Que pesadelo maluco é esse?

Suava, gritava um berro interno e sem som em minha cama.

Sem poder me mexer mais uma vez!

Todo o horror do momento era meu, só meu e de mais ninguém.

Eu, minhas dores, dúvidas, medos e doces frustrações… nada mais! Nada mais? Vai pensando.

–Boa noite! –Boa noite! Dizia a voz delicada e suave que saia de algum lugar qualquer daquele sonho. Somente o início da brincadeira e uma noite inteira pela frente. Muito o que viver, que tal umas 8 horas? Não, melhor que isto, uma vida inteira para quem quer apenas se livrar, acordar, tomar um copo de água e garantir a sanidade.

Tudo começa tão lúcido e dono de si. Assim, muito claro e óbvio! Até o momento em que as coisas vão tomando novos rumos, novas cores e destinos! Então, a porra-louquice rola solta e não há controle.

O medo é a quebra da clareza, da razão, do óbvio. Os monstros se soltam, se liberam e correm atrás de quem se desespera mais.

– Vai correr moleque? Corre aí, espertão!

Eu vou me fechar em meu mundo, em mim mesmo, concentração é tudo ali. Já passei por estas coisas muitas vezes nesta vida e já nem sei dizer quantas exatamente. Porém, todo dia é um novo dia por ali.

Se  a luta é interna, você vai ter que se encarar de frente. O monstro é a sua própria consciência… e isto é foda pra caralho! Tem coragem, doidão?

Cara feia não adianta muito, apenas tenha muita atenção. Mantenha a atenção, mas não corra. – Devagar! Devagar. Dizia a mesma voz que me cumprimentara no início deste sonho, talvez alguém me guiando, desejosa em me dizer que tudo vai ficar bem, que não estamos sós.

Que seja boa e gentil, esta minha guia.

Lá vem ele, o oponente diante de mim. Não houve surpresa, pelo menos isso.

O cara, como supunha, era eu mesmo, ou melhor, o eu que deu “certo”.

Ao fundo o som de uma tumbadora marcando o ritmo. Batida seca e constante. No céu, o sol explodindo seu calor intenso e no corpo uma suadeira desgraçada!

– Calor sem fim! Pensei, era o calor daquele sonho específico ou será que vinha da noite quente onde minha “vida real” dormia? Um delírio antes de continuar meus assombros naquele lugar “imaginário”.

Do escuro, das sombras, ele veio me “cumprimentar”. Deixei escapar um arrepio de medo.

Para ele não havia segredos, nada passava desapercebido, nem o meu desconforto óbvio e nem o deslize preocupado dos meus pensamentos inseguros. Aquilo não era um jogo.

Já não sou mais tão jovem, um conflito pode acarretar em graves consequências. Bom, pelo menos é o que parecia me preocupar, mesmo estando em um mundo etéreo e sem o peso cansado e desengonçado da matéria. Creio.

– Escuridão estranha! Pensava, já que se tratava de um dia de sol, céu azul e limpo de nuvens.

Você já sentiu na pele que vai chover antes mesmo que isto fosse acontecer? É isso!

O tempo virando como em um filme acelerado. Uma mudança repentina de cenário, de temperatura e horário. Frio, calor, seco, molhado, claro, escuro e nada! Vazio.

Eu, um cara comum, vida comum e sem grandes confissões ou, como os crentes adoram chamar, testemunhos reveladores. Apenas algumas boas encrencas, erros imbecis, bobagens sem valor e outros nem tanto, confiança demais onde o silêncio e o distanciamento teriam caído muito bem.

Um ser humano qualquer.

Ele? Não sei! Minha versão vencedora? Aquele cara que fez as escolhas certas, sempre. Tudo o que não virei e não fui. Alguém para cuspir na minha cara os meus fracassos mais arrasadores.

Esta era a impressão que me vinha em mente. Ele era a vitória sem arrependimentos.

Líder, controlador, inabalável e todas as escolhas acertadas que não tive e nem fiz em vida.

As bebidas não tomadas, as comidas sem exageros, o exercício incansável, contínuo e sem desistências. A superação das dores, as descobertas dos tratamentos e curas que nunca tive. Os abusos que nunca fiz, reação rápida como compensação ao erro, na desistência na hora certa, no abandono do barco no minuto ideal, na coragem onde me acovardei, na experiência adquirida quando resolvi ir para casa e dormir.

Orgias não concebidas, a palavra amiga onde um foda-se seria muito bem dito, desaforo assimilado ao invés da porrada no meio da cara, o xingamento quando o silêncio sufocaria… eliminaria.

Sucesso!

Transpirando fortuna, saúde e firmeza.

Vida onde eu decidi morrer.

Sem trocas de palavras, apenas a aproximação de um ser poderoso e realizado.

Sem excessos de bondades, mas justo e fiel aos seus sentimentos e necessidades.

Falhei?!

Temente a Deus, honestidade excessiva e fraquezas demais.

Falhei!

 

 

 

 

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