Vi seus olhos desviarem de mim! Talvez envergonhados, talvez por não poderem me ajudar!

Um olhar frio e distante, quase uma outra pessoa!

Sem brilho, sem vida. Parecia ter morrido antes mesmo do que eu!

Não me colocaram um capuz e nem uma venda, exatamente como eu havia pedido. Queria ver tudo o que estava por ali pela última vez, me despedir daquele lugar!

Lembrei dos dias de muita Luz e alegrias, mas não chorei, não por coragem, mas porque já não havia lágrima!

Lembrei de momentos de satisfação e amor, do quanto fui querido, antes de tantas bobagens e aquelas crenças sem sentido!

Visualizei ao longe as florestas por onde costumava andar, a procura de ervas medicinais, de paz, dos meus deuses e por ela.

Foi lá onde eu a conheci! Éramos tão cheios de amor e de paixão!

Dois jovens cheios de coragem, saúde e alegria. Aqueles encontros nos faziam ainda mais fortes, mesmo “proibidos”.

Lá estava ela, me observando mais uma vez, assistindo o meu fim, ou seria o nosso e para sempre?

Quase podia sentir seu perfume de onde estava. Muito linda!

Me chamam de Bruxo. Sim! Se for pelo motivo de assumir a responsabilidade ao ser alguém que se esforça em curar as pessoas, conforme meu Mestre havia me treinado e confiado, então, tenho que que concordar. Pena que queiram associar minha linda habilidade a algo pejorativo, o que não concordo e não creio, mesmo!

Daqui, posso ver também os rostos de muitas outas pessoas que curei e ajudei com carinho. Pois é, quase a maioria!

Hoje, algumas destas pessoas me jogaram pedras, me cuspiram, despejaram suas decepções sobre mim, me julgaram por algo que eles imaginavam ser minha única e exclusiva culpa.

Parece que seus medos, de algum deus imaginário, os têm cobrado uma santidade e pureza, que nunca tiveram e eu, um Bruxo, sou uma ótima oferenda! Triste isto tudo!

Já senti raiva, já chorei e me desesperei. O fim sempre é difícil.

Dizem que sofri desta mesma maneira em vidas passadas também. Um amigo, outro Bruxo foragido, me disse que os padrões se repetem. Será que era sobre isto que se referia? Estaria condenado a ser sempre assim, um foragido indesejável? Ou será que o julgamento errôneo das pessoas por ali havia me condenado a ser sempre o mesmo, fosse qual fosse meu esforço em tentar ser melhor?

Ela se virou antes que meu chão sumisse, antes que o ar me faltasse.

As pessoas estavam impacientes, eufóricas, uns por me quererem bem demais, outras por me odiarem.

Sentia medo, é verdade, mas também sentia alivio. Chega de tanta agonia e de tanta farsa.

Não era mais responsável por ninguém.

Em minha mente apenas uma sensação, uma Luz que se apagava ali e acendia em outro lugar.

Foi o que me pareceu, apenas uma passagem!

Estranhamente não sinto bronca de ninguém e nem quero vingança.

Apenas, acabou!

 

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