Ele já estava há muito tempo na estrada.

Em sua mente as sensações se misturavam. Cansaço, desistência e uma enorme vontade de vencer, de ser reconhecido por sua boa vontade e bem querer a humanidade.

Era apenas mais um bruxo que se arrastava pela vida, mas que estranhamente fora desconectado do mundo sensível e espiritual, como se estivesse de castigo ou afastado da confiança de quem comandava aquilo tudo. Deus? Quem sabe?.

Alguma coisa acontecera no caminho e um silêncio absurdo se fizera constantemente presente em sua vida. Nada se manifestava, nem percepções, nem pressentimentos… silêncio!

Apenas ele, suas dores e desconfortos com todas as desilusões, frustrações e medos que um homem comum poderia aguentar.

Restara apenas a difícil tarefa de caminhar para frente sem um objetivo claro e muitas perguntas sem respostas.

Um pouco sem forças, cansado, envelhecido e meio maluco, ele estava próximo de uma floresta isolada quando encontrou com um velho amigo, alguém que ele, na mocidade, ajudara a iniciar os belos caminhos da magia que, na época, já conhecia tão bem.

Mal sabia que aquele rapaz bobinho, cheio de ilusões e um lindo brilho nos olhos, agora ressurgia em sua vida para dar o apoio que já não tinha de mais ninguém.

Aceitou o convite do, agora jovem senhor, seu amigo, para adentrar sua cabana. Uma casinha que surpreendia pela simplicidade externa, com suas madeiras, folhas desconectas e empobrecidas, mas que, surpreendentemente, de uma imensidão, conforto e beleza interna sem igual.

Em um rápido bate papo, o velho bruxo, sem muitos rodeios, já despejou todas as suas dores e mágoas com o divino, confessando imensa solidão e abandono.

– Se sua procura é pelo Todo Poderoso, então, entre aqui por esta porta e fale diretamente com Ele. Revelou o anfitrião igualmente objetivo.

O velho, meio ressabiado, não quis demonstrar seu temor ao observar aquela sala extremamente escura. Ter que se aprofundar em local tão isolado e de um breu assustador como aquele, tinha que ser muito forte e confiante, coisa que ele não carregava em si nos últimos tempos. Porém, sendo ele homem experiente, não admitiu a possibilidade de demonstrar sua fraqueza. Fez cara dura, sem muitas palavras e foi de encontro à escuridão completa.

Mal colocou os pés na sala e o outro fechou a porta logo atrás dele, dando a impressão de ter sido engolido pelo desconhecido e assustador ambiente.

O cheiro era de local fechado e não se podia ver ou ouvir absolutamente nada.

Ele tentou chamar alguém, mas apenas o eco de sua própria voz foi ouvida.

Por fim, quando desistira de chamar ou tentar se encontrar com alguém, uma pequena luz, como uma espécie de globo, ascendera bem no fundo daquele lugar.

O velho, que estava paralisado, até então, entendeu aquilo como um sinal e foi de encontro à luz.

Ao chegar até ela, um pouco tímido e desconfiado, começou uma longa conversa por ali. Confessou pecados, fez perguntas, deu respostas, chorou e rezou aos pés da tímida iluminação azulada que saia daquela esfera envidraçada, como se dirigisse ao Deus que por tanto tempo procurara e que lamentavelmente perdera o contato.

Esteve dentro daquele ambiente escuro por alguns dias e quase chegou a loucura de tanto falar, gritar e espernear, mas que depois de desabafar toda a sua dor, aos poucos, foi resgatando suas lucidez e paciência.

Ele não teve as respostas que queria, mas percebeu que depois de jogar pra fora todas as dores e maluquices que estavam engasgadas dentro dele, percebeu que se sentia mais aliviado e lúcido.

Até mesmo a escuridão absoluta já não o perturbava tanto, pois começara a se acostumar e, até mesmo, se sentir confortável dentro daquele lugar.

Após descobrir a paz, percebera em si mesmo algumas respostas para a suas muitas perguntas. Entendera que certas coisas apenas eram como tinham que ser e… nada mais.

Percebera o quanto se queria bem, suas ótimas lembranças de lugares e pessoas.

Lembrava feliz do contato que sempre tivera com a natureza, o sol, o mar e o bom funcionamento de seu corpo e órgãos.

A escuridão definitivamente já não lhe parecia assim tão terrível… e sorriu.

Quando ele finalmente estava em paz e conectado com o breu total, seu amigo bruxo abriu a porta e o liberou do confinamento.

Ele, aliviado e em profunda paz, saiu para a o ambiente iluminado pelo sol da manhã e seu intenso brilho dourado que invadia toda a casa.

Tranquilo e feliz, respirou fundo.

Tinha em seu rosto um maravilhoso e renovado sorriso.

– Obrigado por me trazer Deus à minha vida novamente! Disse entusiasmado ao seu amigo.

– Fico feliz em poder ajudar! Você conseguiu sentir sua presença?

– Sim! Era uma pequena luz azulada no fundo da sala. Respondeu animado.

– Que ótimo que tenha encontrado a precária luminária! Respondeu o amigo bruxo com um sorriso humilde em seu rosto.

– Ora! Não era aquela luz a presença de Deus diante do breu completo?

Seu amigo, muito tímido abriu mais uma vez a porta e, para seu espanto, ali havia apenas uma sala pequena e um pouco mal iluminada pela conhecida, precária e arredondada luminária pendurada na parede.

O velho bruxo, bastante admirado, perguntou surpreso:

– Mas, para onde foi toda aquela escuridão?

O amigo apenas colocou a mão em seu ombro e respondeu:

– Deus era a escuridão!

 

 

Anúncios