Ah! A memória é algo que não se dá conta e nem cobra aplausos ao ser usada, mas só quem a tem em escassez sabe do que escrevo aqui!

Andava pelo Shopping, como qualquer mortal, quando um rapaz me abordou:

– E aí?! Beleza?!

– Olá! Tudo bem? Respondi sem exageros e nem saber de quem se tratava a pessoa que parecia me querer tão bem.

– Rapaz?! Você por aqui? Continuou o empolgado interlocutor.

– Pois é! Passeando um pouco, né?! Respostinha cretina, evasiva, sem sal e nem açúcar! Típico de quem não tem a menor ideia de quem está diante de si.

– Caramba! Que ótimo te ver! Tem visto o pessoal?

Pessoal? Estas perguntas sem rumo e sem referências me deixam doido! Um único nome e a conversa seria bem mais fácil. Porém, ao contrário de algumas pessoas, não tenho paciência para este jogo, não gosto de andar no escuro.

– Posso ser sincero? Não tenho a menor ideia do que estamos falando. Minha memória é fraca e sofre estas perdas. Desculpe, mas não me lembro de você.

Rolou um silêncio um pouco constrangedor. Então, meu “amigão” começou a rir e disse:

– Como assim?! Você não se lembra de mim?

Sério, fiquei muito contrariado por não conhecer ou ter esquecido o gorducho animado e de braços abertos logo ali. Quase senti vontade de rir copiosamente e confirmar aquela amizade maravilhosa, mas não achei correto. Mesmo porque, em três tempos e todos saberiam de que estava blefando.

Creio que muitos agiriam desta maneira, ou nem tentariam freá-lo, apenas concordariam e sairiam de fininho da situação embaraçosa. Pois é, isto raramente acontece comigo. Não curto estas situações e muito menos deixar as coisas mal explicadas. Por isso, não correspondi o abraço saudoso, apenas confirmei, a contragosto, não sabê-lo.

O gorducho diminuiu a risada amiga e, claramente envergonhado pela aparente gafe, começou a me bombardear com lembranças, na tentativa desesperada de reconstruirmos juntos os “velhos tempos”.

– Que estranho! Não posso estar enganado, somos amigos de infância, ou melhor, de adolescência! Frequentávamos os bailes daquela escola, como chamava mesmo? Aquela escola toda amarela, ficava naquele bairro perto de um parque. Sabe qual é?

– Não! Acho que você está me confundindo, hein?! Disse com um sorrizinho cretino nos lábios.

– A gente andava com uma galera. O gordo, como era o nome dele? Enfim, o gordo ruivo, o japonês magrelo e aquele negro forte? Estávamos sempre juntos nas baladas. Lembra?

– Hum?! Não lembro.

O gordo tinha um carro vermelho, ou seria azul? Daquela marca antiga do tipo colecionador.

– Ainda não me lembro!

– A gente ficava naquela praça, lá perto daquela padaria velha, o dono era um bigodudo e tinha uma filha que todo mundo era apaixonado. Acho até que você ficou com ela e eu com a amiga dela, uma meio gordinha, que tinha um apelido engraçado.

Puxa! Não sei dessa história, acho que você se enganou mesmo!

– Não! Eu tenho certeza! Você sempre andava de skate junto com a gente. Você ia com seus amigos e a gente brincava naquela rua que tinha uma descida grande, perto daquele posto e daquele banco de cor vermelha, como era o nome mesmo?

– Bom, de qualquer forma, não me lembro. Tudo de bom para você.

– Ok! Talvez eu tenha me enganado! Foi mal! Tudo de bom!

Sai dali pensando o quanto aquele encontro foi bem idiota!

– Porra! Que cara sem referências! Eu esqueço das coisas, é verdade, mas e esse maluco sem memória dos cacete?! Pensava comigo mesmo, quase irritado.

Uns quatro passps para frente e pensei que aquele bochechudo até que não me era estranho. O sorriso de dentes encavalados, aquela memória péssima, se não fosse careca e aquela barba enorme eu juraria que era um cara aí, que conheci há muitos anos atrás! Como era o nome dele mesmo? Charles? Não, não! Roni? Também não! Ah! Carlos!!!

– Pô, Carlos Farofa! Lógico! Caraca, mano! Como o moleque envelheceu e engordou!

Procurei em volta e lá longe vi o gorducho de camisa xadrez indo embora.

– Farofaaa?! Gritei.

–Oi! Gritou o gorducho lá de longe, com um belo sorriso encavalado no rosto e aquele tchauzinho idiota de sempre.

Gente boa demais!

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