Seus gestos lentos, sua forma tranquila e agradável estarão para sempre em minha mente. Pensei, enquanto a observava fazendo o café da manhã!

Com aquele seu jeito suave, querida e gentil, conversava sobre coisas banais, algo sobre a horta que deveria cuidar e a jabuticabeira estar carregada.
Eu sabia se tratar de uma segunda-feira que, ao contrário dos dias de hoje, me parecia um dia tão feliz.

Sol das 8h que surgia por de trás das árvores do fundo do nosso quintal e tudo o que eu desejava naquele momento era estar ali com ela, esperando o café da manhã ser preparado.
Ah! Como eu queria bem aquela mulher e estar naquele momento com ela era uma honra, um prazer e uma alegria incompreensível para quem, na época, já estava acostumado a vivê-los!
Era mais um sonho maluco, sabia daquilo, tinha noção de que ela havia falecido há muitos anos atrás, nem sequer me lembrava de seus traços, suas palavras e seu bem-querer. Um carinho autêntico que revivia ali, naquele momento, e que me encantava demais.

Alguém do lado invisível, que só podia me amar, me permitiu viver mais um dia ao lado dela, como uma criança inocente e cheia de amor no coração.

Naquele instante, não tinha vontade de passear, brincar, ou fazer outra coisa, apenas ficar ali, sentadinho e admirando aquela figura querida.

Tinha consciência do que estava vivenciando, com a visão deste jovem senhor que sou, apesar de estar dentro do corpo daquela criança de outrora e da pouca idade, exatamente como um já havia acontecido no passado. Encarei como uma oportunidade, mais uma chance milagrosa de aproveitar um momento lindo e único.

Lá estava ela, minha querida mamãe, me preparando o café da manhã! Que visão abençoada de um dia especial!

Todos os meus sentidos estavam ampliados, como há muito não sentia, provavelmente graças à pouca idade daquele corpo que ocupava. Audição, visão, paladar, tato e olfato. Sendo assim, tudo parecia mais claro, com maior foco e cores vivas, o que deixava tudo muito mais lindo.

Oportunidade maravilhosa, com um paladar perfeito, para saborear um dos cafés mais deliciosos que já tomara em minha vida, que só minha mãe sabia fazer. Em um dia colorido e com a audição perfeita para ouvi-la cantar feliz.

Apenas ela e eu na cozinha! Levantei da minha cadeira, quando já tinha total consciência do que se passava à minha volta, pois foi a partir deste momento que percebi ter voltado no tempo e, só então, começar a perceber que estava novamente na casa dos meus pais, naquela mesma de muitos tempos atrás.

Achei a casa aconchegante, com o sol da manhã invadindo toda a cozinha e dando uma vida alaranjada aos objetos. Sol ameno e uma brisa leve que entrava pela porta de madeira envelhecida, permitindo que o ambiente ficasse agradável e nada abafado, apesar da incidência direta do sol na enorme janela de vidro.

Já não lembrava como aquela casa era bem iluminada, um milagre! O milagre das antigas manhãs e na companhia de uma mãe querida.

Quis falar algo, mas rapidamente percebi que era mesmo muito novo, pois meu vocabulário, de menino muito bobinho e inocente, ainda era bastante curto, por isso, não conseguia me expressar direito, apenas disse:

– Mamãe, te amo!

O que a fez rir das minhas palavras e responder que também me amava muito, com direito a um beijinho carinhoso!
Fiquei feliz, saudoso e intrigado com aquela possibilidade e lembrei imediatamente de meus filhos!
Será que eles têm por mim o mesmo carinho? Será que têm uma lembrança de um momento especial comigo? Um dia especial junto à mim, em que a Luz Divina se fez presente?

As crianças são e estão sendo bombardeadas por milhares de informações todos os dias! Teriam, no meio deste monte outras coisas interessantes para elas e que prendem total a atenção, uns dias considerados mágicos junto à mim?

Começam cedo na escola, na internet, na TV a cabo, nos programas do canal aberto, no videogame, na música comercial e todas estas novidades diárias que rolam por aí, ao alcance de todos e à disposição de quem possa interessar.

Não sei qual é o tempo ideal, nem o melhor ou o mais correto! Seriam aqueles que vivi, onde tinha mais tempo para mim mesmo, de digerir todos os acontecimentos que me rodeava, onde eu conseguia perceber melhor as pessoas, suas informações, além de ser preservado de muitos assuntos inapropriados e que conservavam minha privacidade infantil, ou os dias de hoje que, pelas mídias sociais, por meio de mensagens de chats e celulares, se pode chamar as pessoas na hora que desejar, retirando delas uma quantidade absurda de assuntos, analisar perfis, informações pessoais e aleatórias através da internet, saber do necessário e até mesmo extrapolar e ir além disso? Ver e rever a vida privada de seus amigos, pais de amigos e todos os parentes, gostos, vontades, desejo de consumo, lugares preferidos e toda a sorte da Intimidade alheia e a própria, exposta 24h?

Hoje me vejo sem paciência para certas coisas, assim como meus filhos! Me vejo querendo acelerar um filme e pular os momentos que não me interessam, ou ouvindo uma música pela metade, pois tenho pressa! Pressa do que? Não sei, mas isto é uma realidade!
Pressa em me relacionar, em ver, ouvir, falar, fazer, etc…

Creio que me falta um café da manhã, com calma, sob a luz alaranjada, romântica, que toma toda a cozinha e que eu possa dizer, ou ouvir, com calma e sem querer pular para a próxima fase:
– Te amo!

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