Passou a andar na velha cidade pelos cantos e sombras, tal qual uma assombração medonha, por proteção e receio de despertar ódios e medos aos que podiam reconhecê-la.

Toda de preto, capuz grande e largo que escondia todo o seu rosto.

Ainda hoje é assim, costume adquirido desde há muito tempo, em um passado distante e sombrio, onde poucos podiam vê-la, geralmente videntes e sensitivos, pessoas igualmente temidas.

Naquela época terrível eles a viam correr pelas sombras da cidade tentando se esconder da multidão furiosa e amedrontada. Pensavam ser terrível supor terem algum pacto com alguém perseguido por dominar poderes malignos, em uma época onde muitos acabavam suas vidas na fogueira em praça pública.

Medo dos poderosos homens da lei, que com suas atitudes violentas abordavam e intimavam os fracos e humildes.

Ela estava pagando por cometer um sacrilégio às vistas dos exageradamente beatos, era excelente curandeira, tratou das dores e sofrimentos mais escabrosos da comunidade.

Sempre teve este dom, a Cura.

Esta ligação sobrenatural já a acompanhava desde tenra idade, não se podia distinguir a cura para qualquer enfermidade do seu nome. Todos daquela região, e até os de lugares longínquos a procuravam na dor e sofrimento.

Dona Mercedes! A Santa Mulher com o admirável dom da cura! Amada, querida e protegida como um patrimônio maravilhoso da cidade.

Sim, tudo ia muito bem, calmo e pacífico, até que em dado momento, faltando poucos dias para a chegada do inverno, tudo mudou.

Com a brisa fria vinda das montanhas, tal qual cavaleiros guardiões do mal e do sofrimento humano, eles chegaram em suas carruagens imponentes, banhadas a ouro e cheias de brasões reais. Desembarcaram na cidade de Dona Mercedes cheios de arrogância, certezas absolutas e sob a “proteção de Deus”. Homens orgulhosos de si,  declaravam-se enviados do Poderoso e, por isso, em nome do Altíssimo impunham as leis sagradas que carregavam com convicção e fúria mortal, caso fosse necessário. Quase sempre era.

Palavras de Deus sob força, ódio e a violência digna do outro.

Engraçado que, as vezes, o mundo gira em nome de leis maiores do que a física e do Amor! No caso destas pessoas em questão, a lei da força sempre apontando Deus, tal qual a mira certeira e impiedosa da arma mais fria e destrutiva. Ai daquele que duvidasse disto!

Naquele momento, Dona Mercedes já não era a mais antiga e querida da cidade. As pessoas a temiam, pois associar-se ao nome dela podia trazer confusão e momentos de terror.

Na carruagem, representantes da Santa Igreja, procuravam por aqueles que ousavam  afirmar poderes exclusivos de Deus para pregar curas milagrosas, bem-estar e estranhos alívios para as dores da humanidade. Quem, senão aquele que carregava um óbvio pacto com o Demônio estaria promovendo esta desordem, já que se via claramente mãos pagãs naquela ladainha?

Ninguém mais era por ela, foragida na floresta, escondida dos demais, de sua cidade, suas coisas e sua casa. Apenas o invisível, a natureza e os seres que lá viviam e a protegiam.

Se ela era mesmo uma Bruxa? Claro, com certeza! Mas, cuidado! Não se renda também as  certezas absolutas, não seja tolo em julgá-la. Dom igual ao de Dona Mercedes deve ser respeitado e preservado.

Só não se engane que todas, assim como ela, são dóceis, gentis e queridas. Não mais! Cansaram dos homens e suas maldades.

Você não pode entender este poder até se dar de cara, ou precisar desesperadamente de alguém igual a esta senhora respeitável.

Não, ninguém viu Dona Mercedes escapar das terríveis mãos dos que vieram lhe caçar.

Dizem que usou sua magia e encantamentos para sumir no ar, se esconder nas sombras da cidade e fugir para a floresta onde vive agora.

Ouvi falar que ela ainda pode ser vista correndo por estas sombras, nas madrugadas e noites escuras, muitas vezes para salvar e amenizar os que ainda têm coragem de chamar seu nome, nos dias de dores insuportáveis.

 

 

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