Um dia desses eu estava em um ponto de ônibus que ficava bem em frente a uma destas lanchonetes famosas, aguardando pacientemente, quando uma velhinha toda enrugada e mal vestida chegou falando alto coisas sem muito sentido. Uma mistura de sensações ruins que envolvia, entre outras coisas, má dicção, perna manca e um sorriso desdentado.

Ela trazia consigo uma garrafa embrulhada num saco de papel pardo, cujo conteúdo suspeito fazia com que, a cada trago, surgisse em sua face uma careta danada de feia.

A vi chegar em empolgada conversação, enquanto a língua ficava bailando desorientada em sua boca, como se brincasse livre naquele sorriso vazio, talvez desesperada procurando algum apoio nas beiças caídas da velha cheia de argumentos.

Falava, com sua voz rouca, assunto sério e profundo entre um trago e outro, com a convicção dos muito entendidos da vida.

Parava algumas vezes sua longa dissertação para que seu acompanhante pudesse ter tempo de retrucar.

Enquanto a discussão comia solta, eu estava ali parado entre ela e o elemento invisível, seu provável acompanhante, sem saber se disfarçava ou dava um pitado também.

Mesmo não enxergando o acompanhante da velha, pois só era visto por ela mesma, eu podia imaginar a resposta da figura invisível através das atitudes e reclamações da velhinha, em suas reações cheias de gestos empolgados e íntimos, ou melhor, muito íntimo, pois ela o mandava para muitos lugares ruins quando ele parecia discordar da opinião dela.

Rapidamente deduzi de que se tratava de um homem e não de uma mulher a figura invisível, porque algumas vezes a senhora doidinha o chamava de broxa e coisas do tipo, o que me fazia crer que só podia se tratar de um homem, mesmo.

Creio que em certo ponto da discussão eles ficaram brigados, pois ela o xingou e fez que ia embora sozinha, virando abruptamente as costas dizendo que não falaria mais se ele não se desculpasse com ela.

Nesse momento eu até olhei para o nada, em direção ao homem invisível, com cara de quem procura uma retratação para que fizessem as pazes, já que eles aparentavam amigos de longa data e ela demonstrava necessitar de um amigo fiel e verdadeiro em suas caminhadas não tão suaves no dia-a-dia, mas na sequência desisti daquele sentimento sem sentido, apenas me achando ridículo.

De qualquer maneira, creio que “ele” captou meus pensamentos de trégua e como um bom cavalheiro imaginário que ele se demonstrava até ali, eu acho, concluí ter se desculpado, pois um pouco tempo depois ela voltou a conversar com ele novamente, com seu sorriso perdido e a prosa achada

Aí, enfim, seguiram “juntos” de novo em animada e eterna discussão sem tréguas.

 

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