Acordou tranquila, descansada e feliz!

Ele, estava ali ao seu lado e bem atento quando ela abriu seus olhinhos azuis como o mar. Lá, podia-se ver o mais lindo olhar, como se fossem duas belas pedras preciosas brilhantes e cheias de uma energia viva e atraente. Esbanjava poder de atração, sendo que este poder provinha, em parte, de seus olhos. Uma linda presença, cheia de graciosidade e força.

O rapaz, já estava por ali há um certo tempo e a admirava em silêncio. Apreciava seu descanso tranquilo, inocente, silencioso e de uma beleza encantadora, tal qual uma obra de arte.

A pele da garota era muito branca, suas bochechas levemente rosadas, narizinho empinado com algumas poucas sardas, um longo cabelo brilhante e loiro, muito bem escovado até abaixo da cintura.

Usava uma roupa leve e clara, que brilhava ao refletir a luz que recebia sobre ela, um pequeno feixe do sol proveniente do centro da janela da varanda – bem no vão do encontro das enormes cortinas – que atravessava todo o quarto e repousava na cama onde ela se encontrava.

Um cenário harmonioso, com reflexos coloridos, predominantemente azuis e violetas, graças aos enfeites que ela colocara sobre sua penteadeira, lindas pedrinhas recolhidas pelos caminhos por onde já passara e tivera alguma ligação de carinho. O brilho das pedras inundava discretamente todo o quarto, como bolinhas de luz, por causa de uma luminária que, com sua discreta fonte de iluminação direcionada sobre elas, era distribuída pelos cantos mais escuros de seu aconchegante dormitório, como se fossem vaga-lumes passeando sem rumo e em câmera lenta.

Eles aparentavam um casal jovem, assim como prometeram ser sempre que se encontrassem naquele lugar, um planeta inteiro inundado em paz e beleza. Uma base projetada para a recuperação e reenergização de seus frequentadores.

A escolha daquele visual era proposital, pois foi assim, em um tempo distante, em alguma vida passada, que se conheceram e se apaixonaram. Se mostravam, um ao outro, muito cheios de alegria, vigor e vontade de viver. Desta maneira, como tudo o que ali existia, eram felizes e esbanjavam um encantamento especial, sendo reconhecidos como um dos grandes símbolos de Amor daquele lugar maravilhoso.

Ele, sempre se mostrava para ela como um rapaz negro, de pele lisa e muito homogênea. Porte atlético, porém magro, alto e de uma beleza sem igual – dono de um dos sorrisos mais brancos e perfeitos que já se vira por ali – tinha por ela um respeito e um carinho especial.

Apesar da união e o encontro de duas almas maravilhosas, tinham consciência total de suas obrigações, das muitas tarefas a serem feitas e que não poderiam deixar de serem executadas. Necessidades que estavam acima daquela história apaixonante que sentiam, algo que podia ser explicado como uma impulsiva busca espiritual. Uma necessidade soberana por conhecimento, evolução, desenvolvimento espiritual, e que ardia fortemente em seus corações.

Chegara a hora de se separarem mais uma vez, em nome de suas individualidades, do desejo de experimentar a vida e a tão almejada busca interior.

Eles já passaram juntos todo o tempo desde que se encontraram mais uma vez, o suficiente para reviverem o Amor e aquecerem seus corações, que diante daqueles corpos em que viviam naquele momento, aparelhos muito bem desenvolvidos e elaborados, cópias de vidas passadas, que fora muito significantes em suas mentes e corpos emocionais, mas, assim como já sabiam, estavam se separando de novo.

Óbvio, não perderam a oportunidade de se despedirem devidamente, com todas as possibilidades que um casal que se amava demais.

A partida era sabida e, enquanto puderam, aproveitaram ao máximo a companhia um do outro e a cada segundo em que estiveram unidos por lá.

Ela sairia em viagem naquele mesmo dia e ele, assim que aparecesse a oportunidade e fosse escalado para alguma missão, coisa que já havia sido solicitado.

Talvez, poderiam se ver novamente em um futuro distante, mas nada muito preciso.

O Amor, por mais lindo, puro e perfeito que fosse, não justificava a possibilidade de não prosseguirem separados em busca de sabedoria, aventura, individualidade e crescimento pessoal.

Algo que naquele mundo era uma realidade mais do que aceita, um objetivo de vida.

Ela, com todo o carinho que tinha por ele, se despediu mais uma vez, vestiu seu uniforme, pegou suas mochilas e foi rumo ao seu destino. Uma viagem para um outro mundo, um lugar lindo. Porém, tenso, de pessoas rústicas e quase infantis, que chamavam de Terra.

Ele, uma pessoa mais emocional, iria ser convocado para uma missão em um planeta mais tranquilo, adequado ao seu perfil delicado e sutil.

Em seu coração, a certeza de que outro encontro físico como aquele com sua querida demoraria, talvez, muito tempo, senão durante toda aquela vida, ou melhor, programação.

Não revelou para ninguém seu sentimento estranho sobre a separação, ao vê-la entrar na enorme nave que estava por partir.

Mais uma vez, como em outras oportunidades que já estiveram juntos em outras vidas, provavelmente terminariam suas missões muito afastados um do outro, o que chamamos de solidão, mas que eles entendiam como uma breve distância material e não de almas eternas.

Portanto, já refeito de sua emoção, como quase sempre, onde ele apresentava mais apegos do que ela, foi para o centro da cidade se despedir das lindas paisagens que se confundiam entre construções, tecnologia avançada e, ao mesmo tempo, muita natureza ao redor.

– Não há medo, só o Amor! Pensou em voz alta.

– Sempre! Ouviu a resposta imediata de sua amada em sua mente.

Respirou fundo, deu um sorriso tranquilo, cheio de carinho amoroso e foi curtir seus últimos dias por ali.

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