De olhos arregalados diante do espelho e analisando com frieza tudo o que havia ao seu redor, chegara a conclusão de que aquela realidade em que estava, não tinha absolutamente nada a ver com ele!

Entristecido, numa bela manhã de Domingo, fechou seus olhos cansados e, meio sem esperanças, apenas desejou que tudo tomasse um outro rumo.

– Como diabos acabei dentro desta história?

Em uma rápida reconstrução dos fatos, queria crer que aquele foi o dia exato em que toda a maluquice em que sua vida virara, teve início.

Nada foi assim, de supetão, não! As pessoas eram as mesmas há muito tempo, tanto tempo que seria até mesmo impossível revelar com precisão o momento exato do encontro, mas a história vivida naquele momento em que se encontrava, precisamente, não era a que ele compreendia como real e verdadeira.

Algo tinha acontecido, em partes, de uma forma bem sutil, por outro lado, muitas coisas estavam completamente diferentes.

Algo estranho tinha acontecido com o mundo e que, estranhamente, havia mudado a realidade e tudo levava a crer que tinha alguma ligação com o desejo daquele dia, logo ali,  diante do espelho.

Ele, se sentia um imbecil ao ter que conversar com alguém sobre certas mudanças que percebera ocorrer, mas tinha a frieza em acreditar que o fato de ficar muito em casa e quase não sair, também poderia acarretar aquelas não percepções como, por exemplo, mudanças de cenários e pessoas..

Até tentou se explicar com as pessoas mais próximas, mas pareceu meio estúpido e acabou rindo de suas próprias observações sobre cortes de cabelos inesperados em amigos tradicionalistas, roupas de tecidos estranhos e desconhecidos por ele, modas esquisitas, carros nunca vistos que supostamente, e surpreendentemente, já quase fora de linha.

Percebeu que ruas estavam diferentes, como árvores que desaparecera do caminho, casas que ele nunca percebera, prédios que surgira de uma hora para outra nas paisagens que constantemente observara, mas que todos garantiam sempre estarem por lá, o tempo todo.

Tudo era bem estranho, mas aceitável, afinal, podia ser que ele nunca tivesse notado algumas construções em uma paisagem carregada de imóveis, carros, prédios e muitas construções que, costumam surgir todos os dias. Porém, jogos de copos que nunca comprara, roupas que nunca escolhera, móveis com alterações singelas no design, como explicar aquilo?

Com o tempo, apenas aceitou estas falhas mentais como algo rotineiro e concordou com sua namorada a possibilidade de ser um cara bem distraído. Mesmo que esta nunca tenha sido uma característica em sua vida, já que se considerava uma pessoa atenta e detalhista.

Dentro dele, algo se movia com estranheza e até pensou em se consultar com algum médico especialista, para avaliar seu estado mental, mas a vida pedia outras atenções e prioridades. Sendo assim, pensava consigo mesmo, nada em seu corpo doía, estalava ou tremia, então, tudo bem!

O tempo passou e sua pergunta prosseguia a mesma, mas desta vez, com mudanças bem perceptíveis e inexplicáveis, como ele estava vivendo aquela história em que não teve uma ordem cronológica óbvia até chegar ao ponto em que estava?

Tudo ia correndo de forma desconexa em sua vida e, de repente, num belo dia qualquer, olhou pela janela e ao invés de ver a sua rua calma, larga e pacata de sempre, com as casinhas bem organizadas e simples de seu bairro, havia uma avenida agitada, estreita, confusa e com carros inomináveis que circulavam incessantemente de um lado para o outro.

Ficou alguns segundos imobilizado e em choque, definitivamente algo estava muito errado em sua vida.

Este foi o passo inicial da maluquice completa, à partir daquele momento, nenhum dia se pareceu com o outro, em uma sucessão de encontros fantásticos, confusos e inexplicáveis.

Nenhum dia era igual ao outro, tudo mudava constantemente e sem explicação, dando a entender que ele pulava de uma realidade para outra, todos os dias.

Ele nunca sabia se iria encontrar as mesmas pessoas, se elas teriam a mesma história do dia anterior, se sua situação no mundo era a mesma em todas as realidades e se depararia com os mesmos locais e objetos do dia a dia. Uma surpresa constante e diária.

Ele poderia acordar em um mundo lindo, de pessoas tranquilas e elegantes, vivendo um verdadeiro paraíso, mas também corria o risco de se ver um mundo perigoso e agitado, com riscos reais de entrar em conflitos bem malucos e fatais.

As vezes, via-se constrangido ao descobrir que pessoas queridas e próximas, nem sequer o conhecia e o tratavam como maluco, ao mesmo tempo que se via casado com uma total desconhecida, ou amigas que nunca imaginou ter um relacionamento.

Sua vida virou uma loucura e uma perturbação doentia e solitária, já que nunca saberia com quem iria se relacionar no próximo dia, sendo que muitas vezes, apenas seguia sozinho.

Solidão que abrangia milhares de pessoas, umas amigas, outras irreconhecíveis, filhos que nunca teve, amigos que jamais vira, relações que nem sempre eram agradáveis e outras que eram apaixonantes.

Aprendera que deveria deixar as pessoas o reconhecerem antes de puxar qualquer assunto, já que nem sempre tinham o mesmo nome, ou nem mesmo sabiam de quem ele se tratava.

Hoje, ele parou diante de seu espelho e fez a mesma pergunta, mais uma vez:

– Como diabos acabei dentro desta história?

Porém, vivendo esta realidade maluca por tanto tempo, apenas levantou as sobrancelhas, sorriu conformado e partiu para acompanhar sua namoradinha encantadora, que jamais vira em nenhuma realidade, para um passeio na praia. Algo que provavelmente poderia levar o dia inteiro. Sem problemas, afinal, ela ficaria bem feliz e ele… bom, tudo bem, o dia seguinte ele nem poderia estar por ali mesmo.

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