– Os selecionados aqui presentes, por favor, passem à minha esquerda.

Disse o autoritário senhor de vermelho, apoiado sobre o imponente púlpito daquele palco mal iluminado.

E assim, sob silêncio descomunal, subiram as figuras citadas, os monstros e traumas que carreguei por toda a minha vida:

Meu professor de português, um homem mal humorado da porra, que sempre aparentou odiar sua profissão e as milhares de crianças gritalhonas e ranhetas que o acompanharam por toda a sua carreira, inclusive eu mesmo – Mas a tal da estabilidade num país de bosta… Sabe como é? – Tentou se explicar, um pouco sem graça e em sua defesa, antes de passar pra esquerda do igualmente mal humorado Mestre de Cerimônias.

Em seguida foi solicitada a presença de Dona Mirtiz, mais esticada de plástica que a cara da atriz decadente do Show de TV dos sábados à noite, daquele apresentador das elites e celebridades. Mulher complicada, corrompeu a molecada desavisada de meu bairro em troca de sacanagem. Ok! Nem foi tão horrível assim, aprendi coisas incríveis com ela. Fora o medo e a necessidade de aparentar o quanto eu poderia ser macho pra caramba.

Hoje, com a mente mais madura e um pouco mais tranquilo, apenas penso que até foi útil a experiência nos encontros futuros que tive e os que realmente valeram a pena!

O Seu Tadeu, porteiro desagradável de um desses muitos apartamentos que morei na vida. Entregas que não chegaram, portas que não se abriram na chuva e no eterno tratamento atravessado. Ô Seu Tadeu, puxa vida! Fez daquele tempo de luta brava, dias ainda mais difíceis!

Lá também estava o Juca. Este moleque foi o meu inimigo particular e um dos melhores que já tive na vida! Longos anos, lá na escola pública onde estudei. Brigas sem fim e por quase nada. Uma perseguição que tive que suportar diariamente e sem sentido algum.

Eis que sobe ao palco macabro e sem aplausos e nem vaias, apenas o silêncio que dói, o Túlio, um cara mala sem alça dos tempos de judô. Este me proporcionou um grande desprazer da convivência por todas as quartas, sextas e sábados, mais de 8 anos.

Patrícia, a namoradinha que eu morria de amores, quase um alucinado, que em troca deste amor sincero, infantil e verdadeiro, ela me colocou mais galhos na cabeça do que um ipê florido! Poderia amenizar e pensar coisas legais sobre ela naquele momento tão complicado de exposição e julgamento. Porém, confesso que apenas tive forças para balbuciar um singelo: – Piranha!

Aloísio, o chefe bipolar que me trouxe uma nova realidade à sensação de odiar o trabalho e qualquer coisa relacionada ao cargo de chefia, até o momento em que fui chefe e consegui superar este sentimento! – Cornuto!

Percebi que, através destas figuras, uma das mais pesadas em minha vida, pude trabalhar meus maiores monstros e horrores.

O professor que me trouxe a pequeneza e a mediocridade do ser. A senhora tarada e os desejos sexuais sem limites e bizarros, o porteiro e o desprezo por pessoas que aparentam estar em níveis financeiros melhores, o oponente sem sentido e por pura birra, a insatisfação por conviver com alguém que é indesejável e arrogante, a menina que trabalhou a desconfiança, amor imbecil e o masoquismo doentio e, o maior de todos, a vontade incontrolável de humilhar e pisar nas pessoas.

Com eles aprendi muito, talvez, até mesmo, mais do que com os que me trouxeram momentos de proteção, amor e ajuda.

Se foi bom? Não! Foi uma merda, mesmo, inclusive revê-los naquele sonho perturbado, diante de um julgamento sem piedades e frio pra cacete!

Enfim… foi um sonho! Meus monstros eram apenas um estranho reencontro interno! Alguma coisa em meu cérebro que precisou espirrar pra fora!

Uma limpada na mente, nos traumas? Sei lá!, mas de qualquer forma, valeu!

Eles se foram e eu me senti melhor. Pode crer!

No final das contas, talvez, eles nem sequer perceberam no mal que fizeram naquela época. Pode ter sido só uma má percepção e falta de jogo de cintura de minha parte! Quem sabe? Pode ter sido, mesmo, apenas isso.

Creio que, com o tempo e a experiência, hoje não teria passado por isto e nem dado tanta força para aquelas pessoas.

Tudo teria passado de forma mais leve.

Sorri do sonhos esquisito e segui em frente… tudo bem!

Tá tudo perdoado!

Vamos todos para o céu dos Filhos da Puta! kkk

 

Anúncios