Escuto o som dos instrumentos que rufam insistentemente. Sinceramente? Dão o tom do momento, mas não combinam em nada com esta minha dor de cabeça dos diabos!

Lembro bem o dia da bagunça, uma festa maluca e sem limites, só não me lembro como aquela noite terminou.

O clima era amistoso e confuso, bom para beber e cair na farra. Foi exatamente o que pensei antes de me afundar no álcool, mulheres, música e dança. Noite das boas e que prometia ir além!

Em minha mente há erros de continuação sobre aquela festa promovida pelo tinhoso. Eu sei, isto não tira  em nada a minha culpa no cartório, principalmente porque me lembro bem de ter atirado primeiro. Foi certeiro. Pow!! Bem no meio da testa do infeliz! Bom, nem se quisesse errar, foi quase a queima roupa!

Lembro mais ou menos do tiro do meu oponente. Deve ter acertado o teto, porque resvalou no lustre, que balançou alucinado como se estivéssemos em um barco em alto mar.

Das lembranças claras, creio que foram apenas estas duas. De resto, lembro de estar cantando, bebendo, flertando e… caindo! Ploft! E tudo apagou. Fim!

Dizem que foi uma bagunça e tanto! A melhor orgia dos últimos tempos. E nem foi este “incidente” o motivo do fim da festa. Uma bagunça adorável.

O cara que matei era alguém importante, um filho de não sei quem do alto escalão da guarda da Rainha. Pois é, dancei!

Me chamaram de homem frio e sem remorsos! Teria todo sentido se me lembrasse de alguma coisa. Minhas lembranças não favorecem um arrependimento e nem consigo me emocionar.

Esta venda que me colocaram é sufocante. Não deveriam colocá-la no momento final?

– Ô gente amadora – pensei. Mas, melhor assim, não sei se consigo encarar esta gente eufórica e barulhenta de frente.

Creio que ou as pessoas daqui amavam este cara que matei ou só adoram a farra. Acredito mais na segunda hipótese. Pelo excesso de ódio sobre mim, pode-se perceber isto. Cusparadas, pedradas e os cacete. Não se fazem enforcamentos como no passado, tudo muito desorganizado e sem respeito.

Sabe de uma coisa?! Nunca pensei que aconteceria comigo e acho que estou com um pouco de medo. Se bem que, quem não teria em minha condição?! Fácil é arruaçar e fazer zombaria.

Já vi eventos como este, só que na época eu era apenas mais um na plateia. Ok! Também me excedia, as vezes.

O primeiro enforcamento que vira de perto, foi com meu pai e ainda lembro o que me disse:

– Se o executado estiver sem venda, olhe bem dentro dos olhos do enforcado e com vontade. Não tenha medo e nem dó, senão ele demora a morrer.

Será que vai demorar? Será que Deus é por mim também?! Será que se eu chorar e pedir clemência terei uma segunda chance, ou um fim não muito agonizante?

Bah! Resolvi filosofar em uma hora destas?!

O público está agitadíssimo, se não fosse comigo, acho que estaria também. Que merda!

Na pele. isto não tem muita graça! E eu sempre fui animado para estes acontecimentos. O famoso: Pimenta no fiofó dos outros é refresco!

Escutei o carrasco se aproximando, taí uma coisa que sempre quis saber, o que ele fala para o executado no ato da coisa toda. Nunca revelara pra ninguém, um segredo exclusivo dele e de quem se foi. Preferia nem sabem, trocaria com qualquer um da plateia animada.

Inclinou-se em direção à minha orelha e disse em cochicho: – Espero que tenha um final rápido.

Opa! Pois é, me surpreendeu ao confessar seu desejo em voz baixa. Firme e claramente, pareceu um sentimento real.

A cena de entrada sempre fora a parte mais animada, por isso, graças ao silêncio repentino, quis crer que estávamos muito perto do fim.

Enforcamento é uma cerimônia tal qual enterro, casamento e etc. Tem começo, meio e fim. Hoje vou só até a metade, espero que tenham carinho com meus restos mortais.

O Carrasco retirou minha venda, exatamente como eu pedira, a visão enfraqueceu, um olho fechado e o outro na plateia, que foi mais uma vez ao delírio.

Se pelo menos lembrasse o porquê de ter atirado naquele infeliz! Mas, o provável é que estávamos apenas bêbados, nada mais.

Mal escutei a condenação, lida pelo velho ao meu lado, é muita informação pra um único momento.

Em posição, dei um último suspiro antes de ouvir o ruído forte  do chão de madeira se abrir abaixo de mim.

O mundo caiu e ao invés de desespero e dor insuportável, apenas observava o menino na primeira fileira de mãos dadas com seu pai. Me olhava fixo, sem piscar e com cara de poucos amigos.

O pai dele o ensinou direitinho.

Sem dó!

 

 

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