

Boris, o esquisito colega de trabalho do Altair, achou estranho perceber que o Detetive, um homem que raramente ria, esboçara um leve sorriso ao ficar alguns minutos observando as horrorosas casinhas de madeira, junto àquela encosta na montanha. Como se tivesse visto algum conhecido no meio daqueles casebres, ou melhor, “favela nojenta” na visão do insensível policial.

Já estavam um bom tempo por ali… e nada! Nenhuma palavra de Altair.

Boris, homem de poucas amizades e dono de um mau-humor desconcertante, visivelmente incomodado por permanecer tanto tempo naquela “bocada asquerosa”, no meio de gente fedida, falante demais e cheias de conclusões sem sentido, como se aqueles bebuns desajeitados fossem experientes nos assuntos policiais, por isso, decidiu encurtar aquela experiência desagradável. Em um ato incomum de sua parte, quebrou o silêncio ao questionar o compenetrado Detetive, para saber se ele já tinha alguma pista, ou confirmava as suspeitas gerais de que o gorducho morto, esticado ali na areia, era mesmo o político procurado.

Altair, nem sequer olhou para o Boris, apenas retirou um bloquinho de papel de seu bolso e,  tranquilamente, anotou mais um item em sua costumeira lista. Ele já havia matado aquela charada nos primeiros minutos daquela visita, mas suas recordações das lindas lembranças de suas duas doces velhinhas, em um tempo distante e muito humilde, o fez querer ficar um pouco mais e esticar a passagem pela periferia.

No meio daquele ambiente bastante carregado de imagens que mexiam com sua cabeça, cheiros que só se sentia por ali, brisas de mar com óleo das embarcações, pessoas simples que desfilavam expressões locais já tão esquecidas, gírias e modas da terra onde fora criado – sendo ele dono de uma mente descomunal – tudo ali só fazia com que revivesse os melhores dias de sua vida. Só queria aproveitar aquela oportunidade que, talvez, não teria novamente tão cedo.

Percebendo a necessidade de voltar, desfez o rosto suave, recobrou a habitual seriedade profissional, sisuda de todos os dias e, afirmou:

– Vamos embora, não é nosso homem!

– Tem certeza? As roupas, a carteira achada junto ao corpo, a cor dos cabelos, batem com a descrição!

– Tudo aqui foi forjado! Observe bem e perceberá – afirmou, seguro de si. Certeza daquelas dos que sabem algum segredo que ninguém mais tivera acesso – O cadáver está inchado, um afogamento de alguns dias, mas ainda cabe com folga no paletó, ou seja, este que aí está, com as roupas do político, é bem menor do que a pessoa que procuramos. Olhe o dedo anelar da mão esquerda, o anel foi colocado na mão deste usurpador, já que a outra mão, o da direita,  tem marcas do verdadeiro anel que estivera ali por alguns bons anos.

Boris, acostumado com os acertos do velho, apenas ouvia as conclusões sem interromper.

– Olhe as palmas da mão calejada deste corpo, um homem trabalhador de tarefas braçais. O desaparecido nem sequer arrumava sua própria cama. Creia em mim, este político sumiu, mas seu algoz cruel e assassino astuto tem um nome próprio e bem definido, isso se chama: Amante!

– Chame o pessoal responsável por levar o cadáver, para que tenha sossego e um enterro mais digno.

– Ok, Detetive! Vamos embora deste lugar fétido! Estes ares estão esfriando a minha alma.

O Detetive Altair, silencioso como acostumara ser, apenas discordou de seu colega mentalmente, já que se sentira bem acolhido por ali. Então, cochichou para si mesmo:

– Lindas lembranças que esquentaram meu coração, como há muito não sentia. Queridas pessoas protetoras de um passado distante… Obrigado!

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