O rapaz esperava por notícias, daquele jeito… todo ansioso.

Queria novidades da moça que conhecera pela internet. Graças a foto enganosa que enviara do primo bonitão, o verdadeiro rapaz da foto, teve que pedir para que ele fosse em seu lugar até o local combinado para conhecer a moça pessoalmente e fazer uma rápida avaliação.

Ele nem era assim, feio, mas como as conversas bateram e achando que aquele assunto nunca iria muito longe, no papinho furado e cheio de intençõezinhas discretas com a linda menina, imaginara, e se empenhara, para que, pelo menos, rolasse uns nudes e… já era. Eis que o inesperado aconteceu, que o campinho floriu, a sereia de seus sonhos mais sacanas se jogou na rede e ele acabou pagando pelo engano e pela desonestidade.

E lá foi o primo bonitão e mulherengo, conhecer a mocinha do bairro vizinho.

O primo galã, que prometera voltar rápido, estendeu a visita até mais tarde, o que fez com que só se encontrassem no dia seguinte:

– E aí? Como foi? Como ela é?

– Bom, bonita ela não é, nem desejável. Mas, seu coraçãozinho nobre, simples e querido! Ah! Este nos pega distraídos.

– Aham, sei!

– Né? Também não é cheirosa! Sabe como é? Sempre na cozinha, quase o tempo inteiro. Muitos irmãos, sobrinhos, tios, enfim, a parentada toda que precisa comer. Porém, é de uma educação… impressionante! E isso faz e fez a diferença, pode crer! Acho até que você iria gostar muito dela!

– Vixi! Mas, que coisa ruim! Então, ela é feia? E a foto que vi no perfil dela?

Pois é! Acho que não é ela, não! Bom, também não é você no seu, não é mesmo? Respondeu um pouco ofendido pela audácia e irresponsabilidade de ter usado sua foto. Foi desfazendo a cara azeda e, continuou:

– Creio que não teria um relacionamento com ela! E aproximou-se, cochichando  – Não conseguiria, creio que ninguém tentaria, porque ela é bem das feia, mesmo! Mas, só estou te falando isto, porque não quero que você se decepcione! De verdade!

Aquele “De verdade” nas frases dele, sempre tinham um significado importante. Sua falha de comunicação, algo como: Atenção! Estou dizendo algo importante aqui.

– Quando eu a vi de mais perto, parecia ainda mais feia debaixo daquelas roupas desleixadas, com cheiros fortes de comida e suor.

– Como assim, “de mais perto” e “embaixo daquelas roupas”?

– Eu disse, de mais perto e embaixo? Não, eu falei apenas de perto! Só isso!

– Não! Eu tenho certeza do que você disse. Assim ó: “De mais perto e embaixo!” Foi isso mesmo!

– Sério? Será? Não me lembro bem desta frase, mesmo porque, já fiz minha parte e te passei o recado, agora é com você!

– Ora, olha aqui, seu cafajestão de uma figa, me diga lá que porcalhada você andou fazendo desta vez? Disse enraivecido, catando o primo pelos colarinhos.

– Zé! Ô Zé!!! Não seja cruel comigo, só quis ser bom, útil e… bom! Disse todo encolhido e de olhinhos inocentes.

– Peraí! Dizer “bom” duas vezes na mesma frase? Outro sinal ruim, bem ruim! Me diga lá… mas…

– Mas… o que?

– Me diga logo, quer ser bom, mas…

– Pois é! Mas, eu, zupt! Falou baixinho, cortando a mãozinha desavergonhada no ar, tal qual uma navalha.

– Zupt! Zupt, o que?

– Zupt! E de novo a mãozinha.

– Não acredito, seu canalha! E deu um belo bofetão na cabeça do primo todo encolhido, como um cão que comera o jornal matutino de seu dono.

– E este papo de feia, horrorosa e mal cheirosa?

– Ok, eu falei isso! Sim! Falei, repito, confirmo e assino embaixo… é feia como o cão, horrorosa e de um cheirinho duvidoso. Falei, né não? Porém… tão fofa e dócil!

– O que?

– Rapaz, essa capeta me pegou! De verdade!

– Ei! Esta é a segunda vez que você diz: “De verdade” em menos de 2 minutos!!! E se te conheço bem, e eu te conheço bem, isso só pode dizer uma coisa… que é verdade, mesmo! Teodoro, seu tarado sem-vergonha, como pode ser isto?

– Não sei, primo! Mas, creia, eu te livrei do Trubufu mais horroroso que já conheci em toda a minha vida. Só que, a alma mais acolhedora, decente e aconchegante que já tive o prazer de estar por perto! Se por um lado, no primeiro contato tive repulsa, por outro, em menos de poucos minutos de conversa, e creio que você tenha sentido esta coisa também pela internet, meu coração já era totalmente dela.

Zé, apenas quis entender, mas estava em choque diante daquela situação. Seu primo sempre fora o dono de si e a confiança em pessoa, agora, ao vê-lo ali, dependente de um amor constrangedoramente obsessivo e feio, teve pena e ao mesmo tempo alívio. Escapara de algo muito estranho e sem controle. Poderia ter sido ele próprio naquela situação.

O silêncio se fez por completo, quando Teodoro sacou de seu celular uma selfie claramente repugnante para os padrões dos jovens rapazes. Onde se via claramente, o Teodoro deitado no colo de uma das mulheres mais feias que ele já vira e em um beijo apaixonado.

– O que faço desta vida, Zé?!

Pensou que, o Amor não era feito de belo e feio, gordo e magro, burro ou esperto. E que ninguém deveria ser medido por estas questões, já que a beleza que se carrega por dentro, pode ser tão arrebatadora quanto as que as revistas de moda escancaravam como padrão de beleza, pelo mundo afora. Que ele poderia, sim, amar aquela mulher feia verdadeiramente, mas dizer aquilo, aparentou superficial, mentiroso, irreal e esquisito.

Levantou-se do lugar de onde estava, atravessou a sala em silêncio, observou mais uma vez seu primo em soluços sofridos com a foto estampada em seu celular ainda nas mãos, abriu a porta muito pensativo e… saiu.

 

 

 

 

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